Mostrando postagens com marcador Escravidão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Escravidão. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

"CRIANÇAS FORAM GANHANDO A PREFERÊNCIA DOS TRAFICANTES" (David Eltis)

Photo: Crianças foram ganhando a preferência dos traficantes porque, entre outros aspectos, eram mais “maleáveis” que adultos, indicam novas pesquisas publicadas duzentos anos após a lei britânica que proibiu o comércio de escravos.

No fim da era escravagista, um em cada três africanos escravizados era criança, nas estimativas do historiador David Eltis, da Universidade de Emory, em Atlanta, um dos maiores especialistas mundiais no tema.

Segundo Eltis, cerca de 12,5 milhões de escravos deixaram a costa da África entre 1500 e 1867, quando se tem registro do último carregamento. Em torno de 10 milhões chegaram aos seus destinos nas Américas.

Nos cálculos do pesquisador, dos 5,5 milhões de pessoas que tinham como destino o Brasil, apenas 4,9 milhões desembarcaram em portos brasileiros.

______________________________________

Dos séculos XVI ao XIX, um número estimado de 20 milhões de africanos cruzaram o Atlântico para as Américas no comércio transatlântico de escravos. Usado em plantações de todo os Estados Unidos, América Latina e Caribe, escravos africanos foram enviados em grande parte da África Ocidental. Com uma vida média de cinco a sete anos, a demanda por escravos da África crescia cada vez mais entre os comerciantes do século XVIII. Até recentemente, os estudos sobre escravos raramente discutem as experiências das crianças no comércio de escravos transatlântico. Estima-se que um quarto dos escravos que cruzaram o Atlântico eram crianças. No entanto, a falta de fontes e uma falta de importância mantiveram suas histórias desconhecidas.

Escravização
Como os adultos, as crianças foram integrantes do comércio de escravos, só não tiveram variedade de fontes. As crianças geralmente se encontravam escravizados como prisioneiros de guerra. Quando os homens eram mortos em batalhas, mulheres, crianças e idosos se tornaram especialmente vulneráveis. Aqueles que não foram mortos ou resgatados foram vendidos como escravos. Caravanas comerciais freqüentemente seguidas por expedições militares esperavam pacientemente aos têxteis e bens de câmbio para o câmbio de cativos. Em algumas áreas da África Ocidental, o sequestro foi um método popular de aquisição de crianças. As crianças foram capturados durante o trabalho nos campos, andando nos arredores da cidade, ou inocentemente jogando fora, longe da vista dos pais. Para que as comunidades pudessem fazer face às despesas em tempos de fome, famílias, por vezes vendiam seus filhos como escravos. Muitas crianças também encontraram-se como peões ou papel de troca de negociação para pagar dívidas ou crimes cometidos por seus pais ou parentes. Alguns pais venderam as crianças que estavam com problemas de saúde, exigido necessidades especiais.

Da Viagem a Venda
O que aconteceu nos dias, semanas ou até meses que se seguiram a sua captura ou venda foi um turbilhão de acontecimentos que tiveram efeitos devastadores sobre as psiques dos escravizados. Algumas crianças foram vendidos imediatamente, aumentando o contingente de escravos com destino ao litoral. Outros foram vendidos várias vezes. Muitas crianças nunca saíram do interior e permaneceram escravos na África. Outros morreram em algum lugar da rota feita no mar, juntamente com milhares de outros escravos, jovens e velhos.

Preferências
Para aquelas crianças que chegaram à costa, eles foram levados para uma fábrica, castelo ou posto de troca, onde foram vendidos para comerciantes que colocaram em celas com outros escravos. Os comerciantes, em seguida, retiravam os restos de roupas que possuíam e lubrificavam seus corpos com óleo de palma. Muitas vezes, os comerciantes do litoral lhes raspavam a cabeça. Uma vez adquiridos, os comerciantes do litoral geralmente marcavam os escravos com o símbolo da empresa comercial ou nome do proprietário em seu peito.

