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terça-feira, 9 de julho de 2013

Cidades brasileiras, junho de 2013: o(s) sentido(s) da revolta (1ª parte)


Por Marcelo Lopes de Souza 
A recente onda de protestos deveria catalisar uma reflexão coletiva que já se vinha fazendo necessária há vários anos, acerca da evolução dos ativismos e lutas sociais no Brasil pós-“redemocratização”. 
É claro que o “gigante” se movimenta, sim − mas… em que direção?
Utilizar metáforas antropomórficas para designar sociedades é sempre um empreendimento arriscado. O perigo de se resvalar para uma substituição da compreensão de contradições sociais por visões patologizantes e moralistas (e conservadoras) é real. E exatamente a analogia com um “gigante que se levanta” ou “acorda” tem sido amplamente empregada por setores menos ou mais conservadores para caracterizar as mobilizações e os protestos que marcaram várias cidades brasileiras em junho de 2013.
No entanto, creio que vale a pena aproveitar, aqui, a metáfora do “gigante”, justamente para usá-la como gancho para fazer uma alusão provocativa a dois dos trechos mais irritantes do Hino Nacional Brasileiro: o primeiro é aquele que apresenta o país e seu povo como um “gigante pela própria natureza”; o segundo é o que, pouco depois, vê o “gigante” como estando “deitado eternamente em berço esplêndido”. [1] Não por acaso, essas passagens ufanistas sempre foram vistas por muitos como uma espécie de “explicação” involuntária das proverbiais “preguiça” e “passividade” do brasileiro. Não por acaso, também, setores conservadores apreciam tanto julgar ver, na movimentação complexa e um tanto amorfa que se espraiou pelo Brasil urbano, um “gigante enfim redimido”.
No entanto, aquele tipo de crítica à preguiça e à passividade sempre foi, ele mesmo, míope: enxerga algo, sim, e algo real; mas enxerga mal, e confunde bastante as coisas. Cabe indagar: “preguiça” de quem, afinal? Das massas de trabalhadores e trabalhadoras espoliados, tantas vezes forçados pelas circunstâncias a trabalhar em condições de baixa salubridade e pouca segurança e por uma remuneração aviltante (isso quando se consegue emprego formal…), e que gastam horas e horas por dia se deslocando em condições precárias e com significativo custo entre a casa e o trabalho, e de deste volta para casa? E “passividade” de quem, afinal? Desde o período colonial não têm faltado insurreições, revoltas populares, protestos e revoluções. Uma das ideias mais infelizes é a de “homem cordial”, que Sérgio Buarque de Holanda criou com intenções diversas da interpretação que, à sua revelia e contra a sua vontade, se tornou corrente (cordial como sinônimo de pacífico, pacato, acomodado). Sim: “o brasileiro”, genericamente, não parece apresentar tão pronunciadamente aqueles traços de “dureza”, “disciplina” e “inflexibilidade” (“respeito cego às normas”, “obedecer ordens sem contestar”…) que tão bem parecem caracterizar os alemães; tampouco parecem muito propensos a uma passionalidade política de tipo não raro dramático, tão a gosto de nossos vizinhos argentinos. Para o bem e para o mal, o brasileiro comum adora uma festa; e, por isso, muitas vezes “carnavaliza” e faz humor até durante a revolta, o protesto. Só que isso não pode ser confundido com “passividade”, em um sentido absoluto. As ruas e praças de várias cidades brasileiras demonstraram isso em junho deste ano. Sem embargo, não demonstraram do jeito como pareceu, ao menos no início, que iriam demonstrar: como parte de uma resistência e de uma mobilização cristalinamente anticapitalistas. O que se viu, no fim das contas, foi algo distinto. Faz-se urgente repensar as lutas sociais no Brasil (urbano e rural), tendo em mente a correlação de forças na sociedade brasileira e evitando projetar os nossos desejos na realidade.
O que nós vimos, afinal?
Que se designem as coisas pelos nomes certos: aquilo que, estabelecendo um paralelo com a “Primavera Árabe”, já foi chamado de “Primavera Brasileira” ou “Primavera Tropical”, não foi um movimento social. Foi, isso sim, uma onda de protestos (não me agrada muito o termo “ciclo de protestos”), animada por diversas organizações, grupos fracamente organizados e indivíduos isolados; quanto às organizações, especificamente, elas vão de organizações de movimentos sociais até partidos políticos, passando por sindicatos, grêmios estudantis e outras tantas.
Da mobilização que gravitou, inicialmente, em torno de uma organização particular, o Movimento Passe Livre(MPL), polarizadora de um movimento social específico  —  o movimento, iniciado entre jovens estudantes secundaristas e universitários, pelo passe livre nos transportes coletivos  —, passou-se, rapidamente, a um “transbordamento sociopolítico”, que expressa uma enorme energia social represada: indignação e ressentimento, certamente, mas também criatividade e bom humor. A pauta socialmente crítica e mesmo anticapitalista inicial, trazida pelo MPL, foi sendo, aos poucos, engolfada e parcialmente eclipsada por uma pauta muito mais vasta e muito mais amorfa ideologicamente, na qual foram sobressaindo reivindicações e interpretações “bem comportadas” (isto é, conformes à essência do status quo capitalista e pseudodemocrático, como o combate à corrupção e a rejeição de atos legislativos específicos) e, em parte, moralistas e até reacionárias (como o ódio manifestado por skinheads e outros indivíduos e grupos de direita contra os “comunistas”, os “vermelhos” etc.). Para aqueles que tinham bem presente na mente a hegemonia conservadora na sociedade brasileira, o parcial “sequestro” (ou a parcial “usurpação”) das revoltas de junho pelos setores conservadores não poderia surpreender. Se não era inevitável era, pelo menos, esperável.
Refletindo sobre a “Rebelião Argentina” do início da década passada, o jornalista e intelectual uruguaio Raúl Zibechi, diante da variedade de movimentos específicos ali envolvidos (piqueterosasambleas barrialesempresas recuperadas…) e da multiplicidade de forças sociais e manifestações mais ou menos espontâneas, disse que já não se tratava apenas, naquele caso, de um único “movimento social”, mas sim da “sociedade em movimento” (ZIBECHI, 2003). Podemos, a esse respeito, levantar a aparente ressalva de que, sem dúvida, toda sociedade está, sempre, em movimento; não há, decerto, “sociedades sem história”, expressão nada feliz usada por pesquisadores estruturalistas em outros tempos, o que equivale a dizer que não há sociedades estáticas. Contudo, o que Zibechi tenta captar, com sua expressão, é algo real: em alguns momentos, de forte e generalizado conteúdo insurrecional, algumas sociedades parecem ver a sua dinâmica se acelerar. Dependendo das condições, podemos estar diante de uma onda de protestos, envolvendo uma pletora de organizações e movimentos, ou mesmo de uma “tsunami” de tipo revolucionário. Qualquer onda, por maior que seja (e mesmo uma tsunami), mais cedo ou mais tarde se dissipa, e alguns de seus aspectos até se institucionalizam; como diria Castoriadis, a sociedade instituinte, por mais radical que seja a movimentação, sempre dará lugar à sociedade instituída (CASTORIADIS, 1983). Não se pode viver o tempo todo “em aceleração”, não se pode abrir mão de algum grau de institucionalização (e, óbvio, de instituições sociais), não se pode eliminar a diferença entre o instituinte e o instituído. A questão, no fundo, é a seguinte: o que fica, então, como resultado? Ou, desdobrando e formulando de outras maneiras: que tipo e que intensidade de acúmulo sociopolítico (material, político-pedagógico, estratégico, cultural-simbólico…) deriva de tal ou qual movimentação/luta social? Que consequências advirão? E, lembrando uma crucial interrogação de Castoriadis: as lutas e os avanços futuros serão facilitados ou dificultados pelos resultados das lutas de hoje? [2] (Isto é: os avanços do presente merecerão, talvez, aspas? E em que circunstâncias, e sob quais pontos de vista?) No caso brasileiro atual, é difícil ser muito otimista, ainda que tampouco seja o caso de capitular diante do pessimismo.
“Primavera Brasileira”: apenas mais uma expressão fácil, ou de fato uma comparação válida?
A comparação com a “Rebelião Argentina”, do ponto de vista do acúmulo de forças e do impacto geral das mobilizações, não é absurda, mas foi precipitada. Lá como cá, diversidade e sinergias, em meio a uma onda de protestos bastante complexa; entretanto, o caso argentino demonstrou uma capilaridade social (para a qual contribuiu uma longa tradição de lutas e resistências organizadas dos trabalhadores) e uma solidez que não foram demonstrados no caso da “Primavera Brasileira”.
Talvez a comparação com a “Primavera Árabe”, apesar das distâncias geográfico-culturais, seja mais promissora. Sobre a “Primavera Árabe”, que desde o começo mostrou-se extremamente heterogênea no que tange às forças que a animaram (de organizações e grupos religiosos e fundamentalistas, como a Irmandade Muçulmana e os salafistas, até estudantes universitários de esquerda e ocidentalizados), não poucos analistas ocidentais projetaram expectativas que, inevitavelmente, se revelaram falsas. Inevitavelmente, sim, porque se tratou, tantas vezes, de interpretar o que se passava no Magreb e no Oriente Médio à luz de conceitos como “democracia” e “revolução”, e mesmo com a ajuda de ideias e ideais de liberdade e até libertários, a partir de um olhar cultural e politicamente estranho àquela região do planeta. A “Primavera Árabe”, para quem nela projetou seus desejos e valores, tomando o todo (países complexos e atravessados por várias linhas de fratura: étnica, religiosa, política) pela parte (jovens e estudantes ocidentalizados e de espírito muitas vezes laico, e não raro com um pensamento de esquerda), o resultado, já menos de um ano depois, parecia frustrante. A Praça Tahrir deixava de ser tratada quase euforicamente como um símbolo do novo para ser vista como o símbolo de um episódio interessante e relevante, mas menos interessante e menos relevante do que gostariam. Um dos riscos dessa frustração é o de desviarmos cedo demais nossa atenção do fenômeno, o que nos impede de compreendê-lo e avaliá-lo (e estimá-lo) pelo que efetivamente é ou foi, e pelos resultados que efetivamente deixou e tem deixado.
