quarta-feira, 7 de abril de 2010

O que restou da Ditadura: entulho que dura (e se reproduz)

Sílvia Suppo

O Que Resta da Ditadura propõe uma reflexão sobre o período e reclama o direito à memória e à verdade.

Por Francisco Foot Hardman
Os monstros continuam soltos e ativos. Quando começava a escrever este texto, veio a notícia: Silvia Suppo, testemunha-chave contra torturadores da ditadura militar argentina, ex-prisioneira aos 18 anos (1976), quando foi estuprada por três agentes da repressão, de que resultaram gravidez e aborto feito por seus algozes, acaba de ser assassinada, segunda-feira passada, na pequena cidade de Rafaela, província de Santa Fé, logo após ter feito depoimento contundente à justiça onde refizera, cara a cara com alguns dos torturadores, todo o itinerário de seu martírio. Seu irmão Hugo, pesquisador estabelecido na França, faz agora circular na internet uma petição às autoridades argentinas e brasileiras para que mais esse crime remanescente da ditadura não seja esquecido sob o manto do medo e da impunidade.
Lembrar da morte bárbara de Sílvia Suppo - a do seu corpo agora extinto pelo arco da aliança duradoura de seus antigos carrascos - não representa apenas um toque de atualidade ao tema dessa importante intervenção coletiva e pública que Edson Teles e Vladimir Safatle reuniram em "O Que Resta da Ditadura", aquilo que os jornalistas denominam gancho. Pois que a dolorosa contemporaneidade do assunto deste livro está "enganchada", há muito, em nossos corpos e mentes.
Na difícil tarefa de reflexão crítica que seus 15 ensaios propõem, difícil diante dos arautos poderosos do Partido da Amnésia, presentes não só nas agremiações políticas (do PMDB, DEM e PP, herdeiros diretos das siglas consentidas depois do golpe de 64 ao PSDB e PT, partidos da nova ordem do "esqueça-o-que-fui") mas na mídia (a ideologia da "ditabranda" é uma de suas faces mais amenas), no Executivo, Legislativo e Judiciário (de ex-operadores civis do regime militar a defensores abertos da tortura como salvaguarda excepcional do Estado), vale não esquecer que a permanência de estruturas e mecanismos de exceção não é privilégio da sociedade brasileira, mas possui lastro forte em outros países latino-americanos.
Os avanços da punição a ditadores e torturadores na Argentina, no Chile e Uruguai não livrou essas nações da sanha de criminosos incrustados no aparelho estatal e contando muita vez com redes de suporte não desprezíveis na sociedade civil. A democracia liberal é uma ideologia deslocada não só aqui, mas também nos Estados Unidos de Guantánamo ou na Itália berlusconiana dos comitês de vigilância contra imigrantes. As grandes corporações financeiras fizeram e fazem do Estado de direito um exercício digressivo acadêmico capaz de girar entre boa-fé e mistificação.
Quem ler o livro verá como o concurso de vários campos do saber e especialistas tão interessantes quanto diversos pode tornar o debate sobre o tema digno de sua complexidade. Assim, na esfera da exceção jurídica, as penas afiadas de Flávia Piovesan e Glenda Mezarobba demonstram à larga o anacronismo flagrante da lei de anistia do governo Figueiredo em face de todas as convenções do direito internacional contra a tortura subscritas pelo Estado brasileiro.
E mais: a ênfase na reparação financeira a perseguidos e familiares de mortos serve, perversamente, para nublar a questão do direito à memória e à verdade. Já os estudos bem informados de Gilberto Bercovici, Jorge Zaverucha e Paulo Ribeiro da Cunha põem o dedo na presença do entulho autoritário na esfera constitucional, inclusive na festejada Constituição "cidadã" de 1988, tanto no âmbito da administração pública quanto, com destaque, na continuidade da militarização de parte considerável das forças policiais.No amplo mosaico das manifestações culturais, as relações jamais resolvidas entre trauma, memória e esquecimento, com todas suas sequelas, são examinadas, com engenho e arte, nos textos de Maria Rita Kehl, Jaime Ginzburg, Beatriz Vieira, Jeanne Marie Gagnebin e Tales Ab"Sáber, todos imbuídos da melhor radicalidade, a que tenta não apenas esclarecer mas convida a pensar e, sobretudo, a agir.
As análises do filme Corpo, de Rosana Foglia e Rubens Rewald (Ab"Sáber) e do conto O Condomínio, de Luis Fernando Verissimo (Ginzburg) aparecem como leituras artísticas notáveis de nossos traumas por tratar.A terceira e última parte toca diretamente na questão do bloqueio da política. Além dos artigos com que os dois organizadores comparecem ao volume (Vladimir, sobre violência e legalidade; Edson, numa instigante comparação entre Brasil e África do Sul), Janaína Teles faz-se presente com as vozes dos familiares de mortos e desaparecidos que persistem na resistência ao arbítrio e na defesa do direito à memória, à verdade e à justiça.
Essa seção abre com um longo ensaio de Paulo Arantes sobre a persistência da exceção como regra na história do século 20, o Brasil aí muito bem compreendido. Arantes cada vez mais se revela como exímio historiador da cena contemporânea: seu texto faz as vezes de grande síntese introdutória do conjunto de contribuições. Valeria, talvez, lê-lo em primeiro lugar.
Ou por último. Já que no fim, o texto do escritor Ricardo Lísias, à guisa de pretenso manifesto, fica completamente fora do tom, não por estilo só, mas por mal esconder, na sua pretensa metralhadora giratória, confusa, certo narcisismo insolente que é, sabe-se logo, impotente. "Dar voz de prisão" ao coronel Ustra, pode soar radical-chique, mas expõe ilusão das mais perigosas.Nessa trilha, nós não temos o direito de confundir fantasia com realidade. Não há licença artística para tal. A sombra de Sílvia Suppo, aqui e agora, e com ela a de milhares que foram exterminados, reclama muita lucidez.
E resistência continuada.
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terça-feira, 6 de abril de 2010

