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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Alimentos e evolução humana


William R. Leonard
Fósseis indicam que nossos antepassados mais antigos, os australopitecos, eram, há cerca de quatro milhões de anos, bípedes. No caso do A. afarensis (à direita), um dos mais antigos hominídeos, as características incluem o arco dos pés, o polegar não-opositivo e certas características dos joelhos e da pelve. Esses hominídeos, porém, mantiveram algumas características dos macacos como pernas curtas, braços mais longos e dedos dos pés e das mãos curvados, entre outros aspectos
Humanos, estranhos primatas. Andamos sobre duas pernas, possuímos cérebros enormes e colonizamos cada canto da Terra. Antropólogos e biólogos procuraram sempre entender como a nossa raça diferenciou-se tão profundamente do modelo primata. Foram desenvolvidos, ao longo dos anos, todos os tipos de hipóteses, visando explicar cada uma dessas particularidades. Um conjunto de evidências, porém, indica que essas idiossincrasias mistas de humanidade têm, na realidade, uma linha em comum: elas são, basicamente, o resultado da seleção natural, atuando para maximizar a qualidade dietética e a eficiência na obtenção de alimentos. Mudanças na oferta de alimentos parecem ter influenciado fortemente nossos ancestrais hominídeos. Assim, em um sentido evolutivo, somos o que comemos.

Conseqüentemente, o que comemos é ainda uma outra forma pela qual nos diferenciamos de nosso parente primata. Populações de humanos contemporâneos pelo mundo afora, adotam dietas mais calóricas e nutritivas que aquelas de nossos primos, os grandes macacos. Então, quando e como os hábitos alimentares de nossos ancestrais divergiram dos hábitos de outros primatas? Além disso, quanto os humanos modernos se distanciaram do padrão alimentar ancestral?

O interesse científico na evolução das necessidades nutricionais humanas tem uma longa história. Investigações relevantes começaram a ganhar espaço a partir de 1985, quando S. Boyd Eaton e Melvin J. Konner, da Emory University, publicaram um artigo no New England Journal of Medicine intitulado "Nutrição Paleolítica". Eles argumentam que a prevalência de muitas doenças crônicas nas sociedades modernas - entre elas obesidade, hipertensão, doenças coronarianas e diabetes - seriam o resultado de uma incompatibilidade entre padrões dietéticos modernos e o tipo de dieta que nossa espécie desenvolveu para se alimentar como caçadores-coletores pré-históricos.

Desde então, a compreensão da evolução das necessidades nutricionais humanas tem avançado consideravelmente - graças, em parte, às análises comparativas entre populações de humanos vivendo tradicionalmente e outros primatas -, emergindo daí um retrato com mais nuances. Sabemos, agora, que os humanos evoluíram não para subsistirem com uma dieta paleolítica única, mas para desfrutarem de um padrão alimentar diversificado.
Os cérebros ficaram maiores e cada vez mais, ao longo do tempo, energeticamente exigentes. O cérebro humano moderno responde por 10 a 12% da demanda de energia de um corpo em repouso, comparada ao cérebro do australopiteco.
Para se compreender o papel da alimentação na evolução humana, devemos nos lembrar de que a procura pelo alimento, seu consumo e, finalmente, como ele é usado para processos biológicos são, todos, aspectos críticos da ecologia de um organismo. A energia dinâmica entre organismos e seus ambientes, ou seja, a energia despendida comparada à energia adquirida, tem conseqüências adaptativas importantes para a sobrevivência e reprodução. Esses dois componentes da aptidão darwiniana refletem-se na forma como estimamos o estoque de energia de um animal. A energia de manutenção é o que mantém um animal vivo. A energia produtiva está associada à concepção e manutenção da prole para a próxima geração. Para mamíferos, isso deve cobrir as demandas das mães durante a gravidez e lactação.

O tipo de ambiente que uma criatura ocupa irá influenciar a distribuição de energia entre esses componentes, em que condições mais duras representam, obviamente, maiores dificuldades. No entanto, o objetivo de todos os organismos é o mesmo: assegurar a reprodução, visando garantir, a longo prazo, o sucesso das espécies. Portanto, ao observarmos a forma como os animais se deslocam para obter a energia alimentar, podemos compreender melhor como a seleção natural produz a mudança evolutiva.

Tornando-se bípedes

Sem excessão, os primatas não-humanos deslocam-se habitualmente sobre os quatro membros quando estão no chão. Os cientistas geralmente assumem que o último ancestral comum dos humanos e dos chimpanzés (nosso parente vivo mais próximo) também era um quadrúpede. Desconhecemos quando, exatamente, o último ancestral comum viveu. Mas indicações claras de bipedalismo - a característica que distinguiu os antigos humanos dos outros macacos - são evidentes nas espécies mais antigas conhecidas do australopitecus, que viveu na África por volta de 4 milhões de anos atrás. Idéias sobre a evolução do bipedalismo são comuns na literatura paleoantropológica.

C. Owen Lovejoy, da Kent State University, propôs, em 1981, que a locomoção sobre as duas pernas liberou os braços para carregar crianças e objetos. Recentemente, Kevin D. Hunt, da Indiana University, sugeriu que o bipedalismo emergiu como uma postura de alimentação, por ter permitido o acesso a alimentos que antes estavam fora de alcance. Peter Wheeler, da John Moores University, Liver- pool, acrescentou que, ao se erguerem, os antigos humanos puderam regular melhor a temperatura corporal, expondo menos o corpo ao calor abrasador africano.
A lista continua. Uma série de fatores provavelmente influenciou esse tipo de locomoção. Minha própria pesquisa, conduzida em colaboração com minha esposa, Márcia L. Robertson, sugere que o bipedalismo desenvolveu-se em nossos ancestrais, pelo menos em parte, por ser menos dispendioso energeticamente que o deslocamento sobre quatro membros. Nossas análises dos custos de energia do movimento em animais demonstraram que, no geral, a maior demanda depende do peso do animal e da velocidade com que ele se desloca. O mais surpreendente no movimento bipedal humano é que ele é notadamente mais econômico que o deslocamento quadrupedal em velocidade de marcha.

A evolução maior dos primeiros hominídeos ocorreu em pastos e espaços de terra mais abertos, onde a sustentação é mais difícil. Sem dúvida, os caçadores-coletores humanos modernos que vivem nesses ambientes, e que nos oferecem o melhor modelo disponível dos padrões de subsistência dos humanos primitivos, freqüentemente se deslocam 12 km por dia em busca de alimentos.

Quanto aos hominídeos que viveram entre 5 milhões e 1,8 milhão de anos atrás, durante o Plioceno, a mudança climática estimulou essa revolução morfológica. À medida que o continente africano foi se tornando mais árido, florestas deram lugar a pastos, deixando os recursos alimentares distribuídos mais irregularmente.

O bipedalismo, nesse contexto, pode ser visto como uma das primeiras estratégias na evolução nutricional humana, um padrão de movimento que teria reduzido substancialmente o número de calorias despendidas na coleta de alimentos.
O que é extraordinário em nosso cérebro grande, sob uma perspectiva nutricional, é o quanto de energia ele consome- aproximadamente 16 vezes mais que um tecido muscular por unidade de peso. Porém, apesar de os humanos apresentarem, quanto ao peso corporal, cérebros maiores que os dos outros primatas (três vezes maior que o esperado), as necessidades totais de energia em repouso do corpo humano não são maiores que a de qualquer outro mamífero do mesmo porte. Usamos uma grande parte de nossa quota diária de energia para alimentar nossos cérebros vorazes. Na verdade, o metabolismo de um cérebro em repouso ultrapassa de, 20 a 25%, as necessidades de energia de um humano adulto - bem mais que os 8 a 10% observados em primatas não - humanos, e que os 3 a 5% em outros mamíferos.
Baseando-nos nas estimativas de tamanho corporal de hominídeos compiladas por Henry M. McHenry, da University of California, em Davis, Robertson e eu estimamos a proporção das necessidades de energia em repouso que poderiam ser necessárias para alimentar os cérebros de nossos antigos ancestrais. Um australopiteco típico, pesando entre 35 e 40 kg, com um cérebro de 450 cm3, teria reservado cerca de 11% de sua energia em repouso para o cérebro. Enquanto um H. erectus, pesando entre 55 e 60 kg e com um cérebro de cerca de 850 cm3, teria reservado cerca de 16% de sua energia em repouso - ou seja, cerca de 250 das 1.500 kcal diárias - para este órgão.