No caso brasileiro, uma coisa, de imediato, se coloca: testemunhamos uma onda de protesto como não se via há vinte anos. Para o bem e para o mal. E mais: nas duas últimas décadas, tanto a imprensa quanto o Estado preocuparam-se muito mais com as lutas sociais no campo que com as lutas sociais nas cidades; nestas últimas, e principalmente nas grandes cidades e metrópoles, parecia que “conflito social” dizia respeito, quase exclusivamente, à criminalidade violenta ordinária, menos ou mais organizada. À luz das contradições sociais “objetivas” e de alguns fatos demográficos evidentes, o protagonismo das organizações das lutas no campo (a começar, obviamente, pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem TerraMST) e o papel de “atores coadjuvantes” a que pareciam reduzidos os movimentos sociais urbanos nos anos 1990 e na década seguinte pareciam representar um enigma a ser desvendado.
Movimentos urbanos como meros “coadjuvantes” em um país predominantemente urbano?
Em 1950 o Brasil apresentava, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE, cerca de 1/3 da sua população vivendo em espaços urbanos. Trinta anos depois, o recenseamento de 1980 indicava que ocorrera uma inversão: 2/3 já viviam em entidades espaciais consideradas urbanas (cidades e vilas), ao passo que apenas 1/3 vivia nas áreas rurais. Dois decênios mais tarde, o país possuía, segundo o Censo Demográfico 2000 do IBGE, cerca de 82% da população vivendo em espaços tidos como urbanos, e em 2010 (conforme o Censo daquele ano) eram 84%. Mesmo admitindo-se uma certa imprecisão nesses dados, decorrente de problemas metodológicos, é inegável que o Brasil é um país predominantemente urbano e que se urbanizou velozmente na segunda metade do século XX (no sentido convencional de aumento do percentual da população que vive em espaços urbanos, visto que, em um sentido mais sofisticado, que tem a ver com a difusão de determinados valores, modos de vida e relações de produção, a “urbanização” é algo muito mais abrangente do que muitos costumam supor).
Apesar desse quadro, os movimentos sociais (e as organizações de movimentos sociais) mais importantes, com maior influência e com maior visibilidade pública foram, por mais de dois decênios, de longe, os que se vinculam às lutas no campo. Especialmente na década de 1990 e na seguinte, nada havia no cenário urbano brasileiro contemporâneo que fosse comparável à organização MST, que em 2003 contava com “cerca de um milhão de integrantes, perto de 1.200 assentamentos, uma rede de 12 mil escolas primárias e secundárias, 88 cooperativas rurais e 96 indústrias processadoras de alimentos” (LERRER, 2003:139). Na verdade, a organização mais conhecida do movimento urbano dos sem-teto, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), foi criada a partir do MST, e originalmente como parte de uma estratégia de contribuir para organizar os trabalhadores das cidades com o objetivo de ampliar o suporte da própria luta no campo.
Os ativismos sociais são e têm sido importantes agentes modeladores do espaço no Brasil, tanto nas cidades quanto no campo, em que pese a descontinuidade de sua influência e de sua visibilidade pública. A não ser que se adote uma perspectiva francamente “estadocêntrica” e conservadora, pensar o presente e o futuro (e o passado) das cidades e do campo brasileiros necessariamente passa pela consideração das resistências e mobilizações populares, em que se destacam, obviamente, os movimentos sociais. [3]
No que se refere às cidades, não faz muito tempo que ativismos constituídos em torno de demandas por equipamentos de consumo coletivo e infraestrutura técnica e social, tendo como principais espaços de gestação os loteamentos irregulares de periferia e as favelas (mas sem esquecer, ainda que com agendas e prioridades obviamente diferentes, dos ativismos dos bairros formais, inclusive daqueles essencialmente de classe média), eram chamados de “novos movimentos sociais”  —  e que, mais rigorosamente, deveriam ser chamados de “novos ativismos sociais”, já que nem todos alcançaram o patamar de movimentos em sentido estrito. Esses ativismos, que em muitas grandes cidades brasileiras tiveram seu apogeu entre meados da década de 1970 e meados do decênio seguinte, [4] começaram, porém, a experimentar um processo de declínio ainda nos anos 1980. Se, até a segunda metade da década de 1980, muitas vezes eles apresentavam várias características de movimentos sociais em sentido forte, e, além disso, suas ações influenciavam a pauta da grande imprensa e as palavras e o comportamento dos políticos profissionais e dos partidos, a partir daí avolumaram-se evidências de que se havia instalado uma crise: a capacidade de mobilização havia diminuído consideravelmente, entidades patentemente regrediram a um estado quase puramente “cartorial” (ou seja, existência vegetativa e pouco mais que meramente formal) ou mesmo desapareceram, a imprensa e o sistema político formal foram deixando de lhes dar importância e sua visibilidade pública encolheu até níveis “microscópicos”.
Todavia, a partir dos anos 1990, ao mesmo tempo em que a referida crise se acentuava e consolidava como uma espécie de “coma sociopolítico”, novas organizações e novos ativismos sociais, às vezes também com algumas características claras de movimentos em sentido forte, começaram a surgir nas cidades brasileiras: para exemplificar, seja mencionado o movimento dos sem-teto e, sem dúvida, também o movimento pelo passe livre (e, ao menos em parte, poderia ser também citado o “movimento” hip-hop).
No presente momento (julho de 2013), o cenário pode ser descrito como uma situação em que os ativismos urbanos dos anos 1960 a 1980 perderam muito de sua importância  —  os “novos movimentos sociais”, como eram conhecidos na literatura sociológica dos anos 1970 e 1980, “envelheceram” e mesmo “esclerosaram-se”, por assim dizer  —, praticamente não podendo mais ser caracterizados como movimentos sociais influentes, enquanto que aqueles que emergiram nos anos 1990 (e que podem ser designados, de modo assumidamente um pouco canhestro, como sendo a “segunda geração” de “novos ativismos sociais urbanos”, para diferenciá-los dos que surgiram no período precedente) ainda se acham em um estado “embrionário” ou pouco mais que isso. E no entanto, embora sejam ainda “embrionários”, e em parte exatamente porque o são, esses “novíssimos” ativismos (ou ativismos urbanos da “segunda geração” dos “novos ativismos”) nos convidam à reflexão a propósito de determinados gargalos, problemas e desafios que vêm acompanhando a sua trajetória. Isso no contexto de uma reflexão sobre os impasses e dificuldades da luta anticapitalista na sociedade brasileira em geral. A recente onda de protestos deveria catalisar uma reflexão coletiva que já se vinha fazendo necessária há vários anos, acerca da evolução dos ativismos e lutas sociais no Brasil pós-“redemocratização”, e em especial a partir da conjuntura política inaugurada com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao Palácio do Planalto.
Os governos de Lula e Dilma: seus efeitos sobre as lutas sociais (e principalmente nas cidades)
Em 2002, com a eleição do ex-operário e líder sindical Luis Inácio Lula da Silva, presidente de honra do Partido dos Trabalhadores, para a Presidência da República, generalizou-se o sentimento, entre amplos setores da esquerda, de que, finalmente, uma constelação política comprometida com mudanças substanciais (entre elas a reforma agrária) chegaria ao poder de Estado. Ainda em agosto 2003, bem no início do governo, Plínio de Arruda Sampaio, intelectual vinculado ao MST, manifestou a convicção e a esperança de que o governo Lula seria, se não um governo revolucionário, ao menos um governo “disputado” e “dividido”, uma espécie de campo de tensão no qual os trabalhadores conseguiriam fazer valer grande parte de seus interesses (vide LERRER, 2003:91). Decorridos onze anos desde que o Partido dos Trabalhadores conquistou o Estado em nível nacional, o que permanece desse tipo de expectativa?… Sejam examinadas, de maneira interconectada, algumas questões relativas à dinâmica interna dos ativismos e movimentos e às suas relações com o aparelho de Estado.