SEGUEM ORIENTAÇÕES JURÍDICAS SOBRE O DIREITO DE GREVE

Conforme já anunciado nos Faxes Urgentes nºs 27 e 28, o Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento do MI-712-PA, decidiu que a greve no serviço público é legal, afirmando também que enquanto não houver lei específica sobre o assunto vale a lei de greve dos trabalhadores da iniciativa privada (Lei 7783/89) com pequenas modificações.
Dentre os direitos que ficaram consagrados com esse julgamento destacam-se:
a) Os grevistas possuem o direito, empregando meios pacíficos, de persuadir ou aliciar os demais trabalhadores à aderir a greve (as palavras usadas são essas);
b) É vedado que o Estado adote meios de constranger os servidores ao comparecimento ao trabalho, bem como a utilização de meios que possam frustrar a divulgação do movimento;
c) Fica vedada a rescisão de contrato de trabalho durante a greve.
1. Greve é um direito, não deixe de exercê-lo. A greve é um direito constitucional, como já dito, confirmado pelo STF, portanto, não há o que se temer com relação ao exercício deste direito.
É importante que os professores que estão em greve não deixem de declarar formalmente essa situação nas escolas em que lecionam, para que não reste dúvidas de que a ausência ao trabalho está se dando em função da adesão à greve e não por outro motivo qualquer.
Leia mais Clicando na Imagem abaixo (ou aqui Fax Urgente 3910 )

