terça-feira, 3 de agosto de 2010

Criadora do método de reajuste por mérito adotado em São Paulo diz que modelo não funciona.

O modelo educacional adotado pelas gestões tucanas na rede estadual paulista não funciona. A opinião é da própria criadora da meritocracia, uma polêmica reforma de ensino que levou as práticas corporativas para dentro das escolas, provocando críticas de especialistas em Educação e sindicalistas do setor.
Ex-secretária-adjunta de Educação dos Estados Unidos, Diane Ravitch, lançou um livro, ainda não editado no Brasil, que revela que o modelo de educação baseado em metas e na responsabilização de professores e gestores pelo desempenho dos estudantes não funciona.

“Não podia mais continuar apoiando essas abordagens. O ensino não melhorou e identificamos muitas fraudes no processo”, explica Diane à repórter Simone Iwasso em reportagem inédita publicada nesta segunda-feira (02/08) no Jornal O Estado de São Paulo.

Vale lembrar que o então governador José Serra sancionou uma lei condicionando o reajuste dos professores da rede pública paulista a este modelo de ensino, agora duramente criticado por sua própria idealizadora. Atentas à injustiça do modelo, as Bancadas do PT e demais partidos de oposição na Assembleia Legislativa votaram contra o projeto, em outubro de 2009. O PL 29/09, sancionado posteriormente, excluiu 80% dos professores da rede estadual do reajuste, reservado supostamente
aos melhores classificados em prova de mérito elaborada segundo o modelo da norte-americana Diane Ravitch.
O livro The Death and Life of the Great American School System ou “A Morte e a Vida do Grande Sistema Escolar Americano” explica os equívocos que levaram à falência a reforma educacional iniciada no Governo George Bush e que inspirou políticas públicas adotadas em São Paulo.

Leia a entrevista de Ravitch ao Jornal O Estado de São Paulo acessando o site Assembléia Permanente.

Minhas Observações:

Alguem deveria avisar o Sr. Serra (10 metas para educação) e ao Sr. Lula (PDE) ambos propõe a meritocracia para ferrar com os professores.

Os arautos do reacionarismo

por Antonio Ozaí da Silva

Os reacionários temem mudanças, especialmente as que desafiam as suas certezas e dogmas. Se dependesse deles, as fogueiras da inquisição permaneciam a arder e a queimar os ateus, hereges e gays, que eles consideram anormais e aberrações da natureza. Conservadores até a medula, não suportam a mínima alteração no que consideram a ordem natural das coisas. Na cruzada contra o mal, isto é, contra tudo o que não se encaixe em sua tacanha concepção sobre o mundo, vêem-se como os salvadores de almas e imaginam ter o mandato divino para manter-nos no reto caminho do Senhor!

Não se contentam em se imaginarem “os eleitos”, lançam o dedo acusador contra os que ousam não compartilhar da sua cegueira. São missionários retrógrados que temem o aperfeiçoamento dos costumes e dos valores humanos. Seus corpos estão no presente, mas suas mentes são prisioneiras de um passado que urge superar. Obstinadamente, anunciam um mundo morto e mortificante. Eles são os arautos da regressão política, social, cultural e moral.

Se dependesse deles, o mundo não mudaria. Eles brandem suas espadas imaginárias e levantam suas vozes contra os que se dedicam a derrubar os muros simbólicos e reais que mantêm a segregação sexual, a opressão machista, heterossexual e homofóbica. Claro, as sociedades ainda são predominantemente machistas e resistem aos avanços feministas e dos gays, lésbicas e afins. Diferenças e valores morais e culturais introjetados por gerações, educadas por mães que consideram normal a dominação masculina e por pais homofóbicos e outros que até são transigentes em relação aos homoafetivos, desde que sua prole não seja um(a) deles(as).