Como teria evoluído esse cérebro tão energeticamente dispendioso? Uma teoria, desenvolvida por Dean Falk, da State University of New York, Albany, sustenta que o bipedalismo permitiu aos hominídeos resfriar o sangue cranial e, conseqüentemente, liberar o cérebro sensível do calor de temperaturas agressivas que haviam colocado em cheque o seu tamanho. Suspeito que vários fatores estiveram em jogo, mas a expansão do cérebro quase que certamente não teria ocorrido se os hominídeos não tivessem adotado uma dieta suficientemente rica em calorias e nutrientes, para suportar os custos associados.

Estudos comparativos em animais vivos sustentam essa afirmação. Além de todos os primatas, espécies com cérebros maiores ingerem alimentos mais ricos; os humanos são um exemplo extremo dessa correlação, ostentando o maior tamanho relativo de cérebro e a dieta mais variada. Conforme as análises recentes de Loren Cordain, da Colorado State University, os caçadores-coletores contemporâneos obtêm, em média, 40 a 60% de energia da carne, do leite e de outros produtos de origem animal.

Chimpanzés modernos, em comparação, obtêm somente entre 5 e 7% de suas calorias provenientes dessas fontes. Alimentos de origem animal contêm bem mais calorias e nutrientes que a maioria dos alimentos vegetais. Por exemplo, 100 g de carne geram acima de 200 kcal. A mesma quantidade de frutas libera entre 50 e 100 kcal. Uma porção comparável de verduras produz somente entre 10 e 20 kcal. Faz sentido, então, que, para o antigo Homo, adquirir mais matéria cinzenta significou procurar alimentos energeticamente mais densos.
Os fósseis, também, indicam que a melhoria na qualidade dietética acompanhou o crescimento evolutivo do cérebro. Todos os australopitecos apresentavam características esqueléticas e dentais estruturadas para processar alimentos vegetais duros e de baixa qualidade. O australopiteco mais antigo e robusto - um ramo da outra ponta da árvore genealógica humana, que viveu lado a lado com membros de nosso próprio gênero - teve adaptações especialmente pronunciadas para triturar alimentos vegetais fibrosos, in- cluindo faces maciças em forma de prato, mandíbulas fortemente estruturadas; cristas sagitais, no alto do crânio, para a fixação de potentes músculos mastigatórios; e dentes molares enormes e fortemente esmaltados. (Isto não significa que os austrolopitecos nunca comiam carne. Eles certamente ingeriam este alimento, oca- sionalmente, tal como os chimpanzés de hoje.) Mas, membros mais antigos do gênero Homo, descendentes dos graciosos australopitecos, possuíam faces e molares menores, mandíbulas mais delicadas, e não apresentavam cristas sagitais - apesar de serem bem maiores, em termos de porte corporal total, que seus predecessores. Em conjunto, essas estruturas sugerem que o Homo ancestral consumia menos matéria vegetal e mais alimentação animal.

Quanto ao que empurrou o Homo para uma qualidade dietética maior, necessária para o crescimento cerebral, a mudança ambiental parece ter sido, mais uma vez, o ponto de mutação evolucionário. A crescente aridez da paisagem africana limitou a quantidade e variedade de alimentos vegetais comestíveis, disponíveis aos hominídeos. Aqueles na mesma linha que deu origem aos robustos australopitecos enfrentaram morfologicamente esse problema, desenvolvendo especificidades anatômicas que permitiram a subsistência com alimentos de mastigação mais difícil, porém com maior disponibilidade. O Homo percorreu outro caminho. A disseminação de pastos também resultou em um aumento na abundância relativa de mamíferos de pasto, como o antílope e a gazela, criando oportunidades para os hominídeos capazes de explorá-los.

O H. erectus o fez, desenvolvendo a primeira economia caça-e-coleta, em que animais de caça eram uma parte significativa da dieta e os recursos eram compartilhados entre os membros dos grupos de suprimento. Sinais dessa revolução comportamental são visíveis nos registros arqueológicos, que apontam um aumento de carcaças de animais em sítios de hominídeos durante esse período, junto com evidências de que as presas eram abatidas com utilização de utensílios de pedra. Essas mudanças na dieta e comportamento de coleta não tornaram nossos ancestrais exclusivamente carnívoros. Mas, a adição de pequenas porções de comida animal ao cardápio, combinada com a divisão dos recursos que é peculiar aos grupos de caça e coleta, teria significantemente aumentado a qualidade e estabilidade das dietas dos hominídeos. Uma melhor qualidade dietética, por si só, não explica por que os cérebros dos hominídeos cresceram, mas parece ter desempenhado um papel crítico na eclosão daquela mudança. Após um grande estímulo inicial no crescimento do cérebro, a dieta e a expansão desse órgão provavelmente interagiram em sinergia; cérebros maiores produziram comportamento social mais complexo, o que conduziu a outras estratégias em táticas de suprimento e a uma melhor alimentação que, por sua vez, fomentou a evolução adicional do cérebro.

Um banquete itinerante

A evolução do h. erectus na África, 1,8 milhão de anos atrás, marcou a terceira virada na evolução humana: o movimento inicial dos hominídeos para fora da África. Até recentemente, a localização e as idades dos sítios fósseis conhecidos sugeriam que os primeiros Homo permaneceram sedentários por poucas centenas de milhares de anos antes de se aventurarem a espalhar-se pelo resto do Velho Mundo.
O êxodo africano começou tão logo o H. erectus se desenvolveu, por volta de 1,8 milhão de anos, em parte, provavelmente, porque ele precisava de um espaço maior que seus predecessores de menor porte.
Estudos antigos indicaram que o aperfeiçoamento da tecnologia de ferramentas, cerca de 1,4 milhão de anos atrás - ou seja, o advento do machado de mão acheliano -, permitiu aos hominídeos deixar a África. Porém, o geocronologista Carl Swisher III, da Rutgers University, e colegas têm demonstrado que os primeiros sítios do H. erectus fora da África, situados na Indonésia e na República da Geórgia, datam de 1,8 milhão e 1,7 milhão de anos atrás, respectivamente. Parece que o surgimento do H. erectus e sua disseminação fora da África foram quase que simultâneos.

O ímpeto por trás dessa nova maneira de errar pelo mundo, novamente, parece ter sido o alimento. O que um animal come é o que define a área que ele demanda para sobreviver. Animais carnívoros geralmente necessitam de muito mais território que os herbívoros de porte compatível, pois têm menos calorias totais disponíveis por unidade de área.Sendo o H. erectus mais encorpado e cada vez mais dependente de dieta animal, provavelmente precisaria de uma gleba maior que os australopitecos, menores e mais vegetarianos. Utilizando dados de primatas contemporâneos e de humanos caçadores-coletores como guia, Robertson, Susan Antón, da Rutgers University, e eu calculamos que a estrutura corporal maior do H. erectus, combinada com o aumento moderado de consumo de carne, demandaria de 8 a 10 vezes mais território se comparado ao espaço requerido pelo tardio australopiteco - suficiente para explicar a abrupta expansão de espécies fora da África. Ainda não sabemos exatamente a que distância, para além do continente, esta mudança teria levado o H. erectus, mas eles podem ter sido motivados e guiados a essas terras distantes por rebanhos de animais migratórios.