Fonte: APEOESP

A transformação socialista do homem

Por Lev Vygotsky

A Psicologia científica estabeleceu como sua tese básica o fato que o tipo psicológico do homem moderno é um produto de duas linhas evolutivas. Por um lado, este tipo moderno de ser humano se desenvolveu em um processo prolongado de evolução biológica da qual a espécie homo sapiens surgiu com todas as suas características inerentes do ponto de vista da estrutura corporal, das funções de órgãos diversos e de certos tipos de reflexos e atividades instintivas que foram fixados hereditariamente e que são transmitidos de geração a geração.
Mas, juntamente com o início da vida social e histórica humana e das mudanças fundamentais nas condições às quais ela teve que se adaptar, mudou também, muito radicalmente, o próprio caráter do curso subseqüente da evolução humana. Até onde se pode julgar, com base no material efetivo disponível que foi obtido principalmente comparando os tipos biológicos de povos primitivos às fases mais primitivas de seu desenvolvimento cultural com representantes das raças mais culturalmente avançadas, até onde esta questão pode ser resolvida através de teoria psicológica contemporânea, há razões fortes para supor que o tipo biológico humano mudou notavelmente pouco durante o curso do desenvolvimento histórico do homem.
Isto não quer dizer, é claro, que a evolução biológica paralisou-se e que a espécie humana é uma quantidade estável, inalterável, constante, mas sim que as leis fundamentais e os fatores essenciais que dirigem o processo de evolução biológica retrocederam ao plano de fundo e, ou decaíram completamente, ou tornaram-se uma parte reduzida ou sub-dominante das novas e mais complexas leis que governam o desenvolvimento social humano.
Realmente, a luta pela sobrevivência e a seleção natural, as duas forças motrizes da evolução biológica no mundo animal, perdem a sua importância decisiva assim que passamos a considerar o desenvolvimento histórico do homem. As novas leis que regulam o curso da história humana e que regem o processo de desenvolvimento material e mental da sociedade humana, agora tomam os seus lugares.Como um indivíduo só existe como um ser social, como um membro de algum grupo social em cujo contexto ele segue a estrada do desenvolvimento histórico, a composição de sua personalidade e a estrutura de seu comportamento reveste-se de um caráter dependente da evolução social cujos aspectos principais são determinados pelo grupo. Já nas sociedades primitiva, que só há pouco estão dando os seus primeiros passos ao longo da estrada do desenvolvimento histórico, a completa constituição psicológica dos indivíduos pode ser vista como diretamente dependente do desenvolvimento de tecnologia, do grau de desenvolvimento das forças de produção e da estrutura daquele grupo social ao qual o indivíduo pertence.
Pesquisas no campo da psicologia étnica forneceram provas incontroversas de que estes fatores, cuja interdependência intrínseca foi estabelecida pela teoria do materialismo histórico, são os componentes decisivos da psicologia integral do homem primitivo.
Em nenhum outro lugar, de acordo com Plekhanov [1], esta dependência da consciência relativa ao modo de vida manifesta-se de maneira mais óbvia e direta que na vida do homem primitivo. Isto ocorre por serem os fatores que realizam a mediação entre o progresso tecnológico e o psicológico ainda muito deficientes e primitivos, esta é a razão pela qual esta dependência pode ser observada quase que em seu estado bruto.
Mas uma relação muito mais complicada entre estes dois fatores pode ser observada em uma sociedade altamente desenvolvida que adquiriu uma estrutura de classes complexa. Aqui a influência da base sobre a superestrutura psicológica do homem não se dá forma direta, mas mediada por um grande número de fatores materiais e espirituais muito complexos. Mas, até mesmo aqui, a lei fundamental do desenvolvimento histórico humano, que proclama serem os seres humanos criados pela sociedade na qual vivem e que ela representa o fator determinante na formação de suas personalidades, permanece em vigor.
Do mesmo modo que a vida de uma sociedade não representa um único e uniforme todo, e a sociedade ela mesma é subdividida em diferentes classes, assim também, não pode ser dito que a composição das personalidades humanas representa algo homogêneo e uniforme em um dado período histórico, e a psicologia tem que levar em conta o fato básico que a tese geral que foi formulada agora mesmo, só pode ter uma conclusão direta, confirmar o caráter de classe, natureza de classe e distinções de classe que são responsáveis pela formação dos tipos humanos.
As várias contradições internas que são encontradas nos diferentes sistemas sociais encontram sua expressão tanto no tipo de personalidade quanto na estrutura da psicologia humana naquele período histórico. Nas descrições clássicas do período inicial do capitalismo, Marx enfatiza freqüentemente o tema da corrupção da personalidade humana que é provocada pelo crescimento da sociedade capitalista industrial.
Em um dos extremos da sociedade, a divisão entre o trabalho intelectual e o físico, a separação entre a cidade e o campo, a exploração cruel do trabalho da criança e da mulher, pobreza e a impossibilidade de um desenvolvimento livre e completo do pleno potencial humano, e no outro extremo, ócio e luxo; disso tudo resulta não só que o tipo humano originalmente único torna-se diferenciado e fragmentado em vários tipos nas diversas classes sociais que, por sua vez, permanecem em agudo contraste umas às outras, mas também na corrupção e distorção da personalidade humana e sua sujeição a um desenvolvimento inadequado, unilateral em todas estas diferentes variantes do tipo humano.
‘Juntamente com a divisão de trabalho’, diz Engels, ‘o próprio homem foi subdividido’[2] de acordo com Ryazanov, ‘toda forma de produção material especifica alguma divisão social do trabalho, e que é responsável por sua divisão espiritual. A começar pela corrupção da sociedade primitiva, já podemos observar a seleção de várias funções espirituais e organizacionais em espécies e subespécies determinadas correspondentes ao esquema da divisão social de trabalho’[3]. Mais adiante Engels diz:
"Já a primeira grande divisão do trabalho, a divisão entre a cidade e o campo, condenou a população rural a milênios de entorpecimento mental, e os moradores de cidade à escravização, cada um segundo seu trabalho particular. Destruiu a base para desenvolvimento espiritual do primeiro, e a do físico para o último. Se um camponês é o mestre de sua terra e o artesão de sua arte, então, em grau nada menor, a terra governa o camponês e a arte o artesão. A divisão do trabalho causou ao homem sua própria subdivisão. Todas as demais faculdades físicas e espirituais são sacrificadas a partir do momento que se desenvolve somente um tipo de atividade".
"Esta degeneração do homem avança à medida que a divisão do trabalho alcança seu nível mais alto na manufatura. A manufatura ‘quebra’ o ofício do artesão em operações fracionadas, atribui, na qualidade de vocação, cada uma delas a um trabalhador distinto e os acorrenta a uma operação fracionária específica, a uma ferramenta específica de trabalho para o resto da vida..."
"E não só os trabalhadores, mas também as classes que os exploram diretamente ou indiretamente, que são escravizadas pelos instrumentos de suas atividades, como resultado da divisão de trabalho: os burgueses mesquinhos, por seu capital e desejo por lucro; o advogado pelas idéias jurídicas ossificadas que o governam como uma força independente; ‘as classes educadas’ em geral, por suas limitações locais particulares e unilaterais, suas deficiências físicas e miopia espiritual. Estão todos mutilados pela educação que os treina para uma certa especialidade, pela escravização vitalícia a esta especialidade, até mesmo se esta especialidade é fazer absolutamente nada." [4]Isto é o que Engels escreveu em ‘O Anti-Dühring’. Nós temos que proceder da suposição básica que produção intelectual é determinada pela forma de produção material.
"Assim, por exemplo, no capitalismo é encontrada uma forma diferente de produção espiritual daquela prevalecente durante a Idade Média. Cada forma historicamente definida de produção material tem sua forma correspondente de produção espiritual, e isto, por sua vez, significa que a psicologia humana, que é o instrumento direto desta produção intelectual, assume uma forma específica a cada fase determinada do desenvolvimento". Esta incapacitação dos seres humanos, este desenvolvimento unilateral e distorcido das suas várias capacidades, que Engels descreve, e que surge com a divisão entre cidade e campo, está crescendo a uma enorme velocidade devido à influência da divisão tecnológica de trabalho.
Engels escreve:
"Todo conhecimento, perspicácia e vontade que o camponês e o artesão independentes desenvolvem, embora em uma escala pequena, como o selvagem que age como se toda a arte da guerra consistisse no exercício de sua astúcia pessoal, estas faculdades agora são requeridas apenas da fábrica como um todo. As potências intelectuais de produção as fazem desenvolver em um só sentido, porque as fazem extinguir em muitos outros. O que foi perdido pelos trabalhadores especializados [‘teilarbeiter’] está concentrado no capital que os emprega. Como resultado da divisão de trabalho no seio da manufatura, o trabalhador é levado a encarar as potências intelectuais do processo material de produção como propriedade alheia, e como um poder que o domina. Este processo de separação começa em co-operação simples na qual o capitalista representa para o trabalhador particular a unidade e a vontade do trabalho social [‘Arbeitskörpers‘].Isto que começa na manufatura, que mutila o trabalhador transformando-o em um trabalhador especializado, é terminado pela indústria de larga escala que separa a ciência, como um potencial produtivo, do trabalho e a coloca a serviço do capital." [5]