As lutas das mulheres e dos homoafetivos tendem a fragilizar as muralhas que dão segurança à maioria. Assim, mesmo que as pessoas individualmente não gostem, a sociedade progride e reconhece a igualdade na diferença. Refiro-me à igualdade no plano formal e jurídico. A aprovação pelo Senado argentino do casamento entre pessoas do mesmo sexo é exemplar. É uma lei polêmica e a divergência é democrática. A sociedade argentina mobilizou-se e o debate foi intenso. O resultado apertadíssimo da votação (33 votos contra 27, com três abstenções) comprova-o. A Argentina pode orgulhar-se. Agora, está entre os dez países que adotam leis neste sentido (os outros são: Holanda, Bélgica, Espanha, Canadá, África do Sul, Noruega, Suécia, Portugal e Islândia).

Em tais condições, é patente e deve ser reconhecido o direito democrático dos que não aceitam o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. É importante frisar que a lei não anulará o estigma nem o preconceito. A questão é ainda mais profunda porque a polêmica extrapola o âmbito social e político e é alentada por argumentos de cunho religioso. Os arautos do reacionarismo, que se vêem como intérpretes e porta-vozes da palavra divina, escarnecem e acusam os pecadores que desafiam a Lei de Deus! E se tivessem o poder de aplicá-la? Deus nos livre desses fiéis seguidores!

Não questiono o direito de eles acreditarem em Deus. Aliás, é perda de tempo e energia discutir isto. Nunca vi nem falei com Ele, mas Ele existe na cabeça dos que acreditam. Na medida em que a maioria acredita, Ele se torna realidade – um fato social, como diria Durkheim. O problema, porém, começa quando estes crentes, cegos em sua leitura fundamentalista de um texto considerado sagrado e escrito pelo próprio Deus, arrogam-se serem intérpretes da Lei divina e intentam impô-la à sociedade e ao Estado. São teocratas disfarçados de missionários abnegados; são os arautos da intolerância que alimentam as fogueiras acesas por fanáticos de todas as espécies. Felizmente, o mundo muda… apesar deles!

Fonte: http://antoniozai.wordpress.com/

domingo, 1 de agosto de 2010

Participação Política: pequeno ensaio de antropologia política

"Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira" ( Lév Nicoláievitch Tolstoi)

Participação política é o tema de nosso trabalho e para realizá-lo apresentamos como referencial a publicação: "O que é Participação Política", de autoria do Professor Dalmo de Abreu Dallari, constante daquela famosa coleção da Editora Brasiliense.

A partir do texto de Dallari poderíamos realizar uma reflexão sobre o sufrágio universal, associações e partidos políticos, sistema de governo, mecanismos de democracia direta, semidireta ou representativa, ou ainda sobre a função das comunicações e da informática como mecanismo de participação política. Entretanto julgamos por bem dedicarmos nossa reflexão especificamente às justificativas da necessidade de participação política e aos elementos necessários ao seu desenvolvimento e sua consecução. Discutimos a terminologia e a partir desta, ensaiamos um esboço de antropologia política que justifica a necessidade do homem participar politicamente para ser realmente um ser humano, um ser que se relaciona com os outros, e só tem sentido seu existir se assim o for.

Percebemos também que o homem confronta desafios, que de suas resoluções surgem conseqüências positivas ou negativas conforme as decisões por ele tomadas. A partir daí, a necessidade de se tomar decisões irá sempre exigir lucidez do indivíduo, que somente será adquirida através da sua conscientização crítica. Porém dialeticamente essa criticidade se constrói participando de todos os atos que influenciam o todo social. É nesta perspectiva que nosso ensaio se insere.