Ao mudarem para latitudes nórdicas, os humanos encontraram novos desafios alimentares. Os neandertais, que viveram durante as últimas eras de gelo na Europa, estiveram entre os primeiros humanos a habitar a região ártica, e eles, quase que certamente, teriam necessitado de uma oferta calórica maior para viver sob aquelas circunstâncias. Pistas de quais teriam sido essas demandas de energia são fornecidas por dados de populações humanas tradicionais que habitam hoje as regiões árticas. As populações siberianas de criadores de rena, conhecidas como evenki - que estudei com Peter Katzmarzyk, da Queen\\`s University, Ontário, e Victoria A. Galloway, da University of Toronto, ambas no Canadá - e as populações de inuits (esquimós) do Canadá Ártico apresentam índices de metabolismo em repouso 15% acima do observado em pessoas de porte similar vivendo em ambientes temperados.

As atividades energeticamente mais dispendiosas associadas à vida em um clima nórdico elevaram a demanda calórica. Na verdade, enquanto um homem americano pesando 73 kg e levando uma vida urbana necessita de cerca de 2.600 kg por dia, um diminuto homem evenki pesando 57 kg, necessita de mais de 3 mil kcal/dia para se sustentar. Usando essas populações nórdicas modernas como referência, Mark Sorensen, da Northwestern University, e eu estimamos que os neandertais, provavelmente, teriam necessitado de cerca de 4 mil kcal/dia para sobreviver. Por terem sido capazes de preencher essas demandas, e pelo longo tempo que o fizeram, muito sobre suas habilidades como coletores é revelado (ver box).
Dilemas Modernos

Assim como as pressões para melhorar a qualidade alimentar influenciaram a evolução dos primeiros humanos, também esses fatores desempenharam um papel crucial nas expansões mais recentes do tamanho populacional. Inovações como cozimento, agricultura e mesmo aspectos da tecnologia alimentar moderna podem, todos, ser considerados táticas para elevar a qualidade da dieta humana. Cozinhar, por um lado, aumenta a energia disponível em alimentos vegetais selvagens (ver box da pág. 80). Com o advento da agricultura, os humanos começaram a manipular espécies de plantas marginais, visando maior produtividade, digestibilidade e conteúdo nutricional - tornando as plantas essencialmente mais próximas dos alimentos animais. Esse tipo de improviso continua hoje, com a manipulação genética de espécies para a produção de "melhores" frutas, vegetais e grãos. Da mesma forma, o desenvolvimento de suplementos nutricionais, que substituem refeições, é uma continuação da tendência iniciada por nossos ancestrais: obter o máximo de retorno nutricional, no menor volume e com o mínimo esforço físico.

A estratégia evidentemente funcionou: os humanos estão aqui hoje, e em números recordes. O testamento mais contundente, porém, da importância de alimentos ricos em energia e nutrientes na evolução humana, talvez esteja na observação de que tantas preocupações com a saúde, que atormentam as sociedades em todo o planeta, tenham origem nos desvios da dinâmica energética estabelecida por nossos ancestrais. Para as crianças em populações rurais de regiões em desenvolvimento, dietas de baixa qualidade resultam em crescimento físico deficiente e altas taxas de mortalidade nos primeiros anos de vida. Nesses casos, os alimentos oferecidos às crianças após o desmame não são, em geral, nutritivos e energeticamente fortes o suficiente para suprir as extensas necessidades associadas a esse período. Apesar de essas crianças, ao nascerem, apresentarem altura e peso tipicamente similares às de crianças norte-americanas, por exemplo, são menores e mais leves por volta dos três anos, assemelhando-se, freqüentemente, aos pequenos 2 ou 3% das crianças norte-americanas da mesma idade e sexo.

Estamos encarando o problema oposto no mundo industrial: os registros de obesidade na infância e na vida adulta estão crescendo, porque nosso desejo por alimentos ricos em energia - notadamente aqueles que incluem gordura e açúcar - tornaram-se muito disponíveis e relativamente baratos. Conforme estimativas recentes, mais da metade dos adultos norte-americanos estão acima do peso. A obesidade também apareceu em algumas re giões em desenvolvimento, onde, até há uma geração, era virtualmente desconhecida. Esse aparente paradoxo surgiu quando pessoas que cresceram malnutridas se mudaram das áreas rurais para lugares urbanos, onde o alimento tem disponibilidade imediata. A obesidade e outras doenças comuns do mundo moderno, de alguma forma, são extensões de um contexto que começou há milhões de anos. Nós somos vítimas de nosso próprio sucesso evolutivo, desenvolvendo uma dieta calórica concentrada, mas minimizando a quantidade de energia de manutenção despendida em atividade física.

Não foram somente as mudanças na dieta que difundiram muitos dos nossos problemas de saúde, mas a interação entre trocas alimentares e mudanças no estilo de vida. Os problemas de saúde modernos são, com freqüência, retratados como o resultado da ingestão de alimentos "ruins", que são desvios da dieta humana natural - uma supersimplificação incorporada pelo debate atual sobre os méritos relativos de uma dieta superprotéica e rica em gorduras tipo-Atkins, ou uma alternativa pobre em gorduras, que enfatiza carboidratos complexos.
Essa é uma visão fundamentalmente equivocada de se enfocar as necessidades nutricionais humanas. A nossa espécie não está apta a subsistir com uma dieta única e ideal. O que é singular nos seres humanos é a extraordinária variedade do que comemos. Fomos capazes de prosperar em quase todos os ecos- sistemas sobre a Terra, consumindo desde alimentos de origem animal, entre as populações do Ártico, até, basicamente, tubérculos e cereais, entre as populações dos Andes. Sem dúvida, um marco da evolução humana tem sido a diversidade de estratégias que desenvolvemos para criar dietas adequadas às nossas necessidades, e a sempre crescente eficiência com que extraímos energia e nutrientes do ambiente. O desafio que as sociedades enfrentam agora é o balanceamento entre as calorias que consumimos e as que queimamos.
O cozimento de vegetais, especialmente tubérculos, permitiu a expansão do cérebro, argumentam Richard Wrangham, da Harvard University, e colaboradores
A ingestão de mais alimentos de origem animal é uma forma de aumentar a densidade calórica e nutricional, uma mudança que parece ter sido crítica na evolução da raça humana. Mas poderiam nossos antepassados ter melhorado a qualidade alimentar de outra forma? Richard Wrangham, da Harvard University, e colegas recentemente pesquisaram a importância do cozimento na evolução humana. Eles demonstraram que cozinhar não só faz com que os vegetais fiquem mais macios e fáceis de se mastigar, como aumenta substancialmente o conteúdo energético disponível, particularmente em tubérculos feculosos como a batata e a mandioca. Quando crus, as féculas não são imediatamente quebradas pelas enzimas do corpo humano. Quando aquecidos, porém, esses carboidratos complexos tornam-se mais digestíveis e, portanto, liberam mais calorias.
Os pesquisadores propuseram que o Homo erectus foi, provavelmente, o primeiro hominídeo a usar o fogo para cozinhar há, talvez, 1,8 milhão de anos.

Eles sustentam que aquele cozido antigo de vegetais (especialmente tubérculos) permitiu à espécie desenvolver dentes pequenos e cérebros maiores que seus antecessores.
Além disso, as calorias extras permitiram ao H. erectus começar a caçar - uma atividade energeticamente dispendiosa - com maior freqüência.
Sob uma perspectiva energética, essa é uma linha suficientemente lógica de raciocínio. O que fica difícil de aceitar nessa hipótese é a evidência arqueológica que a equipe de Wrangham utiliza para defendê-la. Os autores citam sítios do leste africano, Koobi Fora e Chesowanja, datados em torno de 1,6 e 1,4 milhão de anos, respectivamente, para indicar o controle do fogo pelo H. erectus. Esses locais, realmente, mostram evidências de fogueiras, mas se hominídeos foram os responsáveis por essas fogueiras é um assunto a ser debatido. A mais antiga e inequívoca manifestação do uso do fogo - fornos de pedra e ossos de animais queimados em sítios na Europa - datam somente de cerca de 200 mil anos.