Como resultado do avanço do capitalismo, o desenvolvimento da produção material trouxe simultaneamente consigo a divisão progressiva do trabalho e o crescente desenvolvimento distorcido do potencial humano. Se ‘na manufatura e no trabalho artesanal o trabalhador faz uso de suas ferramentas, então na fábrica ele se torna o criado da máquina’. Marx diz que no primeiro caso ele inicia o movimento da ferramenta, mas no segundo ele é forçado a seguir seu movimento. Os trabalhadores se transformam em ‘extensões vivas das máquinas’, o que resulta na ‘tenebrosa monotonia do infinito tormento do trabalho’ que Marx [1890/1962, pág. 445] diz ser o elemento característico daquele período no desenvolvimento do capitalismo que ele está descrevendo. O trabalhador é preso a uma função específica, e de acordo com Marx [ibid, pág. 381], isto o transforma ‘de um trabalhador em uma anormalidade que artificialmente ['treibhausmäsig '] é nutrida por apenas uma habilidade especial, suprimindo toda a riqueza restante de seus talentos e inclinações produtivas’. Nos dias atuais, o trabalho da criança representa um exemplo particularmente horrorizante da deformação do desenvolvimento psicológico humano. Na busca por trabalho barato e devido à simplificação extrema das funções que os trabalhadores têm que levar a cabo, o recrutamento em larga escala de crianças tornou-se possível, o que resulta em um desenvolvimento retardado, ou um completamente unilateral e distorcido que acontece na idade mais impressionante, quando a personalidade da pessoa está sendo formada.
A pesquisa clássica de Marx está cheia de exemplos de ‘esterilidade intelectual’, ‘degradação física e intelectual’, transformação ‘de seres humanos imaturos em máquinas para a produção de mais-valia’ [ibid., pp. 421-2], e ele apresenta um quadro vívido de todo o processo que resulta em uma situação na qual ‘o trabalhador existe em função do processo de produção, e não o processo de produção em função do trabalhador’[ibid., pág. 514].
Porém, todos estes fatores negativos não dão um quadro completo de como o processo de desenvolvimento humano é influenciado pelo crescimento acelerado da indústria. Todas estas influências adversas não são inerentes à indústria de larga escala como tal, mas à sua organização capitalista que está baseada na exploração de enormes massas da população e que resultou em uma situação na qual em vez de todo passo novo para a conquista da natureza pelos seres humanos, todo novo patamar de desenvolvimento da força produtiva da sociedade, não só não elevou a humanidade como um todo, e cada personalidade humana individual, para um nível mais alto, mas conduziu a uma degradação mais profunda da personalidade humana e de seu potencial de crescimento.
Enquanto observadores dos efeitos incapacitantes do processo de progresso da civilização sobre os seres humanos, filósofos como Rousseau e Tolstói não puderam ver nenhuma outra solução que um retorno à integralidade e pureza da natureza humana. De acordo com Tolstói, nosso ideal não está à nossa frente, mas atrás de nós. Neste sentido, do ponto de vista deste romantismo reacionário, os períodos primitivos de desenvolvimento da sociedade humana apresentam-se como aquele ideal que a humanidade deveria estar perseguindo. Realmente, uma análise mais profunda das tendências econômicas e históricas que regulam o desenvolvimento do capitalismo mostra que este processo de mutilação da natureza humana, acima discutida, é inerente não só ao crescimento da indústria de grande escala, mas à específica forma de organização da sociedade capitalista.
A mais fundamental e importante contradição em toda esta estrutura social consiste no fato que dentro dela, sob pressão inexorável, estão evoluindo forças para sua destruição, e estão sendo criadas as precondições para sua substituição por uma nova ordem baseada na ausência da exploração do homem pelo homem. Mais de uma vez, Marx demonstra como o trabalho, ou a indústria de larga escala, em si mesmos, não levam necessariamente à mutilação da natureza humana, como um seguidor de Rousseau ou Tolstói assumiria, mas, pelo contrário, contêm dentro de si mesmos possibilidades infinitas para o desenvolvimento da personalidade humana. Ele diz, ‘como pode ser averiguado a partir dos exemplos dados por Robert Owen, tem crescido a semente de um sistema educacional futuro que combinará o trabalho produtivo com a educação formal e física para todas as crianças acima de uma certa idade, não só como um método de aumento da produção, mas como o único método de produzir seres humanos bem equilibradamente educados’ [ibid., pp. 507-8]. Assim a participação das crianças nas fábricas, que sob o sistema capitalista, particularmente durante o período descrito de crescimento do capitalismo, é a fonte da degradação física e intelectual, contém em si mesma as sementes para um sistema educacional futuro e pode vir a constituir-se na forma mais elevada de criação de um tipo novo de ser humano.
O crescimento da indústria de grande escala faz necessário, por si só, que se construa um novo tipo de trabalho humano e um novo tipo de ser humano que seja capaz de levar a cabo estas novas formas de trabalho. ‘A natureza da indústria de larga escala estipula um trabalho mutável; uma mudança ininterrupta de funções e uma completa mobilidade para o trabalhador’, diz Marx: ‘o indivíduo que foi se transformado em uma fração, o portador simples de uma função social fracionária, será substituído por um indivíduo completamente desenvolvido para quem as funções sociais diversas representam formas alternativas de suas atividades ' [ibid., pp. 511-12].
Assim não só se demonstra que a combinação do trabalho industrial com a educação provou ser uns meios de criar pessoas plenamente desenvolvidas, mas também que o tipo de pessoa que será exigida para trabalhar neste processo industrial altamente desenvolvido, diferirá substancialmente do tipo de pessoa era o produto do trabalho voltado para a produção durante o período inicial do desenvolvimento capitalista. Neste aspecto o fim do período capitalista apresenta uma antítese notável relativa a seu começo.
Se no princípio o indivíduo foi transformado em uma fração, no executor de uma função fracionária, em uma extensão viva da máquina, então ao término, as próprias exigências da indústria requererão uma pessoa plenamente desenvolvida, flexível e que seja capaz de alterar as formas de trabalho, de organizar o processo de produção e de controlá-lo.Não importa qual característica particular e definidora do tipo psicológico humano que tomemos, seja nos períodos iniciais ou recentes do desenvolvimento do capitalismo, em todos os casos nós encontraremos sempre um significado e um caráter duplos em cada característica crucial.
A fonte da degradação da personalidade na forma capitalista de produção, também contém em si mesma o potencial para um crescimento infinito da personalidade.Para dar um exemplo, concluiremos examinando situações de trabalho onde pessoas de ambos os sexos e de todas as idades têm que trabalhar juntas. ‘A composição do quadro geral de empregados por pessoas de ambos sexos e todas as idades...’, diz Marx, ‘deve, pelo contrário, sob circunstâncias apropriadas, se transformar em uma fonte de desenvolvimento humano’ [ibid., pág. 514].
Disto pode se tirar que o crescimento da indústria de grande escala contém dentro de si mesmo o potencial escondido para o desenvolvimento da personalidade humana e que somente a forma capitalista de organização do processo industrial é a responsável pelo fato de todas estas forças exercerem uma influência unilateral e incapacitante que retarda o desenvolvimento pessoal.Em um de seus primeiros trabalhos, Marx escreve que se a psicologia desejar se tornar uma ciência realmente relevante, terá que aprender ler o livro da história da indústria material que encarna ‘os poderes essenciais de homem', e que é uma encarnação concreta da psicologia humana[6].
Da maneira como se dá, toda a tragédia interior do capitalismo consiste no fato que na ocasião em que o estudo objetivo da psicologia do homem, que continha dentro de si potencial infinito de domínio sobre a natureza e sobre o desenvolvimento de sua própria natureza, crescia a passo acelerado, sua vida espiritual real estava degradando e passando pelo processo que Engels descreveu tão vividamente como a mutilação do homem.Mas a essência de toda esta discussão consiste no fato que esta dupla influência de fatores inerentes à indústria de grande escala sobre o desenvolvimento pessoal do homem, esta contradição interna do sistema capitalista, não pode ser solucionada sem a destruição do sistema capitalista de organização industrial. Neste sentido, a contradição parcial que nós já mencionamos, entre o poder crescente do homem e sua degradação que paralelamente aprofunda-se, entre seu crescente domínio sobre a natureza, e sua liberdade por um lado, e a sua escravidão e dependência crescentes das coisas produzidas por ele mesmo, no outro — nós desejamos reiterar que esta contradição representa só uma parte de uma contradição muito mais geral e totalizadora que subjaz ao sistema capitalista tomado como um todo.
Esta contradição geral entre o desenvolvimento das forças de produção e a ordem social que correspondente a este nível de desenvolvimento das forças de produção, é resolvida pela revolução socialista e uma transição para uma nova ordem social e uma nova forma de organização das relações sociais. Paralelamente a esse processo, uma mudança na personalidade humana e uma alteração do próprio homem deve inevitavelmente acontecer.
Esta alteração tem três raízes básicas:
A primeira delas consiste no fato mesmo da destruição das formas capitalistas de organização e produção e das formas de vida social e espiritual que a partir daí irão surgir. Junto com o esfacelamento da ordem capitalista, todas as forças que oprimem o homem e que o mantêm escravizado pelas máquinas e que interferem com o seu livre desenvolvimento também desaparecerão e serão destruídas. Junto com a liberação dos muitos milhões de seres humanos da opressão, virá a libertação da personalidade humana das correntes que restringem seu desenvolvimento. Esta é a primeira fonte — a liberação do homem.
A segunda fonte de qual emerge a alteração de homem reside no fato de que ao mesmo tempo em que as velhas correntes desaparecem, o enorme potencial positivo presente na indústria de grande escala, o já crescente poder dos homens sobre a natureza, será liberado e tornado operativo. Todas as características discutidas acima, das quais o exemplo mais notório é a forma completamente nova de criar um futuro baseado na combinação de trabalho físico e intelectual, perderão seu caráter dual e mudarão o curso de sua influência de um modo fundamental. Considerando que anteriormente suas ações foram dirigidas contra as pessoas, agora elas começam a trabalhar por causa delas. De seu papel de obstáculos desempenhado outrora, elas se transformam em forças poderosas de promoção do desenvolvimento da personalidade humana.