Os comerciantes geralmente definida como qualquer criança abaixo de 1,30 de altura, e aqueles escravos que embarcaram com filhos, receberam autorização para manter as crianças sem restrições no convés com as mulheres. Aqueles que viajaram no convés, ocasionalmente, receberam tratamento especial e atenção do capitão e da tripulação, que deram-lhes suas roupas velhas, ensinou-os jogos, ou até mesmo como a velejar. Outras crianças,  se recusaram a jogar ou até mesmo comer. Algumas crianças, seguravam firmemente nos braços reconfortantes das mulheres, choraram durante toda a noite. Filhos mais altos, foram colocadas no porão, com adultos, onde eles experimentaram condições horríveis, insalubres. Qualquer que fosse o seu tamanho, chorando ou deixando de comer ou dormir resultou em punição severa.

Embora as crianças recebessem algum tratamento preferencial, a maioria delas sofreram experiências semelhantes, se não igual aos adultos que viajam ao lado deles. Este tratamento preferencial em viajar fora do porão deu às crianças uma chance de sobrevivência, mas os protegia do castigo corporal, desnutrição e doenças. Durante a travessia, através do Atlântico, que duravam de um mês a três e até mais , dependia dos ventos, as crianças tiveram altas taxas de mortalidade. Muitos sucumbiram a doenças que acompanharam cada viagem até outro lado do Atlântico, especialmente vermes intestinais. Às vezes as crianças doentes eram atirados ao mar na esperança de que sua doença não se espalhasse para o resto da carga de escravos.

 A Demanda por crianças
Até o século XVIII a maioria das empresas comerciais tiveram pouco ou nenhum desejo de adquirir as crianças da costa da África, e incentivaram os seus capitães para não comprá-las. As crianças eram um risco, e muitos fazendeiros e comerciantes que compraram deles perderam dinheiro em seus investimentos. Porque as crianças (especialmente os jovens e crianças) eram vulneráveis à doença, o custo do transporte deles abaixou margens globais lucros. Além disso, as crianças africanas não seria capazes  de realizar trabalhos forçados ou produzir qualquer descendência, nem mesmo os maiores. Como resultado, somente se solicitado por um fazendeiro ou comerciante trazia-se crianças, as crianças eram extremamente difíceis de vender nos mercados das Índias Ocidentais.

Em meados do século XVIII, no entanto, os fazendeiros economicamente dependentes do comércio de escravos passaram a depender de crianças e jovens. Como o movimento abolicionista cada vez mais ameaçada a sua oferta de escravos, os fazendeiros adotaram a estratégia de importar escravos mais jovens que viveriam mais. Saldo, a juventude tornou-se um ativo atraente sobre os blocos de leilão dos mercados de escravos. Passaram a comprar mais mulheres para reproduzir e crianças, a fim de salvar seus interesses econômicos, os comerciantes modificaram suas idéias de lucro, risco, passaram a valorizar criança mudando toda a outra porção do Mundo Atlântico.

"A escravidão acabou, a “roda dos expostos” acabou, a obrigação dos cativos acabou. No entanto, o que se constata através das notícias que nos chegam é que não acabou a exploração do trabalho infantil, o abandono de recém-nascidos e de crianças mais velhas e nem o autoritarismo em algumas instituições educacionais, familiares e governamental. Supondo-se haver um local de retirada de carvão, pedras preciosas ou semi, lavoura de cana-de-açúcar em locais distantes, que necessitem de mão-de-obra barata e fora do “braço da lei”, teremos aí o trabalho escravo, inclusive o infantil. São freqüentes os relatos sobre pedofilia, praticados por “homens de bem” e “pais de famílias”, que abusam sexualmente de crianças e adolescentes. Estariam de volta os senhores de engenho e seus capatazes, disfarçados com paletós e colarinhos brancos, que, por acaso, trabalham para o bem do povo?

