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domingo, 30 de dezembro de 2012
domingo, 23 de dezembro de 2012
Carlos Moore desconstrói senso comum sobre o racismo
Carlos Moore, um dos mais importantes intelectuais negros da atualidade, veio à Curitiba no último dia 11 de dezembro para relançar o livro Racismo e Sociedade - Novas Bases Epistemológicas para entender o racismo, da editora Nandyala. Cubano radicado na Bahia, é doutor em Ciências Humanas e em Etnologia pela Universidade de Paris e chefe de Pesquisa na Escola para Estudos de Pós-Graduação e Pesquisas na Universidade do Caribe, em Kingston, na Jamaica. Moore conversou com a equipe da Imprensa da APP-Sindicato e falou sobre falácias sobre a origem do racismo, da importância de se ter estudos sérios sobre o assunto e afirma: "o racismo é um problema dos brancos". Confira na entrevista:
Qual é o tema principal do livro?
É o racismo através dos tempos, porque essa ideia que temos de que o racismo é algo recente é falsa. As pessoas supõem que o racismo tenha surgido por causa da escravidão há 400, 500 anos. Esta ideia está enraizada nas mentes e na academia. O racismo tem entre 3 e 4 mil anos de existência. Temos indícios claríssimos de racismo há 1.700 anos A.C.
Pode dar um exemplo?
Um exemplo é o Rigveda, que é o livro sagrado do hinduísmo. Nele estão descritas cenas de extermínio racial, na qual os invasores brancos dizem que Deus os mandou com a missão de exterminar o que chamavam de "extirpe" negra.
Já era contra os negros naquela época?
Claro, pois os negros estavam disseminados no planeta inteiro. A raça negra não era raça neste sentido em que hoje projetamos, porque eles não se sabiam negros. Os povos melanodérmicos - de pele preta - surgiram na África. Não havia outros povos. A raça branca é recente, que data entre 12 e 18 mil anos. Antes disso não havia brancos, nem amarelos. As raças leucodérmicas são recentes (caucásico-europóide e sino-nipônico-mongol).
A raça negra surgiu há 3 milhões de anos, concomitante com o surgimento da humanidade. Não era uma questão política. Durante 3 milhões de anos a humanidade teve pele preta porque surgiu em latitudes onde a pele protegia o organismo humano. Se fosse branca, não haveria existido a humanidade, pois era necessário um escudo contra os raios solares.
Se não fosse isso a humanidade não teria prosseguido...
Sim. Quando os humanos modernos saíram da África há 50 mil anos eles foram para climas distintos, onde havia o mínimo de raios ultravioletas, e aí começaram a morrer. Por processo de seleção natural surgiram duas outras raças que estava mais adaptadas porque a pele clara pode captar melhor o pouco de raios violetas que existem nestas zonas euro-asiáticas, do norte.
Essas três "raças", que não se conheciam, entram em combates profundos e violentos por recursos. Os grupos que avançaram para o sul começaram a despejar os negros em lutas cruéis. A partir daí esses grupos se reconhecem como grupos distintos e surge o conceito de raça.
Essa história é muito antiga, mas em pleno século XXI ainda não se superou essa disputa...
Não há como superar, porque as pessoas sequer sabem que isso ocorreu e que isso deu lugar a um tipo de consciência que os domina hoje.
Por exemplo, a disputa entre mulher e homem não está superada, mas ninguém sabe de onde surgiu. É muito longínqua mas ninguém está nem aí. As pessoas falam de sexismo em um contexto atual contemporâneo, mas onde estão os estudos sobre sexismo que se remontam há 5 mil, 10, 15 mil anos? Não há!
E você acha que o aprofundamento desses estudos ajuda a combater o racismo hoje?
Claro. Não se pode combater uma coisa que não se conhece a existência, de como surgiu, como se transformou ou como atravessou os milênios. São milênios de sedimentação. Tendo essa visão panorâmica e histórica, baseada no concreto, aquilo que a genética, por exemplo, e a biologia molecular nos permitem conhecer, assim podemos começar a analisar o problema, a partir de outras bases epistemológicas.
Outro conceito que você contesta é que o racismo no Brasil foi mais brando que em outros países como nos EUA. Porque aqui ele foi mais perverso?
Eu não acredito em um racismo mais suave ou cordial. Racismo é uma forma de violência total. É uma rejeição total do outro, uma rejeição genocida. Por trás de todo racismo há uma intenção do genocídio, que não é o caso do sexismo. Homem não quer eliminar a mulher. Ele quer mantê-la em um posições subalternas, mas não quer exterminar sua esposa ou filha. A mesma coisa com homossexuais. As pessoas não querem exterminá-los da face da terra, pois podem ser às vezes os próprios filhos. No caso do racismo sim.
No Brasil, o extermínio que se está buscando é através da miscigenação. Uma coisa é falar de casamento entre iguais e outra coisa é miscigenação programada. Isso é eugenismo. A visão brasileira se baseia na noção de que se você cruza constantemente a raça negra com a raça branca, numa situação de inferioridade dos negros, você vai terminar por acabar com essa raça, porque o inferior quer ascender, e a ascensão no Brasil é branquear-se. Não é aceitar a diversidade, é eliminar. Esse racismo é mais letal.
Nos EUA se baseia no apartheid, que é agregador. Há dois grupos compactos e há possibilidade de negação, mas o racismo que temos aqui é de tipologia ibero-americana, ela é atomizadora. Quando se atomiza, você não negocia. É um racismo pré-industrial.
Como você acha que está a evolução da luta do movimento negro atualmente, com a adoção de medidas como cotas e ensino da cultura africana nas escolas?
Acho que o movimento negro está levando uma luta extraordinária. Mas ele está levando o peso do racismo da sociedade. Acho que a sociedade não pode progredir assim. O racismo vem dos brancos, então são os brancos que tem exercer um movimento e uma força de contraposição ao racismo.