Finalmente, a terceira fonte que inicia a alteração de homem é mudança nas próprias relações sociais entre as pessoas. Se as relações entre pessoas sofrem uma mudança, então junto com elas as idéias, padrões de comportamento, exigências e gostos também mudarão. Como foi averiguado por pesquisa psicológica a personalidade humana é formada basicamente pela influência das relações sociais, i.e., o sistema do qual o indivíduo é apenas uma parte desde a infância mais tenra. ‘Minha relação para com meu ambiente’, diz Marx, ‘é minha consciência’[7]7. Uma mudança fundamental do sistema global destas relações, das quais o homem é uma parte, também conduzirá inevitavelmente a uma mudança de consciência, uma mudança completa no comportamento do homem.
A educação deve desempenhar o papel central na transformação do homem, nesta estrada de formação social consciente de gerações novas, a educação deve ser a base para alteração do tipo humano histórico. As novas gerações e suas novas formas de educação representam a rota principal que a história seguirá para criar o novo tipo de homem. Neste sentido, o papel da educação social e politécnica é extraordinariamente importante. As idéias básicas que justificam a educação politécnica consistem em uma tentativa de superar a divisão entre trabalho físico e intelectual e reunir pensamento e trabalho que foram separados durante o processo de desenvolvimento capitalista. De acordo com Marx, a educação politécnica proporciona a familiaridade com os princípios científicos gerais a todos os processos de produção e, ao mesmo tempo, ensina as crianças e adolescentes que habilidades práticas tornam possível para eles operarem as ferramentas básicas utilizadas em todas as indústrias. Krupskaja formula esta idéia da seguinte maneira:
"Uma escola politécnica pode ser distinguida de uma escola de comércio pelo fato de centrar-se na interpretação de processos de trabalho, no desenvolvimento da habilidade para unificar teoria e prática e na habilidade para entender a interdependência de certos fenômenos, enquanto em uma escola de comércio o centro de gravidade está em proporcionar para os alunos habilidades para o trabalho".[8]
Coletivismo, a unificação do trabalho físico e intelectual, uma mudança nas relações entre os sexos, a abolição da separação entre desenvolvimento físico e intelectual, estes são os aspectos fundamentais daquela alteração do homem que é o assunto de nossa discussão. E o resultado a ser alcançado, a glória e coroamento de todo esse processo de transformação da natureza humana, deveria ser o aparecimento da forma mais alta de liberdade humana que Marx descreve da seguinte maneira: ‘Somente em comunidade,[com os outros, cada] indivíduo [possui] os meios de cultivar seus talentos em todas as direções: só em comunidade, então, é possível a liberdade pessoal’[9]. Assim como a sociedade humana, a personalidade individual precisa dar este salto que a leva do reino da necessidade à esfera de liberdade, como foi descrito por Engels. Sempre que a alteração do homem e a criação de um novo nível mais elevado de personalidade e conduta humanas são postas em discussão, é inevitável que sejam mencionadas idéias sobre um tipo novo de ser humano relacionado à teoria de Nietzsche sobre o super-homem.
Partindo das perfeitamente verdadeiras suposições que a evolução não parou no homem e que o tipo moderno de ser humano representa nada além de uma ponte, uma forma transitória, que conduz a um tipo mais elevado, que a evolução não esgotou suas possibilidades quando criou o homem e que o tipo moderno de personalidade não é a realização mais alta e a última palavra no processo de desenvolvimento, Nietzsche concluiu que uma criatura nova pode surgir durante o processo de evolução, um super-homem que guardará a mesma relação com homem contemporâneo que o homem contemporâneo guarda com o macaco.
Porém, Nietzsche imaginou que o desenvolvimento deste tipo mais elevado de homem estava sujeito à mesma lei de evolução biológica, a luta pela vida e a seleção baseada na sobrevivência do mais apto, que prevalece no mundo animal. É por isto que o ideal de poder, a auto-afirmação da personalidade humana em toda sua abundância de poder e ambição instintivos, o individualismo áspero de homens e mulheres fora de série, de acordo com Nietzsche, formariam, a estrada para a criação de um super-homem.
Esta teoria é errônea, porque ignora o fato que as leis de evolução histórica do homem diferem fundamentalmente das leis da evolução biológica e que a diferença básica entre estes dois processos consiste no fato que um ser humano evolui e se desenvolve como um ser histórico, social.
Só uma elevação de toda a humanidade a um nível mais alto de vida social, a liberação de toda a humanidade, pode conduzir à formação de um novo tipo de homem. Porém, esta mudança do comportamento humano, esta mudança da personalidade humana, tem que conduzir, inevitavelmente, à evolução do homem para um tipo superior, para a alteração do tipo biológico humano.
Tendo dominado os processos que determinam sua própria natureza, o homem que hoje está lutando contra velhice e doenças, ascenderá, indubitavelmente, a um nível mais elevado e transformará sua própria organização biológica. Mas esta é a fonte do maior paradoxo histórico do desenvolvimento contido nesta transformação biológica do tipo humano, que ela é alcançada principalmente por meio da ciência, da educação social e da racionalização dos modos de vida.
A alteração biológica do homem não representa uma condição prévia para estes fatores, mas, ao invés disso, é um resultado da liberação social do homem. Neste sentido Engels, que tinha examinado o processo de evolução do macaco ao homem, disse que trabalho que criou o homem[10]. Partindo daí, poder-se-ia dizer que novas formas de trabalho criarão o novo homem e que este homem novo se assemelhará ao tipo antigo de homem, ‘o antigo Adão’, apenas no nome, da mesma maneira como, de acordo com a grande declaração de Spinoza, um cão, o animal que late, se assemelha a Cão constelação celeste[11].1930
Notas:
* Nota da tradução para língua portuguesa: cabem algumas observações acerca desta tradução:
a) Esta tradução é feita a partir da versão em língua inglesa do texto, portanto está mais sujeita a incorreções que o próprio texto que lhe serviu de base, dado que este já era por si só uma tradução.
b) O tradutor é brasileiro, e nessa qualidade efetuou toda a tradução tendo em vista as normas da língua portuguesa vigentes no Brasil, ainda assim, por não ser profissional do ramo das Letras, o tradutor pede desculpas por qualquer eventual erro.
c) Relativamente ao trabalho que serviu de modelo a esta tradução foi suprimida uma das notas, a nota número 5, por isso, a partir desta número as notas desta tradução não correspondem àquelas da numeração do texto original. O motivo da omissão foi não haver no corpo do texto indicação da nota, apenas constando a mesma do "rodapé".
d) Ao contrário do tradutor para língua inglesa do texto original, o tradutor deste texto não buscou as traduções para a língua portuguesa dos textos originais citados. Nas notas que seguem (que também são traduções do texto base da tradução) são feitas referências às obras em língua inglesa, alemã ou russa dependendo do caso. É importante lembrar que as traduções dos textos originais aqui citados também são traduções livres do tradutor do presente texto.
1. Provavelmente se refere a Plekhanov, G. V. 1922: Ocherki po istorii materializma. Moscou.
2. Refere-se à pág. 272 de Engels, F. 1894/1978: Herrn Eugen Duhring’s Umwalzung der Wissenschaft [Anti-Duhring]. Dietz Verlag.
3. É obscuro a que livro que Vygotsky está se referindo.
4. Referência às pp. 271-2 de Engels 1894/1978. Ver também pp. 381 e 445 de Marx, K. 1890/1962: Das Kapital [O Capital] 4th ed.). Berlin: Dietz Verlag.
5. Um erro curioso. O texto atribuído a Engels pode ser achado na p. 382 de Marx, K. 1890/1962: Das Kapital [O Capital] (4th edn). Berlin: Dietz Verlag.
6. ‘Entendemos que a história da indústria e a atual existência objetiva da indústria são o livro aberto dos poderes essenciais do homem, percebemos a psicologia humana existente... uma psicologia para qual este livro, a parte de história que existe na forma mais perceptível e acessível, permanece um livro fechado, não pode se tornar uma ciência genuína, geral e real’. Ver pp. 302-03 of Marx-Engels Collected Works. Vol, 3: Economic and Philosophical Manuscripts. New York: International Publishers (1975).
7. Referência à p. 30 of Marx, K. e Engels, F. 1846/1978: Die deutsche Ideologie [A Ideologia Alemã].Berlin: Dietz Verlag.
8. A esposa de Lênin, N. K. Krupskaja, devotou muita atenção à questões educacionais. Em seu livro, Vospitanie molodezhi v Leninskom dukhe [Educação da Mocidade no Espírito de Lenin] ela discutiu experiências internacionais suas contemporâneas com escolas de trabalho (Arbeitsschule) à luz do ideal de Marx da educação politécnica. Ver Krupskaja, N. K. 1925/1989: Vospitanie molodezhi v Leninskom dukhe. Moscow: Pedagogika. Nós não pudemos estabelecer a fonte exata da presente citação.
9. Ver p. 74 de Marx e Engels (1846/1978).
10. Conferir pp. 444-55 de Engels, F. 1925/1978: Dialektik der Natur [A Dialética da Natureza]. Berlin: Dietz Verlag
11. Uma das citações favoritas de Vygotsky da Ética de Spinoza. Ver p. 61 of Spinoza, B. de 1677/1955: On the improvement of the understanding. The ethics. Correspondence. New York: Dover. ‘O antigo Adão’ pode ser uma referência implícita ao uso por Marx (1890/1962, p. 118) desta expressão.
Tradução de Nilson DóriaLev Vygotsky (1896 - 1934) foi o psicólogo soviético que desenvolveu a abordagem genética ao desenvolvimento de conceitos na infância e na juventude, apontando a transição de uma série de estados do desenvolvimento humano com base na prática social da criança.
Os seus trabalhos, publicados após a sua morte em 1934 e suprimidos em 1936, só foram conhecidos no ocidente em 1958.