O termo política permite diferentes acepções, desde uma realidade que desdobre da intimidade pessoal até uma esfera bem definida na sociedade. Podemos dizer que há duas vertentes semânticas principais. Uma vai na direção de entender o termo política como tudo que diz respeito às relações sociais, à realidade social global, enfim à sociedade em geral. Nesse sentido, tudo que ultrapasse o âmbito estritamente pessoal ou das relações íntimas e incida sobre qualquer realidade social é político. Assim, se alguém tivesse uma infecção, uma dor e continuasse sofrendo na intimidade de seu lar, essa ação não seria política. Ou se dois namorados manifestassem seu afeto em carícias, não estariam atuando na esfera política. Mas, no momento em que o doente encetasse sua caminhada em direção ao médico, ao posto de saúde, à farmácia, ou denunciasse sua doença como conseqüência de uma água maltratada, estaria então o doente entrando na esfera política. Ou se os namorados aflorassem forças sociais pró ou contra suas atitudes, já estariam também em plena esfera política, nesse sentido amplo.

Uma outra tendência relaciona política com o poder. E o poder, por sua vez, se encarna na sociedade política, dentro daquela concepção do jurista Celso Bastos. Assim uma ação política é aquela que visa a obtenção do poder, a sua conquista ou sua manutenção.

Podemos perceber em ambas as tendências um aspecto comum, que define que é ser político: sua referência ao poder, seja de modo indireto ou implícito (primeira tendência), seja de modo explícito ou direto (segundo tendência).

Dalmo Dallari conceitua política como a conjugação das ações dos indivíduos e grupos humanos, dirigindo-as a um fim comum. Diante disso, nossa argumentação inicial é provida de valor considerando que, na primeira tendência, as ações dos indivíduos produzem efeitos sobre a organização da sociedade, seu funcionamento e sobre os seus objetivos e, na segunda tendência, a estrutura de poder procura atender a necessidade natural de convivência dos seres humanos. Essa estrutura de poder que mencionamos é aqui entendida como a sociedade política, que somente se legitima com a realização da sua finalidade, que é o bem comum.

As ações humanas, mesmo aquelas que não envolvem os órgãos de poder legitimamente constituídos, são políticas quando vinculadas à finalidade última da sociedade política (primeira tendência), pois a sociedade política não é excludente, ao contrário é envolvente (na eterna expressão de Celso Bastos) e abrange a todos de maneira compulsória.

Homem: um animal político.

Dalmo Dallari apresenta-nos o homem como animal político, no sentido que este está sempre em relação com o seu semelhante. O homem vive em sociedade não somente por contingência de sobrevivência, mas porque a sua própria natureza assim o exige.

Segundo a teoria evolucionista do paleontólogo Pierre Teilhard de Chardin, o homem é centro de referência porque constitui objetivamente a coroa e a meta da evolução; constituindo-se em seu próprio sentido (Pieter Smulders). Portanto, homem e natureza constituem um complexo onde se complementam. Não se consegue entender o homem sem a natureza e o inverso também não teria qualquer sentido e nem razão de ser. Ambos encontram-se interligados e inacabados, porém em constante evolução, de modo tal, que o homem transforma a natureza e a realidade por eles criada, ressentindo-se em ambos os efeitos dessas transformações. Entretanto não existe um único ser humano e sim milhões de seres humanos que se relacionam entre si transformando-os a si mesmos, à natureza, e à realidade surgida dessas relações. Diante disso, podemos sem maiores pretensões esboçar uma antropologia política com características que muito importam para discutir o tema que propusemos.

1 - homem, um "ser de relações"

Uma primeira característica de nossa antropologia política é considerar o homem como "ser de relações", aqui entendido como resultado das relações dialéticas sintetizadas a partir das relações consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com o ser Criador. A relação é dialética e diante dessa constatação temos a dizer que o homem não pode impor regras que procedem a priori de sua subjetividade, devido a objetividade do já existente, isto é, a natureza tem suas próprias leis, o processo histórico tem sua concretude objetiva e tudo isso influencia a formação do ser humano como um "ser de relações". Portanto o ser humano é um ser de relações que se encontra situado em sua própria concretude.

Essa primeira característica fundamenta-se na filosofia humanista (Maritain) onde o fundamento de tudo é o homem, mesmo quando tudo concorra a imaginarmos o homem complemente inerte frente a objetividade da Natureza, pois sem ele esta não teria sequer sentido de existir.