O cozimento foi claramente uma inovação que melhorou substancialmente a qualidade da alimentação humana. Mas ainda continua incerto quando essa prática apareceu. - W. R. L.
As refeições neandertais consistiam principalmente em carne, de acordo com análises químicas de ossos
Para reconstruir o que os primeiros humanos comeram, pesquisadores têm, tradicionalmente, estudado sinais característicos em dentes fossilizados e crânios, restos arqueológicos de atividades relacionadas à alimentação, e às dietas de humanos e macacos vivos. Mas, cada vez mais, os investigadores estão extraindo uma outra fonte de dados; a composição química de fósseis de ossos. Essa abordagem tem permitido descobertas especialmente intrigantes com relação aos neandertais.

Michael Richards, atualmente na University of Bradford, Inglaterra, e colegas examinaram, recentemente, isótopos de carbono (13C) e nitrogênio (15N) em ossos de neandertais de 29 mil anos da Caverna Vindija, Croácia. As proporções relativas desses isótopos na parte protéica do osso humano, conhecida como colágeno, refletem diretamente a quantidade de proteína da dieta do indivíduo. Assim, pela comparação isotópica das "assinaturas" nos ossos dos neandertais com a de outros animais vivendo no mesmo ambiente, os autores puderam determinar se a massa protéica obtida pelos neandertais era proveniente de vegetais ou animais. As análises demonstram que os neandertais de Vindija apresentavam níveis de 15N comparáveis àqueles vistos em carnívoros do norte, como as raposas e os lobos, indicando que eles obtiveram quase toda sua proteína dietética de alimentos de origem animal. Um trabalho anterior sugeriu que a ineficiência no suprimento pode ter sido um fator do subseqüente fim dos neandertais. Mas Richard e colaboradores argumentam que, para consumir tanto alimento de origem animal, como eles aparentemente o fizeram, os neandertais devem ter sido caçadores exímios. Essas descobertas são parte de um corpo crescente de literatura, sugerindo que o comportamento de subsistência dos neandertais era mais complexo que o previamente imaginado (ver "Who Were the Neandertals?" de Kate Wong; SCIENTIFIC AMERICAN, Abril 2000). - W. R. L.
A ariedade de estrtégias alimentares de sucesso, empregadas pelas populações que vivem tradicionalmente, proporcionam uma perspectiva importante no avanço dos debates sobre como regimes com índices altos de proteína e baixos de carboidrato, como a dieta de Atkins, comparam-se com os que destacam carboidratos complexos e restrição à gordura. Não é surpresa o fato de que esses dois esquemas produzem perda de massa, porque ambos ajudam as pessoas a diminuir o peso através do mesmo mecanismo básico: limitando as maiores fontes de calorias. Quando você cria um déficit de energia - ou seja, quando você consome menos calorias do que despende -, seu corpo começa a queimar seus estoques de gordura e você perde peso.

Uma questão maior sobre as dietas saudáveis de manutenção ou de perda de peso é se elas criam padrões alimentares mantidos ao longo do tempo. Nesse ponto, parece que as dietas que limitam em excesso grandes categorias de alimentos (carboidratos, por exemplo) são muito mais difíceis de serem mantidas que as dietas que restringem moderadamente. No caso do regime tipo - Atkins, existe uma preocupação com as potenciais conseqüências, a longo prazo, da ingestão de alimentos provindos, em sua maior parte, de animais confinados, com tendência a conter mais gordura e mais colesterol "ruim".
Em setembro, o National Academy of Science Institute of Medicin lançou novas diretrizes de dieta e exercício que captam bem as idéias apresentadas aqui. Não apenas o Instituto estabeleceu faixas maiores para a quantidade de carboidratos, gorduras e proteínas condizentes com uma dieta saudável - reconhecendo que existem várias formas de suprir as necessidades nutricionais -, como dobrou a quantidade recomendada de atividade física moderadamente intensa para uma hora por dia. Ao seguir essas informações e balanceando o que comemos com exercícios, podemos viver não só de uma forma parecida com os evenki da Sibéria e outras sociedades tradicionais, como também com os nossos ancestrais hominídeos. - W. R. L.
- As características que mais distinguem os humanos de outros primatas são, certamente, os resultados da seleção natural, agindo no melhoramento da qualidade da alimentação humana, e a eficiência com que nossos ancestrais obtiveram os alimentos. Alguns cientistas sugeriram que muitos dos problemas de saúde enfrentados pelas sociedades modernas seriam conseqüências de uma discrepância entre o que ingerimos e o que nossos antepassados comeram.

- Estudos entre populações que vivem tradicionalmente apontam que os humanos modernos estão aptos a suprir suas necessidades nutricionais usando uma ampla variedade de estratégias. Adquirimos flexibilidade alimentar. A preocupação com a saúde no mundo industrial, em que alimentos calóricos concentrados estão facilmente disponíveis, não se originam de desvios de uma dieta específica, mas de um desequilíbrio entre a energia que consumimos e a que despendemos.
Evolutionary Perspectives on Human Nutrition: The Influence of Brain and Body Size on Diet and Metabolism. William R. Leonard e Marcia L. Robertson in American Journal of Human Biology, Vol. 6, páginas 77- 88; Janeiro de 1994.

Rethinking the Energetics of Bipedality. William R. Leonard e Marcia L. Robertson in Current Anthropology, Vol. 38, páginas 304 - 309;abril de 1997.

Human Biology: An Evolutionary and Biocultural Approach. Editado por Sara Stinson, Barry Bogin, Rebecca Huss-Ashmore e Dennis O\\`Rourke. Wiley-Liss, 2000.

Ecology, Health and Lifestyle Change among the Evenki Herders of Siberia. William R. Leonard, Victoria A. Galloway, Evgueni Ivakine, Ludmilla Osipova e Marina Kazakovtseva in Human Biology of Pastoral Populations. Editado por William R. Leonard and Michael H. Crawford. Cambridge University Press, 2002.

An Ecomorphological Model of the Initial Hominid Dispersal from

sábado, 17 de dezembro de 2011

A teoria em evolução


Darwin Estava Errado? Não. Os indícios da evolução são inegáveis.   

 por David Quammen

Os esqueletos de pombos estudados por DarwinDarwin era um experiente dissecador e experimentador. Montou um aviário ao lado de sua casa e iniciou a criação de pombos especiais, chegando a possuir quase 90 aves. Ele comparou o esqueleto de estirpes diferentes, buscando semelhanças que indicassem a descendência de uma única espécie selvagem, a Columba livia