Quais são as distorções que a mídia produz em torno desta questão? Pode citar?
A imprensa não é diferente da sociedade. Dentro da sociedade racista a imprensa tem seu papel. Assim como a universidade, ela reproduz os estereótipos e o sistema dominante. A imprensa não está aí para contestar. Ela descredita as cotas, o movimento negro, qualquer coisa que o movimento antirracista propõe a imprensa esta lá para barrar, distorcer, destruir, porque a imprensa faz parte do status quo - como a academia e a igreja. Em uma sociedade racista as instituições são racistas.
Há jornalistas que individualmente se dão conta disso e tentam nadar contra a corrente. Os movimentos antirracistas devem favorecer essas informações objetivas para atingir estes jornalistas.
Você acha que valorizar as contribuições que a cultura africana trouxe para a sociedade é uma das formas de modificar este pensamento?
Claro. É contribuir com a verdade. Falar dessa contribuição é simplesmente falar a verdade. Acontece que as escolas nunca valorizaram isso. Valorizar estas contribuições é simplesmente ser objetivo. Por exemplo, a ideia de que egípicios são brancos está bem enraizada, porque consideram impossível que africanos tenham construídos a primeira civilização mundial, que é extraordinária. Isso não compagina com aquilo que eles têm na cabeça como sendo negro.
Tem outro exemplo para me dar?
Olha a televisão: brancos representam a virtude, a pureza e a nobreza. O negro é bandido, inferior. Sempre aparece como sendo alguém violento.
Sendo que eles que sofreram violência historicamente.
Publicaram o mapa da violência no Brasil: em 10 anos, mais de 225 mil negros foram mortos! Em 10 anos, na Guerra Civil do Iraque morreram 138 mil pessoas. Imagina a hecatombe! Mas isso aqui é normal.
No Brasil não se admite que há racismo, mas basta ver que, por exemplo, na Assembleia Legislativa do Paraná nunca houve um deputado negro. É muito evidente.
E isso é violência, porque no Paraná 30% da população é negra. Isso quer dizer que esses 30% que não se vê nas prefeituras, no governo de estado, nos parlamentos, nas universidades, então sendo excluídos violentamente. Mas o racismo vê isso como algo normal.
Dê uma resposta para quem diz que defender a cultura negra é racismo ao contrário.
Não tenho nem que falar sobre isso! Porque racismo é sistema de poder. Os negros não tem poder em nenhum lugar no mundo. Mesmo na África, são os brancos que mandam e se os dirigentes se opõem são assassinatos. O negro não tem poder de ser racista em nenhum lugar, mesmo se fosse possível. Racismo negro não é nem possível porque os negros não podem reinventar a história. O racismo surgiu uma vez só. Não posso nem fazer comentários sobre algo tão absurdo, porque eu estaria na defensiva e é isso o que o racista quer: jogar essa acusação para que você se defenda. Eu não perco tempo com essa questão, eu coloco todo o meu tempo no ataque ao racismo.
Fonte: http://rapefilosofia.blogspot.com.br/
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
A prática social racista não tem graça nenhuma!
A prática social racista não tem graça nenhuma!
No mês em que se comemora a consciência negra, não poderíamos
deixar de discutir sobre a prática social do racismo. Obviamente, há
muitos ângulos para se refletir sobre essa prática, mas uma questão, em
nosso ponto de vista, está no centro do debate: a necessidade de se exercer cotidianamente nossa postura crítica sobre essa problemática.
É necessária essa prática? É natural essa prática? É legítima essa
prática? É eterna essa prática? É inevitável essa prática? A nossa
postura crítica diz que não. O problema é que muitos seres sociais ainda insistem nessa prática social opressora e atrasada.
E enquanto houver um oprimido sequer nesse mundo, a luta política não
cessará, a postura crítica não poderá adormecer. A luta política contra o
racismo, portanto, é mais do que necessária, é urgente e
imprescindível.
Criminalizar o racismo seria uma política importante? Sem dúvida.
Criar políticas afirmativas para inclusão do negro/negra nos diversos
espaços sociais seria importante? Também sim. Elevar a autoestima do
povo negro é importante? Também é fundamental. Valorizar a cultura
afrodescendente é importante? Não há sombras de dúvida. Porém, as raízes
ideológicas do racismo ainda estão profundamente vivas na sociedade
brasileira e é preciso uma luta cotidiana contra tal opressão para
reverter tal processo. Não basta eleger o mês da Consciência Negra para
combater o racismo, apesar de ser importantíssimo tal espaço criado pelo
movimento negro.
Em nossa prática social de professor da rede pública, por exemplo, em
bairros populares, onde a mistura de brancos e negros é bastante
evidente, sempre problematizamos cotidianamente o racismo, sempre
polemizamos tal prática junto aos alunos, bem como temos criticado
veementemente o bullying de cunho racista e outros. Porém, infelizmente,
tais trabalhos ainda são práticas sociais isoladas nas escolas.
Geralmente a questão étnico-racial apenas aparece no mês de novembro,
com muita festa, dança e comidas típicas, concursos de beleza negra,
etc, e nos restantes meses do ano, tal problemática segue apagada ou
secundarizada. Para piorar, muitos professores da rede pública,
inclusive, de modo um tanto velado, reproduzem o racismo como uma
prática natural e insuspeita. Não faltam enunciados sussurrados, gestos e
olhares diferenciados para com os(as) estudantes negros e negras. Fica
então uma pergunta: como acabar com o racismo, se muitos agentes
educacionais ainda legitimam, de alguma forma, as práticas racistas? E
os sindicatos ligados à educação? Tem feito dessa problemática uma luta
permanente? Também não. Na maioria das vezes o sindicalismo ligado à
educação apenas reduz-se às lutas economicistas. Ora, uma escola pública
e um sindicalismo de trabalhadores em educação, que não pautam
seriamente o racismo, tem algo a contribuir para transformar essa
prática social opressora? A cada um suas próprias conclusões.
