segunda-feira, 26 de julho de 2010

“IDEOLOGIA, EDUCAÇÃO E EMANCIPAÇÃO HUMANA EM MARX, LUKÁCS E MÉSZÁROS

“IDEOLOGIA, EDUCAÇÃO E EMANCIPAÇÃO HUMANA EM MARX,,,,

Direita e Esquerda

Direita_Esquerda

A questão da Ideologia - Leandro Konder

Por Leandro Konder
Departamento de Educação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil

A principal contribuição de Marx às discussões contemporâneas em torno da teoria do conhecimento é, com certeza, sua teoria da ideologia.

O termo havia sido posto em circulação por Destutt de Tracy, que o empregava com sentido positivo; a ideologia era concebida como uma espécie de superciência, a ciência das idéias, que abrangia todas as outras. Quem conferiu sentido crítico à palavra foi Napoleão Bonaparte, irritado com os “ideólogos”, que a seu ver estavam querendo ensinar-lhe política e história. O socialista utópico Fourier encampou o significado restritivo, pejorativo, atribuído pelo imperador ao vocábulo e Marx desenvolveu toda uma teoria para explicar por que a ideologia era problemática.
Para Marx, a construção do conhecimento, por si mesma, apresenta grandes dificuldades, já que a aparência das coisas não coincide imediatamente com a essência delas e a apreensão do movimento do real exige o que Hegel chamava de “o esforço do conceito”. Porém Marx dava um passo além: abordava dificuldades adicionais, decorrentes da situação dos sujeitos do conhecimento. Como agem em condições que os dividem, que promovem a colisão de seus interesses vitais, esses sujeitos tropeçam em armadilhas criadas por eles e que eles mesmos não conseguem entender inteiramente.
Com a divisão social do trabalho, com a apropriação privada dos meios de produção, com a escravidão, a luta de classes, a exploração do trabalho de uns por outros, os sujeitos humanos passaram a ter diante deles obstáculos poderosíssimos, quando tentavam enxergar as coisas de um ângulo mais abrangente, mais universal. Passaram – como disse Lucien Goldmann – a sofrer as limitações de uma “perspectiva parcial inevitável”, que é, exatamente, a ideologia.
Na sociedade burguesa desenvolvida, industrializada, o problema se agravou. Com o capitalismo, o mercado se torna o centro da vida social e tudo tende a se tornar mercadoria. A força de trabalho também passa a ser uma mercadoria: é negociada no mercado, trocada por um salário. A forma do salário, segundo Marx, dá facilmente ao trabalhador a impressão de que está fazendo uma troca justa, mas na realidade ele está fazendo uma troca sempre desigual. E a ideologia – que camufla isso – assume a forma do que Marx chama de “o fetichismo da mercadoria”. O mercado oferece à nossa contemplação um espetáculo que mostra as mercadorias, coisas, objetos, se movendo por conta própria. Esse espetáculo influencia até a linguagem quotidiana. As pessoas falam; o petróleo subiu, o feijão baixou, o ônibus aumentou, o imposto diminuiu, o açúcar mascavo sumiu, etc. Por obra e graça dessa forma sutil de distorção ideológica (o “fetichismo da mercadoria”), os sujeitos que movimentam os objetos desaparecem...
A distorção ideológica não resultaria, assim, das manobras pérfidas de quaisquer “usinas” produtoras de ideologias a serviço da burguesia. Essas “usinas” até existem, mas não são as causadoras (no máximo amplificadoras e aproveitadoras) da distorção. A causa está na própria organização da sociedade, na sua cisão interna.
A ideologia, de acordo com Marx, não é a mentira pura e simples: ela pressupõe o conhecimento (ao menos algum conhecimento verdadeiro) e o distorce, a ponto de traí-lo.
Como enfrentar o desafio de combater e superar as distorções ideológicas ? Como ter certeza de que o meu ponto de vista, quando critico a ideologia, não está sendo ideológico ? Se a ideologia se expande e penetra sorrateiramente em todas as expressões culturais, o que me imunizaria contra ela ? O que seria o não-ideológico ?
Marx procurou responder a essas perguntas remetendo-se à prática. Para ele, o problema seria solucionado na medida em que o proletariado fizesse a revolução social, superasse o modo de produção capitalista e criasse a sociedade reunificada, sem classes e sem Estado: o comunismo.
Esse encaminhamento de solução para o problema encontrou resistências e hoje vem sendo considerado em muitos setores como utópico e politicamente pouco convincente. Sua credibilidade, que já era limitada no final do século XIX, ficou devastadoramente danificada pelos desdobramentos frustrantes das experiências socialistas que no século XX se caracterizaram como marxistas.
Temos, então, na teoria da ideologia elaborada por Marx dois aspectos: uma questão cuja vitalidade continua a ser amplamente reconhecida e uma solução que está bastante envelhecida. Nas páginas que se seguem, procuraremos lembrar, muito sumariamente, algumas das expressões dos movimentos teóricos de alguns pensadores que, após a morte de Marx, de algum modo, retomaram e reexaminaram a questão da ideologia.
Marx morreu em 1883. Engels viveu até 1895 e viu o início de mudanças importantes no campo da luta política: o movimento operário europeu criou os primeiros partidos de massa e os primeiros sindicatos de massa na história. O sufrágio universal (masculino) trouxe a possibilidade de serem arrancadas concessões às classes dominantes. Certas inquietações radicais do velho Marx foram atenuadas por seus seguidores.