A evolução por meio da seleção natural, a concepção fundamental de toda a obra de Charles Darwin, é uma teoria – uma teoria sobre a origem da adaptação, complexidade e diversidade dos seres vivos na Terra. Para os mais céticos e menos familiarizados com a terminologia científica, é grande a tentação de dizer que se trata de “apenas” mais uma teoria. No mesmo sentido, a relatividade, tal como descrita por Albert Einstein, não passa de uma teoria. A noção de que a Terra gira em torno do Sol, proposta por Copérnico em 1543, também é “apenas” uma teoria. A deriva continental é outra. A existência, estrutura e dinâmica dos átomos? Teoria atômica. Até mesmo a eletricidade é uma elaboração teórica, postulando a existência dos elétrons, minúsculas unidades de massa eletricamente carregadas e jamais vistas. Todas essas teorias são explicações que foram confirmadas, até certo ponto, por meio de observações e experimentos, e que os especialistas aceitam como fatos. É isso o que os cientistas querem dizer quando propõem uma teoria: não uma especulação vaga e pouco confiável, mas uma explicação capaz de dar conta das evidências. Eles adotam tais explicações de maneira provisória – considerando-as como a melhor concepção disponível da realidade, até que surjam dados conflitantes ou melhores.
Nós, que não somos cientistas, em geral concordamos na prática com eles. Ligamos nosso aparelho de TV na tomada da parede, nosso ano é medido pelo comprimento da órbita da Terra e, de muitas outras maneiras, levamos adiante nossa vida, confiando na realidade dessas teorias.
A teoria da evolução, porém, é um pouco diferente. Afinal, é uma concepção da vida tão fantástica e abrangente que alguns a consideram inaceitável, apesar da montanha de indícios comprobatórios. Quando aplicada à nossa própria espécie, Homo sapiens, ela parece ainda mais ameaçadora. Muitos cristãos fundamentalistas e judeus ultra-ortodoxos não se conformam com a idéia de os seres humanos descenderem de primitivos primatas, em contradição com suas leituras literais do Gênesis bíblico. O desconforto tem paralelo entre os criacionistas islâmicos que consideram uma verdade literal o relato da Criação em seis dias. Para o falecido Srila Prabhupada, do movimento Hare Krishna, Deus criou “os 8,4 milhões de espécimes vivos no princípio”, a fim de oferecer múltiplos patamares para a ascensão das almas reencarnadas.
Mas há outros, além dos adeptos da leitura literal das escrituras, que ainda não se convenceram da evolução. Segundo uma pesquisa Gallup, realizada em 2001 com base em mais de mil entrevistas telefônicas, nada menos que 45% dos adultos americanos ouvidos admitiram que “Deus criou os seres humanos tal como eles são hoje em algum momento nos últimos 10 mil anos”. Para eles, a evolução não foi um fator relevante em nossa formação. Apenas 37% dos americanos consultados reconheceram a importância tanto de Deus como de Darwin – ou seja, que o mundo surgiu por iniciativa divina e depois foi modelado pela evolução. (Essa concepção, de acordo com mais de um pronunciamento papal, é compatível com os dogmas da Igreja Católica.) Uma proporção ainda menor, apenas 12%, acreditava que os seres humanos haviam evoluído de outras formas de vida, sem nenhuma intervenção divina.
O mais assombroso nos resultados dessa pesquisa não é que tantos americanos rejeitem a evolução, e sim que as opiniões mudaram pouco nas últimas duas décadas. Os entrevistadores do Instituto Gallup propuseram as mesmas perguntas em 1982, 1993, 1997 e 1999. A crença no criacionismo – ou seja, de que apenas Deus, e não a evolução, produziu os seres humanos – nunca ficou abaixo dos 44%. Quase metade dos americanos prefere acreditar que Charles Darwin estava errado na questão mais importante de sua obra.
Por que tanta gente é contrária à evolução? O respeito pelas escrituras talvez seja apenas parte da resposta. Sem dúvida, há nos Estados Unidos um grande segmento de pessoas que preferem ler de modo literal a Bíblia – mas esse segmento não é assim tão amplo, da ordem de 44%. Defensores do criacionismo e ativistas políticos empenhados em abolir o ensino da biologia evolucionista nas escolas públicas também constituem parte da explicação. Importantes também são a mera confusão e a ignorância de milhões de americanos adultos. Muita gente nunca assistiu a aulas de biologia que tratassem da evolução nem leu obras de divulgação que explicassem a teoria.
A evolução é, porém, um conceito ao mesmo tempo impecável e útil, hoje mais do que nunca crucial para o bem-estar das pessoas, para a ciência médica e para o entendimento do mundo. A evolução também é convincente – ela é uma teoria a toda prova. Seus pontos capitais são um pouco mais complexos do que em geral se imagina, mas não a ponto de ser incompreensíveis a um leitor atento. Além disso, os indícios a seu favor são abundantes, variados, cada vez mais numerosos, coerentes e facilmente acessíveis em museus, livros populares, manuais e pilhas de estudos comprovados por cientistas. Não é necessário – nem conveniente – que a teoria da evolução seja aceita apenas como uma questão de fé.
Não apenas uma, mas duas grandes idéias estão no centro dessa teoria: uma é a evolução de todas as espécies, um fenômeno histórico; a outra é a seleção natural, o principal mecanismo desse fenômeno. No primeiro caso, trata-se do que ocorreu; no segundo, do modo como isso se deu. A idéia de que todas as espécies descendem de ancestrais comuns fora sugerida por outros pensadores, entre os quais Jean-Baptiste Lamarck, muito antes de Darwin publicar A Origem das Espécies, em 1859. Mas o que tornou esse livro tão extraordinário ao ser divulgado, e tão influente a longo prazo, foi o fato de proporcionar uma explicação racional para o mecanismo da evolução. A mesma explicação ocorreu, de modo independente, a Alfred Russel Wallace, um jovem naturalista que realizava pesquisas no arquipélago malaio no final da década de 1850. Nos anais da história, ainda que não na consciência das pessoas, Wallace e Darwin partilham a honra à descoberta da seleção natural.

Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL
Ira Block
Crãnio de H. Floresensis 
Crânio de H. Floresensis
No início pensamos que fosse uma criança, talvez com 3 anos. Um exame revelou, porém, que os pequenos ossos, recém-desenterrados de uma caverna na ilha indonésia de Flores, pertenciam a um adulto plenamente amadurecido – mas com cerca de 1 metro de altura.
Será que havíamos achado um ser humano moderno cujo crescimento fora tolhido por alguma doença ou por desnutrição? Não. A ossada tinha aparência primitiva, e os outros restos mortais presentes em Liang Bua – “Caverna Fresca”, na língua local, o manggarai – indicavam que o esqueleto não era de nenhum espécime isolado. Na verdade, era típico de toda uma população de criaturas diminutas que no passado ocupou essa ilha remota. O que havíamos achado era um tipo até então desconhecido de ser humano.
De volta ao laboratório, onde analisamos os ossos e outros artefatos, a dimensão de nossa descoberta tornou-se mais clara. Esse pequeno parente dos seres humanos, a quem apelidamos de Hobbit, viveu há 18 mil anos, numa época em que o Homo sapiens – ou seja, pessoas como nós – já se dispersava por todo o planeta. Ele, no entanto, se parecia mais com uma versão reduzida de antepassados humanos 100 vezes mais antigos, encontrados na outra extremidade da Ásia.
Nós havíamos tropeçado em um mundo perdido: pigmeus sobreviventes de uma época anterior, vivendo à margem das principais correntes da pré-história humana. Quem seriam eles?
Com 300 quilômetros de comprimento e situada entre a Ásia e a Oceania, a ilha de Flores nunca esteve ligada por pontes de terra a qualquer dessas massas continentais. Mesmo nos períodos em que o nível do mar estava baixo, a navegação da Ásia até Flores, com escalas, exigia travessias oceânicas de até 24 quilômetros. Antes que os seres humanos começassem a levar animais, como porcos e cães, para a ilha, há 4 mil anos, os únicos mamíferos que lá chegaram foram os estegodontes (um antepassado dos elefantes) e roedores – os primeiros, nadando, e estes, de carona em troncos à deriva. Nenhum povo chegou a Flores até os homens modernos, dotados de inteligência suficiente para construir barcos. Pelo menos, era isso o que sustentavam os cientistas.
Nas décadas de 1950 e 1960, entretanto, o padre Theodor Verhoeven, arqueólogo amador, já encontrara sinais de presença humana anterior em Flores. Na bacia de Soa, ele achou instrumentos de pedra, junto a fósseis de estegodonte, cuja idade estima-se de 750 mil anos. Uma vez que o Homo erectus, um hominídeo arcaico, encontra-se na ilha vizinha de Java há pelo menos 1,5 milhão de anos, Verhoeven concluiu que espécimes de H. erectus haviam conseguido atravessar o mar e chegar a Flores.
Tais alegações extraordinárias não impressionaram os arqueólogos profissionais. Na década de 1990, porém, outros pesquisadores recuaram a idade dos artefatos da bacia de Soa para 840 mil anos. Verhoeven estava certo: os hominídeos haviam chegado a Flores bem antes de a ilha ser alcançada por humanos modernos. Todavia, nenhuma ossada deles jamais fora encontrada.
Foi isso o que nos levou à ilha, até Liang Bua, no planalto ocidental de Flores. Em setembro de 2003, nossa equipe de pesquisadores indonésios e australianos, auxiliados por 35 trabalhadores manggarais, já escavara 6 metros no piso da caverna. As camadas recentes eram ricas em instrumentos líticos e ossos de animais, mas ainda assim parecia difícil atingir nosso objetivo.