Muitas crianças morriam na época do Império por causa da falta de higiene e do desconhecimento da medicina. Aparentemente, havia pouca informação sobre como lidar com as crianças pequenas. Hoje, porém, passados séculos, as crianças continuam a morrer de frio, de falta de cuidados, de falta de consideração, de fome. Impera a lei da selva, onde só sobrevive o mais forte e o mais esperto. Através dos noticiários das redes de televisão que sempre estão presentes nas rebeliões, vemos presídios, penitenciárias e instituições para menores infratores lotadas de pessoas por falta de políticas desenvolvidas para que se evitasse esta situação. Como desenvolver políticas que abranjam a todos, dando oportunidade de empregos, escolas, saúde e moradias com dignidade?

A questão que se traz nesta abordagem é uma reflexão para uma atualidade referente às políticas para a infância no Brasil e suas implementações falhas, no sentido de assegurar e proteger a infância, como um tempo de formação na vida do indivíduo, fundamental para toda a sociedade que quer preservar modos de vida e de cultura, nos faz considerar que a maneira de se conceber a infância, nos períodos tratados, divergia, consideravelmente, da forma como se concebe a infância nos dias de hoje e que a marginalização da infância continua a existir em alto grau, sobretudo dos filhos das classes desfavorecidas e em especial a criança negra. A morosidade da implementação das políticas para a infância, sua execução e formas de fiscalização deficientes se apresentam como uma das importantes causas da infância roubada no país, desde os tempos coloniais."  (História da Bahia)

FONTES: Jovens e crianças na história, História da Bahia, BBC Brasil
Referências bibliográficas:Colleen A. Vasconcellos, "Children in the Slave Trade," in Children and Youth in History, Item #141.
*MATTOSO, KÁTIA DE QUEIRÓS. “O Filho da Escrava ( Em Torno da Lei do Ventre Livre)”. Revista Brasileira de História. São Paulo, v.8, nº l6, pp. 37-55, Março 88/Agosto 88. Ver p.45.
*CONRAD, ROBERT. Os últimos anos da escravatura no Brasil.: 1850-88. Tradução de Fernando de Castro Ferro. Rio, Civilização Brasileira/INL, 1975, p.144-145.
*MOTT, MARIA LÚCIA, MARIA DE FÁTIMA RODRIGUES DAS NEVES e RENATO PINTO VENÂNCIO. “A Escravidão e a Criança Negra”. Ciência Hoje, vol. 8, nº 48, p. 20-23, nov.1988. Ver p.22

P.S: Caros, não postem dúvidas, solicitações ou sugestões que não sejam pertinentes ao post como comentário, envie-os por mensagem, colaborem com a página para que continuemos agradando.
Obrigada!



"CRIANÇAS FORAM GANHANDO A PREFERÊNCIA DOS TRAFICANTES"  (David Eltis)
INFELIZMENTE A HISTÓRIA SE REPETE HOJE, QUANDO VEMOS O TRÁFICO OU A MILÍCIA ARREGIMENTANDO NOSSAS CRIANÇAS, NOSSOS JOVENS NEGROS MORRENDO PRECOCEMENTE, NOSSAS MENINAS  SENDO EXPLORANDO SEXUALMENTE. 
ISTO TUDO DIANTE DE UM ESTADO OMISSO DE SUAS RESPONSABILIDADES, EM RELAÇÃO A REALMENTE CRIAR POLÍTICAS QUE COMBATAM AS DESIGUALDADES, OMISSO NA GARANTIA DO DIREITO DA POPULAÇÃO, A TRABALHO E SALÁRIO DIGNO, MORADIA ADEQUADA, TRANSPORTE, EDUCAÇÃO E SAÚDE 100% PÚBLICA E ESTATAL!

Crianças foram ganhando a preferência, porque outros aspectos, eram mais "maleáveis" que adultos, indicam pesquisas publicada duzentos anos após a lei britânica  que proibiu o comércio de escravos. 