Ademais, é preocupante perceber que os estudantes, em salas de aula, desde crianças, são altamente maldosos em seus bullyings
racistas. Há piadas racistas de todos os tipos, apelidos racistas,
xingamentos racistas, depreciação de manifestações da cultura
afrodescendente, depreciação de manifestações das religiões
afrodescendentes, enfim, há muitas práticas racistas circulando
largamente no interior das salas de aulas, nas práticas esportivas
dentro das escolas, bem como nas rodinhas de amigos. No meio desse
embate político-ideológico, enquanto agente educacional professor,
quando evidenciamos-criticamos tais práticas sociais racistas livremente
circulantes, os jovens procuram conduzir seus bullyings
racistas para o caminho do riso, como se o racismo fosse algo engraçado.
Ora, a prática social racista tem alguma graça? Por que se rir da
opressão? Fica uma constatação: os jovens provavelmente não reproduzem o
racismo do nada, copiam tais práticas sociais opressoras dos mais
velhos, da família, das práticas sociais de um país ainda repleto de
racismo.
É claro que as práticas sociais são reproduzidas de geração em
geração. É claro também que a prática econômica escravocrata foi uma das
principais responsáveis pela inserção do racismo no Brasil. Porém, como
não estamos mais no período histórico da escravidão, é possível supor
que tal prática social apenas perpetua por conta de resquícios
histórico-ideológico-discursivos que
eternizaram/legitimaram/naturalizaram o racismo. Além disso, supomos
também que tal prática revela-retrata afirmações de micros-poderes
totalmente opressores e atrasados, baseados nos mais maldosos bullyings racistas.
Então, perguntamos: de onde vem esse desejo de se sentir importante a
custa de desqualificar outros seres humanos, sendo, estes, negros e
negras? Por que tal prática social julga natural e legítimo rir do
diferente, rir do oprimido, rir do excluído, rir do negro, rir da negra?
Que binarismo social doentio é esse, que leva um grupo de seres humanos
(os brancos) se afirmarem “positivamente” em cima da desqualificação e
do tratamento negativo de outro grupo (os negros)? Ora, temos uma
hipótese: sentir-se maior, sentir-se importante, sentir-se mais poderoso
em cima da diminuição-depreciação de outros seres humanos é uma prática
social opressora e atrasada e doentia que, infelizmente, encontra
legitimação em uma humanidade não socialista que não aprendeu a ser
generosa e gentil. Quando os seres humanos não conseguem se relacionar
com base na generosidade, na gentileza, no respeito mútuo,
lamentavelmente, práticas sociais opressoras-exploradoras assumem o
lugar. Tal questão, portanto, não se reduz ao econômico, trata-se de um
problema, antes de tudo, político e ideológico.
Outro detalhe: quando se criticam os “humores” racistas, os “humores”
homofóbicos, os “humores” machistas, os “humores” preconceituosos, não
faltam vozes político-sociais que se levantam, dizendo que está se
tentando censurar a liberdade de imprensa, está se tentando censurar a
liberdade do humor. Ora, nós, socialistas livres, não somos partidários
de censurar ninguém. Porém, no quesito liberdade, nossa discussão é
clara. Somos a favor da mais plena liberdade dos seres sociais, menos a
liberdade de explorar, menos a liberdade de oprimir, como, por exemplo,
os racistas, os machistas, os homofóbicos e os praticantes de bullying
fazem, mesmo que seja através de uma “simples” piada. Rir das raízes e
da cor do povo negro ajuda a naturalizar os crimes racistas, ajuda a
eternizar essa opressão, ajuda a legitimar as práticas sociais racistas.
Somos contra. Tal riso opressor trata-se de uma liberdade? Sim. Mas de
uma liberdade doentia de seres sociais que desconhecem a generosidade, a
fraternidade, a gentileza e a possibilidade do socialismo. Portanto, é
preciso criticar, à exaustão, essa liberdade opressora-exploradora!
Resumindo: a prática social racista não tem graça nenhuma! Saudações Socialistas Livres.
Fonte: http://socialistalivre.wordpress.com
segunda-feira, 12 de março de 2012
Policiais torturam jovem negro com choques nos genitais e na língua; OAB denuncia barbárie
Jovem de 19 anos foi submetido a choques no peito, nos genitais, na língua e teve um saco colocado na cabeça para não respirar. “Vamos levar ele para a desova”, teria dito um dos homens. Ismael começou a rezar. Comando admite culpa e afasta dois suspeitos
Desde que foi liberado da delegacia, na madrugada de domingo, o servente de pedreiro Ismael Ferreira da Conceição se limita a andar do quarto para a sala. O jovem de 19 anos, que tem um problema na perna esquerda, passou a caminhar com ainda mais dificuldade. Ele se queixa de dores causadas por uma sessão de agressões e choques que durou cerca de cinco horas.
Em um relato corroborado pela família, vizinhos e advogada, Ismael diz ter sido seguidamente torturado por policiais militares – após supostamente ser confundido com um assaltante – dois dias depois da ocupação de 12 comunidades do Uberaba (PR), ocorrida na última quinta-feira, na capital. O caso foi denunciado ontem pela Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Paraná. O Comando da Polícia Militar reconheceu o fato e informou que dois PMs foram afastados preventivamente.
Ismael conta que às 17 horas do último sábado recebeu um telefonema de um amigo convidando-o para sair. Ele havia acabado de chegar em casa após o fim da jornada de trabalho. De banho tomado, montou na bicicleta e foi em direção ao ponto de encontro, na casa de um deles.