Na concepção da história, a dialética cedeu espaço para o determinismo, que proporcionava certa segurança psicológica aos militantes (que, como observou Walter Benjamin, se sentiam na crista da onda que os impelia, inexoravelmente, em direção ao socialismo). A questão da ideologia ficou subaproveitada.
Lênin fez uma opção pragmática: deixou de lado a dimensão epistemológica da questão da ideologia e só se interessou pelo uso político imediato dela. Se algumas ideologias, burguesas, tinham um uso político conservador, e a elas se contrapunha uma ideologia proletária, progressista, era isso que importava. O “marxismo-leninismo” passou a operar com uma dicotomia que se afastava da preocupação teórica de Marx: a dicotomia ideologia progressista x ideologia conservadora.
Gramsci procurou combinar Lênin e Marx. Empenhou-se em articular a atenção que Marx dava à distorção do conhecimento com a atenção que Lênin dava ao uso histórico-político das ideologias. Concentrou suas observações na passagem do “senso comum” ao “bom senso” e abriu caminho para a análise crítica das formas de institucionalização do controle da produção de representações. Como uma classe consegue ser não apenas “dominante”, mas também – e decisivamente – dirigente ? Como ela passa a exercer sua “hegemonia” sobre a sociedade ? Como ela constrói o “consenso” ?
Em outras palavras: o que leva os setores populares à aceitação de uma política que, no fundo, não corresponde aos seus interesses ?
Lukács, ao se defrontar com esse mesmo problema, seguiu outro caminho, em sua reflexão filosófica. Em seu livro História e Consciência de Classe, o pensador húngaro analisou a forma contemporânea mais sutil da distorção ideológica: a “coisificação” (Verdinglichung). O “fetichismo da mercadoria” resulta inevitávelmente de uma atividade prática que está organizada de maneira a criar a aparência generalizada de uma “objetividade” inexorável, sobre a qual os sujeitos não podem ter nenhuma interferência efetiva. A subjetividade é reduzida a mero apêndice do movimento das coisas.
As formas espontâneas, imediatas, da consciência não têm poder para superar essa situação. Só uma consciência teoricamente articulada – a “consciência acrescentada” (zugerechnetes Bewusstsein) – pode mobilizar a classe operária para revolucionar esse estado de coisas e lançar as bases de uma nova organização, baseada num novo modo de produção.
O livro de Lukács exerceu grande influência sobre, entre outros, Walter Benjamin, Adorno e Horkheimer, que nele se apoiaram para recusar a doutrina oficial do “marxismo-leninismo”. Adorno e Horkheimer, em especial, abandonaram a idéia de que o proletariado faria a revolução socialista e edificaria uma sociedade nova. Adorno definiu a perspectiva dos filósofos da chamada “Escola de Frankfurt” (da qual ele viria a ser o pensador “clássico”) como “teoria crítica” e o método que utilizavam como “dialética negativa”.
Os frankfurtianos se mantiveram críticos implacáveis do capitalismo e trouxeram para a reflexão sobre a questão da ideologia a tese de que o modo de produção capitalista fortaleceu muito sua influência ideológica através da “indústria cultural”. Os trabalhadores, explorados em suas necessidades, na esfera do trabalho, passaram a ser manipulados em seus desejos, na esfera do consumo. Passaram, em certa medida, a se identificar com as classes dominantes.
Criou-se uma situação esdrúxula. Os marxistas “ortodoxos”, que tinham a atuação política de maior repercussão prática, empobreciam o legado teórico de Marx. E os marxistas “heterodoxos”, que tinham uma influência política bem menor, contribuíam para revitalizar as inquietações radicais que se expressavam nos conceitos de Marx (entre os quais o de ideologia).
Na era em que Stálin era o principal dirigente do movimento comunista mundial, as reflexões mais originais a respeito da ideologia não vieram das fileiras dos partidos, mas de marxistas politicamente marginalizados, que não recuavam diante de teses ousadas ou bizarras, como o russo Mikhail Bakhtin (teórico da “carnavalização”) e o alemão Benjamin (que combinava o marxismo com a teologia judaica).
Bakhtin, com suas concepções do “dialogismo” e da “polifonia”, abriu espaço para que se reconhecesse o vigor subjetivo das potencialidades da cultura popular, em sua crítica à cultura das elites. E Benjamin, com sua disposição messiânica, contribuiu para que os verdadeiros revolucionários insistissem em “escovar a história a contrapelo”.