Algumas organizações da “segunda geração” dos “novos ativismos sociais” já demonstram ter um caráter pujante e bastante organizado, o que não as livra, apesar disso, de algumas fragilidades: o MTST, por exemplo, vem mostrando que uma organização de sem-teto pode muito bem dialogar criticamente com o planejamento e a gestão urbanos promovidos pelo Estado, examinando e explorando as brechas e as contradições contidas em documentos como planos diretores, ao mesmo tempo em que criam “territórios dissidentes” organizados de maneira alternativa e procedem a um “planejamento estratégico” relativamente sofisticado de suas ações; ao mesmo tempo, contudo, a estreita associação a um partido tradicional de esquerda, o PSTU, veio retirar do MTST, no fim da década passada, parte do quinhão de criatividade que ele apresentava. No Rio de Janeiro, várias das ocupações de sem-teto do Centro e da Zona Portuária, em parte organizadas segundo princípios fortemente autogestionários (e nisso diferindo do MTST e de várias outras organizações de sem-teto), não conseguiram resistir às pressões e perseguições do Estado e do capital e/ou ao assédio crescente de traficantes de drogas: tombaram as ocupações Machado de Assis e Zumbi dos Palmares, e a Chiquinha Gonzaga resiste com dificuldades; a Quilombo das Guerreiras está, em princípio, com seus dias contados, pois já foi decidida a remoção dos ocupantes. No tocante ao hip-hop, o surgimento da Central Única das Favelas (CUFA) parecia merecer, alguns anos atrás, ser saudado, ao menos à primeira vista, como um fato positivo; o que se viu, porém, depois, não valeria muito mais que uma nota de rodapé, e contendo ressalvas importantes. Por fim, o movimento pelo passe livre, por seu turno, organizou uma rede interessante e relevante, que derivou dos notáveis protestos de Salvador e Florianópolis, entre 2003 e 2005; contudo, precisamente em meio à onda de protestos de 2013 o MPL foi forçado a recuar e levantar ressalvas ao desdobramento da mobilização que ele mesmo iniciou. No geral, a despeito da formação de redes, dos intercâmbios e da cooperação entre organizações, muito falta ainda à “segunda geração” de “novos ativismos” em matéria de desenvolvimento de um papel cada vez mais proativo, propositivo, consistente e, como corolário, eficaz.
A autogestão e as formas horizontais (não hierárquicas) de organização e planejamento das lutas e atividades como alternativas explícitas à gestão e ao planejamento promovidos pelo Estado se colocam como possibilidades no horizonte, ou mesmo já existem na realidade; e, em que pesem certas contradições, inclusive de ordem política, algumas organizações têm feito esforços importantes nessa direção, sobretudo por meio da construção de experiências de planejamento e gestão urbanos radicalmente alternativos e de resistência. Por “planejamento e gestão urbanos radicalmente alternativos e de resistência”, ou planejamento e gestão insurgentes, designam-se as ações que têm visado, da parte das organizações dos movimentos: conhecer o discurso e os instrumentos do planejamento promovido pelo Estado (assim como os marcos legais e institucionais vinculados ao Direito —urbano, de propriedade etc.) para utilizá-los, na medida do possível, em seu proveito, aproveitando brechas e contradições; estabelecer “territórios dissidentes”, apoiados por redes logísticas e de solidariedade política; produzir um contradiscurso técnico e político (alternativo ao discurso estatal) a propósito de problemas como o déficit habitacional, as disparidades infraestruturais, o transporte urbano etc. O planejamento e a gestão urbanos “de resistência” ou “insurgentes” seriam um planejamento e uma gestão críticos efetivamente impulsionados de baixo para cima (portanto, como algo mais muito profundo e radical que iniciativas de governos ditos progressistas, no estilo dos esquemas de planejamento e gestão participativos implementados nos marcos de conjunturas favoráveis). Por meio de esforços como os mencionados fica evidente, em alguns casos, que, ainda que operem com pressupostos e uma margem de manobra muito diferentes do planejamento e da gestão promovidos pelo Estado (e, na era do “empresarialismo urbano”, cada vez mais diretamente pelo próprio capital privado), já que as organizações da sociedade civil não dispõem das prerrogativas legais e dos recursos econômicos e institucionais à disposição do Estado para gerir e planejar o uso do solo, as ações protagonizadas pelos movimentos admitem ser compreendidas como sendo muito mais que puramente reativas ou “reivindicatórias”.
Não obstante, autogestão e horizontalidade não são características tão disseminadas assim entre as organizações de movimentos sociais brasileiros, apesar de serem bem mais presentes hoje em dia do que, digamos, há vinte anos. Em seu admirável livro La mirada horizontal, o intelectual e ativista uruguaio Raúl Zibechi reconhece, tomando como exemplo o movimento dos sem-terra brasileiro e, em especial, a sua principal organização, o MST, que “[e]s imposible que un movimiento represente la negación absoluta, la inversión total, de la sociedad en la que está inmerso” ["é impossível um movimento representar a negação absoluta, a inversão total, da sociedade onde está mergulhado"] (ZIBECHI, 1999:82). “Como todos los movimientos sociales, el de los Sin Tierra combina aspectos que niegan la sociedad capitalista actual con otros que la reproducen.” ["Como todos os movimentos sociais, o dos Sem Terra conjuga aspectos que negam a sociedade capitalista actual com outros que a reproduzem"] (ZIBECHI, 1999:82) E mais: “[c]iertamente, en el MST conviven también aspectos de la vieja cultura política, que se traducen en estilos organizativos similares a los que predominan en los partidos de la izquierda” ["é certo que no MST convivem também aspectos da velha cultura política, que se expressam em estilos de organização semelhantes aos que predominam nos partidos de esquerda"], problema que “es más visible en los estratos superiores de las direcciones” ["é mais visível nas camadas superiores das direcções"] (ZIBECHI, 1999:84).
Apesar disso, Zibechi assinala, e com razão, a grande importância do MST e o desafio representado por “un mundo nuevo en el corazón del viejo” ["um mundo novo no coração do velho"] (ZIBECHI, 1999:81). A provocação que se deseja realizar nesta altura do artigo tem a ver, contudo, com o outro aspecto: o “velho” no “coração” do “novo”. Ou seja: estilos centralistas e hierárquicos de mobilização, arregimentação e organização.
Não que formas descentralizadas e horizontais de organização sejam propriamente uma novidade histórica; basta pensar nos grupos e movimentos de espírito autogestionário que surgiram ao longo do século XX, para não falar da tradição especificamente anarquista, que remonta ao século XIX. Ocorre que, especialmente no século passado, o leninismo e seu “centralismo democrático” foram hegemônicos. Depois da Guerra Civil Espanhola, os anarquistas passaram a ter uma presença politicamente residual, mesmo em países onde até os anos 1930 (ou, pelo menos, até o começo do século XX) eles haviam sido fortes; organizações políticas marxistas de tipo não-leninista e basicamente horizontais (como os conselhos operários dos anos 1920 e 1930) foram nada mais que exceções; e certos grupos de intelectuais e militantes autogestionários que surgiram após a Segunda Guerra, como o francêsSocialisme ou Barbarie (1948-1967), raramente passaram de pequenos agrupamentos de dissidentes, a despeito de sua influência episódica sobre alguns movimentos sociais. O “novo”, portanto, parece continuar a ser mesmo a autogestão, a horizontalidade  —  até porque, sem uma crítica profunda e maciça da herança do “socialismo real” (e não só do stalinismo, mas sim do bolchevismo tout court), é difícil imaginar como se poderá gestar uma alternativa radical ao capitalismo. Vale dizer: uma alternativa que não corra, de partida, o sério risco de reproduzir uma trágica farsa histórica como foi aquela do “socialismo burocrático”  —  tão tributário, no fundo, do imaginário capitalista.
Olhando para os movimentos sociais urbanos do Brasil atual e suas organizações, em algumas, porém, parece de fato existir uma nítida disposição para se proceder a uma crítica radical e “pela esquerda” do bolchevismo e do que ele representou. A bem da verdade, já há, aliás, organizações que encarnam conscientemente, em maior ou menor grau, esse projeto. É bem verdade que isso ainda está longe, muito longe de ser um espírito generalizado. Incorporar esse espírito pode ser considerado como um dos mais importantes desafios para os ativistas brasileiros. Entretanto, também é inegável que precisamente a atual onda de protesto urbano, iniciada e puxada por uma organização, o MPL, comprometida com princípios nitidamente libertários (horizontalidade, autogestão, autonomia e apartidarismo), mostra que estilos descentralizados e radicalmente democráticos de organização e protesto começam a ameaçar seriamente a predominância e a hegemonia dos estilos centralizadores e (quase-)bolcheviques. O que, evidentemente, não significa que estejam a ponto de reverter a correlação de forças conservadora atualmente observável no Brasil.
Um outro desafio para os ativismos contemporâneos refere-se, especificamente no que concerne aos ativismos urbanos, ao problema de organizar e mobilizar os trabalhadores informais. Na era da globalização e do processo eufemisticamente denominado de “reestruturação produtiva”, o sistema capitalista cessou de, nos países centrais, poder “incluir” e “integrar” quase todos os trabalhadores ao mundo do consumo. Pelo contrário: ele passou a expelir ou a não incluir uma crescente parcela da população do mercado de trabalho formal, especialmente entre os jovens. Distante do quadro comparativamente muito melhor dos três decênios que vão do período imediatamente posterior ao fim da Segunda Guerra até meados dos anos 1970 (época apelidada, com notável exagero, de os “treinte glorieuses” ["trinta gloriosos"), a situação a que hoje assistimos é a de um desemprego em massa, de “precarização” das relações de trabalho e de erosão do welfare state [Estado de bem-estar social] nos países centrais, e de “hiperprecarização” do trabalho nos países da (semi)periferia. Nestes, como o Brasil, desde sempre familiarizados com altas taxas de subemprego, muitas vezes cresce também o desemprego aberto; e o desde sempre precário mundo do trabalho precariza-se, em parte, ainda mais. Como se isso não bastasse, o deficiente papel do Estado como provedor de serviços e bens públicos como saúde e educação torna-se ainda mais limitado.