Após pedalar por algumas quadras, foi avistado por uma viatura da PM que participa da Unidade do Paraná Seguro (UPS). Segundo ele, o veículo fez a volta e bloqueou a passagem. “Passou por nós, azar o seu. Cadê a arma?”, perguntou um dos policiais saindo da viatura. Ismael disse que não tinha qualquer arma. Outro policial o derrubou da bicicleta e, com o servente no chão, apertou-lhe a garganta. Outro deu um chute nas costelas e perguntou mais uma vez sobre uma arma.
Ismael respondeu pedindo para que os policiais o acompanhassem até em casa, onde poderia apresentar documentos. Foi então colocado no camburão. Segundo ele, xingamentos racistas começaram a pipocar, e se tornaram a forma-padrão de tratamento até o fim do cativeiro. O rapaz demonstrou preocupação com a bicicleta, que permanecia tombada na rua. “Tua bike já era. Tu tá preso”, comunicou um policial.
Dez minutos depois, a viatura chegou à casa de Ismael. A família do jovem vive em Piraquara, no entanto ele mora com os patrões. Cinco anos atrás, Ismael conheceu Cristiano, o filho cadeirante de Lairi Inez Campiol, 52 anos, e Celso Luís Pereira, de 36 anos, proprietários de uma pequena empresa de acabamentos em construção civil. Cristiano convidou Ismael para participar do time de basquete em cadeira de rodas da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Quando os pais se mudaram para a região metropolitana, o que impossibilitaria a rotina de treinamentos, os pais do amigo o acolheram. E lhe deram um emprego.
Segundo Lairi, os policiais entraram na casa e começaram a vasculhar os cômodos, abrindo armários e jogando objetos no chão. Disseram que estavam procurando armas. “Temos um flagrante. Ele confessou que fez um assalto e a vítima já o reconheceu”, disse um PM. Enquanto isso, Ismael permanecia trancado na viatura estacionada do outro lado da rua. Ninguém podia vê-lo. Celso perguntou pelo funcionário. Os policiais foram até o camburão e retiraram o rapaz. Levaram-no até o quintal, mas não deixaram ninguém tocá-lo ou conversar com ele.
“Fui espancado, sufocado e levei choques”, diz vítima
Após a busca no imóvel, que se revelou infrutífera, a patrulha foi embora levando Ismael. Os donos da casa perguntaram o que seria feito do garoto. Os policiais informaram que ele estava preso, mas não revelaram para qual delegacia seria levado.
A dona de casa Lairi Inez Campiol, que dá abrigo a Ismael, mostra a casa no Uberaba revirada depois da passagem da polícia
No meio da confusão que se formou na rua, um vizinho passou para o casal o número de telefone de uma advogada. “Nunca precisamos de um profissional da área criminalística, então não sabíamos o que fazer”, lembra Lairi Inez Campiol.
A advogada Raquel Farah, 46 anos, atendeu à ligação de Lairi enquanto se preparava para atender a uma ocorrência no 8º Distrito Policial. Ao ouvir a história, se comprometeu a tentar descobrir o paradeiro de Ismael.
O jovem, entretanto, não foi levado a uma delegacia. A primeira parada foi em um descampado. O servente diz ter identificado cinco policiais, que se alternaram distribuindo chutes, socos e estrangulamento. “Se você contar onde é a boca, a gente te solta”, teria dito um deles.
Após um tempo que o agredido é incapaz de estimar, foi mais uma vez trancado no carro. Ele lembra que ficou um bom período na viatura parada, dentro do porta-malas, como se os policiais tivessem retornado ao posto.
A próxima parada foi em uma construção pequena, com duas camas, três armários e um computador. Ismael supõe que se trata de um posto policial. Ali, segundo ele, voltou a ser agredido. Alguns rostos eram novos. Também foi submetido a choques no peito, nos genitais e na língua. “Vamos levar ele para a desova”, teria dito um dos homens. Ismael começou a rezar.
Na delegacia: “Eles desistiram de você”
Eram 21 horas quando Ismael da Conceição foi levado algemado até o Hospital Cajuru para tratar dos ferimentos. “Não diga que você está sentindo dor”, ameaçou o homem que o escoltava. Às 22h30, foi finalmente entregue ao 8º DP. A advogada Raquel Farah havia sido informada da chegada apenas 15 minutos antes.
Na delegacia, os PMs apresentaram uma arma de brinquedo como pertencente a Ismael. O que se seguiu, segundo a advogada, foi uma discussão entre policiais civis e militares, ouvida ao longe também por Lairi Campiol e Celso, que haviam acabado de chegar. Os agentes da delegacia apontavam a inconsistência da prova.
A vítima do assalto chegou para fazer o reconhecimento. Ismael foi colocado ao lado de dois outros detidos. Apesar de a roupa ser semelhante à do autor do roubo (tênis branco, calça jeans e camisa xadrez), o biotipo não batia. O assaltante era alto e magro, Ismael é mediano e troncudo.
A delegada de plantão o liberou às 4 horas da madrugada de domingo. Ismael não conseguia andar sozinho e estava zonzo. Foi embora carregado. “Eles simplesmente desistiram de você”, justificou um policial civil.
OAB afirma que caso arranha credibilidade do programa UPS
Para a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a tortura sofrida por Ismael da Conceição tira a credibilidade da primeira Unidade do Paraná Seguro (UPS) instalada no estado. “Esse episódio coloca em dúvida se esse programa, que era necessário na cidade, terá condições de diminuir a violência nos bairros. Ainda mais quando os acusados são policiais militares”, afirma a vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da seção Paraná da OAB, Isabel Mendes.
De acordo com ela, a denúncia partiu dos próprios moradores do bairro, que viram o jovem sendo levado pela polícia. “Acompanhamos o exame de corpo delito no Instituto Médico Legal e foi confirmado que o rapaz foi torturado. Ele apanhou e levou choques elétricos. Os policiais ainda colocaram um saco plástico em sua cabeça para ele ficar sem respirar por algum tempo”, relata Isabel.