O homem não pode ser entendido como um ser isolado, mas em comunhão com os outros homens (Emanuel Mounier). Temos a dizer ainda que esse "ser de relações" é sempre realçado no seu existir concreto: um ser que existe no mundo e com o mundo (filosofia existencialista de Kierkgaard). Se assim entendemos o homem, dentro dessa perspectiva evolutiva, admitimos que a vida do homem é uma vida em projeto, num contínuo fazer-se.

Aí está o fundamento para a necessidade da participação política; é a partir desta que as relações se concretizam. As relações (portanto, o próprio homem) se fazem como resultado da participação política e da sua práxis transformadora.

Diz o livro do Gênesis, o primeiro da Bíblia, que o homem não foi feito para viver só, e do homem fez-se o igual (a mulher); não para viver só, ao contrário: para viver em comunhão com seus iguais. Portanto, nosso esboço de antropologia política firma-se no principado da igualdade entre os homens. Assim sendo, não se admite a existência de um homem ou de uma elite de homens com poderes para permitir ou exigir que o outro seja isso ou aquilo. Ninguém tem esse direito e quando há abuso da igualdade existente nas formas selvagens como a opressão, a tortura, o autoritarismo, tanto os agentes passivos quanto os agentes ativos dessas relações não são plenamente humanos. É uma anormalidade social contra a qual a participação política contribui para a sua superação, tornando a todos, partícipes da construção da sociedade. E quando se tem participação política nesse sentido que colocamos não só as anormalidades são superadas como se adquire mecanismos que impeçam a existência de tais anormalidades. Portanto, como diz o professor Dallari, a vida em sociedade é uma necessidade fundamental da natureza humana.

2 - Problemas políticos: problemas de todos

Uma segunda característica de nossa antropologia política é decorrente da primeira: o homem se confronta com os desafios próprios de sua época e, ao respondê-los, torna-se histórico, historiciza-se. Um ser que pergunta, se interroga e vive - assim no jogo de suas respostas (participação política)- se altera com suas próprias respostas. O isolamento significa a sua destruição (Karl Jaspers). Assim a construção a partir desse movimento praxiológico supõe a comunhão entre os membros de tal sociedade. O próprio Aristóteles afirmava que toda polis é uma "koinonia" de alguma espécie. Koinonia é aqui entendida como comunhão, integração dos membros da polis com o propósito de se aperfeiçoarem e atingirem a "autarkeia" (Carl Friedrich). A busca pela felicidade dos membros da polis se realiza na koinonia, porém esta não pode ser entendida sem a concepção da "diaconia", que significa serviço. Portanto a comunhão aristotélica se realiza através do ato de servir e não pela servidão, que é a perversidade do ato de servir. Quem quer ser da polis necessita colocar-se a serviço em prol da polis. É a integração dos seus membros. Do outro lado da Grécia antiga quase na mesma época, Jesus pregava um princípio não muito diferente: quem quer ser o primeiro que seja o último.

Dessa linha de raciocínio, convencemo-nos da urgência da luta contra a alienação e contra a massificação do homem. Assim todo aquele que mutila ou limita a história humana, seja através da ignorância, da manipulação por mitos ou marketing, do ópio das ideologias alienantes, necessita de urgente conscientização, que se realiza através da prática da participação política.

Como falamos anteriormente, tudo o que envolve a koinonia tem uma abrangência política. Temos a dizer que os problemas políticos são problemas que envolvem a todos, que têm o direito e o dever de suas soluções participarem. Mesmo que os interesses não me digam respeito diretamente, mas somente a um grupo, tenho que nunca esquecer que faço parte do todo, da koinonia, então me diz respeito porque sou integrante do todo, sou integrante de uma coletividade.

Como já dissemos anteriormente a compreensão de mundo que tem o indivíduo comprometido com a realidade em que vive engloba a consciência de que os problemas políticos são, sempre, problemas de todos os membros da coletividade.

3- A capacidade de tomar decisões.