Uma exceção nesse quadro de marxistas situados fora das fileiras da militância organizada foi Louis Althusser, membro do Partido Comunista Francês, que elaborou uma concepção original da ideologia, empenhado em combater a falta de rigor da versão oficial do “marxismo-leninismo”. Assimilando idéias provenientes da psicanálise (sobretudo de Lacan), Althusser entendeu que a ideologia constituía uma esfera de fenômenos inelimináveis da representação da realidade pelos seres humanos, e sustentou que a ela se contrapunha a Teoria (com T maiúsculo), ou a Ciência.
A incisiva contraposição althusseriana entre a Ciência e a ideologia foi criticada por diversos ensaístas, entre os quais o inglês Raymond Williams e a brasileira Marilena Chauí. Raymond Williams e Marilena Chauí trouxeram para o aprofundamento da reflexão sobre o conceito de ideologia elementos preciosos extraídos de suas observações críticas a respeito das distorções ideológicas na produção cultural, respectivamente, da sociedade inglesa e da sociedade brasileira. Ambos, entretanto, sustentam que o conceito gramsciano de hegemonia, na medida em que parte de uma ligação essencial entre a teoria e a prática, entre a consciência e a ação, é mais abrangente (mais amplo) do que o conceito de ideologia.
Embora reconheça a extraordinária fecundidade do conceito gramsciano de hegemonia, não partilho dessa convicção de Williams e Chauí. Entendo que as ações que viabilizam a hegemonia também dependem de um momento especificamente teórico – ineliminável - no qual opções da consciência, marcadas pelas pressões da ideologia, interferem na prática. A questão da hegemonia, então, atravessa inevitavelmente um momento no qual fica subordinada à (e é abrangida pela) questão da ideologia.
Uma contribuição extremamente significativa à reflexão sobre a questão da ideologia vem sendo dada pelo alemão Jürgen Habermas, com sua teoria do agir comunicativo. Segundo Habermas, a razão instrumental, derivada do trabalho, estruturada a partir da relação sujeito/objeto (o sujeito dominando o objeto), vem ultrapassando a esfera da sua inegável competência e se expandindo (num movimento “imperialista”), em detrimento da esfera da razão comunicativa, derivada da linguagem e estruturada a partir da relação sujeito/sujeito (pela qual o sujeito precisa compreender o outro e fazer-se compreender pelo outro).
Com o predomínio da consciência tecnocrática, segundo Habermas, desenvolve-se uma forma de legitimação do existente que é mais eficaz do que as ideologias do tipo antigo. E a direção em que podemos combater, hoje, o agravamento das distorções ideológicas é a da defesa e do fortalecimento da razão comunicativa.
O norte-americano Fredric Jameson também se preocupa com as novas formas da distorção ideológica e para combate-las se debruça sobre as contradições da cultura pós-moderna. Para ele, uma crítica capaz de “historicizar o pós-modernismo” precisa estar atenta para, de um lado, a marca do horizonte limitado de uma determinada classe social e, de outro, para a marca da expressão utópica de uma solidariedade coletiva, que, mesmo prejudicada pela distorção, aponta para a necessidade humana geral do conhecimento (O Inconsciente Coletivo).
Um dos terrenos nos quais a fecundidade do conceito de ideologia tem sido posta à prova e tem produzido excelentes resultados é o território dos historiadores. Entre os sociólogos, a ideologia está em baixa (Bourdieu a abandona em favor da doxa e do habitus). Porém historiadores como Braudel (com o tempo da “longa duração”), Duby (com a percepção de que “a ideologia não é reflexo do vivido, mas um projeto de agir sobre ele”) ou Carlo Ginzburg (com o “paradigma indiciário”) trouxeram importantes contribuições para que a questão da ideologia venha suscitando crescente interesse, nas últimas décadas.
A problemática da ideologia vem viabilizando nas investigações históricas o fortalecimento de uma postura crítica e autocrítica, que ajuda o historiador a evitar prejulgamentos e avaliações formuladas em tom peremptório, lembrando ao sujeito que a realidade é sempre mais rica do que nós conseguimos reconhecer e estimulando nele – em relação a si mesmo e aos outros - uma preciosa desconfiança dialética em relação à construção e ao uso social do conhecimento.
Fonte: www.uff.br/sta/textos/cg010.doc