A Comissão de Direitos Humanos da OAB comunicou oficialmente o fato à Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (Seju) na manhã de ontem. A secretária Maria Tereza Uille Gomes determinou que uma equipe da Seju acompanhasse Isabel até o Uberaba. (DA)
Pânico e revolta
Ao longo das 36 horas seguintes, Ismael e Lairi não voltaram a sair para a rua. A dona da casa não acredita que eles possam ser ameaçados novamente, mas Ismael está em pânico. Sua conversa é calma, mas os olhos permanecem sempre arregalados. Lairi entoa indignação. “A gente não pode aceitar isso. Senão vai ter mais vítimas”, avalia.
Ela lembra que na quinta-feira, dia da ocupação, a família ficou feliz ao ver a polícia no bairro. Imaginava que aquele seria o começo de um prolongado período de tranquilidade. “Nos tornamos vítimas, quando deveríamos estar recebendo proteção.” Na manhã de domingo, dois policiais da Unidade do Paraná Seguro – que nada têm a ver com o ocorrido – visitaram cada uma das casas da rua para perguntar aos moradores como eles avaliavam a atuação do destacamento. Lairi discorreu longamente sobre o que se passou com seu protegido. “Isso nós não estamos sabendo”, ponderou o patrulheiro.
Porta-voz da PM reconhece que houve excesso
A Polícia Militar confirmou no fim da tarde de ontem que identificou dois policiais suspeitos de ser os responsáveis pela tortura do servente de pedreiro Ismael da Conceição no Uberaba. Segundo o major Antônio Zanata Neto, porta-voz da PM, será instaurado um inquérito policial para apurar de fato o que aconteceu. Se confirmada a culpa, os PMs envolvidos podem até ser expulsos da corporação.
“Um oficial da Polícia Militar foi até o Instituo Médico Legal e acompanhou o exame de corpo delito. Foi confirmado que houve tortura por parte da Polícia Militar”, admitiu o major. Para acompanhar o inquérito será solicitado o acompanhamento de um promotor público.
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Governo Alckmin é condenado por racismo
Material distribuído por professora da rede pública a alunos associava a cor negra ao demônio; indenização será de R$ 54 mil a família que se sentiu atingida
30 de Janeiro de 2012 às 08:46
Fernando Porfírio _247 - O governo paulista foi condenado por disseminar o medo e a discriminação racial dentro de sala de aula. A decisão é do Tribunal de Justiça que deu uma “dura” no poder público e condenou o Estado a pagar indenização de R$ 54 mil a uma família negra. De acordo com a corte de Justiça, a escola deve ser um ambiente de pluralidade e não de intolerância racial.
O Estado quedou-se calado e não recorreu da decisão como é comum em processos sobre dano moral. O juiz Marcos de Lima Porta, da 5ª Vara da Fazenda Pública, a quem cabe efetivar a decisão judicial e garantir o pagamento da indenização, deu prazo até 5 de abril para que o Estado dê início à execução da sentença.
O caso ocorreu na capital do Estado mais rico da Federação e num país que preza o Estado Democrático de Direito instituído há quase 24 anos pela Constituição Federal de 1988. Uma professora da 2ª série do ensino fundamental, de uma escola estadual pública, distribuiu material pedagógico supostamente discriminatório em relação aos negros.
De acordo com a decisão, a linguagem e conteúdo usados no texto são de discriminatórias e de mau gosto. Na redação – com o título “Uma família diferente” – lê-se: Era uma vez uma família que existia lá no céu. O pai era o sol, a mãe era a lua e os filhinhos eram as estrelas. Os avós eram os cometas e o irmão mais velho era o planeta terra. Um dia apareceu um demônio que era o buraco negro. O sol e as estrelinhas pegaram o buraco negro e bateram, bateram nele. O buraco negro foi embora e a família viveu feliz.
O exercício de sala de aula mandava o aluno criar um novo texto e inventar uma família, além de desenhar essa “família diferente”. Um dos textos apresentados ao processo foi escrito pela aluna Bianca, de sete anos. Chamava-se “Uma Família colorida” e foi assim descrito:
“Era uma vez uma família colorida. A mãe era a vermelha, o pai era o azul e os filhinhos eram o rosa. Havia um homem mau que era o preto. Um dia, o preto decidiu ir lá na casa colorida.Quando chegou lá, ele tentou roubar os rosinhas, mas aí apareceu o poderoso azul e chamou a família inteira para ajudar a bater no preto. O preto disse: - Não me batam, eu juro que nunca mais vou me atrever a colocar os pés aqui. Eu juro. E assim o azul soltou o preto e a família viveu feliz para sempre”.
A indenização, que terá de sair dos cofres públicos, havia sido estabelecida na primeira instância em R$ 10,2 mil para os pais do garoto e de R$ 5,1 mil para a criança, foi reformada. Por entender que o fato era “absolutamente grave”, o Tribunal paulista aumentou o valor do dano moral para R$ 54 mil – sendo R$ 27 mil para os pais e o mesmo montante para a criança.
De acordo com a 7ª Câmara de Direito Público, no caso levado ao Judiciário, o Estado paulista afrontou o princípio constitucional de repúdio ao racismo, de eliminação da discriminação racial, além de malferir os princípios constitucionais da igualdade e da dignidade da pessoa humana.
“Sem qualquer juízo sobre a existência de dolo ou má-fé, custa a crer que educadores do Estado de São Paulo, a quem se encarrega da formação espiritual e ética de milhares de crianças e futuros cidadãos, tenham permitido que se fizesse circular no ambiente pedagógico, que deve ser de promoção da igualdade e da dignidade humana, material de clara natureza preconceituosa, de modo a induzir, como induziu, basta ver o texto da pequena Bianca o medo e a discriminação em relação aos negros, reforçando, ainda mais, o sentimento de exclusão em relação aos diferentes”, afirmou o relator do recurso, desembargador Magalhães Coelho.