Em um cenário em que o “mundo do trabalho” implode e um elevado número de pessoas em idade de trabalhar é condenado ao desemprego crônico e ao subemprego, algumas organizações de movimentos sociais têm sabido ir muito além dos limites postos no âmbito da participação por meio de canais oficiais e da luta institucional (embora esses canais e essa luta, sabiamente, nem sempre sejam desprezados), protagonizando práticas de ação direta nas quais a dimensão espacial é muito forte e, de certo modo, definidora de estratégias e identidades. Em meio a processos de territorialização, relações sociais (re)articulam-se, vinculadas a uma tentativa de resistir às forças e aos efeitos desagregadores do capitalismo (semi)periférico, em particular no momento do parcial “desmonte” dos Estados nacionais.
São muitas as práticas espaciais urbanas associadas a essas formas de resistência, e elas variam, de país para país e de cidade para cidade, tanto em intensidade quanto em qualidade. Abrangem, por exemplo, afrontas à propriedade privada do solo e dos bens imóveis, por meio de ocupações de terrenos e prédios ociosos; compreendem, também, a constituição de circuitos econômicos alternativos ao mercado capitalista (no estilo “cantinas populares”, cooperativas e gestão de fábricas falidas pelos próprios trabalhadores); englobam, por fim, mas não com menor ênfase, investimentos e avanços simbólico-culturais em matéria de teias de sociabilidade promotoras de solidariedade e coesão, processos de conscientização e formação política e estímulo ao desenvolvimento de práticas culturais críticas e emancipatórias.
Isso tudo, e mais o fato de que não é mais possível sustentar, sem afastar-se da realidade, uma centralidade do “proletariado” em sentido tradicional como “sujeito da história”, devido à acomodação política do operariado formal (redução do movimento operário a um ativismo sindical de tipo corporativista), coloca o problema de que, hoje, os movimentos sociais precisam fazer face à necessidade de articular atores sociais distintos, entre eles o “hiperprecariado” (que os marxistas costumam, pejorativamente, chamar de “lumpemproletariado”), os subempregados, os desempregados crônicos. (Isso para não falar de outras agendas, não diretamente remissíveis ou redutíveis à esfera da produção, mas que também têm orientado e galvanizado fundamentais lutas sociais: a luta contra o racismo, a luta contra o machismo e a opressão de gênero, a luta contra a homofobia, e assim sucessivamente.) Até que ponto isso é possível? Até que ponto um universo marcado pela hiperprecarização e pela fragmentação econômica é passível de auto-organização “revolucionária”?… Os piqueteros argentinos constituem um exemplo muito interessante para ser levado em conta, para efeitos de comparação com o caso brasileiro  —  tanto por suas conquistas quanto por seus limites. E, no tocante aos seus limites, é seguro que a situação brasileira é ainda mais difícil, em alguns sentidos (escolarização e nível de informação). Na Argentina trata-se, em grande parte, de ex-operários formais que se tornaram desempregados; no Brasil, dos descendentes de gerações de trabalhadores subempregados e em condições de grande precariedade.
Diante desse quadro de fragilidades, o governo Lula apressou um processo de divisão e enfraquecimento político dos ativismos urbanos. Na verdade, esse processo desdobra, com o peso da atuação em escala nacional de instituições do Governo Federal ou por ele influenciadas, uma tendência que já vinha da década anterior: a da “amarração” ou do “atrelamento” da sociedade civil às dinâmicas e agendas de esquemas participativos oficiais (basicamente ou largamente government-sponsored [subsidiados pelo governo]) de participação popular, no estilo “orçamentos participativos”. Vale a pena, antes de prosseguir com a análise das lutas urbanas, analisar brevemente esse tipo de “apelo à participação”.
Notas
[1] Para relembrar, eis os trechos: “Gigante pela própria natureza, / És belo, és forte, impávido colosso, / E o teu futuro espelha essa grandeza. (…) Deitado eternamente em berço esplêndido, / Ao som do mar e à luz do céu profundo, / Fulguras, ó Brasil, florão da América, / Iluminado ao sol do Novo Mundo!” ([Trechos do] Hino Nacional Brasileiro, de Francisco Manuel da Silva e Joaquim Osório Duque Estrada).
[2] Textualmente: “(…) que fazer e como fazer para que cada etapa de um processo de emancipação, por seus resultados, torne mais fácil, e não mais difícil, a participação política na etapa seguinte?” (CASTORIADIS, 1990:181).
[3] Um rápido esclarecimento conceitual: enquanto determinados autores reservam a expressãomovimento social (mouvement social [fr.], social movement [ing.], soziale Bewegung [al.], movimiento social[esp.]) para um tipo particularmente crítico de ação coletiva, outros autores a têm utilizado de maneira indiscriminada, fazendo-a englobar tanto realidades como associações de moradores de tipo clientelista e/ou “paroquial” quanto movimentos sociais que visam explícita e conscientemente a transformações sócio-espaciais profundas  -  e, às vezes, até mesmo formas de ação coletiva como quebra-quebras e saques. O autor do presente texto se inscreve na primeira tradição. Desde meados dos anos 80, venho propondo que se distinga conceitualmente entre, de um lado, ativismos sociais em geral (tipo de ação coletiva caracterizado, diferentemente de quebra-quebras e saques, por uma duração não efêmera  -  tipicamente, anos, podendo chegar a décadas  -, e, em contraste com lobbies, por ações e protestos públicos), e, de outro lado, movimentos sociais em sentido estrito (que seriam uma modalidade particularmente crítica e ambiciosa de ativismo social). Enquanto muitos ativismos são meramente “paroquiais”, (auto)limitados ao encaminhamento de reivindicações pontuais, aqueles que podem ser qualificados como “verdadeiros” movimentos têm por características a articulação de demandas específicas com questionamentos mais profundos, relativos a problemas regionais, nacionais e internacionais, e a construção de pontes entre a análise de conjuntura e a leitura de problemas estruturais. Os movimentos sociais, por conseguinte, são tidos na conta de um subconjunto de um tipo mais amplo de ação coletiva, os ativismos sociais. Sobre essa discussão conceitual, ver mais detalhes (inclusive a propósito de sua conveniência mas, ao mesmo tempo, de seus limites), por exemplo, em SOUZA (2006:273 e segs.). Quanto ao presente artigo, mesmo sendo os movimentos sociais strictu senso o seu principal objeto de interesse,às vezes tive de fazer referência aos ativismos em geral, por razões de lógica e/ou prudência.
[4] É claro que isso varia um pouco (e às vezes até bastante) de acordo com a cidade e, também, com o ativismo ao qual nos estejamos referindo. Se, em São Paulo, foi no início da década de 70 que “novos personagens entraram em cena”, para recordar o título do importante livro de Eder SADER (1995), no Rio de Janeiro o ativismo favelado experimentou, nos anos 60, um primeiro grande momento de efervescência e criatividade, lutando contra as remoções de favelas e propondo ou reapresentando, como alternativa, a urbanização destas (ver, sobre isso, SANTOS, 1981:32 e segs.). De um modo geral, entretanto, por causas variadas, o período de mais ou menos dez anos acima mencionado pode ser considerado, em escala nacional, como o “grande momento” dos ativismos urbanos organizados com base em bairros, loteamentos e favelas. Foi o momento, por exemplo, em que se criaram as principais federações municipais ou estaduais de associais de moradores, e também o período em que os protestos e as reivindicações dessas organizações alcançou maior visibilidade pública.
Referências bibliográficas
CASTORIADIS, Cornelius (1983 [1979]): Introdução: Socialismo e sociedade autônoma. In: Socialismo ou barbárie  −  O conteúdo do socialismo. São Paulo: Brasiliense.
———- (1990): La révolution devant les théologiens. In: Le monde morcelé-  Les carrefours du labyrinthe III. Paris: Seuil. [Edição brasileira: A revolução diante dos teólogos. In: As encruzilhadas do labirinto III  −  O mundo fragmentado. São Paulo, Paz e Terra, 1992.]
LERRER, Débora (2003): Reforma agrária: Os caminhos do impasse. São Paulo: Garçoni.
SADER, Eder (1995 [1988]): Quando novos personagens entraram em cena. Experiências e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo, 1970-1980. São Paulo e Rio de Janeiro: Paz e Terra, 3.ª reimpressão.
SANTOS, Carlos Nelson Ferreira dos (1981): Movimentos urbanos no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Zahar.
SOUZA (2006): A prisão e a ágora. Reflexões sobre a democratização do planejamento e da gestão das cidades. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
ZIBECHI, Raúl (1999): La mirada horizontal. Movimientos sociales y emancipación. Montevidéu: Nordan-Comunidad.
———- (2003): Genealogía de la revuelta. Argentina: la sociedad en movimiento. Buenos Aires e Montevidéu: Letra libre e Nordan-Comunidad.
Nota sobre o autor
Marcelo Lopes de Souza é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Ilustrações: obras de Kazimir Malevitch.