Pequenos homens grandes

Hominídeos da Indonésia sugerem que os humanos não estão isentos de seleção natural

por Mike Morwood
Crãnio de H. Floresensis 

No início pensamos que fosse uma criança, talvez com 3 anos. Um exame revelou, porém, que os pequenos ossos, recém-desenterrados de uma caverna na ilha indonésia de Flores, pertenciam a um adulto plenamente amadurecido – mas com cerca de 1 metro de altura.
Será que havíamos achado um ser humano moderno cujo crescimento fora tolhido por alguma doença ou por desnutrição? Não. A ossada tinha aparência primitiva, e os outros restos mortais presentes em Liang Bua – “Caverna Fresca”, na língua local, o manggarai – indicavam que o esqueleto não era de nenhum espécime isolado. Na verdade, era típico de toda uma população de criaturas diminutas que no passado ocupou essa ilha remota. O que havíamos achado era um tipo até então desconhecido de ser humano.
De volta ao laboratório, onde analisamos os ossos e outros artefatos, a dimensão de nossa descoberta tornou-se mais clara. Esse pequeno parente dos seres humanos, a quem apelidamos de Hobbit, viveu há 18 mil anos, numa época em que o Homo sapiens – ou seja, pessoas como nós – já se dispersava por todo o planeta. Ele, no entanto, se parecia mais com uma versão reduzida de antepassados humanos 100 vezes mais antigos, encontrados na outra extremidade da Ásia.
Nós havíamos tropeçado em um mundo perdido: pigmeus sobreviventes de uma época anterior, vivendo à margem das principais correntes da pré-história humana. Quem seriam eles?
Com 300 quilômetros de comprimento e situada entre a Ásia e a Oceania, a ilha de Flores nunca esteve ligada por pontes de terra a qualquer dessas massas continentais. Mesmo nos períodos em que o nível do mar estava baixo, a navegação da Ásia até Flores, com escalas, exigia travessias oceânicas de até 24 quilômetros. Antes que os seres humanos começassem a levar animais, como porcos e cães, para a ilha, há 4 mil anos, os únicos mamíferos que lá chegaram foram os estegodontes (um antepassado dos elefantes) e roedores – os primeiros, nadando, e estes, de carona em troncos à deriva. Nenhum povo chegou a Flores até os homens modernos, dotados de inteligência suficiente para construir barcos. Pelo menos, era isso o que sustentavam os cientistas.
Nas décadas de 1950 e 1960, entretanto, o padre Theodor Verhoeven, arqueólogo amador, já encontrara sinais de presença humana anterior em Flores. Na bacia de Soa, ele achou instrumentos de pedra, junto a fósseis de estegodonte, cuja idade estima-se de 750 mil anos. Uma vez que o Homo erectus, um hominídeo arcaico, encontra-se na ilha vizinha de Java há pelo menos 1,5 milhão de anos, Verhoeven concluiu que espécimes de H. erectus haviam conseguido atravessar o mar e chegar a Flores.
Tais alegações extraordinárias não impressionaram os arqueólogos profissionais. Na década de 1990, porém, outros pesquisadores recuaram a idade dos artefatos da bacia de Soa para 840 mil anos. Verhoeven estava certo: os hominídeos haviam chegado a Flores bem antes de a ilha ser alcançada por humanos modernos. Todavia, nenhuma ossada deles jamais fora encontrada.
Foi isso o que nos levou à ilha, até Liang Bua, no planalto ocidental de Flores. Em setembro de 2003, nossa equipe de pesquisadores indonésios e australianos, auxiliados por 35 trabalhadores manggarais, já escavara 6 metros no piso da caverna. As camadas recentes eram ricas em instrumentos líticos e ossos de animais, mas ainda assim parecia difícil atingir nosso objetivo.

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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O criacionismo chega às escolas do Rio de Janeiro: uma abordagem sociológica

Por Maurício Vieira Martins 



"Não acredito na evolução das espécies. Tudo isso é teoria", disse a governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Matheus, em entrevista à imprensa em abril de 2004. Quem acompanha os desdobramentos da posição do governo fluminense quanto às diretrizes educacionais do estado, sabe que o pronunciamento da governadora possui mais implicações do que supõe a nossa vã filosofia. Ele expressa o fortalecimento de algumas tendências religiosas que vêm ocupando um espaço cada vez mais amplo em diferentes níveis institucionais da sociedade.
Inicialmente, elucidemos o contexto imediato da afirmação da governadora: tratava-se de justificar a inclusão nos currículos das escolas públicas do estado de disciplinas religiosas confessionais (mais adiante, faremos um comentário sobre este caráter confessional), para, num segundo momento, incorporar em seu conteúdo programático a doutrina criacionista como explicação para a origem da vida. Para quem ainda não sabe, o criacionismo é uma concepção que recusa a teoria de Darwin acerca da evolução das espécies e propõe em seu lugar uma interpretação praticamente literal da Bíblia, tomando como base o livro do Gênesis: lá afirma-se que foi Deus quem criou inicialmente o mundo e logo depois também o homem, "à sua imagem e semelhança". Quanto à proposta da governadora, confirmada pela sua Secretaria de Educação, ela consiste, ao fim e ao cabo, em apresentar aos estudantes as duas concepções (o darwinismo e o criacionismo) como explicações alternativas para o mesmo fenômeno. Até porque o currículo básico proposto prevê "reflexões sobre a criação de Deus como um ato de amor".

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Num âmbito mais geral, cabe esclarecer que no interior do atual debate acerca do fortalecimento da referida corrente religiosa existem diferentes ângulos de análise. Há uma discussão que vem sendo levada adiante por profissionais ligados às chamadas ciências da vida, que apresentam a comprovação experimental das hipóteses de Darwin, desmontando os argumentos dos defensores mais sofisticados do criacionismo (sendo que estes últimos, por uma questão tática, mudaram recentemente de nome, passando a adotar a denominação de intelligent design; ou, na tradução mais usual para o nosso idioma, planejamento inteligente). Esta discussão, instrutiva sob vários aspectos, nos ensina que embora o darwinismo, como qualquer teoria científica, abrigue aspectos mais controvertidos em seu interior, o fato é que ele é um fecundo programa de pesquisa que vem sendo confirmado há mais de um século em inúmeras áreas das ciências da vida e que já gerou desdobramentos práticos inegáveis. Já o intelligent design não consegue elaborar nenhuma construção teórica própria: ele apenas se dedica a procurar falhas no darwinismo (como a sempre invocada ausência de alguns fósseis intermediários), para pretender a partir daí infirmá-lo. No lugar do evolucionismo, contenta-se com a afirmação, por exemplo, de que: "Pesquisas de opinião demonstram que mais de 90% dos americanos acreditam em Deus, e que cerca da metade comparece regularmente a ofícios religiosos... Com toda essa manifestação pública, por que a ciência deveria achar difícil aceitar a teoria que dá respaldo àquilo em que, de qualquer modo, a maioria do povo acredita?" (Behe: 1997, p. 235)

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Mas há também um outro aspecto deste debate que talvez não tenha ainda merecido a devida atenção. Referimo-nos a um exame das condições sociais e históricas que possibilitaram a expansão recente do criacionismo: tais condições merecem um exame mais detalhado. Com efeito, sabemos que num campo de debates não são apenas razões intelectuais que levam certas concepções a ganharem um espaço que não dispunham anteriormente: o mundo das idéias não paira solto pelo ar, ele mantém vínculos com o cotidiano dos homens. Então, a nossa pergunta poderia ser assim resumida: que tipo de causalidade "terrena" estaria presente neste revival das diferentes formas do criacionismo? Para esta resposta, uma abordagem apenas biológica se revela manifestamente insuficiente. Até porque a leitura dos escritos criacionistas revela a influência, sem dúvida mediatizada, de um certo contexto social que insiste em se manifestar mesmo no interior de uma discussão aparentemente tão distante deste tipo de determinação. É neste ponto que iremos nos deter: ele nos parece simplesmente decisivo para o correto entendimento da questão.