No fim da era
 escravagista, um em cada três africanos escravizados era criança, nas estimativas do historiador David Eltis, da Universidade de Emory, em Atlanta, um dos maiores especialistas mundiais no tema.

Segundo Eltis, cerca de 12,5 milhões de escravos deixaram a costa da África entre 1500 e 1867, quando se tem registro do último carregamento. Em torno de 10 milhões chegaram aos seus destinos nas Américas.

Nos cálculos do pesquisador, dos 5,5 milhões de pessoas que tinham como destino o Brasil, apenas 4,9 milhões desembarcaram em portos brasileiros.
Dos séculos XVI ao XIX, um número estimado de 20 milhões de africanos cruzaram o Atlântico para as Américas no comércio transatlântico de escravos. Usado em plantações de todo os Estados Unidos, América Latina e Caribe, escravos africanos foram enviados em grande parte da África Ocidental. Com uma vida média de cinco a sete anos, a demanda por escravos da África crescia cada vez mais entre os comerciantes do século XVIII. Até recentemente, os estudos sobre escravos raramente discutem as experiências das crianças no comércio de escravos transatlântico. Estima-se que um quarto dos escravos que cruzaram o Atlântico eram crianças. No entanto, a falta de fontes e uma falta de importância mantiveram suas histórias desconhecidas.
Escravização
Como os adultos, as crianças foram integrantes do comércio de escravos, só não tiveram variedade de fontes. As crianças geralmente se encontravam escravizados como prisioneiros de guerra. Quando os homens eram mortos em batalhas, mulheres, crianças e idosos se tornaram especialmente vulneráveis. Aqueles que não foram mortos ou resgatados foram vendidos como escravos. Caravanas comerciais freqüentemente seguidas por expedições militares esperavam pacientemente aos têxteis e bens de câmbio para o câmbio de cativos. Em algumas áreas da África Ocidental, o sequestro foi um método popular de aquisição de crianças. As crianças foram capturados durante o trabalho nos campos, andando nos arredores da cidade, ou inocentemente jogando fora, longe da vista dos pais. Para que as comunidades pudessem fazer face às despesas em tempos de fome, famílias, por vezes vendiam seus filhos como escravos. Muitas crianças também encontraram-se como peões ou papel de troca de negociação para pagar dívidas ou crimes cometidos por seus pais ou parentes. Alguns pais venderam as crianças que estavam com problemas de saúde, exigido necessidades especiais.
Da Viagem a Venda
O que aconteceu nos dias, semanas ou até meses que se seguiram a sua captura ou venda foi um turbilhão de acontecimentos que tiveram efeitos devastadores sobre as psiques dos escravizados. Algumas crianças foram vendidos imediatamente, aumentando o contingente de escravos com destino ao litoral. Outros foram vendidos várias vezes. Muitas crianças nunca saíram do interior e permaneceram escravos na África. Outros morreram em algum lugar da rota feita no mar, juntamente com milhares de outros escravos, jovens e velhos.
Preferências
Para aquelas crianças que chegaram à costa, eles foram levados para uma fábrica, castelo ou posto de troca, onde foram vendidos para comerciantes que colocaram em celas com outros escravos. Os comerciantes, em seguida, retiravam os restos de roupas que possuíam e lubrificavam seus corpos com óleo de palma. Muitas vezes, os comerciantes do litoral lhes raspavam a cabeça. Uma vez adquiridos, os comerciantes do litoral geralmente marcavam os escravos com o símbolo da empresa comercial ou nome do proprietário em seu peito.
Os comerciantes geralmente definida como qualquer criança abaixo de 1,30 de altura, e aqueles escravos que embarcaram com filhos, receberam autorização para manter as crianças sem restrições no convés com as mulheres. Aqueles que viajaram no convés, ocasionalmente, receberam tratamento especial e atenção do capitão e da tripulação, que deram-lhes suas roupas velhas, ensinou-os jogos, ou até mesmo como a velejar. Outras crianças, se recusaram a jogar ou até mesmo comer. Algumas crianças, seguravam firmemente nos braços reconfortantes das mulheres, choraram durante toda a noite. Filhos mais altos, foram colocadas no porão, com adultos, onde eles experimentaram condições horríveis, insalubres. Qualquer que fosse o seu tamanho, chorando ou deixando de comer ou dormir resultou em punição severa.