Uma guerra particular

A socióloga Vera Malaguti Batista alerta para o risco da expansão do "Estado policial" e da gestão militar da vida dos pobres

Fabiano Rocha / Extra / Ag. O Globo
Protesto no Rio de Janeiro
A polícia segue a lógica da guerra e da ocupação de territórios inimigos, avalia especialista
Os espetáculos de truculência e despreparo das polícias estaduais na repressão às manifestações, somados à barbárie cotidiana nas favelas e periferias das grandes cidades, fizeram ressurgir a bandeira da desmilitarização das polícias. Uma proposta muito distante da realidade, lamenta a socióloga Vera Malaguti Batista, secretária-geral do Instituto Carioca de Criminologia e professora da Universidade Cândido Mendes. Antes disso, sugere a especialista, é preciso interromper é a expansão do chama de “Estado de polícia”. “Precisamos parar de acreditar que vamos resolver os problemas do Brasil com mais polícia e repressão”, diz Batista, organizadora do livro Paz Armada, Criminologia de Cordel, lançado em 2012 pela Editora Revan. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.
CartaCapital: Como a senhora avalia o comportamento das polícias durante os protestos do último mês?
Vera Malaguti Batista: A polícia se comportou como costuma se comportar. Só que dessa vez o alvo da truculência era diferente, o público era outro. Os manifestantes eram, em sua maioria, jovens de classe média e brancos. Cada vez que um ônibus é incendiado na favela, o episódio é tratado pela mídia como um ato de vandalismo ou terrorismo. Mas por trás daquele veículo em chamas, quase sempre há um episódio anterior de violência policial, um assassinato. Trata-se de uma forma de protesto desesperada. A classe média se deparou nas ruas com uma forma de atuação policial normalmente dirigida aos pobres, aos moradores de bairros periféricos. Não há nada de novo.