Segundo o relator, a discriminação racial está latente, “invisível muitas vezes aos olhares menos críticos e sensíveis”. De acordo com o desembargador Magalhães Coelho, o racismo está, sobretudo, na imagem estereotipada do negro na literatura escolar, onde não é cidadão, não tem história, nem heróis. Para o relator, ao contrário, é mau, violento, criminoso e está sempre em situações subalternas.
“Não é por outra razão que o texto referido nos autos induz as crianças, inocentes que são, à reprodução do discurso e das práticas discriminatórias”, afirmou Magalhães Coelho. “Não é a toa que o céu tem o sol, a lua, as estrelas e o buraco negro, que é o vilão da narrativa, nem que há “azuis poderosos”, “rosas delicados” e “pretos” agressores e ladrões”, completou.
O desembargador destacou que existe um passado no país que não é valorizado, que não está nos livros e, muito menos, se aprende nas escolas.
“Antes ao contrário, a pretexto de uma certa “democracia racial”, esconde-se a realidade cruel da discriminação, tão velada quanto violenta”, disse. Segundo Magalhães Coelho, na abstração dos conceitos, o negro, o preto, o judeu, o árabe, o nordestino são apenas adjetivos qualificativos da raça, cor ou região, sem qualquer conotação pejorativa.
“Há na ideologia dominante, falada pelo direito e seus agentes, uma enorme dificuldade em se admitir que há no Brasil, sim, resquícios de uma sociedade escravocrata e racista, cuja raiz se encontra nos processos históricos de exploração econômica, cujas estratégias de dominação incluem a supressão da história das classes oprimidas, na qual estão a maioria esmagadora dos negros brasileiros”, reconheceu e concluiu o desembargador.
Fonte: http://brasil247.com.br/
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Libertem Mumia Abu-Jamal!!!
Mumia Abu-Jamal é um militante que fez parte d@s Panteras Negras, movimento revolucionário norte-americano que teve grande importância desde sua criação, em meados da década de 1960, e ao longo da década de 1970. Em 1981,
ele foi preso acusado de matar um policial branco, e foi sentenciado à pena de morte. Desde então, há mais de trinta anos, portanto, ele se encontra no corredor da morte, apesar das diversas mobilizações que se espalharam pelo mundo, contra essa condenação. Quando se fala no caso do Mumia (nome que é referência aos que
lutavam contra o domínio inglês no Quênia), muitas vezes se fala de discriminação. O problema é que isso costuma esconder o principal: Mumia e @s Panteras Negras entendiam a questão do racismo como parte da dinâmica de opressão e de exploração que é a essência do sistema capitalista. El@s não lutavam por uma liberdade e uma
igualdade falsas, por uma tolerância hipócrita em relação às diferenças dos tons de pele. El@s não queriam ficar nas mesmas condições gozadas pelos brancos nessa sociedade – seja na de brancos opressores, seja na de brancos oprimidos -; não queriam ser escravos do capital sob condições mais amenas: el@s queriam acabar com o capitalismo, e com toda forma de opressão e de discriminação.
lutavam contra o domínio inglês no Quênia), muitas vezes se fala de discriminação. O problema é que isso costuma esconder o principal: Mumia e @s Panteras Negras entendiam a questão do racismo como parte da dinâmica de opressão e de exploração que é a essência do sistema capitalista. El@s não lutavam por uma liberdade e uma
igualdade falsas, por uma tolerância hipócrita em relação às diferenças dos tons de pele. El@s não queriam ficar nas mesmas condições gozadas pelos brancos nessa sociedade – seja na de brancos opressores, seja na de brancos oprimidos -; não queriam ser escravos do capital sob condições mais amenas: el@s queriam acabar com o capitalismo, e com toda forma de opressão e de discriminação. Foi isso que tornou Mumia e @s demais Panteras tão perigosos. E foi esse tipo de ousadia que deveria ser punido de modo exemplar.
Ontem, a pena de Mumia Abu-Jamal foi trocada de pena capital para prisão perpétua, resultado de muitas batalhas. Não há motivo para comemoração, e sim para reafirmar o grito: libertem Mumia Abu-Jamal! E viva a luta negra revolucionária!
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
É proibido ser negro no Brasil!!
Estagiária se recusa a alisar cabelo e é hostilizada!!!
Segundo funcionária do Colégio Internacional Anhembi Morumbi, diretora diz que é preciso "boa aparência"
Por Jorge Américo, da Radioagência NP
A estagiária Ester Elisa da Silva Cesário acusa seus patrões de perseguição e racismo. Conforme Boletim de Ocorrência registrado no dia 24 de novembro, na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) de São Paulo, ela teria sido forçada a alisar o cabelo para manter a “boa aparência”.
A diretora do Colégio Internacional Anhembi Morumbi ainda teria prometido comprar camisas mais cumpridas para que a funcionária escondesse os quadris.
Ester conta que foi contratada no dia 1º de novembro de 2011, para atuar no setor de marketing e monitorar visitas de pais interessados em matricular seus filhos no colégio, localizado no bairro do Brooklin, na cidade de São Paulo. A estagiária afirma ter sido convocada para uma conversa na sala da diretora, identificada como professora Dea de Oliveira. Nos dias anteriores, sempre alguém mandava recado para que prendesse o cabelo e evitasse circular pelos corredores.
“Ela disse: ‘como você pode representar o colégio com esse cabelo crespo? O padrão daqui é cabelo liso’. Então, ela começou a falar que o cabelo dela era ruim, igual o meu, que era armado, igual o meu, e ela teve que alisar para manter o padrão da escola.”
Além das advertências, Ester afirma ter sofrido ameaças depois de revelar o conteúdo da conversa aos demais funcionários do colégio. Eles teriam demonstrado solidariedade ao perceber que a estagiaria estava em prantos no banheiro.