sábado, 3 de abril de 2010

Gilberto Dimenstein e a distorção da realidade.


Texto do Jornalista:


Professores dão aula de baderna
Fico me perguntando como os alunos analisam as imagens de professores desrespeitando a lei e atirando paus e pedras contra a polícia, como vimos na
manifestação nos arredores do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo --afinal, supostamente são os professores que, em sala de aula, devem zelar pela disciplina.
É claro que, nem remotamente, a agressividade daquela manifestação representa os professores. Trata-se apenas de uma minoria organizada e motivada, em parte, pelas eleições deste ano.
A presidente da Apeoesp (o maior sindicato dos professores estaduais), Maria Izabel Noronha, disse que estava ali para
quebrar a "espinha dorsal" do governador (Serra) e de seu partido (o PSDB) --ela que, no dia anterior, estava no palanque de Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência da República.
Mas será que os alunos sabem disso? Será que vão imaginar que os professores são daquele jeito, sem limites, indisciplinados?
Todos sabemos como é difícil impor disciplina em sala de aula e, mais ainda, conter a violência. Não será com exemplos de desrespeito (de quem deveria dar o exemplo) que a situação vai melhorar. Muito pelo contrário: afinal, o que se viu foi uma aula de baderna.
Só espero que pelo menos essa lição os estudantes não aprendam. (folha online)