CC: O que explica essa cultura da truculência?
VMB: O coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, comandante da PM do Rio de Janeiro nos dois governos de Leonel Brizola e assassinado em 1999, dizia que o trabalho policial no Brasil ficava entre o saber jurídico e o saber bélico. Este último está subordinado à lógica das Forças Armadas, na qual o objetivo de uma ação é sempre conter ou eliminar um inimigo. Mas as técnicas e os métodos de policiamento deveriam ter um corpo teórico à parte, o mais afastado possível do paradigma bélico. Não estamos em guerra tampouco enfrentando inimigos nas ruas. A questão central é: a quem a polícia deve servir? Nos Estados Unidos, Itália, França, Alemanha, Cuba, as técnicas e métodos da polícia compõem um corpo teórico bastante distinto da teoria bélica. Há manuais internacionais de controle de distúrbios, discussões sobre o uso legítimo e o uso excessivo da força, padrões de abordagem.

CC: E no Brasil?
VMB: Aqui, a lógica é outra: ocupação do território inimigo. Na medida em que a criminalidade foi caminhando para o centro da política e a mídia começou a criar certa histeria nacional, as pessoas passaram a aceitar como normais e depois a aplaudir ações de guerra. Os mesmos cidadãos que criticavam a violência da ditadura passaram a justificar certos abusos da polícia no regime democrático. A ordem é partir para cima de qualquer forma. Se o policial matar, não tem galho. Registra o homicídio como auto de resistência. Ao mesmo tempo, de forma maluca, há uma expansão do número de policiais. Outro dia vi o governador do Rio, Sergio Cabral, todo orgulhoso dizendo que ele colocou nas ruas 6 mil novos policiais por ano, enquanto no passado não passavam de 500 por ano. Eu considero isso uma notícia apavorante. É o que eu chamo, no meu livro, de Estado de polícia. Mas a classe média ainda não se deu conta disso.

CC: Em recentes protestos na periferia de São Paulo e no Complexo da Maré, no Rio, alguns cartazes alertavam: “A polícia que reprime na avenida é a mesma que mata na favela”.
VMB: Tome o exemplo do massacre na Maré. A ação de meia dúzia de pequenos traficantes e a morte de um sargento do Bope, a tropa de elite da polícia fluminense, deu uma espécie de carta de carta branca para a polícia promover uma chacina na favela. Isto, sim, foi uma verdadeira ação terrorista. Revela um despreparo total, uma tropa enlouquecida, disposta a tudo. E a mídia incentiva este tipo de postura. Cria slogans como “combate ao crime”, “guerra às drogas”, “batalha contra o crack”. Hoje, São Paulo tem um efetivo de 100 mil policiais. O Rio tem mais de 60 mil. Todos os anos, os diferentes governos jogam nas ruas milhares de trabalhadores armados com pouca ou nenhuma formação. E há uma enorme plateia aplaudindo essa política, demandando mais truculência. Um dos grandes equívocos dos governos do PT foi ter permitido, e até incentivado, a expansão do Estado de polícia. Como diz o historiador Joel Rufino dos Santos, o que precisamos ser: guardiões da ordem ou dos direitos humanos?

CC: Ter mais policiais nas ruas é um problema?
VMB: Sem preparo, sim. É preciso pagar melhores salários, melhorar a formação dos policiais. Aquele homem fardado, no meio de uma multidão enfurecida, adestrado para a guerra e sem saber como lidar com civis, também vive um grande dilema.

CC: É o caso de levantar a bandeira da desmilitarização da polícia, como alguns manifestantes têm sugerido?
VMB: Estamos tão distantes disso... A primeira coisa que precisamos interromper é a expansão do Estado de polícia. Parar de acreditar que vamos resolver os problemas do Brasil com mais polícia e repressão. Esse é o consenso da sociedade hoje. Precisamos de muitas prisões, penas mais duras para os criminosos. Em algum momento essa política de encarceramento em massa vai ruir, não tem como se sustentar. Antes de colocar mais policiais nas ruas, é preciso repensar o que queremos. Viver num Estado de polícia ou num Estado de direito? São coisas antagônicas. Como ressalta o jurista argentino Eugenio Raúl Zaffaroni, ‘o estado de direito é concebido como o que submete todos os habitantes à lei e opõe-se ao estado de polícia, onde todos estão subordinados ao poder daqueles que mandam’. Hoje, não tenho dúvidas de que vivemos neste segundo cenário.

CC: A senhora é uma crítica ferrenha das Unidades de Polícia Pacificadora no Rio, que contam com ampla aprovação da população, segundo pesquisas. O que há de errado no modelo?
VMB: É um projeto de alta concentração de forças militarizadas em áreas pobres. Se fosse um programa para a segurança pública do Rio de Janeiro, ele não poderia ser direcionado só para as favelas. A UPP é uma gestão policial da vida dos pobres. Transforma a polícia como principal política pública, acima de todas as outras. Não vejo dessa forma. As pessoas se sentem seguras quando têm transporte, alimentação, limpeza urbana. Além disso, esse modelo de controle territorial está inserido num paradigma bélico. Segurança pública não é guerra tampouco disputa territorial. A UPP parece uma invenção de Sergio Cabral ou do seu Secretário de Segurança Pública, mas o modelo foi testado em outros lugares do mundo e fracassou. O projeto foi vendido aqui como panaceia, uma espécie emplastro Brás Cubas, destinado a curar todos os males da humanidade, nos delírios do célebre personagem de Machado de Assis.

CC: Onde mais esse modelo foi adotado?
VMB: Em Medellín, os pesquisadores do Observatorio de Seguridad Humana têm uma série de estudos e estatísticas que revelam os equívocos desse modelo de ocupação militarizada em áreas pobres da Colômbia. O geógrafo Milton Santos ressalta que a aposta na “recuperação de territórios” remete ao conceito bélico norte-americano e israelense de ocupação de territórios estrangeiros. Sim, porque os governos dos Estados Unidos e de Israel não têm coragem de impor esse mesmo modelo dentro de casa, para a sua própria população.

CC: Vende-se a ideia de que a UPP é um modelo de policiamento comunitário.
VMB: UPP não é policiamento comunitário, é uma tomada de território por forças militarizadas. Algo muito semelhante ao que ocorre na Palestina, no Iraque, no Afeganistão. O coronel Nazareth Cerqueira foi um dos primeiros a implantar o policiamento comunitário na América Latina nos anos 1980. O projeto tinha no horizonte a ideia de o policial estar próximo, mas não metendo o pé na porta. O oficial deveria ser acessível, próximo para atender às demandas da população. Mas nunca para impor sua disciplina, o protagonista era a população.