A Questão da Ideologia em Gramsci

A Questão da Ideologia em Gramsci - Leandro Konder

Ideologia: o termo tem vários significados em ciências sociais

Por Renato Cancian*

Nas ciências sociais, filosofia e áreas afins, o termo ideologia é empregado com muita freqüência. Em uma de suas canções, o músico e letrista brasileiro Cazuza fez uma crítica sagaz à ausência de uma ideologia para seguir nos tempos atuais.

O verso de Cazuza - "Ideologia. Eu quero uma pra viver" pode ser nosso ponto de partida para perguntar: mas afinal, qual é o significado desse termo e como ele surgiu?

O conceito ideologia foi criado pelo francês Antoine Louis Claude Destutt de Tracy (1754-1836). Este filósofo o empregou pela primeira vez em seu livro "Elementos de Ideologia", de 1801. para designar o "estudo científico das idéias".

Destutt de Tracy usou alguns métodos e teorias das ciências naturais (física e biologia basicamente) para compreender a origem e a formação das idéias (razão, vontade, percepção, moral, entre outras) a partir da observação do indivíduo em interação com o meio ambiente.

Novos significados de ideologia

Nas décadas seguintes à publicação do livro de Destutt de Tracy, o termo ideologia foi utilizado com outros significados. Ele também reaparece de maneira recorrente nos estudos dos filósofos e pensadores que fundaram a sociologia.

O francês Auguste Comte, criador da doutrina positivista, compartilha da definição de Destutt de Tracy: a ideologia é uma atividade filosófico-científica que estuda a formação das idéias a partir da observação do homem no seu meio ambiente.

Por outro lado, o sociólogo francês Émile Durkheim usa o termo de maneira distinta. Para Durkheim, os fatos sociais são considerados objetos únicos de estudo da sociologia. Na perspectiva durkheimiana, as idéias e valores individuais (ou seja, a ideologia) são irrelevantes porque os fatos sociais são manifestações externas, isto é, estão fora e acima das mentes de cada sujeito que integra a sociedade.

Portanto, para Durkheim, a ideologia é negativa porque nasce de uma noção "pré-científica" e, por isso mesmo, imprópria para o estudo objetivo da realidade social.

A ideologia segundo Marx

A referência ao pensador e filósofo alemão Karl Marx, é muito importante para qualquer estudo sobre os significados do termo ideologia. O estudo mais relevante de Marx sobre o tema é o texto chamado de "A Ideologia Alemã". Para Marx, a produção das idéias não pode ser analisada separadamente das condições sociais e históricas nas quais elas surgem.

Em "A Ideologia Alemã", o fundador do marxismo dirige inúmeras críticas a vários filósofos e ideólogos alemães justamente para demonstrar que o pensamento, as idéias e as doutrinas produzidas por eles não são neutras. Muito pelo contrário, elas estão impregnadas de noções, isto é, de ideologias provenientes das condições sociais particulares da Alemanha daquele período.

Marx também distingue tipos de ideologias que são produzidas: política, jurídica, econômica e filosófica. Com base nos pressupostos teóricos do materialismo histórico, o pensador alemão demonstra que a ideologia é determinada pelas relações de dominação entre as classes sociais.

Ao se referir à ideologia burguesa, Marx entende que as idéias e representações sociais predominantes numa sociedade capitalista são produtos da dominação de uma classe social (a burguesia) sobre a classe social dominada (o proletariado).

A existência da propriedade privada e as diferenças entre proprietários e não-proprietários aparecem, por exemplo, nas representações sociais dos indivíduos como algo que sempre existiu e que faz parte da "ordem natural" das coisas. Essas representações sociais, porém, servem aos interesses da burguesia, classe social que controla os meios de produção numa sociedade capitalista.

Função social da ideologia

Na perspectiva marxista , a ideologia é um conceito que denota "falsa consciência": uma crença mistificante que é socialmente determinada e que se presta a estabilizar a ordem social vigente em benefício das classes dominantes. Quando a ideologia da classe dominante sofre sérios abalos, devido ao surgimento de conflitos sociais (contradições sociais), há riscos de ocorrer uma ruptura da ordem social vigente por um movimento revolucionário.
Historicamente, a burguesia também foi uma classe revolucionária que rompeu com a ordem social do feudalismo e impôs o modo de produção capitalista. Portanto, Marx argumenta que na ordem social capitalista, o proletariado, ou seja, todos aqueles que não são proprietários dos meios de produção e precisam vender sua força de trabalho para sobreviver - são os sujeitos depositários da esperança de uma ruptura revolucionária.

Para que isso ocorra, entretanto, o proletariado precisa primeiramente romper com a ideologia burguesa. E isso só se torna possível quando ele toma consciência de sua condição de classe dominada e explorada.