Embora as crianças recebessem algum tratamento preferencial, a maioria delas sofreram experiências semelhantes, se não igual aos adultos que viajam ao lado deles. Este tratamento preferencial em viajar fora do porão deu às crianças uma chance de sobrevivência, mas os protegia do castigo corporal, desnutrição e doenças. Durante a travessia, através do Atlântico, que duravam de um mês a três e até mais , dependia dos ventos, as crianças tiveram altas taxas de mortalidade. Muitos sucumbiram a doenças que acompanharam cada viagem até outro lado do Atlântico, especialmente vermes intestinais. Às vezes as crianças doentes eram atirados ao mar na esperança de que sua doença não se espalhasse para o resto da carga de escravos.
A Demanda por crianças
Até o século XVIII a maioria das empresas comerciais tiveram pouco ou nenhum desejo de adquirir as crianças da costa da África, e incentivaram os seus capitães para não comprá-las. As crianças eram um risco, e muitos fazendeiros e comerciantes que compraram deles perderam dinheiro em seus investimentos. Porque as crianças (especialmente os jovens e crianças) eram vulneráveis à doença, o custo do transporte deles abaixou margens globais lucros. Além disso, as crianças africanas não seria capazes de realizar trabalhos forçados ou produzir qualquer descendência, nem mesmo os maiores. Como resultado, somente se solicitado por um fazendeiro ou comerciante trazia-se crianças, as crianças eram extremamente difíceis de vender nos mercados das Índias Ocidentais.
Em meados do século XVIII, no entanto, os fazendeiros economicamente dependentes do comércio de escravos passaram a depender de crianças e jovens. Como o movimento abolicionista cada vez mais ameaçada a sua oferta de escravos, os fazendeiros adotaram a estratégia de importar escravos mais jovens que viveriam mais. Saldo, a juventude tornou-se um ativo atraente sobre os blocos de leilão dos mercados de escravos. Passaram a comprar mais mulheres para reproduzir e crianças, a fim de salvar seus interesses econômicos, os comerciantes modificaram suas idéias de lucro, risco, passaram a valorizar criança mudando toda a outra porção do Mundo Atlântico.
"A escravidão acabou, a “roda dos expostos” acabou, a obrigação dos cativos acabou. No entanto, o que se constata através das notícias que nos chegam é que não acabou a exploração do trabalho infantil, o abandono de recém-nascidos e de crianças mais velhas e nem o autoritarismo em algumas instituições educacionais, familiares e governamental. Supondo-se haver um local de retirada de carvão, pedras preciosas ou semi, lavoura de cana-de-açúcar em locais distantes, que necessitem de mão-de-obra barata e fora do “braço da lei”, teremos aí o trabalho escravo, inclusive o infantil. São freqüentes os relatos sobre pedofilia, praticados por “homens de bem” e “pais de famílias”, que abusam sexualmente de crianças e adolescentes. Estariam de volta os senhores de engenho e seus capatazes, disfarçados com paletós e colarinhos brancos, que, por acaso, trabalham para o bem do povo?
Muitas crianças morriam na época do Império por causa da falta de higiene e do desconhecimento da medicina. Aparentemente, havia pouca informação sobre como lidar com as crianças pequenas. Hoje, porém, passados séculos, as crianças continuam a morrer de frio, de falta de cuidados, de falta de consideração, de fome. Impera a lei da selva, onde só sobrevive o mais forte e o mais esperto. Através dos noticiários das redes de televisão que sempre estão presentes nas rebeliões, vemos presídios, penitenciárias e instituições para menores infratores lotadas de pessoas por falta de políticas desenvolvidas para que se evitasse esta situação. Como desenvolver políticas que abranjam a todos, dando oportunidade de empregos, escolas, saúde e moradias com dignidade?
A questão que se traz nesta abordagem é uma reflexão para uma atualidade referente às políticas para a infância no Brasil e suas implementações falhas, no sentido de assegurar e proteger a infância, como um tempo de formação na vida do indivíduo, fundamental para toda a sociedade que quer preservar modos de vida e de cultura, nos faz considerar que a maneira de se conceber a infância, nos períodos tratados, divergia, consideravelmente, da forma como se concebe a infância nos dias de hoje e que a marginalização da infância continua a existir em alto grau, sobretudo dos filhos das classes desfavorecidas e em especial a criança negra. A morosidade da implementação das políticas para a infância, sua execução e formas de fiscalização deficientes se apresentam como uma das importantes causas da infância roubada no país, desde os tempos coloniais." (História da Bahia)