CC: O que é a vida em uma favela “pacificada”?
VMB: O tipo de atuação policial que se faz nas favelas ocupadas pela polícia no Rio só poderia ser feita na zona sul da cidade caso o governo decretasse “estado de sítio”. Há toques de recolher, abordagens ostensivas, invasão de domicílios sem mandado judicial, a proibição de tudo. Os moradores do morro do Cantagalo costumam reclamar que os bares de Ipanema ficam abertos a noite toda, mas as biroscas da favela têm horário para fechar. Para fazer uma festa em casa, o morador de lá tem de pedir autorização. Se fosse uma experiência de policiamento comunitário, como cinicamente costumam dizer, as intervenções deveriam ocorrer em todo o bairro de Copacabana, não apenas nas favelas dali.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Por que grandes empresários se aliaram a manifestantes e imprensa cobriu protestos de forma ufanista?



Em setembro de 2011, centenas de norte-americanos ocuparam uma praça de Wall Street, centro financeiro da maior economia mundial, para apontar para o 1% mais privilegiado da população, que eles eram os 99% que os sustentavam. E que não estavam mais dispostos a fazê-lo.
Na maior das manifestações ocorridas em São Paulo, o prédio da poderosa Federação das Indústrias na avenida Paulista foi colorido com uma estilizada bandeira brasileira e se tornou parceiro e paisagem dos protestos.
Quando os indignados saíram às ruas na Espanha, foram as redes sociais que serviram de aglutinação e ao mesmo tempo relatavam as manifestações do 15-M em busca da Democracia Real, esvaziadas e distorcidas na imprensa.
No Brasil, apesar de uma tentativa inicial de criminalização, poucos eventos acabaram por merecer uma cobertura tão extensa e em certos momentos até panfletária da grande mídia.
O que fez com que grandes empresários pudessem se aliar aos manifestantes e a imprensa cobrisse os protestos de forma assim ufanista?
Foi o mesmo que motivou a classe média mais tradicional a abandonar sua atávica repulsa a movimentos sociais e atropelar os protestos que nasceram pela revogação do aumento da tarifa.
A crítica se pulverizou toda ela no processo político –poupando agentes e estruturas econômicas responsáveis, em grande parte, pela sua deterioração.
Indignados espanhóis e ocupantes norte-americanos também fizeram mordazes críticas à falta de legitimidade da democracia representativa.
Mas o que expunham era justamente o fato de que os políticos, que deviam representar a vontade da população que os elegera, haviam capitulado frente aos grandes interesses financeiros.
Não à toa, os norte-americanos ignoraram a Casa Branca, o Capitólio ou outras sedes de governo no simbolismo de seu protesto. Foram a Wall Street, onde entendiam se resolver os verdadeiros problemas da política.
Os indignados espanhóis se sentaram nas praças para criticar o bipartidarismo e não para pedir a substituição de um partido por outro. Tinham como um de seus principais slogans: “Não somos marionetes nas mãos de políticos e banqueiros”.
Por aqui, tivemos duas marcas distintas e ao mesmo tempo reveladoras da onda de manifestações.
A primeira é que a repulsa aos partidos não se limitou à autonomia da manifestação, mas beirou o ódio em algumas delas, sugerindo-se que, numa espécie de pátria unida, a bandeira do Brasil pudesse substituir a das legendas, álibi para a agressão de vários militantes.
A outra é que depuramos completamente o substrato econômico da crítica.
Nas limitações cada vez mais explícitas da democracia no capitalismo, questionou-se apenas o processo político. Excluímos da pauta a crítica à forte concentração econômica, possivelmente um dos fatores mais importantes de seu vício.
Isso teve consequências nos primeiros resultados pragmáticos.
A tarifa baixou para os usuários, mas não a remuneração dos empresários do transporte.
De uma manifestação que se iniciou com a libertária bandeira de uma vida sem catraca, os sinais que emergem no Congresso apontam paradoxalmente para o fortalecimento do tônus da repressão.
Afinal, a maioria dos manifestantes não estava mesmo indignada com a desigualdade social –em relação à qual, aliás, alguns fazem mais parte do problema que da solução- e sim com os absurdos do “país da impunidade”.
Não à toa, a disparidade entre as balas de borracha que feriram nas avenidas e as de chumbo que mataram na favela provocaram tão pouca indignação.
Afinal, quando se trata de repressão e impunidade, sempre há um condimento seletivo.
É sintomático que os senadores tenham decidido tornar a corrupção crime hediondo, mas não pensaram no mesmo modelo para a sonegação fiscal, que desvia ainda mais recursos da educação e saúde, trending topics dos cartazes de protesto.
Segundo a proposta aprovada no Senado, até o excesso de exação, a cobrança dolosa e excessiva de tributo, pode virar crime hediondo. Mas a supressão premeditada do imposto, a sonegação, vai continuar sendo resolvida apenas com o pagamento atrasado dos encargos.
Excluindo o capital da crítica, o movimento corre o risco se limitar a criminalizar a política e os políticos, centrando os olhos da repressão nos agentes públicos. Como, aliás, é a tônica dos movimentos anticorrupção apoiados pela mídia. Corruptores são sempre tratados como vítimas.
A insatisfação coletiva mostra que é mesmo necessário encontrar mecanismos de permeabilidade da vontade social.
Mas, sobretudo, que é preciso defender o que é público da ganância dos interesses privados, atualmente, em todo o mundo, com maior força do que o próprio poder estatal. O mercado não disputa eleições, é verdade, mas influencia a todos que se elegem.
É gratificante que as pessoas queiram tomar as rédeas do poder de seu país.


Mas devem compreender, efetivamente, quem as impede

Fonte:http://blog-sem-juizo.blogspot.com.br/

terça-feira, 2 de julho de 2013

Impasse - um documentário sobre as manifestações contra o aumento da tarifa do transporte coletivo.


Impasse (Documentário Completo - Original) from Doc Dois on Vimeo.

Impasse é um documentário sobre as manifestações contra o aumento da tarifa do transporte coletivo. Foi produzido em Florianópolis em 2010. Além de cenas que não foram exibidas em nenhuma tevê, incluindo flagrantes de violência policial, Impasse revela o que pensam usuários,empresarios e representantes dos governos municipal e estadual. 
O documentário aborda, ainda, o Projeto Tarifa Zero, principal bandeira do Movimento Passe Livre 
• Saiba mais em docdois.com.br 
• Produção, direção e roteiro: Juliana Kroeger e Fernando Evangelista 
• Edição: Juliana Kroeger 
• Finalização: Lucas Barros 
• Edição de áudio: Nicolau Varela 
• Imagens: Fernando Evangelista 
• Imagens Adicionais: Carlos Cazé, Hans Denis Schneider, Juliana Kroeger, Karem Kilim, Silvestre Lacerda 
• Comissão de Edição: Carlos André dos Santos, Fabrizio Reis Luciani, Luiza Bodenmüller, Marino Mondek, Vinícius Possebon

Reflexão sobre a Revolta Popular e os Rumos das Lutas - Zona Sul


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Depois da Rede Globo e do moralismo

http://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2013/06/130628-GloboB.jpg


Iniciativas dos movimentos sociais conseguiram superar tentativa de capturar manifestações. Mas para ir adiante, será preciso esforço interpretativo intenso.

Por Alex Moraes

A grande jogada da mídia corporativa brasileira foi ter conseguido nacionalizar a seu bel prazer os protestos que vinham ocorrendo em diferentes cidades do país há meses. Nacionalizar no sentido de apresentá-los como algo que, supostamente, expressava um conjunto difuso e generalizado de insatisfações. A infiltração da Rede Globo na convocação dos protestos abriu as portas das ruas para a mesma classe média moralista que, há pouco mais de meia década, apoiada pela retaguarda oligárquica, tentara promover uma onda golpista contra o governo de Lula.