Uso corrente do termo "ideologia"

Nas pesquisas sociológicas empíricas (ou seja, de caráter não-teórico), é bastante comum o emprego do termo ideologia. Porém, ele é utilizado como recurso metodológico.

O objetivo é somente descrever o conjunto de idéias, valores ou crenças que orientam a percepção e o comportamento dos indivíduos sobre diversos assuntos ou aspectos sociais, como, por exemplo, as opiniões e as preferências que os indivíduos têm sobre o sistema político vigente, a ordem pública, o governo, as leis, as condições econômicas e sociais, entre outros.

*Renato Cancian é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro "Comissão Justiça e Paz de São Paulo: gênese e atuação política - 1972-1985".


Fonte: http://educacao.uol.com.br/sociologia/ult4264u26.jhtm

O Científico e o Ideológico

Por ANTONIO INÁCIO ANDRIOLI
“Na verdade, em nosso recrutamento universitário e no nosso recrutamento em geral, influenciamos fortemente nosso pessoal para um tipo de pesquisa não-científica” (Dr. Donald G. Manly, Diretor da Air Products and Chemical Incorporated).
A suposição de existência de uma ciência neutra e livre de condicionamentos ideológicos, como referência para a tomada de decisões políticas, continua atual. Diante da polêmica criada pelo plantio ilegal da soja transgênica no Brasil, vem crescendo o número de adeptos de um apoio incondicional à transgenia como portadora natural do progresso para a agricultura, e do repúdio à assim chamada “ideologização” do debate por parte dos críticos desta tecnologia. A atitude é autoritária, pois não suporta a possibilidade do pensamento diferente ou contraditório sobre o tema. Sob o título de ciência, os defensores da nova tecnologia se apropriam de artifícios externos ao debate para se qualificarem como autoridades, numa tentativa de imposição de seus argumentos. Ora, se o pressuposto é o científico, por que não ouvir todas as posições? A resposta é que a posição dos críticos da soja transgênica seria ideológica e só prejudicaria o debate. Mas, é possível separar ciência de ideologia? E que critérios estão sendo usados para qualificar uma posição de científica e a outra de ideológica?
A polêmica parece nova, mas é tão antiga quanto a idéia moderna de ciência. Na tradição herdada do positivismo, a ciência é concebida como autônoma e isolada dos conflitos sociais. Sua hipótese básica é de que a sociedade humana funciona com base em leis naturais invariáveis, neutras e, portanto, independentes da ação humana. As classes sociais, as posições políticas, os valores morais e as visões de mundo dos sujeitos envolvidos são encarados como empecilhos à objetividade científica e o pesquisador deve se esforçar para eliminar estas influências do meio social na sua pesquisa. Mas, como o pesquisador pode evitá-las, se ele é um ser social imerso na realidade, se a delimitação do seu objeto de estudo, as perguntas que faz e as interpretações que desenvolve já são influenciadas por sua história de vida, seus valores e sua visão de mundo?
Na Alemanha há um conto infantil muito famoso do Barão de Münchhausen, que pode servir para ilustrar essa pretensão de neutralidade dos positivistas. Conta-se que, certo dia, o Barão de Münchhausen, num de seus passeios a cavalo, afundou num pântano. Ele ia afundando cada vez mais e, como não havia ninguém para socorrê-lo, ele teve a brilhante idéia de puxar a si mesmo pelos cabelos, até que conseguiu sair, juntamente com seu cavalo, do atoleiro. Essa é a pressuposição dos positivistas: o cientista, preso a uma redoma de preconceitos e ilusões, consegue isolar-se do mundo que o cerca, ficando acima de qualquer interesse ou ideologia. O dilema dessa concepção é o de que os preconceitos e a visão de mundo do cientista são simplesmente ignorados, como se não existissem. O cientista permanece iludido, acreditando que é neutro e reproduz valores que consciente ou inconscientemente estão presentes, mas não devem ser encarados. É por isso que os positivistas, mesmo quando são sinceros na sua tentativa de se isolar no objeto de pesquisa, não conseguem se libertar dos seus preconceitos conservadores e acabam servindo ideologicamente às classes dominantes na sociedade.
A ciência não está isolada do mundo e os fenômenos sociais não podem ser explicados por leis naturais. A especulação científica parte de sujeitos humanos, como tentativa de conhecimento da verdade, numa relação com a totalidade dos aspectos sociais e históricos. O conhecimento científico é sempre transitório e socialmente relativo. A ciência reflete apenas uma maneira de pensar e, por isso, não é autônoma e não está isolada da luta de classes. Mesmo que não haja uma relação lógica direta entre fato e valor, há uma relação sociológica entre ambos, pois o conhecimento de um fato conduz a posições morais e políticas e esses valores estarão presentes para o pesquisador, o tempo todo, durante o processo científico. Neste sentido, não existe ciência de um lado e ideologia de outro, mas diferentes pontos de vista científicos, vinculados a diferentes pontos de vista de classe. Como não há critério absoluto para medir a cientificidade do conhecimento, é através da publicidade crítica, no embate das idéias, que os resultados de uma pesquisa podem ser avaliados, tendo em vista sua correspondência com a realidade. Mas, mesmo que um conhecimento científico tenha sido aceito, ele deve permanecer em condições de ser refutado no momento em que outra leitura da realidade possa superá-lo. Ele não é, portanto, sinônimo da verdade ou um dogma, mas resultado provisório de uma investigação humana num determinado período histórico e social e, portanto, suscetível a todas as idéias e valores presentes na sociedade.