FONTES: Jovens e crianças na história, História da Bahia, BBC Brasil
Referências bibliográficas:Colleen A. Vasconcellos, "Children in the Slave Trade," in Children and Youth in History, Item #141.
*MATTOSO, KÁTIA DE QUEIRÓS. “O Filho da Escrava ( Em Torno da Lei do Ventre Livre)”. Revista Brasileira de História. São Paulo, v.8, nº l6, pp. 37-55, Março 88/Agosto 88. Ver p.45.
*CONRAD, ROBERT. Os últimos anos da escravatura no Brasil.: 1850-88. Tradução de Fernando de Castro Ferro. Rio, Civilização Brasileira/INL, 1975, p.144-145.
*MOTT, MARIA LÚCIA, MARIA DE FÁTIMA RODRIGUES DAS NEVES e RENATO PINTO VENÂNCIO. “A Escravidão e a Criança Negra”. Ciência Hoje, vol. 8, nº 48, p. 20-23, nov.1988. Ver p.2
Fonte: Quilombo Raça Classe



quinta-feira, 17 de maio de 2012

13 de Maio: A Revolução Abolicionista


Por Mário Maestri* 


Em 13 de maio, cumpriu-se mais um natalício da Abolição. O Brasil foi uma das primeiras nações americanas a instituir e a última a abolir o cativeiro. Dos nossos 512 anos de história, mais de 350 passaram-se sob o látego do negreiro. Essa herança pesa-nos atéhoje. 

A Abolição, no passado efeméride excelente, atualmente é da quase execrada. Sua crítica é feita comumente por aqueles que lembram a miséria passada e atual de importantes segmentos da população negra. Apesar de bem-intencionada, essa visão retoma e consolida visões caricaturais e paternalistas do 13 de Maio e nega a essência revolucionária da Abolição. 

A população negra pobre festejou sempre com carinho o 13 de Maio, compreendendo a importância daquele sucesso maior da história popular brasileira. Celebrar o 13 de Maio não significa reafirmar os mitos da emancipação social do negro, em 1888, ou de Isabel, como Redentora . Significa recuperar a importância da superação da ordem negreira e da participação dos cativos como agentes essenciais do nosso passado. 

Não há sentido em antepor Palmares ao 13 de Maio. Apesar de saga luminar, a epopéia palmarina foi derrotada e jamais propôs – e não poderia ter proposto – a destruição da escravidão como um todo. A revolução abolicionista foi vitoriosa e superou para sempre o cativeiro. 

Estudos hoje já clássicos apresentam a Abolição, em seu tempo conjuntural, como produto do abandono maciço pelos cativos das fazendas cafeicultoras nos meses finais da escravidão, reivindicando relações contratuais de trabalho. A destruição do regime negreiro deveu-se à ação da massa escravizada, aliada aos abolicionistas radicalizados, em movimento de enorme tensão política e social. 