Temos a dizer que as tarefas ou as opções mostram uma pluralidade que quando não é prescrita como instinto animal, apresentam-se como um leque de possibilidades no terreno da opção. O homem é livre para decidir sobre seu próprio destino, que acontecerá conforme sua deliberação, mesmo que esta deliberação não seja explícita. Na visão de Péricles, o homem livre era o cidadão ativo que contribuía para modelar as leis e decisões políticas da Polis. Enquanto, na visão ocidental, a liberdade é ideologicamente mistificada como ato meramente individualista. Porém temos a dizer que a liberdade está na potencialidade do indivíduo tomar decisões que tragam conseqüências para a sua vida e especialmente para a vida social. A liberdade deve ser entendida nesse sentido político.

Mesmo diante da inegável justificativa que ninguém pode viver sem tomar decisões, muitas pessoas insistem em não tomar decisões, seja por comodismos ou por medo da responsabilidade, medo esse dissimulado atrás de um desprendimento de acatar de boa vontade o que os outros decidirem. Não percebem que não decidindo, estão decididos a permitir que outros decidam em seu lugar. Permissão que pode acarretar grandes prejuízos e um arrependimento sem cura e tornam-se espontaneamente pessoas inferiores, que deixam de utilizar-se da liberdade. A omissão impede o sistema de ser democrático tendo em vista que a democracia é onde as decisões são tomadas com liberdade e se respeita à vontade da maioria. A omissão de tomar decisões pela maioria permite que a minoria decida. Isso não é democracia.

Verificamos que os atos realizados a partir das opções decididas pelos membros do grupo social articulam-se com um compromisso das pessoas em viverem em dinâmicas relações. Essas relações são trabalhadas politicamente onde se incluem o direito e o dever de participar por parte de cada indivíduo. Portanto, participação política é o mecanismo onde se realizam as decisões. Estas se articulam com as utopias humanas. Para se tomar decisões precisa-se vivenciar uma utopia, que é incorporada através da convicção. Assim como a religião não existe sem a fé, também podemos afirmar que a participação política é impulsionada pela convicção.

A convicção é a incorporação da utopia, que é a mola, o motor, o princípio vital da sociedade humana. Os grupos humanos criam suas utopias a partir de uma dupla experiência: de um lado, são trabalhados interiormente por aspirações de convívio, de fraternidade, de participação, de felicidade com os outros; doutro lado, se constata dolorosamente a insuficiência das estruturas sociais presentes. Desse confronto, a inventiva criadora das fantasias humanas imagina modelos mais perfeitos para realizar suas aspirações profundas. Essas criações são utopias, porque ainda não tem existência, não tem lugar na história, doutro lado aparecem como realizáveis humanamente, cabíveis dentro do horizonte histórico humano. Dessa polaridade advém a força motora capaz de provocar mudanças históricas ou revolucionárias, dependendo da forma de participação política dos membros.

4 - A atividade crítica.

Gostaríamos, porém, de dizer que esta quarta característica não só é fruto do conjunto de relações como também desempenha fundamental papel na consecução das utopias humanas. Essa atividade de crítica só alcança seu sentido na execução da transformação cotidiana e permanente de seu espaço cultural através da práxis (ação e reflexão que conduz a uma nova ação). Portanto podemos concordar com o professor Dallari que dentre as formas mais eficientes de participação política estão os trabalhos de conscientização crítica. Nos trabalhos de conscientização através da dialeticidade da atividade crítica (anúncio e denúncia) chegar-se-á à consciência da possibilidade de luta pela conquista e preservação da liberdade de pensar e agir e à igualdade de oportunidades e responsabilidades; que por sua vez reforçarão a atividade de crítica. Trata-se de um círculo dialético. E a partir dessa reflexão, a ação é a conseqüência lógica que levará a alterações da compreensão de mundo ou da cultura, através de novas expressões culturais daí surgidas, que gerarão novas reflexões (Antônio Gramsci).

