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domingo, 15 de setembro de 2013

Livro: A Prostituta Sagrada

A Prostituta Sagrada
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Nancy Corbett
            A prostituta sagrada era uma mulher humana que encarnava a deusa do amor. Representava a sexualidade da mulher sendo reverenciada; havia vínculo entre a espiritualidade e a sexualidade pois, surgiu dentro do sistema religioso matriarcal. Portanto, a Prostituta Sagrada é paixão, espiritualidade e prazer.            Caso o princípio patriarcal não seja contrabalançado pelo princípio feminino, tem-se uma vida, em certa medida, estéril.
            As deusas do amor e da paixão, algumas, também, da fertilidade são: Inana (Sumária), Istar (Babilônia), Isis ou Hátor e Bastet (Egito), Astarte (Fenícia), Afrodite (Grécia) e Vênus (Roma). A deusa do amor e a prostituta sagrada são dimensões do princípio de Eros. A deusa e a prostituta sagrada são arquétipos e, por isso, não podem ser integradas totalmente; apenas aspectos parciais chegam à consciência.

            A prostituta profana, ao contrário da sagrada, tinha uma vida difícil  e era representante do lado negativo da sexualidade feminina.
            A prostituição sagrada era um ritual do matrimônio sagrado, onde feminino e masculino se uniam sem qualquer preponderância, era a união da espiritualidade e da sexualidade. Já a prostituição profana declarava a separação absoluta da sexualidade e da espiritualidade.
            Com a preponderância do dinamismo patriarcal sobre o matriarcal foi retirado o aspecto sagrado do feminino, ele foi rechaçado, associado ao demoníaco, ao pecado. Assim, a deusa deixou de ser venerada. A Igreja Católica separou o corpo da espiritualidade e tudo o que dizia respeito ao corpóreo estava passível de ser associado ao pecado e afastamento da religiosidade/espiritualidade.
            A rejeição do que representava a prostituta sagrada traz insatisfação e neuroses tanto para as mulheres que dissociaram a sacralidade de seu corpo da alma, como para os homens que encontrarão intensas dificuldades no relacionamento com a sua anima como com as mulheres em geral.

            A mulher que se permite reconhecer e conhecer a deusa interior (parte feminina do Self) valoriza-se, cultua-se, embeleza-se, mas não para satisfazer seu próprio ego ou de outros, mas sim por valorizar e reverenciar o feminino em si. Isso a leva a não supervalorizar a aprovação ou desaprovação dos outros; sabe o que quer, o que é bom para si mesma.
            O feminino é, comumente,  representado pela Lua. A mulher e a lua possuem fases, de um crescente de energia até seu total resplendor declinando até seu recolhimento e obscuridade.
            Praticamente, todas as deusas que representam o amor e a paixão possuíam um filho-amante, que devia ser sacrificado. Com isso, toda mulher deve sacrificar, abandonar esse aspecto do maternal, seja de viver única e exclusivamente para satisfazer os desejos de seu filho como de viver as realizações dele como se fossem suas. Mas um parceiro, um marido pode representar esse filho-amante. Se a mulher não faz tal sacrifício de renunciar o desejo de controle e poder do ego, nenhum dos dois poderá crescer, há um vínculo simbiótico de mútua dependência. Se o homem não se libertar da mãe ou mulher possessiva, será incapaz de manter um relacionamento maduro.

            Esta renúncia de algo tão precioso, carregada de emoções pranteadas é uma das tarefas mais árduas e de mais difícil integração, das faces da deusa. Para o homem, também, é algo muito doloroso pois terá que abandonar uma posição confortável infantil para tornar-se realmente um homem. Ele deve libertar-se das garras da mãe e da anima para poder, finalmente, encarar o feminino e a deusa sem medo; para render-se ao seu poder transformativo.
            É através da imagem arquetípica da prostituta sagrada que a mulher consegue compreender os atributos da deusa do amor. E cabe aqui lembrar que o arquétipo da Prostituta Sagrada, também, é uma parte da Anima do homem.
            Um dos exemplos mitológicos sobre uma mulher mortal encarnando os atributos da deusa é Ariadne (Teseu e o Minotauro) que é um mito correlato a libertação da mulher de sua identificação com o papel de filha do pai.
            “A prostituta sagrada é a mulher humana que através de ritual formal ou de desenvolvimento psicológico, conseguiu conscientemente conhecer o lado espiritual do seu erotismo, e vive-o na prática, de acordo com suas circunstâncias individuais.” (p.95).