A ideologia, entendida como visão de mundo, sempre estará presente no processo científico e seria muito ingênuo aceitar a hipótese de neutralidade dos intelectuais. Mas, no decorrer da história, foram atribuídos vários significados ao conceito de ideologia e muitos autores o utilizam num sentido negativo. Para Karl Marx, por exemplo, ideologia é sinônimo de ilusão, consciência deformada da realidade construída pela classe dominante. Para Karl Mannheim, existem dois tipos de ideologia: uma de caráter justificador da ordem social (assim como para Marx) e, outra, subversiva, com função crítica, que ele preferiu chamar de utopia. Para Antonio Gramsci, a ciência sempre é ideológica, porque resulta do processo histórico de desenvolvimento das classes sociais. Toda pretensão de verdade tem uma origem histórica e sua validade é provisória, como parte organicamente integrada numa estrutura social. Neste sentido, não é possível ao intelectual escapar da ideologia, seu conhecimento sempre estará ideologicamente situado. Assim como o conhecimento científico é relativo e provisório, ele também está impregnado de valores, e o cientista, consciente desta realidade, deve mover-se dentro dela para buscar o conhecimento objetivo e verdadeiro.
A questão da soja transgênica é muito exemplar neste aspecto. A soja Roundup Ready foi desenvolvida pela empresa Monsanto, que investe enormes recursos em pesquisa e em propaganda, com a clara intenção de faturar com a venda de sementes (através do pagamento de royalties pela patente da tecnologia) e herbicidas. Assim, temos, por um lado, os pesquisadores pagos pela Monsanto, que atuam em seus centros de pesquisa, em centros de pesquisa públicos e em universidades com financiamento da empresa, interessada em difundir sua tecnologia e dominar o mercado. Essa é a grande questão que está em jogo na liberação da soja transgênica no Brasil, pois sua liberação no país pode forçar os consumidores do mundo inteiro a consumi-la, já que, neste caso, não haverá mais soja convencional suficiente disponível no mundo. Somam-se, ainda, os profissionais de uma parte da mídia, cujas empresas recebem recursos da Monsanto vinculados ao seu programa de marketing e propaganda. Do outro lado, existem os cientistas que desenvolvem pesquisas sobre o mesmo tema, mas sem receber recursos da Monsanto, os representantes de organizações ambientalistas e de defesa do consumidor. Dos dois lados, portanto, é produzido conhecimento, mas com interesses opostos. Enquanto um lado trabalha com imensos recursos e uma ampla estrutura de pesquisa disponibilizados pelo investimento da Monsanto, que condiciona todas suas pesquisas a seus interesses, o outro lado chega a resultados científicos que contradizem todos os estudos difundidos pela empresa interessada na venda de sementes e herbicidas. Qual dos dois resultados é mais científico e qual é mais ideológico?
Os agricultores são influenciados por ambos os lados e procuram adequar o conhecimento disponível aos seus interesses. A junção de conhecimento com interesse se transforma em ideologia e as diversas organizações da sociedade se posicionam de um lado ou de outro seguindo esta mesma lógica. O governo, que é composto por partidos políticos e procura ampliar sua base de aliados, os quais também se posicionam diferentemente com relação à polêmica, é desafiado a posicionar-se diante de uma situação criada: parte dos agricultores plantou a soja transgênica ilegalmente, utilizando sementes contrabandeadas da Argentina e descumprindo o acordo feito no ano anterior, em que a comercialização da safra foi excepcionalmente liberada com o compromisso, por parte dos agricultores, de não plantá-la novamente neste ano. Diante disso, o governo, pressionado pela mídia, por parlamentares e governadores, por integrantes do próprio governo, pela Monsanto, por pesquisadores que defendem a soja transgênica e por organizações dos agricultores que afrontaram a lei, editou uma medida provisória, liberando o plantio da soja contrabandeada.
Quais foram os critérios utilizados para esta decisão? O governo Lula anunciou que sua decisão estaria baseada em critérios científicos. Mas, quais foram os critérios científicos utilizados que permitem a liberação de um cultivo sem a prévia apresentação do Estudo de Impacto Ambiental previsto legalmente neste caso? Quais são os resultados “científicos" apresentados pela Monsanto que já não tenham sido cientificamente refutados pelos pesquisadores críticos à adoção desta tecnologia? Na verdade, ao ceder à pressão política, permitindo o plantio da soja transgênica, este governo ignorou o princípio da precaução e tomou sua decisão mais ideológica até o momento que é, por ironia, contrária ao seu programa e à classe social que o elegeu.
Fonte: http://www.espacoacademico.com.br/029/29andrioli01.htm