5 - Luta obcecada pela Justiça.

Outra característica é a atividade profética, ou seja, de luta obcecada pela justiça. Esta ação de transformação tem um sentido transcendente expresso tanto pela possibilidade de sair de si mesmo (de sair sua exclusividade egoística) como também de se relacionar (re-ligar-se) com seu Criador, através da luta pela Justiça.

Dissemos que a luta pela Justiça é uma atividade profética nos seguinte sentido: profetismo é um exercício de lucidez frente à realidade presente, que se concretiza através da dialeticidade da atividade crítica. É uma análise da sociedade onde se denuncia tudo aquilo que contradiz as finalidades sociais (o bem comum) e se anuncia o prenúncio de uma nova era, a partir da superação das anormalidades sociais, tendo em vista sempre a realização da Justiça. (chamamos luta obcecada pela justiça de profetismo, porque os profetas bíblicos faziam exatamente isso - denunciavam abertamente os horrores da injustiça e anunciavam um novo tempo de Justiça, e exatamente por isso eram profetas).

Na visão do Direito, a participação é um direito reconhecido e incontestável; segundo Dalmo Dallari não é difícil compreender a razão e o alcance do reconhecimento desse direito. Se todos são essencialmente iguais, ou seja, se todos valem a mesma coisa e se, além disso, todos são dotados de inteligência e de vontade não se justifica que só alguns possam tomar decisões políticas e todos os demais sejam obrigados a obedecer.

Esse direito sempre existiu pelas razões que expomos neste nosso ensaio, porém apenas foi explicitado pela Declaração Universal no século XVIII e pelas constituições que posteriormente surgiram influenciadas pela Declaração e pelo pensamento de Jean Jacques Rousseau. O ponto de partida e a base do pensamento rousseano é o direito natural de igualdade e liberdade, que também é precisamente a significação essencial da Declaração e pela qual se pode e deve considerar como a realização positiva da teoria do Contrato Social. A Declaração verdadeiramente começa afirmando que "os homens nascem e vivem livres e iguais em direitos" e que a conservação deste direito é "a finalidade de toda sociedade política".

Com efeito, afirma a Declaração que "a lei é a expressão da vontade geral" e que "todos os cidadãos tem o direito de concorrer para a sua formação"; tal princípio tem seu complemento em outro: "tudo o que não está proibido pela lei não pode ser impedido, e a nada pode obrigá-los a fazer o que esta não ordena". Conseqüentemente, a garantia da liberdade se volta a colocar no sentido próprio de lei - no princípio de sua exclusiva soberania, a cuja formação tem direito de cooperar todos os cidadãos (Jorge Del Vecchio). Não há lei alguma que possa ser obrigatória para a comunidade, nem mesmo o contrato social, ao contrário, sua obrigatoriedade nasce do consenso e de sua sujeição à soberania da vontade geral.

Temos a dizer que a participação política não pode reduzir-se ao exercício do voto, mas sobretudo a participação de todas as decisões inclusive a de como participar. Podemos dizer que as formas de participação são resultantes da própria participação política.

CONCLUSÃO

Para buscar uma nova sociedade onde haja justiça, como principal fonte para realizar a igualdade e liberdade, o ato de participar politicamente é uma necessidade. Entretanto aqueles que não desejam mudanças, pois estão assentados sobre tirânicos tronos políticos ou econômicos, desejam difundir sempre o que é contrário da participação: o comodismo, a difusão de que existe ideologia presente nos próprios atos participativos. Existe sim, mas uma ideologia contrária a dos que querem que tudo continue como está.

Não basta dizer que todos são livres e iguais como fazem a maioria das constituições existentes, se os livres e os iguais não dispuserem a assegurar condições políticas e possibilidades econômicas para que as pessoas possam efetivamente gozar de liberdade. Não se trata de mera concessão de direitos. É necessário sempre lutar por eles, seja para efetivá-los de fato, mantê-los, ou aperfeiçoá-los. Como diz Sartre, a luta pela liberdade é a condenação por ser livre. O sabor da liberdade se sente na luta por ela, pois é justamente na luta - por meio das relações que nela se estabelecem, que a participação acontece e faz os seus partícipes iguais.