O ARQUÉTIPO DO ESTRANHO
            Nos cultos a deusa do amor, um emissário dos deuses ou mesmo um deus disfarçado, vinha para se relacionar com a prostituta sagrada, consagrando, assim, o ritual. Analogamente, nos processos psicológicos, o “estranho” revela um aspecto inconsciente que se faz consciente e promove a mudança. Denomina-se de estranho, também, por causar uma sensação de algo estranho ou diferente ocorrendo. É o princípio masculino, um aspecto do Animus.
            As mulheres que são frias emocionalmente, ou que apresentam ressentimentos profundos com relação ao homem ou que são promiscuas, são aquelas que vivenciam o Animus negativo (aspectos do Animus que denotam que ele não foi integrado, aparecendo como uma voz crítica) que as impede de vivenciar o amor. O Animus positivo, aquele que foi integrado, que penetrou o feminino, proporciona à mulher aspectos positivos em seu cotidiano. Dá-lhe segurança, confiança, abolindo a submissão, os sentimentos de inferioridade da sociedade patriarcal. Cabe lembrar que integrar o Animus não significa identificar-se com o mesmo, ou seja, a mulher não precisa atuar no mundo como um homem, nem possuir suas características. Portanto, não se trata de masculinização.
O MATRIMÔNIO SAGRADO
            O ritual do matrimônio sagrado é a representação simbólica da união dos opostos, do masculino e do feminino diferenciados. Ele ocorre tanto na vida psíquica aparecendo em sonhos, como no mundo exterior através da união de duas pessoas.

O  ARQUÉTIPO DA PROSTITUTA SAGRADA E O HOMEM
            Como toda mulher carrega em si sua porção masculina – o Animus, o homem carrega sua porção feminina – a Anima, que é um elemento de propulsão e transformação na psique masculina. Ela, como o Animus, apresenta inúmeras facetas: a donzela, a mãe, a bruxa, a sereia, a prostituta, etc. Se o homem não integrar sua Anima acabará por se relacionar com a mulher e com o feminino de maneira equivocada e que lhe trará muitas dificuldades no relacionamento, pois impede que ele se relacione com a mulher de verdade.
            O adultério e o divórcio são conseqüências da maneira como o homem lida com sua Anima não integrada. Para fugir da Anima-Mãe ele assume a Anima-Esposa. Mas após a chegada dos filhos, a esposa se transformando em mãe e se identificando mais com esse atributo passa a ser vista pelo homem como Anima-Mãe. E ele vai buscar a Anima-Mulher-Fêmea novamente. Com essas dificuldades para lidar com o feminino, o homem acaba por se afastar do mundo dos sentimentos, que pertence aos domínios do feminino.

ESTÁGIOS DA ANIMA
            Jung descreveu quatro estágios do desenvolvimento da Anima que são análogos aos da Prostituta Sagrada:
-         1º estágio: EVA: no qual a anima manifesta sua energia biológica, instintual e sexual. Ela deseja o homem mas um homem.
-         2º estágio: HELENA: no qual a anima utiliza-se da sedução, com beleza e graça, ela não é mais apenas um objeto sexual.
-         3º estágio: VIRGEM MARIA: implica na transcendência do físico e do sexual, onde há uma ligação com divino.
-         4º estágio: SOFIA: a sabedoria divina.
Tanto o homem ao vivenciar estes estágios da Anima, como a mulher ao vivenciar tais estágios do Feminino, vão experimentando aspectos diferentes do princípio feminino. Com isso, o homem poderá transformar sua vida dando-lhe um sentido, criatividade e a oportunidade de relacionamentos positivos com as mulheres. E, a mulher, resgatando seus aspectos do feminino, transformará seu Animus em aliado ao seu desenvolvimento.

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Referência Bibliográfica:
Qualss-Corbett, Nancy
A Prostituta Sagrada
Editora Paulus.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Existe amor nas revoluções?