“Depois disso, eu me vesti para ir embora e, quando estava saindo, ela me parou na porta e disse: ‘cuidado com o que você fala por aí porque eu tenho vinte anos aqui no colégio e você está começando agora. A vida é muito difícil, você ainda vai ouvir muitas coisas ruins e vai ter que aguentar’.”
Colégio se defende
Após contato da reportagem, um funcionário indicado pela Direção do Anhembi Morumbi informou que a instituição não recebeu nenhuma notificação sobre o registro do Boletim de Ocorrência. Ele negou a existência de preconceito e se limitou a dizer que “o colégio zela pela sua imagem e, ao pregar a ‘boa aparência’, se refere ao uso de uniformes e cabelo preso”.
A advogada trabalhista Carmen Dora de Freitas Ferreira, que ministra cursos no Geledés – Instituto da Mulher Negra – assegura que a expressão “boa aparência” é usada frequentemente para disfarçar preconceitos.
“Não está escrito isso, mas quando eles dizem ‘boa aparência’, automaticamente estão excluindo negros, afrodescendentes e indígenas. O padrão é mulher loira, alta, magra, olhos claros. É isso que querem dizer com ‘boa aparência’. E excluir do mercado de trabalho por esse requisito é muito doloroso, afronta a Lei, afronta a Constituição e afronta os direitos humanos.”
Métodos conhecidos
De acordo com o depoimento da estagiária, as ofensas se deram em um local reservado. A advogada explica que essa prática é comum no ambiente de trabalho, além de ser sempre premeditada.
“O assediador sempre espera o momento em que a vítima está sozinha para não deixar testemunhas, mas as marcas são profundas. O preconceito é tão danoso, que ele nega direitos fundamentais, exclui, coloca estigmas, e a pessoa se sente humilhada, violentada. Quando o assediador percebe a extensão do dano, ele tenta minimizar, dizendo ‘não foi bem assim, você me interpretou errado, eu não sou discriminador, na minha família, a minha avó era negra’.”
Ester ainda afirma que teria sido pressionada a deixar o trabalho, ao relatar o ocorrido a uma conselheira do Colégio. Como decidiu permanecer, passou a ser vigiada constantemente por colegas.
“Eu estou lá e consegui passar numa entrevista porque sou qualificada para o cargo, mas ela não viu isso. Ela quis me afrontar e conseguiu abalar as minhas estruturas emocionais a ponto de eu me sentir um lixo e ficar dois dias trancada dentro de casa sem comer e sem beber. Você pensa em suicídio, se vê feia, se sente um monstro.”
Sequelas e legislação
Ester revela que as situações vividas no trabalho mexeram com sua auto-estima e também provocaram grande impacto nos estudos e no convívio social.
“Desde que isso aconteceu, eu não consigo mais soltar o cabelo. Quando estou na presença dela eu me sinto inferior, fico com vergonha, constrangida, de cabeça baixa. É a única reação que eu tenho pela afronta e falta de respeito em relação a mim e à minha cor.”
O Boletim de Ocorrência foi registrado como prática de “preconceito de raça ou de cor”. A Lei Estadual nº 14.187/10 prevê punição a “todo ato discriminatório por motivo de raça ou cor praticado no Estado por qualquer pessoa, jurídica ou física”. Se comprovado o crime, os infratores estarão sujeitos a multas e à cassação da licença estadual para funcionamento.
Fonte: http://www.brasildefato.com.br
domingo, 27 de novembro de 2011
Brasil: um país negro e mulato
Por raquelrolnik
Dados do censo do IBGE de 2010 recentemente divulgados revelam que, pela primeira vez, o número de pessoas que se declaram negras e pardas é maior do que o das pessoas que se declaram brancas. Entre os mais de 191 milhões de brasileiros, 91 milhões se declaram brancos (47,7%), 15 milhões pretos (7,6%), 82 milhões pardos (43,1%), 2 milhões amarelos (1,1%) e 817 mil indígenas (0,4%). Somando negros e pardos, são 97 milhões.
Uma das hipóteses que explica o crescimento da população que se afirma como negra e parda é a maior taxa de fecundidade entre as mulheres desses grupos, comparativamente com as mulheres brancas, embora venha caindo sem parar o número de filhos por mulher no Brasil, em todos os grupos e regiões. Outra explicação, mais subjetiva, tem a ver com um processo de mudança na percepção da própria cor – consequência de todo o trabalho de valorização da cultura negra realizado há décadas pelo movimento negro, das políticas afirmativas e de reparação empreendidas nos últimos anos pelos governos, de um debate mais aberto nos meios de comunicação sobre a questão, etc. O fato é que hoje podemos dizer – de boca cheia – que o Brasil é um país negro e mulato.
Isto quer dizer que vivemos em um paraíso racial, cultura milagrosa de convivência harmônica e mistura de todas as origens étnicas? De forma alguma… as desigualdades entre pretos, pardos e brancos reveladas pelo censo são gritantes. A população negra, em geral, continua a receber menores salários que a população branca. Entre as mulheres negras, a situação é ainda pior. De acordo com os dados do IBGE, entre a população com rendimento mais alto (os que ganham mais de 30 salários mínimos por mês), existem 178.574 homens brancos e apenas 838 mulheres negras. Por outro lado, entre a população com menor rendimento (os que ganham até 1/4 do salário mínimo), existem 418.013 homens brancos e 2.501.852 mulheres negras e pardas. Veja os dados percentuais na tabela abaixo. Para ver os dados completos na tabela do IBGE, clique aqui.
Do ponto de vista urbanístico, as desigualdades são claras: em São Paulo, a proporção de negros com relação a brancos em cada bairro aumenta no sentido centro-periferia (Leia mais aqui). Em Brasília acontece o mesmo entre o plano piloto e as cidades satélites. Ou seja: quanto mais precários os bairros, maior a proporção de pretos e pardos. Nestes lugares é mais precária a oferta de equipamentos e serviços públicos, menores as oportunidades de empregos, e isso cria um círculo vicioso que dificulta a ascensão econômica e social da população dessas regiões.