Tenho finalmente a dizer que as questões sociais e políticas não podem ser tratadas como se fossem problemas técnicos e resolvidas por burocratas. Isto é coisa de regimes ditatoriais. Todas as questões sociais e políticas pertencem à sociedade e a ela compete decidir e resolver, e resolvê-las a partir de uma consciência crítica, e conseqüentemente participativa.

Parafraseando Leon Tolstói na famosa primeira frase de sua novela Ana Karênina: "Todas as famílias felizes se parecem entre si; e as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira", podemos dizer concluindo que todas as sociedades que garantem não só um tratamento igual perante o direito, mas também uma igualdade real e efetiva perante os bens da vida se parecem entre si. Estas sociedades igualitárias que referimos têm em comum mecanismos democráticos de participação política, que garantem a seus membros uma vida digna, construtiva, no sentido dos argumentos aqui apresentados. Porém, as ditaduras, os regimes fechados, as democracias de fachada, que não dispõem de mecanismos democráticos de participação política são infelizes cada uma a sua maneira: ora impedindo os cidadãos de votarem, ora impedindo a organização de partidos ou associações, ora mentindo para levar a nação à guerra, ora camuflando ou deturpando informações, ora reprimindo as manifestações de cultura, ora mantendo a pior censura que é o analfabetismo, ora negando direito de morar (a existência de favelas e abandonados pelas ruas), ora negando o direito de viver (criança que morre subnutrida antes de completar um ano de vida), ora .... ora... cada uma infeliz a sua maneira.....

Fonte: http://www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica_ver.asp?id=324

“ O QUE É PARTICIPAÇÃO POLÍTICA – DALMO DE ABREU DALLARI”

Por Márcio Leoni
1) O que é Política
A partir do texto de Dallari é possível refletir inúmeros assuntos relacionados com a participação política. Para iniciar é necessário entender o que significa “Política”. A origem da palavra política é Grega e foi utilizada por vários filósofos e escritores da Grécia antiga. Entretanto o de melhor compreensão foi escrita por Aristóteles. Segundo o filósofo o homem é um animal político, pois necessita da companhia de outras pessoas, ou seja: refere-se à vida comum, as regras de organização dessa vida, os objetivos da comunidade e as decisões sobre todos esses pontos. Portanto, é possível afirmar que é real a necessidade do homem de participar politicamente para ser realmente um ser humano, no sentido de que este é um ser que se relaciona com os outros, e só tem sentido seu existir se assim o for.
Percebe-se ainda que o homem confronta desafios, que de suas resoluções surgem conseqüências positivas ou negativas conforme forem tomadas as decisões destes desafios. A partir daí, a necessidade de se tomar decisões irá sempre exigir uma lucidez do indivíduo, que será adquirida através da sua conscientização crítica. Porém essa critica se constrói participando de todos os atos que influenciam o todo social.

O termo política permite diferentes interpretações desde uma realidade que desdobre da intimidade pessoal até uma esfera bem definida na sociedade. Podemos dizer que há duas direções para entender o significado de política. Uma segue o raciocínio de entender o termo como tudo que diz respeito às relações sociais, à realidade social global, enfim à sociedade em geral. Nesse sentido, tudo que ultrapasse o âmbito estritamente pessoal ou das relações íntimas e incida sobre qualquer realidade social é político. A outra tendência relaciona política com o poder. Assim uma ação política é aquela que visa à obtenção do poder, a sua conquista ou sua manutenção.

Podemos perceber em ambas as tendências um aspecto comum, que definiria o político: sua referência ao poder seja de modo indireto ou implícito (primeira tendência), seja de modo explícito ou direto (segundo tendência).