O relativo êxito inicial da estratégia da rede Globo e de todos os grandes jornais do país nos obriga a pensar na enorme contradição representada pela atual estrutura midiática e nos seus efeitos nefastos quando se trata de reivindicar o aprofundamento da democracia e da participação popular. Referida contradição pode expressar-se nos seguintes termos: do ponto de vista administrativo, o Brasil possui um arraigado federalismo caracterizado por enormes singularidades políticas locais; do ponto de vista social e cultural, o grau de articulação dos movimentos populares, suas redes de alianças e suas demandas — assim como os impactos específicos do capitalismo desenvolvimentista — mudam de forma substantiva em cada região ou localidade. No entanto, continuamos expostos a um sistema de informação hiper-concentrado sob todos os aspectos (geográfico, econômico, político). Não podemos sobrevalorizar o papel das mídias alternativas e das redes sociais nesse contexto. Sua capacidade de desbloqueio da informação e de produção de outros pontos de vista é ainda bastante limitada — mesmo que crescente — e não joga um papel decisivo sobre a informação de massas.

Interpelados pela escalada conservadora, os movimentos sociais mais representativos articularam uma contra-ofensiva. Convocados por João Pedro Stédile (do MST), reuniram-se em São Paulo na semana passada para estabelecer princípios gerais de articulação. Saíram do encontro comprometidos com pautar as manifestações de rua e estabilizar um conjunto de demandas sintonizadas com os processos de luta historicamente gestados no campo popular: reforma agrária, reforma urbana, reforma política, ampliação radical dos investimentos em educação pública, etc. Na primeira grande manifestação desta semana, ocorrida segunda-feira, em Porto Alegre, os efeitos da presença progressista se fizeram notar: “Que paguem os ricos” dizia a enorme faixa à frente da marcha. Detrás dela era possível divisar dezenas de bandeiras de partidos políticos da esquerda, de sindicatos, e grupos libertários. Não estiveram ausentes as críticas abstratas à corrupção e algum ufanismo, mas sua capacidade de expressão reduziu-se bastante em comparação com situações anteriores.

Os grandes meios de comunicação omitem, mas o conflito entre esquerdas e direitas está posto nas ruas. Ele é um dos elementos dinamizadores do debate político em torno aos protestos atuais. Não seria demasiado otimismo afirmar que a cooptação midiática fracassou em seus objetivos estratégicos iniciais. A disputa de ideias está aberta e o debate ideologizou-se à revelia do hino nacional e das bandeiras verde e amarelas. Esta emergente batalha de ideias complexifica bastante o cenário atual. Por um lado, é necessário disputar nas ruas a hegemonia sobre as marchas, pois ali se encontra a única esfera pública massiva ao alcance da ação política transformadora. Por outro lado, é preciso levar adiante um esforço interpretativo que nos permita recolocar os termos do diálogo e das reivindicações. Para cumprir com o segundo objetivo, devemos começar desmontando alguns “a priori” paralisantes, instilados pelos discursos midiáticos na análise do processo político vigente. Os dois tópicos seguintes são uma contribuição neste sentido.

1) Os protestos não se espalharam do centro para o resto do país.

Esta é a interpretação típica dos grandes jornais e vem sendo comprada por alguns jornalistas de esquerda, como Eric Nepomuceno, que faz a cobertura da situação no Brasil para o jornal argentino Página 12. Para as grandes redes de televisão com sede em Rio e São Paulo não resta a menor dúvida de que as coisas se deram mais ou menos assim: poucos milhares saem às ruas num dia e sofrem forte repressão policial; jornalistas são agredidos; as marchas se massificam e o resto do Brasil copia. Qual o risco de adotarmos tal ponto de vista? Podemos cair na armadilha das “demandas difusas”, do gigante recém-desperto e confuso que precisa ser “aconselhado”. Perdemos, então, nossa capacidade de auto-enunciação, de falar por nós mesmos. Basta ter um pouco de boa vontade para constatar que, pelo menos desde o ano passado, vicejam lutas sociais em todas as grandes cidades brasileiras. Tais lutas denunciaram muitas das mazelas que, hoje, são escancaradas nas manifestações multitudinárias. A crítica dos impactos violentos das obras da Copa sobre a vida das classes populares tem sido difundida de forma constante e progressiva pelos Comitês Populares da Copa; a “higienização” das cidades e a privatização dos espaços públicos também foi o eixo de outros tantos protestos, como a derrubada, em vários pontos do Brasil, do mascote da Copa do Mundo. Em Porto Alegre, por exemplo, a “queda do Tatu Bola” em 2012 desatou uma repressão policial indiscriminada com direito a quebra de câmeras fotográficas e agressão física de vários jornalistas. A respeito do preço dos transportes, o Movimento Passe Livre e outros blocos de luta estavam nas ruas desde muito antes das recentes manifestações em São Paulo. Estes coletivos, formados por estudantes secundaristas e universitários, já haviam conseguido reverter o aumento da passagem em diferentes cidades, algumas delas capitais. Naturalmente os processos sociais têm seus ápices de expressão e isto depende de vários fatores conjunturais. A violência policial em São Paulo, muito visibilizada midiaticamente, sem dúvidas facilitou a difusão nacional das demandas por melhorias no transporte coletivo. Não é possível dizer, contudo, que a posterior “interiorização” dos protestos consistiu em mera cópia do movimento paulista. Seria mais pertinente pensá-la como a proliferação de demonstrações públicas de solidariedade que souberam aproveitar-se do momento favorável para veicular propostas políticas locais. Claro, as classes médias “globalizadas” também deram as caras; mas sem conseguir opacar o caráter visceral e o potencial transformador que os protestos deixavam antever.

2) Não existe um “movimento nacional”. Trata-se da emergência conjunta de exigências específicas, localizadas e por vezes conflitantes.

Não estamos defrontados com uma espécie de “corrente nacional”, algo do tipo “todo o Brasil deu a mão”. Esta é a visão daqueles que não vivem cotidianamente as mazelas e clivagens excludentes engendradas pelos contextos urbanos brasileiros; é o ponto de vista de determinado setor da classe média completamente desprovido de um discurso crítico, arraigado em contradições sociais concretas. Para essa classe média, é muito fácil negligenciar as demandas locais e falar da “nação descontente”, como se se tratasse de um coletivo abstrato, unificado em torno de algumas exigências supostamente gerais, mas que na verdade só descrevem o limite de consciência e imaginatividade característico dos grupos dominantes. Quando contingentes significativos da população aproveitam o atual momento de visibilidade pública das ruas para denunciar a violência policial, exercer participação social, sinalizar os limites do sistema representativo atual e exigir, ao fim e ao cabo, dignidade, não estamos falando de coesão, mas sim de contradição. Estes são sintomas de diferenças irreconciliáveis no marco da presente ordem econômica e política. Desmontar a falácia de “um só povo” (a “cadeia nacional”) e resgatar a profundidade das consignas enraizadas na experiência vivida de pessoas concretas demanda que regressemos ao nível local, às nossas próprias cidades e bairros em busca daquilo que foi suprimido pelo discurso midiático em seu afã por nacionalizar — e cooptar — o descontentamento popular.

A democracia brasileira está sendo reaberta a cotoveladas no meio de uma chuva de bombas de gás. Só seremos povo, só poderemos falar em “todos nós” quando — para retomar a consigna zapatista – o acesso à cidadania for generalizado, quando tenhamos incorporado na vida pública aquelas experiências de sociedade, aqueles sofrimentos e angústias cuja relevância política encontra-se postergada. A primeira grande vitória discursiva dos setores populares nestes protestos foi ter deixado bem claro que as “vozes das ruas” precisam ser escutadas antes das vozes do poder econômico estabelecido. Agora trata-se de enunciar necessidades e urgências em termos transformadores, definir quais são essas vozes e quem é o “povo”, evitar a domesticação do discurso, negar as soluções fáceis que só reiteram o poder das instituições de sempre, sem jamais colocá-las em xeque a partir de outras formas de imaginar o futuro.