O que é ideologia -Paulo Ghiraldelli

1. Características gerais

“Qual a ideologia que está por trás disso?” – eis aí uma pergunta estranha, mas que várias pessoas formulam, descuidadamente. Não há ideologia “por trás”. Caso exista algo “por trás” de um texto ou de um vídeo ou de uma peça de teatro ou de uma bula de remédio ou de uma legislação, pode acreditar, você não está diante da ideologia. Por uma razão simples: ideologia é algo que não vem “por trás”, ideologia é o que vem em primeiro plano, é o que está “na frente”.

Quando notamos movimentos sociais e de grupos, institucionais ou não, aprendemos rapidamente isso: a ideologia e a propaganda são parentes não distantes, e a semelhança familiar é justamente esta: ambas querem aparecer.

Um conjunto de caravelas espanholas ataca as caravelas inglesas. Eis aí o tempo de Elizabeth. O que carregam os espanhóis junto de suas velas, ou em bandeiras ou como figura estampada nas próprias velas? O Cristo na Cruz. É o desenho do Cristo o que está “por trás”? De modo algum, a gravura, que é sem dúvida, no caso, o símbolo ideológico, vai à frente. Não se esconde. Mostra-se. Tem de se mostrar.

Vejamos agora um documento educacional, uma peça de legislação. Vamos às reformas educacionais de Getúlio Vargas. Ali, claramente, o ensino médio aparece como voltado para a criação de “elites condutoras” – esta é a frase usada à risca, na letra da lei. Ora, a ideologia conservadora, que diz que o povo precisa ser conduzido por grupos da “elite”, está escondida? Está “por trás”? De modo algum. Está explícita e bem acomodada nas primeiras linhas. Está na frente.

A primeira característica de um conjunto de idéias que se pode chamar de ideologia é a de vir antes que qualquer outra coisa. Ela pertence ao que se quer mostrar e, de preferência, em primeiro plano. Ora, mas há outras duas características da ideologia.

A segunda característica é a busca de universalidade a qualquer preço. Um conjunto de idéias que é bem particular, que não tem grande força lógica para se tornar universal e, no entanto, busca se tornar universal e quer ser uma verdade independente de todos e uma verdade para todos, já está funcionando como ideologia. É próprio de um conjunto de idéias que se quer transformar em ideologia procurar se colocar de modo abstrato, para ganhar universalidade.

“O amor é a única lei” é uma idéia cristã, contra a idéia pagã da “lei do olho por olho e dente por dente”. Todavia, quando já ninguém sabe o que é que se quer dizer por amor, dado sua transformação em palavra abstrata, então a frase pode ser endossada por todos. Todo mundo diz que a coisa mais importante do mundo é “ter amor”. Assim, o próprio cristianismo, se está ligado a isso, se comporta como ideologia.

A terceira característica da ideologia é que ela quer antes mostrar a verdade “que se tem de seguir” do que um conjunto de enunciados que, possa levar à reflexão a respeito de outros conjuntos de enunciados e assim por diante. Ela, a ideologia, aceita pouco aquilo que Robert Brandom, louvado por Rorty, chamou de “o jogo de dar e pedir razões”. Nesse sentido, é próprio da ideologia o engodo, a ilusão ou o erro.

Nesse caso, não falamos de erro psicológico (da percepção ou do raciocínio). Trata-se de engano, certamente, mas como uma feição bem especial, a saber, nem sempre a ilusão ideológica se desfaz uma vez que seu mecanismo de engodo é revelado. Trata-se aqui do contrário do erro percetivo ou de um raciocínio equivocado, que pode ser corrigido, e geralmente o é, quando vemos que em que lugar a frase endossada está dando problemas O engodo ideológico permanece, mesmo quando denunciado. A realidade que vemos ideologicamente não muda, mesmo que o que tomamos por realidade esteja, então, denunciado como produto ideológico.