130720-Amor
Mobilizações globais sugerem: estamos diante de uma possível mudança de paradigmas. Que isso tem a ver com nossas relações pessoais? 
Por Katia Marko, editora da coluna Outro Viver
O corpo humano é sábio. Ele dá sinais a todo momento do seu esgotamento. “É hora de parar e reavaliar”, nos diz aquela dor constante. Nossas mentes inteligentes e astutas vão levando. Até que acende o sinal vermelho e uma simples gripe nos derruba. Mas a nossa resistência é grande e já criamos muitos anticorpos para ir sobrevivendo. Também temos as crenças que nos aliviam e resignam. Superstições vão nos distraindo, enquanto o milagre não chega. Afinal, fomos criados com hábitos que passam de pai pra filho ou de mãe pra filha que grudam feito cola de sapateiro. “Sempre foi assim, não vai mudar”.
Mas, eis que um dia, algo fora do comum acontece e coloca em xeque tudo o que sempre acreditei. Pode ser um câncer, uma poderosa depressão, uma morte inesperada de uma pessoa muito querida. O mundo desaba e tudo que fiz até então é questionado. “Poxa, mas sempre fui tão boa, trabalhadora, cumpridora dos meus deveres, por que isso aconteceu comigo. O que fiz a Deus”. E o impensável, inaceitável pensamento acaba por cravar seus dentes: será que deus existe…
Me parece que o mesmo acontece com o planeta e as suas civilizações, através dos tempos. E estou pensando em milhares e milhares de anos, antes de Cristo e ainda mais do cristianismo. “A história raramente se repete, seja como tragédia, seja como farsa, mas faz lembrar”. Tendo a concordar com Tariq Ali, jornalista e escritor paquistanês, militante de esquerda presente nos importantes levantes da década de 1960. O livro “O Poder das Barricadas” é uma aula de rebeldia. E muito do que li me remete ao que estamos vivendo no Brasil e no mundo. Parece que mais uma vez chegamos ao esgotamento de um modelo, apesar dos poderes econômicos, políticos, religiosos e midiáticos usarem de todas suas armas para manter tudo como está.
Os movimentos que explodiram em maio de 68 queriam “um mundo novo, sem guerra, opressão ou exploração de classes, baseado na camaradagem e no internacionalismo. A riqueza do Primeiro Mundo, se utilizada de maneira adequada, poderia ajudar a transformar o Terceiro Mundo. Além disso, se um socialismo significativo tivesse êxito no Ocidente, não seriam só a City londrina e o Estado que tremeriam, mas os burocratas de Moscou, igualmente temerosos das mudanças que vinham debaixo”, descreve Tariq Ali. Segundo ele, a esperança vinha da primavera de Praga, que foi sufocada antes que florescesse.
Os lemas da época retornam à cena, através de jovens que não chegaram à zona de conforto ou de não tão jovens que escolheram não estacionar junto à placa “Pare”. Sejamos realistas, peçamos o impossível. Barricadas do desejo. É proibido, proibir. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor. Quanto mais faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Faça amor, não faça guerra. Estas foram algumas lutas que geraram uma década de utopias.
Apesar de não termos alcançado o socialismo real, e tempos sombrios de ditaduras e neoliberalismo terem vencido, muitos padrões foram derrubados. E a semente, por mais árido que seja o solo, sempre dá um jeito de renascer.
Mas o mundo ao avesso, tão bem explicado por Eduardo Galeano no livro “De pernas pro Ar”, nos ensina a padecer a realidade ao invés de transformá-la, a esquecer o passado ao invés de escutá-lo e a aceitar o futuro ao invés de imaginá-lo. “Na escola do mundo ao avesso, a escola do crime, são obrigatórias as aulas de impotência, amnésia e resignação. Mas está visto que não há desgraça sem graça, nem cara que não tenha sua coroa, nem desalento que não busque seu alento. Nem tampouco há escola que não encontre sua contra-escola”.
Mesmo que continue sendo martelado diariamente em nossas mentes, das formas mais veladas, que a mulher é um ser inferior e idiotizado que tem como único objetivo na vida conquistar um bom casamento, que os negros devem continuar escravos por questões de herança genética, que as crianças não têm direito de ser crianças e devem ficar atadas à frente da TV para aceitar desde cedo, como destino, a vida prisioneira. Mesmo que os pobres o sejam não por culpa da história, mas por obra da biologia, ou seja, levam no sangue o seu destino, e, pior, os cromossomos da inferioridade costumam misturar-se com as perversas sementes do crime. Mesmo que os índios sejam um povo em extinção há 500 anos. Mesmo que a publicidade mande consumir e a economia o proíba. Mesmo que a riqueza seja obra do divino e um direito dos escolhidos. Mesmo que o mundo seja perigoso e sejamos constantemente vigiados por olhos gigantes, sejam de deus ou do grande irmão. Mesmo com todos os riscos, alguns insistem em encarar o medo e romper as correntes.