Recuemos então na história recente para examinar no nosso continente americano as origens dessa resistência tão acentuada às teorias de Darwin. Quando fazemos isso, chegamos às primeiras décadas do século XX, nos estados sulistas dos EUA; neles, a pregação de algumas idéias religiosas atingia especialmente os setores mais desfavorecidos da população, que tendiam a se sentir ofendidos com as hipóteses evolucionistas acerca da origem animal da espécie humana. Ao longo do século XX, contudo, o criacionismo conseguiu alcançar setores mais diferenciados, produziu seus próprios intelectuais (que buscaram se credenciar com títulos acadêmicos elevados, como é o caso do citado M. Behe, ou de Henry Morris e Duane Gish), esmerando-se em procurar pontos polêmicos na teoria de Darwin. Um exame de seus escritos detecta neles uma já histórica caracterização do evolucionismo como sendo uma filosofia materialista, atéia, que levaria os homens para um caminho distante dos ensinamentos religiosos.
Pois é contra essa filosofia que os criacionistas protestam com a maior veemência: segundo eles, ela seria responsável por uma série de problemas vividos em sociedade. Menciona-se a desagregação da família e dos costumes, o aumento no número de divórcios, a deterioração dos valores morais, a competitividade que seria estimulada pela teoria darwinista, o individualismo exacerbado. Tudo se passa como se o questionamento que o darwinismo faz à concepção bíblica sobre a origem da vida abalasse os alicerces morais da vida em sociedade que levam os homens a estabelecerem e aceitarem certos compromissos. Em seu lugar, o que é proposto é a restituição de uma imago mundi mais antiga, onde Deus não só criou o mundo e as espécies mas também forneceu uma lei para o convívio humano; pela via dessa restituição, acredita-se ser possível devolver também aos homens um sentido de moralidade e de observância às leis que se perdeu ao longo do tempo.
Merece atenção especialmente uma certa mentalidade que fornece a base conceitual sobre a qual o criacionismo realiza suas operações lógicas. Provisoriamente, ela será aqui nomeada como sendo um certo tipo de mentalidade religiosa. Caracteriza-se por desejar uma ordenação bem definida para o mundo em que vivemos: há uma demanda por regulação e, mais do que isso, pela reivindicação do reconhecimento de uma lei divina que funciona com vigor. É uma implícita teodicéia (uma teoria da justiça divina) que reencontraremos nos escritos dos defensores do criacionismo. Confrontados com a realidade de uma sociedade onde persistem problemas graves de miséria, violência e exclusão social, eles invocam uma explicação que atribui a desígnios que não conhecemos e que forneceriam o fundamento daquilo que se passa em nosso mundo terrreno. Ainda nas palavras de M. Behe: "É claro que planejadores que têm capacidade de produzir melhores planos não fazem isso sempre. ... não dou a meus filhos os melhores e mais sofisticados brinquedos porque não quero mimá-los e porque desejo que eles aprendam o valor do dinheiro." (Behe, 1997: p 225). Ou seja, o planejador (designer) tem razões que nós não conhecemos; qualquer semelhança com a tradicional teologia judaico-cristã não é mera coincidência...