Texto corrigido pelos professores

José Serra da aula prática sobre a ditadura militar.
Fico me perguntando como os alunos analisam as imagens "produzidas" por nosso governador José Serra e seus asseclas, desrespeitando a lei e atirando balas de borrachas e gás lacrimogêneo nos professores como vimos na
manifestação nos arredores do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo --afinal, supostamente é esse cidadão que quer ser Presidente da República e tem dito que tem um bom projeto para esse país, inclusive zelar pela educação.
É claro que, nem remotamente, a agressividade daquela manifestação deve ser associada aos policiais, que foram orientados para espancar os verdadeiros heróis nacionais - os professores. A culpa deve recair sobre o Sr. José Serra que mesmo sabendo das precárias condições de trabalho desses profissionais utilizou seu aparato “bélico” motivado, em parte, pelas eleições deste ano, para reprimir violemtamente uma manifestação pacífica.
Deve ficar claro que toda essa violência também não deve ser associadas às pretenções partidárias da Apeoesp (o maior sindicato dos professores estaduais), pois essa respeitada instituição não é composta somente por membros da CUT, ou do PT. Sua base, principalmente, é composta por milhares de professores e professoras que lutam diuturnamente para melhorar e educação pública. Essa mobilização serve de alerta tanto a Serra quanto a Lula, pois se tentarem de alguma forma “ferrar” com essa categoria, certamente encontrarão problemas. Esses profissionais demosntraram que sairão em defesa de suas históricas bandeiras de luta ( plano de carreira constitucional, fim da promoção automática, menos alunos por sala, melhorias estruturais nas escolas, salário digno, formação continuada e presencial etc) e estarão dispostos a quebrar a "espinha dorsal" de qualquer governador ou presidente ou de seus respectivos partidos se não houver melhora na educação pública. Esses professores poderão estar em alguns palanques, mas jamais colocarão as questões partidárias à frente da luta pela escola pública de qualidade. Lutarão para que os filhos da classe trabalhadora tenham uma qualidade de ensino tão boa quanto a da classe dominante.
Mas será que os alunos sabem disso? Será que vão imaginar que esses “oportunistas” travestidos de políticos e/ou jornalistas são desse jeito, sem limites, corruptos, e que colocam os interesses econômicos e políticos à frente da qualidade de ensino?
Todos sabemos como é difícil impor probidade na esfera pública, ainda mais com esse aparato midiático, que tem se posicionado quase beira ao golpismo “lutando” constantemente para preservar os privilégios usurpados historicamente da classe trabalhadora. Esse novos "Homens Bons", travestidos de democratas impõem a violência para conter os pedidos de socorro legítimos de uma categoria que tem sido, praticamente, destruída pelas políticas neoliberais de Serra-Paulo Renato/ Lula-Hadad.
Não será com exemplos de desrespeito (de quem deveria dar o exemplo) que a situação vai melhorar. Muito pelo contrário: afinal, o que se viu foi uma aula aos moldes da ditadura militar orientada por José Serra e seus asseclas.
Só espero que pelo menos essa lição os estudantes não aprendam.
Não abaixem a cabeça! Democracia não é só voto.
Democracia é pressão popular, pressão popular é a classe trabalhadora nas ruas. Só assim será possível transformar a realidade.
Parabéns Professores! Pela aula de democracia!

Mundo Desigual: O gasto perdulário como causa da pobreza.






















sexta-feira, 2 de abril de 2010

GREVE: O GOVERNO DEVE NEGOCIAR!

O Magistério da rede estadual de ensino de São Paulo está em greve desde o dia 8 de março, após várias tentativas de negociação com o governo do Estado em torno de pauta de reivindicações salariais, educacionais e profissionais. Ofícios neste sentido foram protocolados na Secretaria da Educação durante o segundo semestre de 2009, em 23 de janeiro e em 16 e 23 de março de 2010, já durante a greve. O governo estadual, até o momento, vem ignorando todas estas solicitações.

Não há no estado de São Paulo uma política de valorização do Magistério e de melhoria da escola pública. O governo do Estado opta pelo pagamento de bônus e gratificações que não se incorporam aos salários base e, portanto, não compõem os proventos de aposentadoria e não incidem sobre férias e outros benefícios. O bônus já se encontra em sua 9ª edição (desde 2000) e não melhorou a educação pública paulista, como infelizmente os indicadores demonstram. Se convertidos em reajuste linear, os recursos pagos na forma de bônus gerariam 45% de reajuste salarial aos professores e não haveria perdas.





O Magistério, hoje, necessita de um reajuste de 34,3% para que seus salários voltem a ter o poder de compra de março de 1998. Pedem que o governo negocie um plano de reposição, mas não encontram nenhuma interlocução.

O salário base de um professor alfabetizador (PEB I) é, hoje, de R$ 785,50 (R$ 6,55 por hora aula) e um professor PEB II, R$ 909,32 (R$ 7,58 por hora aula). É muito pouco e não valoriza a profissão. É necessária uma política salarial para todo o Magistério, da ativa e aposentados. Medidas como a “promoção por mérito”, que exclui pelo menos 80% da categoria de qualquer reajuste, apenas agravam a situação, criando mais disparidades e um ambiente de disputa nas escolas.

Não existem condições de trabalho adequadas nas escolas estaduais; as salas de aulas são apertadas e superlotadas; professores são obrigados a ministrar aulas em mais de uma escola e, muitas vezes, em mais de uma rede de ensino para receber uma remuneração melhor; a carreira do Magistério contém injustiças e distorções; os aposentados são discriminados; não há projetos de formação no próprio local de trabalho. Ainda assim, o governo submete os professores a avaliações excludentes, como se eles fossem culpados pelos problemas da rede estadual de ensino.

Com esta greve, os professores gritam basta a tudo isso. E nós, que subscrevemos este abaixo-assinado, estamos com eles. É fundamental que o governo do Estado negocie, para que os professores e demais integrantes do Magistério sejam valorizados e, assim, possam as escolas estaduais voltar à normalidade.



A VERDADE SOBRE JOSÉ SERRA E A EDUCAÇÃO PAULISTA

Estamos em ano de eleição e, portanto, é hora de prestarmos atenção aos possíveis candidatos para que o nosso voto não seja motivo de mais mazelas sociais causadas por más administrações. Sabemos, no entanto, que nos manter informados quanto ao que realmente acontece em nossa sociedade não é tarefa fácil, uma vez que boa parte da grande mídia está a serviço do capital e de partidos políticos – geralmente conservadores.

É por essa razão que, por meio desse e-mail, queremos informar a todos o que realmente acontece na educação paulista, uma vez que possivelmente o Sr. José Serra se candidatará ao cargo de presidente da República neste ano.

Acreditamos na Internet como um meio eficiente de fazer ouvir a nossa voz, quando o governo e a mídia, por conta dos seus interesses eleitoreiros, querem nos calar e difamar a todo custo.

Um exemplo dessa atitude criminosa da mídia golpista é a mateéria que, recentemente, foi pblicada no Estadão. Dentre outras insinuações, o jornal acusava os professores da rede estadual de entrar em greve como um pretexto para ficarem de “braços cruzados”, um jeito “sutil” de classificar a categoria como preguiçosa.

O jornal “esqueceu-se”, no entanto, de contar aos leitores os reais motivos da paralisação dos professores. Este e-mail, portanto, pretende impedir a manipulação asquerosa promovida por esse e por outros jornais de grande circulação, contando o que de fato acontece nos estabelecimentos de ensino do estado de São Paulo e que motivou a greve.

SEGREGAÇÃO DA CATEGORIA

O governo Serra dividiu os professores em categorias com letras sugestivas como O de otário, L de lixo, F de f*****, etc, como se fôssemos gado marcado a ferro quente nas costas com as iniciais do dono.