Com a desorganização da produção pela sublevação servil, os negreiros, rendidos, passaram a reivindicar apenas a indenização da 'propriedade' perdida. Em 13 de maio, a herdeira imperial somente sancionou a chamada Lei Áurea, aprovada pelo Parlamento, registrando o óbito de instituição em agonia. Nos 66 anos anteriores, os Braganças haviam defendido com unhas e dentes o cativeiro. 

Mesmo tardiamente no Brasil, foi a ação estrutural dos escravizados, durante os três séculos de escravidão, que permitiu a destruição da instituição. A oposição permanente do cativo ao trabalho feitorizado impôs limites insuperáveis ao desenvolvimento tecnológico e determinou altos gastos de vigilância e de coerção, abrindo espaço para formas de produção superiores. 

Em 1888, a revolução abolicionista destruiu o modo de produção escravista colonial que, por mais de 300 anos, ordenara a sociedade brasileira. Negar essa realidade devido às condições econômicas, de ontem e de hoje, de boa parte da população negra, é compreender o passado com idéias simplistas, moralizadoras e a-históricas. 

Os limites da Abolição eram objetivos. Nos últimos anos do cativeiro, os trabalhadores escravizados, classe em declínio, lutavam sobretudo pela conquista de direitos civis mínimos, reivindicação que uniu os cativos rurais e os já pouco escravizados urbanos. Em 1888, uns 700 mil homens, mulheres, jovens e crianças escravizados ou ventre-livres , obtiveram os direitos civis elementares. 

Com a Abolição, os trabalhadores superaram a distinção entre livres e cativos, iniciando-se a história da classe operária e da cidadania brasileira, como a compreendemos hoje. A revolução abolicionista foi o primeiro grande movimento de massas moderno e a única revolução social vitoriosa do Brasil, até hoje. Os limites da revolução abolicionista eram históricos e esperavam sua conclusão social atual. 

* Mário Maestri é doutor em história e professor do Curso e do Programa de História da UPF.

domingo, 13 de maio de 2012

As revoltas conquistaram a Abolição

*José Carlos Miranda

Infelizmente, os estudantes desconhecem a verdadeira história da abolição da escravidão no Brasil. Na escola, desde o ensino fundamental, as únicas recordações que ficam no imaginário popular são da princesa boazinha que “libertou” os escravos. E por aí vai se reproduzindo a “história oficial”.

Brasil e Cuba foram os dois últimos países do mundo a eliminar a escravatura como base de um modo de produção. A Guerra da Secessão (1861-65), nos Estados Unidos, cobrou o preço de mais de um milhão de mortos para que se encerrasse a escravidão e, de fato, se unificasse a nação. O Haiti se tornou a primeira nação negra das Américas quando, após ter conquistado a libertação, em 1794, com uma insurreição dos escravos negros, expulsou a bala e a facão, em 1803, os colonialistas franceses.

No meio do século XIX já não havia mais como manter a escravidão no Brasil. As lutas contra escravidão negra tomavam conta do país. De longe vinha o Quilombo de Palmares, sobre o qual não é preciso se estender. As homenagens que até hoje recebe Zumbi são o testemunho da luta heróica e dolorosa dos negros, hoje parte integrante da classe trabalhadora brasileira, para se libertar de toda opressão e exploração. Inúmeras revoltas populares se somavam às rebeliões de escravos, aos assaltos às fazendas e assassinato de fazendeiros.

Nas décadas de 1830 e 1840, o país havia vivido algumas das suas maiores rebeliões ou guerras internas. Entre 1835 e 1840 a província do Grão-Pará (atualmente os estados do Pará, parte do Amazonas, Amapá e Roraima) conheceu as revoltas da “cabanagem”, nome dos negros, índios e mestiços, que viviam nas cabanas. Eles chegaram a tomar Belém e instituir um governo próprio, em choque frontal com a monarquia escravagista. Esta grande luta popular pagou um tributo de 40 mil mortos tombados na luta por liberdade e igualdade.