Conforme sugerimos anteriormente, a correta visualização dos motivos que levam à expansão desse tipo de mentalidade se articula a um contexto social e histórico que ultrapassa em muito o puro debate das idéias. Ora, ocorre que quando se sai do recinto do debate de idéias e chega-se ao âmbito das relações sociais humanas, chama a atenção o agudo estado de fragmentação que caracteriza a chamada pós-modernidade. Apenas como exemplo: centros de inovações científicas de última geração onde se produz o conhecimento ("ilhas de excelência") só conseguem emergir no meio de vastos setores empobrecidos. O projeto de uma modernidade que resolveria os problemas dos homens - acalantado pelo menos desde o Iluminismo - não conseguiu se implementar: vivemos numa época que alia um enorme desenvolvimento científico com a persistência de antigos problemas de pobreza, concentração de renda e violência. Mesmo nos Estados Unidos, a maior potência capitalista do planeta, essa fragmentação é bem atestada pela proliferação de uma cultura de armas que gera vítimas mesmo entre estudantes, pelo prolongamento da jornada de trabalho além do suportável (como nos aponta Juliet Schor em seu The overworked american), ou por uma cultura individualista que chega às raias do autismo. Se quiséssemos utilizar uma célebre expressão cunhada por S. Freud (outro autor odiado pelos criacionistas...), teríamos aqui inúmeros sintomas de um agudo mal estar na civilização.
Pois bem, é este o campo propício para o fortalecimento da mentalidade religiosa a que nos referimos pouco atrás: os graves problemas que nos atingem diariamente aparecem transfigurados na ótica criacionista, que os interpreta como sendo causados por uma postura materialista diante do mundo cujo representante máximo seria o darwinismo. Curioso é notar que um mesmo contexto histórico pode gerar formas de reações muito diferentes, mas que partilham de uma gênese social comum. Num outro debate, o historiador William Mc Neill, do Instituto Fernand Braudel, referindo-se ao que poderíamos nomear como uma afinidade entre estruturas, afirma que "As seitas religiosas e as gangues violentas são, até agora, as duas formas mais importantes de reação da população." (in Oliveira, 2002). Com efeito, os homens são seres que não apenas criam mas também reagem ao mundo em que vivem. Homens e mulheres diferentes reagirão de forma peculiar a uma realidade sentida como ameaçadora. No caso aqui em foco, o crescimento de uma procura religiosa é bastante sintomático de uma situação particularmente difícil de ser enfrentada: trata-se da procura de uma linguagem para lidar com aquilo que mais provoca mal estar no cotidiano dos homens.
Assim é que o criacionismo é claramente reativo: ele responde a uma certa situação que é vivida como ameaçadora. Postula o retorno a uma cosmologia onde tudo encontra o seu devido lugar. Diante de um mundo experimentado como objetificador, a linguagem que o criacionismo encontra para afirmar a dignidade humana é postular sua irredutibilidade a qualquer outra espécie. O resultado mais conspícuo de seu procedimento consiste em deslocar a insatisfação com a realidade vigente, fazendo-a incidir sobre o darwinismo, que passa a ser visto como uma das principais causas do mal estar contemporâneo.
Isso posto, caberia fazer agora algumas considerações sobre a passagem dessa doutrina religiosa dos Estados Unidos para o nosso país. Num primeiro momento, poderia-se afirmar que estamos diante apenas de mais um fenômeno da globalização: o que era um fenômeno norte-americano se irradia para outros pontos do planeta. Esta explicação tem uma boa dose de verdade, porém, ela deve ser acompanhada por algumas considerações suplementares, pois a realidade inequívoca da globalização não cancela diferenças marcantes entre os países. Assim, se nos Estados Unidos o antigo e persistente segmento criacionista é também sintoma de uma cultura que apresenta acentuadas resistências em reconhecer, parafraseando as palavras de M. Foucault, a "ferida narcísica" que consiste em admitir que o homem não é o centro do universo, já no Brasil o peso das condições objetivas de existência vem para um primeiro plano muito evidente.
Recordemos: a governadora Rosinha foi eleita pela população do Rio de Janeiro, estado que, segundo pesquisas recentes, é de fato o mais violento de nosso país (não, caros leitores, esta não é uma "criação" da mídia: ainda que com diferenças de metodologia, as pesquisas apontam com clareza a verdadeira hecatombe vivida por parte da população fluminense). Se numa referência internacional nosso país apresenta o quarto maior número de homicídios do mundo (perdendo apenas para a Colômbia, El Salvador e Rússia), já entre as mortes violentas de jovens de 15 a 24 anos, as estatísticas do Rio de Janeiro, 118 mortes por cada grupo de 100 mil, conseguem ser superiores mesmo às da Colômbia! Não por acaso, o crescimento de um certo tipo de religiosidade é também exponencial nesse mesmo período. Os estudiosos do tema chamam a atenção para o fato de que esse crescimento ocorre exatamente naquelas áreas mais desassistidas pelo Estado. E todos sabemos que vem de longa data a ausência de uma atuação pública em vastos setores da sociedade carente: é nesta vacância de um projeto político efetivamente transformador que se instala uma pregação religiosa que promete aos homens aquilo que eles hoje simplesmente não dispõem: uma vida digna que transcorra sob uma lei efetivamente democrática.
O desdobramento desse processo, que está sendo aqui apresentado de forma extremamente sintética, faz emergir diferentes lideranças, algumas oriundas das próprias camadas desfavorecidas, outras de extratos mais altos que se remetem às primeiras como plataforma a partir da qual se lançam em sua atuação política. É neste âmbito que o recurso a um discurso religioso, que apresenta as injustiças deste mundo terreno dentro do registro de uma teodicéia religiosa, mostra-se particularmente eficaz na tarefa de angariar adeptos. Vale lembrar que o ex-governador fluminense e atual secretário de segurança, Anthony Garotinho, introduziu em seus discursos o recorrente significante do "demônio" para caracterizar aqueles que não concordavam com suas iniciativas políticas. 
Esta é um pouco da nossa triste história recente (fragmento local de uma realidade internacionalizada): esvaziado economicamente, situado na rota do narcotráfico internacional, carente de projetos políticos alternativos mais consistentes, o Rio de Janeiro tornou-se também um campo propício para um amálgama regressivo entre poder político e discurso religioso. E ainda que a expansão do criacionismo em nosso país certamente não seja uma prerrogativa fluminense (o Centro Universitário Adventista de São Paulo - Unasp, instituição particular, também ministra um neo-criacionismo para seus alunos), tal expansão é especialmente danosa nesse estado por se dar sob a égide do poder público. A este respeito, nunca é demais recordar que a separação entre estado - poder público com uma pretensão universalizante - e poder religioso foi uma conquista arduamente obtida nos albores da modernidade. Por isso, quando o governo fluminense volta a atribuir um caráter religioso confessional à educação pública (sob o argumento de que existe uma crise moral na sociedade civil que precisa ser sanada), ele na verdade está realizando um procedimento dos mais autoritários: impõe uma visão de mundo religiosa mesmo àqueles que não concordam com ela. Está correto o deputado Carlos Minc em sua luta contra a lei estadual de 2002 que institui a educação religiosa confessional nas escolas públicas fluminenses (o deputado vem anunciando o ingresso de uma ação na Justiça Federal questionando a inconstitucionalidade da lei). Até porque nosso país abriga sujeitos cristãos, muçulmanos, judeus, afro-descendentes, budistas, agnósticos, ateus e tantos outros. O privilégio de uma religião em detrimento de outras (ou do ateísmo) é um procedimento que realiza violência simbólica, perigosa ante-sala da violência física, sobre os nossos jovens.
Por tudo isso, finalizaremos este breve artigo expressando nossa concordância com todos aqueles eminentes pesquisadores (como Ennio Candotti e Ildeu de Castro Moreira) que já se manifestaram enfaticamente sobre este grave erro que consiste em impor aos alunos das escolas estaduais uma doutrina religiosa como sendo equivalente ao discurso científico. Pois enquanto o darwinismo é uma teoria amplamente exposta ao debate (e, como tal, abriga salutares controvérsias científicas) já o fundamento último do criacionismo é um texto religioso, a Bíblia. Texto importantíssimo como documento histórico milenar, sem dúvida, mas cujo caráter metafórico de sua linguagem é hoje reconhecido mesmo por várias lideranças religiosas, tornando indefensável a tentativa de ali se buscar uma fundamentação científica para as origens mais remotas da espécie humana. E, sejamos lúcidos: é um equívoco enorme supor que uma educação religiosa confessional vá melhorar o convívio entre homens. Basta olhar ao nosso redor para identificar o enorme número de sangrentas guerras que têm entre seus motivos, principais ou secundários, conflitos religiosos os mais diversos: cristãos contra muçulmanos, católicos irlandeses contra protestantes irlandeses, israelenses contra palestinos, etc, etc, etc. O que os nossos estudantes precisam é de uma formação democrática sólida, científica e humanista, que lhes incentive a pensar com as suas próprias cabeças. Aqueles que desejarem aderir - ou não - a uma religião, que o façam a partir de seus próprios anseios e do amplo acesso a variadas informações. Um Estado que se arroga esta prerrogativa não estará formando cidadãos, mas uma obscura massa de manobra prestes a servir ao primeiro demagogo de plantão.
Maurício Vieira Martins é sociólogo, doutor em filosofia e professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense

Notas
Cf (Martins e França, 2004) (voltar)
Uma contundente exposição sobre os limites estruturais do criacionismo, mesmo em sua versão do intelligent design, pode ser encontrada nos seguintes textos: (Zimmer, 2003); (Ruse, 1996) e (Orr, 1996/7) (cf. Bibliografia). (voltar)
Estas palavras são de um dos defensores mais em evidência do intelligent design, o bioquímico criacionista Michael Behe, em seu livro A caixa preta de Darwin. Analisei com mais detalhes o argumento de Behe em meu artigo "De Darwin, de caixas pretas e do surpreendente retorno do criacionismo" (cf Bibilografia). (voltar)
Para o diagnóstico criacionista sobre o evolucionismo e o mundo contemporâneo, conferir especialmente o artigo de Ronald Numbers, "The creacionists", na coletânea But is it science? (cf Bibliografia). (voltar)
Cf (Marques, 2004: p. A3). O texto de Marques tem como base o Mapa da violência elaborado pela Unesco e divulgado em junho de 2004. O representante da Unesco no Brasil, Jorge Werthein, também comenta estas dramáticas estatísticas. (voltar)
Dentre os autores que desenvolvem este aspecto, podemos citar os trabalhos da socióloga Regina Novaes (2002). (voltar)
Cf (Minc, 2004: p. 9) (voltar)
Cf (Gazir, 2004)

BEHE, Michael. A caixa preta de Darwin. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização. Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud , vol. XXI. Rio de Janeiro, Imago, 1977.
GAZIR, Augusto. "Escolas do Rio vão ensinar criacionismo". Folha de S. Paulo, 13/05/2004.
MARQUES, Hugo. "Rio é o campeão da violência: estado lidera o ranking da criminalidade e tem números comparáveis aos da Colômbia". Jornal do Brasil, 08/06/2004.
MARTINS, Elisa e FRANÇA, Valéria. "Rosinha contra Darwin: Governo do Rio de Janeiro institui aulas que questionam a evolução das espécies." revista Época, Edição 314, 24/05/04.
MARTINS, Maurício Vieira. "De Darwin, de caixas pretas e do surpreendente retorno do criacionismo". In História, Ciências, Saúde - Manguinhos (Fundação Oswaldo Cruz), vol VIII, no 3, set-dez 2001.
MINC, Carlos. "De volta à Idade Média". Jornal do Brasil. 17/03/2004, p. 9.
NOVAES, Regina. "Crenças religiosas e convicções políticas". In Fridman, Luis Carlos (org). Política e cultura: século XXI. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2002.
NUMBERS, Ronald. "The creacionists". In RUSE, Michael. (org) But is it science?. Amherst, Prometheus Books, 1996.
OLIVEIRA, Nilson Vieira. (org) e MCNEILL, William. Insegurança pública: reflexões sobre a criminalidade e a violência urbana. São Paulo, Ed Nova Alexandria, 2002.
ORR, H. Allen. "Darwin vs. Intelligent design (Again)", Boston review, dez/96-jan/97.

RUSE, Michael. (org) But is it science? The philosophical question in the creation/evolution controversy. Amherst, Prometheus Books, 1996.
ZIMMER, Carl. O livro de ouro da evolução. Rio de Janeiro, Ediouro, 2003.