Por exemplo, se alguém olha para a realidade de negros e brancos, em um país fortemente racista, em que há discriminação contra os negros, e vê os negros como inferiores, o fato de se denunciar que isso não é nada senão uma visão ideológica, não extirpa dos “olhos” de quem assim vê tal realidade. Ele não vê algo novo. Ele não pensa de modo novo. A denúncia não altera a compreensão (imediata) como alteraria a compreensão de alguém que é denunciado ter cometido um erro lógico, como o de manter duas sentenças contraditórias ao mesmo tempo e no mesmo lugar. A denúncia não altera a compreensão (imediata) como mudaria a compreensão de alguém que vê um cachorro e, ao chegar mais perto, percebe que errou, que o que estava ali era um gato.

2. Filosofia e senso comum

Não raro, a filosofia também se põe como um conjunto de idéias, uma doutrina e, nesse sentido, se parece com a ideologia. E muitos confundem uma com a outra quando ambas assim se apresentam, como doutrinas. Todavia, a filosofia, isto é, a filosofia que não se corrompeu em ideologia, não se apresenta “na frente”. Ela é o que vem “por trás”. Não que esteja escondida. Ela vem por trás por uma razão simples, a filosofia é uma atividade racional, e só podemos usar da razão de modo explicativo e como fornecedora de boas justificações, quando os fatos já se passaram e quando o discurso histórico, ao menos em parte, já se fez.

“A Coruja de Minerva levanta vôo ao entardecer”, escreveu Hegel. Exatamente: só depois que há a história, então, ao final do dia, a razão passeia sobre tudo e fornece seu veredicto, tornando tudo que é insano, louco e sem sentido, em algo com algum sentido – o que se pode explicar aparece, e o que se pode compreender ganha vida. Esse trabalho da razão, o de dar sentido, não é senão o trabalho da filosofia. A filosofia vem depois, vem tardiamente, vem por trás, não tem como vir pela frente.

A coruja é ave de rapina, precisa enxergar todo o terreno à noite, caso queira conseguir alimento. Deve ver longe e de modo bem amplo, e não pode errar a rasante e não pegar sua presa. Nada tem a ver com as outras aves pequenas. O pardal acorda cedo e sai para revirar o esterco. Come bichinhos do esterco, mas quando perguntado por outros animais sobre o que é seu alimento cotidiano, vive dizendo que são bons pedaços de pão da mesa dos humanos. A coruja é a filosofia, o pardal, a ideologia.

O senso comum mais ou menos cru toma a filosofia e a ideologia como doutrinas. E há verdade nisso. São doutrinas. Mas não de modo absoluto. O senso comum não é analítico e, então, não fazendo o trabalho de distinguir o joio do trigo (alguns gostariam de dizer, crítico), engole indistinções que não se deveria engolir de modo algum. Então, não vê que se em algum momento a filosofia e a ideologia quase se igualam, ao serem doutrinas, ainda assim elas não podem ser tomadas como a mesma coisa. Pois há a doutrina da coruja e há a doutrina do pardal.

O senso comum não acredita que é necessário, a todo o momento, fazer distinções. Ele não aprendeu a lição dos filósofos medievais, que diziam que quando encontramos uma contradição, o que temos de conseguir esboçar é uma distinção. Sendo assim, ele toma ideologia e filosofia como doutrinas e não vê as características da primeira como bem distintas da segunda. Por agir assim, sem grandes preocupações com a distinção, sem achar que contradição é algo que não pode ser engolido, ele é mesmo o senso comum, o pensamento que tem dificuldade em se engajar na filosofia. Não raro, ele está envolto na ideologia e imagina estar fazendo filosofia.

Encontramos boa parte dos professores, jornalistas, médicos etc. totalmente imersos em ideologias. Eles acreditam que só os não escolarizados vivem sob o domínio do senso comum, e que eles próprios funcionam segundo o aparato dado pelo pensamento crítico, livres da ideologia. Todavia, talvez isso que dizem já seja, então, uma ideologia. Afinal, é o que vem na frente – é a primeira coisa que dizem, quando querem se distinguir dos outros. Caso seja assim, então imaginam estarem endossando, de modo esperto, filosofias. Podem não estar. E nesse caso específico, talvez não estejam mesmo. Por não se preocuparem em fazer distinções, e então ver em que poderiam ser ou não diferentes dos não muito escolarizados (“o povo”), eles próprios podem estar apenas no campo do senso comum.

Aliás, diga-se de passagem, esse tipo de intelectual acaba mesmo se envolvendo em uma ideologia específica, que é a que endossa a idéia de que o senso comum é o “pensamento ingênuo”, e que o “homem do povo” ou “o povão” é sempre enganado, ludibriado exatamente por se manter na ingenuidade.

É claro que a proteção contra a ideologia é o uso da razão. Todavia, temos de nos lembrar que o uso da razão, a racionalização de tudo, pode também ser ideológica.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

Fonte: http://portal.filosofia.pro.br/o-que--ideologia.html