Não é fácil ir contra um sistema que se utiliza tão bem dos meios de comunicação para se justificar. Dizer que dois mais dois não são quatro, quando tudo prova que são. Mas é necessário. Faz parte do processo de crescimento. Assim como, numa comparação com o micro, muitas vezes, não são sem dor as decisões que tomamos e contrariam as pessoas que amamos. Não fazer o que esperam de nós pode ser só uma reação, mas se tivermos consciência do que somos de verdade, pode tornar-se uma resposta.
Michael Lowy lembra em “O Pensamento de Che Guevara” que o sonho de todos os revolucionários, de Rousseau a Lenin, foi modificar não só o mundo, mas também o homem. “Para eles, a revolução não era apenas uma transformação das estruturas sociais, das instituições, do regime, mas igualmente uma transformação profunda, radical e ‘assombrosa’ dos homens, da sua consciência, de seus costumes, valores e hábitos, das suas relações sociais. Uma revolução não é autêntica se não for capaz de criar esse homem novo.”
As mudanças nas questões da vida privada, do comportamento, da sexualidade e do amor também eram o desafio no trabalho de Alexandra Kolantai, única mulher da direção do partido bolchevique e a primeira mulher do mundo, em 1917, a ocupar o posto de ministro de Estado, como Comissária de Saúde do governo Soviético. Ela insistia que ao contrário da visão predominante, de que só se poderia dedicar a estas questões com a transformação econômica e política assegurada, a gestação dessa nova moral deveria ser, necessariamente, um componente do processo de luta.
O mais interessante ou doloroso ao rever estes escritos é verificar o quanto poderíamos ter avançado enquanto civilização, não fossem as “forças ocultas”. No ensaio “A nova mulher”, de 1918, Kolantai assim defendia a mulher moderna: a autodisciplina, em vez de um sentimentalismo exagerado, a apreciação da liberdade e da independência, em vez da submissão e de falta de personalidade, a afirmação de sua individualidade e não os estúpidos esforços para se identificar com o homem amado, a afirmação do direito a gozar dos prazeres terrenos e não a máscara hipócrita da pureza, e, finalmente, o relegar das aventuras do amor a um lugar secundário na vida. “Diante de nós temos, não uma fêmea, nem uma sombra do homem, mas, sim, uma mulher-individualidade”.
Ao mesmo tempo que Kolantai afirmava que o objetivo último da mulher não deveria ser o casamento, mas a causa, também defendia que a época caracterizava-se pela ausência da arte de amar. “Os homens desconhecem em absoluto a arte de saber conservar relações amorosas, claras, luminosas, leves. Não sabem todo o valor que encerra a amizade amorosa. O amor para os homens da nossa época é uma tragédia que destroça a alma. É preciso tirar a humanidade desse atoleiro: ensinar aos homens a viver horas cheias de beleza, claras, sem grandes cuidados. Amar sempre, amar profundamente, em todos os momentos da nossa vida, amar sempre e cada vez com maior abnegação, é o destino ardente de todo grande coração”.
O amor em si é uma grande força criadora. Acredito que com criatividade, coragem, ousadia e desprendimento vamos cavando os buracos neste gigante chamado “sistema”. Os movimentos revolucionários aceleram a processo. Jovens estão batendo em nossa cara e nos obrigando a puxarmos os fios da memória. É nosso dever não ceder ao canto da sereia. As ocupações de espaços públicos, universidades resgatam o conceito de comunas, vida em comum, coletividade. Visões de mundo sufocadas pela ideologia neoliberal. Na minha modesta opinião, estamos tendo mais uma vez a chance de resgatar o ser humano.
Mas, como dizia o polêmico mestre indiano Osho, o estranho incomoda e irrita a humanidade cega. “A humanidade não é capaz de aceitar o estranho. Ela não é vasta o bastante para absorver o novo, o desconhecido, aquilo que ainda não foi experienciado. Ela se torna irritada, ela se incomoda. Ela quer destruir os seus olhos porque ela é cega e seus olhos fazem-na lembrar de sua cegueira”.