A Balaiada, no Maranhão, que durou de 1838 a 1841, teve como herói da monarquia o militar que ganhou ali seu primeiro título de nobreza, o Barão de Caxias (uma das mais importantes cidades do Maranhão), que viria a ser o Duque de Caxias. Como herói das classes populares, teve o negro Cosme, líder de um quilombo, que comandou cerca de três mil homens armados em combates contra as tropas da monarquia. Mesmo na Guerra dos Farrapos, que se estendeu de 1835 a 1845, no Rio Grande do Sul, quando a elite local chegou a proclamar a República do Piratini, os negros jogaram um papel importante e conquistaram a reivindicação de libertação de todos os negros que lutaram ao lado de Bento Gonçalves contra a monarquia.

O Brasil chegava ao fim do século passado marcado por rebeliões e imerso numa profunda crise econômica. Esta situação tensa, fruto do agravamento constante das crises econômicas no mercado mundial, juntava-se à pressão internacional da burguesia, que não podia permitir a continuidade da concorrência de produtos da mão-de-obra escrava. Mas a escravidão não caiu de madura: foi derrotada pela primeira luta popular de caráter nacional da história brasileira.

A luta abolicionista juntou negros, brancos, mestiços e mulatos. Entre seus líderes, estavam ex-escravos. Enquanto, nas fazendas, os escravos se rebelavam e fugiam, ajudados pelos abolicionistas, outros atores entravam em cena. Os trabalhadores das ferrovias e os operários gráficos, núcleos de uma classe operária ainda em formação, participaram ativamente do movimento, escondendo os negros fugidos e imprimindo os panfletos anti-escravistas. Essa história permanece oculta da maioria dos jovens estudantes.

A princesa Isabel, quando assinou a Lei Áurea, estava firmando um documento de derrota – a prova da falência do próprio Império, que caiu no ano seguinte. Mas, para aqueles que trabalhavam a terra, e praticamente só sabiam fazer isto, o fim da escravidão não significou o acesso a terra. Significou, isso sim, seu despejo das fazendas. E assim os escravos foram expulsos de um modo de produção e a maquinaria da economia se desenvolveu através de uma abundante mão-de-obra livre, basicamente estrangeira, imigrada com amplo financiamento do Estado para suprir as necessidades da atrasada burguesia rural brasileira. É por isso que a burguesia brasileira nasce no campo e não nas cidades.

O Império pintou a imagem do 13 de Maio como um presente da princesa benfeitora. Os defensores das chamadas políticas de ações afirmativas pintam hoje o 13 de Maio como a mentira da princesa malfeitora. A divergência é superficial, pois ambos se apegam ao ato da autoridade, ocultando atrás dele as lutas de classes no Brasil e no mundo neste período. É como atribuir o fim da ditadura militar à candidatura de Tancredo Neves ao Colégio Eleitoral, escondendo as lutas dos trabalhadores e estudantes que derrotaram os generais.

Comemorar o 13 de Maio é trazer a tona a verdadeira história de lutas do povo brasileiro. É homenagear centenas de milhares de brasileiros que lutaram e, em muitos casos, deram sua vida para que se inscrevesse na lei o fim da escravidão. Acima de tudo, é retomar o fio de continuidade da luta pela igualdade que inspirou os abolicionistas.

Nós temos a convicção de que não se derrota o racismo por meio da divisão dos trabalhadores e estudantes em “brancos” e “negros”, como querem os defensores das leis raciais. Só se derrota o racismo superando o imenso abismo entre as classes sociais, pela extensão dos serviços públicos de qualidade para todos e pela conquista de empregos para todos os trabalhadores, seja qual for o tom da sua pele.
Fonte: http://blogesquerdamarxista.blogspot.com.br