Ainda com relação à dimensão urbanística dessa questão, por muito tempo existiu uma espécie de invisibilidade histórica dos territórios negros das cidades, que só muito recentemente vêm sendo, aos poucos, reconhecidos e valorizados, com o tombamento de terreiros de candomblé, a demarcação de áreas de quilombo etc. Em São Paulo, foi criada este mês a Rota Turística Afro-brasileira Luiz Gama, um roteiro com 18 pontos turísticos relacionados à cultura africana, incluindo territórios negros da cidade dos séculos XVIII e XIX. Iniciativas como esta são muito interessantes para o reconhecimento destes locais e sua (re)incorporação em nossa história. Mas o caminho para o tal paraíso racial ainda é longo… e difícil!
Texto originalmente publicado no Yahoo!Colunistas.
Fonte : http://raquelrolnik.wordpress.com
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Skinhead agride negro e mulher em metrô de São Paulo
A reportagem teve acesso às imagens de uma agressão em uma estação de metrô de São Paulo. Câmeras de segurança registraram o momento em que um skinhead ataca um jovem negro e duas garotas. O agressor responde pelo crime em liberdade. Visite o UOL Notícias
Fonte: UOL Notícias
Emei Guia Lopes, sofre ato de racismo por trabalhar o Ensino Étnico Racial
Tivemos a honra de trabalhar com a EMEI Guia Lopes no incio do ano, pensando e trocando idéias sobre o ensino Étnico Racial e como desenvolve-lo, com um ótimo trabalho desenvolvido pela escola, o reflexo do preconceito ta aí.... a escola sofreu um ato de racismo, o muro da escola foi pixado com a seguinte frase “vamos cuidar do futuro de nossas crianças brancas". Segue matéria na integra publicada no blog da Folha...
O Projeto Escola da África e o Coletivo Literatura Suburbana está com a Diretora Cibele Racy, apoiando e fortalecendo seu trabalho...
Escola é Pichada com Suástica
http://blogs.estadao.com.br/jt-cidades/escola-e-pichada-com-suastica/
O Projeto Escola da África e o Coletivo Literatura Suburbana está com a Diretora Cibele Racy, apoiando e fortalecendo seu trabalho...
http://blogs.estadao.com.br/jt-cidades/escola-e-pichada-com-suastica/
O muro da Escola Municipal de Ensino Infantil (Emei) Guia Lopes, no Limão, na zona norte de São Paulo, foi pichado durante o fim de semana com a frase “vamos cuidar do futuro de nossas crianças brancas”, acompanhada da suástica nazista. Para a diretora do colégio, Cibele Racy, foi uma reação às ações pela igualdade racial. "A Emei tem 430 alunos, de 4 a 6 anos, divididos em classes do ensino infantil 1 e 2. Durante este ano, as questões raciais têm sido discutidas com as crianças, como parte do projeto pedagógico. A festa junina, por exemplo, teve motivos afro-brasileiros. “Foi um sucesso total. Trouxemos comidas e aspectos culturais da África. Tenho vários depoimentos de pais mostrando toda a aceitação”, diz. Segundo a diretora, apesar de bem-recebido, o projeto pode ter despertado reações negativas. “Essa pichação teve um endereço certo. Não foi aleatória. Mexemos numa ferida muito profunda e eu estava até preparada para alguma reação, mas não dessa maneira.”A diretora diz ter ficado surpresa com a manifestação racista. “A escola foi aberta ontem (domingo) para a eleição do conselho tutelar. Quando fui embora, por volta das 19h, passei pelo muro lateral e vi o que estava escrito. Fiquei espantada. Hoje pela manhã já chamei os professores para discutirmos o que seria feito"."Cibele pretende registrar um boletim de ocorrência ainda hoje, mas não só isso. Pretende convidar os pais de alunos para um bate-papo com integrantes de movimentos pela diversidade racial, durante uma reunião pedagógica no período noturno, no dia 10."Além disso, os alunos serão convidados a remover dos muro os símbolos de intolerância, mas de uma forma divertida. “Vamos dizer que sujaram a escola e que precisamos dar um jeito naquilo. As crianças estarão livres para pintar o que desejarem. É uma forma de eliminar completamente essa marca lamentável. O que merece publicidade é o que tem sido feito de positivo aqui.” "Todos os anos, em novembro, o colégio faz uma passeata temática do lado de fora dos muros. A diretora diz que, no próximo mês, a igualdade racial será o tema da manifestação. ">Professora de psicologia da educação da Universidade de São Paulo (USP) Silvia Colello diz que o projeto surtiu efeito, daí a reação. “Foi tão eficiente que as vozes contrárias não conseguiram se calar.” ">Silvia diz também que apagar o muro com o desenho das crianças é algo positivo. “A diretora está dizendo que vai responder de forma pacífica, lutando pela igualdade. Vamos cobrir as marcas da violência com nossa mensagem, com desenhos, com o que temos a dizer.” ">Segundo a professora, na faixa etária dos alunos da Guia Lopes ainda não há manifestação de racismo. “A criança pequena que é branca brinca com a negra sem problema. A discriminação é algo socialmente adquirido.” ">A partir do momento em que for registrado o boletim de ocorrência, o caso deverá ser investigado pela polícia.
A Maria Frô publicou a foto em seu blog:http://mariafro.com.br/wordpress/2011/10/17/como-prometido-as-fotos-da-pichacao-neonazista-na-emei/
A Maria Frô publicou a foto em seu blog:http://mariafro.com.br/wordpress/2011/10/17/como-prometido-as-fotos-da-pichacao-neonazista-na-emei/
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