O intuito disso é muito simples: segregar a categoria, jogando professores uns contra os outros, numa clara tentativa de enfraquecer a categoria, facilitando a aplicabilidade dos desmandos do governo tucano.

A verdade, no entanto, é uma só. Somos todos professores, e temos – ou deveríamos ter pela lógica mais pueril – os mesmos direitos. Na prática, porém, não é o que acontece depois da invenção das malfadadas “letrinhas”. Cada categoria de professores é totalmente diferente da outra.

A DUZENTENA

Os professores da categoria O, por alguma razão ilógica que ainda estamos tentando compreender, após término de contrato, terão que ficar 200 dias afastados das salas de aula. Isto significa que, se um professor está cobrindo uma licença de três meses, após esse período cessa o contrato e ele precisa ficar 200 dias em casa.

As perguntas óbvias que surgem imediatamente são: Acaso deixaremos de precisar trabalhar durante 200 dias? Nossos filhos deixarão de comer durante 200 dias? Sob quais argumentos o governo aprovou uma lei tão absurda e sem sentido? O que parece é que a lei é um desestímulo a que os professores participem das atribuições de aula, e cubram licenças como professores eventuais, o que acontece muito.

Isso porque um professor contratado exige que se recolha INSS, que se pague horas de HTPC, dentre outros benefícios que o eventual não tem.

MATERIAIS DE PÉSSIMA QUALIDADE

Há alguns anos o governo tucano de São Paulo vem enviando às escolas revistas com aulas já prontas – tirando toda a autonomia e liberdade do professor. Tais revistas são de péssima qualidade, apresentando erros grotescos, propondo exercícios patéticos que pouco ou nada contribuem para o avanço dos alunos.


SARESP NÃO MOSTRA A REALIDADE DOS ALUNOS PAULISTAS

Os índices do IDESP – que somam índice de aprovação de alunos e desempenho na prova do SARESP – estão longe de revelar a realidade das salas de aula no estado de São Paulo. A verdade é que, com a "progressão continuada", isto é, a obrigatoriedade de aprovar um aluno de um ano a outro, a menos que este exceda o número de faltas permitidas, é muito fácil manter um índice alto de aprovação de alunos, sem que isso signifique necessariamente que eles possuem as competências e habilidades que deveriam possuir.

Ademais nos resultados do SARESP o que vemos são textos asquerosos que tentam intensificar avanços pequenos, e minimizar atrasos significativos. O governo tem o péssimo hábito de atribuir a suas políticas educacionais os méritos dos avanços dos alunos, e lançar apenas ao professor a responsabilidade pelos regressos.

SALAS LOTADAS

Há um grande número de alunos por sala de aula, o que dificulta o trabalho dos professores, fazendo com que o ensino não tenha a mesma qualidade que poderia ter caso o número de alunos fosse reduzido. Além disso o governo prometeu que colocaria dois professores por sala na primeira série do Ensino Fundamental I, e isso não é o que temos visto. Ao contrário, o que vemos são PEBs I com 40 crianças de cinco e seis anos sem que haja o prometido professor auxiliar.

PROVÃO DOS ACTs

Está claro que o governo pretende com o provão dos ACTs passar a idéia ilusória de que os supostos “professores incompetentes” serão afastados das salas de aula, o que seria um avanço na educação, uma inovação desse governo. Isto porém não passa de mais uma medida para fazer com que o povo acredite que a educação está melhorando graças ao governo Serra. Também é um meio de jogar a responsabilidade pela falência da educação sobre as costas dos professores, classificando-os como incompetentes, para não assumir a parcela farta de culpa do governo tucano que sucateou o ensino.


AUXÍLIO ALIMENTAÇÃO E VALE-TRANSPORTE

Quanto a essa parte não é preciso dizer muita coisa. Não é à toa que os colegas apelidaram o vale-refeição de “vale-coxinha”. Quem consegue receber o “benefício” sabe que ele é tão vergonhoso quanto o nosso salário.

PROPAGANDA ENGANOSA

O governador José Serra, com claros interesses eleitoreiros, tem veiculado propagandas na mídia que mostram uma realidade falseada da educação paulista. Nessas propagandas o salário dos professores é ótimo, a educação avança vertiginosamente, etc. Na prática qualquer professor sabe que isso não é verdade.

SALÁRIOS MISERÁVEIS

Freqüentemente somos acusados pela mídia golpista a serviço do PSDB de mercenários, simplesmente porque lutamos pór salários dignos. Parece que a imagem que se tem do professor é a mesma do “voluntariado”.

Nós professores temos famílias para sustentar, temos contas a pagar, dedicamo-nos não somente dentro da escola, mas também em nossas casas, já que é no lar que nos atualizamos, corrigimos trabalhos, planejamos aulas. O salário base de um professor hoje não chega a R$ 950,00, o que é muito pouco para um trabalho que exige de nós muito tempo.

FALTA DE CONCURSOS PÚBLICOS PARA EFETIVAÇÃO

Vem do período da ditadura militar essa insistência em manter professores temporários na rede. Hoje esses professores são parte significativa de todo o efetivo da categoria. O número de temporários ultrapassa os 80.000 professores. Isso gera algumas dificuldades na hora de aposentar-se, e não dá acesso a alguns benefícios que o efetivo tem. É verdade que agora – em ano de eleição – o governo realizará um concurso público para efetivação de professores. No entanto o número de vagas é ridículo, pouco mais de 10.000. Precisamos de muito mais vagas para substituir todos os temporários da rede.

PROFESSORES NÃO FORMADOS ATUAM NA REDE
O governo, que vez ou outra coloca professores de “reforço”, como está acontecendo com os educadores da disciplina de matemática, e que quer demonstrar tanto rigor na contratação de professores com provas eliminatórias, na verdade permite que alunos de faculdade – ainda não formados – bacharéis e tecnólogos – que não passaram em sua graduação por disciplinas relacionadas à prática pedagógica, lecionem tranqüilamente na rede pública.
Preste muita atenção em quem você vai votar. A mídia e o governo estão tentando jogar a sociedade contra os professores, ao mesmo tempo que tentam abafar as reais dimensões da greve para que a imagem do “candidato das elites” não saia arranhada e atrapalhe suas pretensões políticas.
(prof. Luciano Lira)
Fonte: http://lutadeclasses.blogspot.com/2010/03/proposta-pedagogica-de-jose-serra.html

Como a Globo "Vê" a greve dos Professores

Em São Paulo














Em Minas Gerais

Fonte:http://video.globo.com