O autor conceitua política como a conjugação das ações dos indivíduos e grupos humanos, dirigindo-as a um fim comum. Diante disso a argumentação inicial é provida de valor considerando que, na primeira tendência, as ações dos indivíduos produzem efeitos sobre a organização da sociedade, seu funcionamento e sobre os seus objetivos e, na segunda tendência, a estrutura de poder procura atender a necessidade natural de convivência dos seres humanos. Essa estrutura de poder que mencionamos é aqui entendida como a sociedade política, que se legitima com a realização do bem comum. O bem comum aqui entendido como a finalidade da sociedade política.


2) Homem: animal político

No texto, o homem é apresentado como um animal político, no sentido que o homem está sempre em relação com o outro. O homem vive em sociedade não somente por contingência de sobrevivência, mas porque a sua própria natureza assim o exige.

O homem não pode ser entendido como um ser isolado, mas em comunhão com os outros homens. Portanto, o homem necessita de uma perspectiva evolutiva, a vida do homem é uma vida em projeto, num contínuo fazer-se. Por isso, existe a necessidade da participação política e é a partir desta que as relações se concretizam. A vida em sociedade é uma necessidade fundamental da natureza humana.


3) Problemas políticos: problemas de todos

O homem se confronta com os desafios próprios de sua época e, ao respondê-los, torna-se histórico. Um ser que pergunta se interroga e vive - assim no jogo de suas respostas (participação política)- se altera no próprio ato de responder. O isolamento significa a destruição. Assim a construção a partir desse movimento supõe a comunhão entre os membros de tal sociedade.

A busca pela felicidade dos membros da polis se realiza na comunhão, porém esta não pode ser entendida sem a concepção de serviço. Portanto a comunhão se realiza através do ato de servir e não pela servidão, que é a perversidade do ato de servir. É a integração dos membros da polis. Seguindo essa linha de raciocínio, verifica-se a urgência da luta contra a alienação e contra a massificação do homem. Assim todo aquele que mutila ou limita a história humana, seja através da ignorância e da manipulação por mitos, necessita de urgente conscientização, que se realizará através da prática da participação política.

4) A capacidade de tomar decisões

O homem é livre para decidir sobre seu próprio destino, que acontecerá conforme sua deliberação, mesmo que esta deliberação não seja explícita. Portanto, a liberdade está na potencialidade do indivíduo tomar decisões que tragam conseqüências para a sua vida e especialmente para a vida social. A liberdade deve ser entendida nesse sentido político.

Mesmo diante da inegável justificativa que ninguém pode viver sem tomar decisões, muitas pessoas insistem em não tomar decisões, seja por comodismos ou por medo da responsabilidade, medo esse dissimulado atrás de um desprendimento de acatar de boa vontade o que os outros decidirem. Não percebem que não decidindo, estão decididos a permitir que outros decidam em seu lugar. Permissão que poderá acarretar grandes prejuízos e um arrependimento sem cura e tornam-se espontaneamente pessoas inferiores e deixam de utilizar de sua liberdade. A omissão impede o sistema de ser democrático tendo em vista que a democracia é onde as decisões são tomadas com liberdade e se respeita a vontade da maioria. A omissão de tomar decisões pela maioria deixa a minoria decidir. Isso não é democracia. Portanto, participação política é o mecanismo onde se realizam as decisões. Estas se articulam com as utopias humanas. Para se tomar decisões precisa-se vivenciar uma utopia, que é incorporada através da convicção.




5) Direito de Participação Política

Na visão do Direito, a participação é um direito reconhecido e incontestável. Todo ser humano tem o direito de tomar parte no governo de seu país e a vontade do povo será à base da autoridade do governo. Esse direito foi consagrado pelo artigo 21 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Segundo o autor, não é difícil compreender a razão e o alcance do reconhecimento desse direito. Se todos são essencialmente iguais, ou seja, se todos valem a mesma coisa e se, além disso, todos são dotados de inteligência e de vontade não se justifica que só alguns possam tomar decisões políticas e todos os demais sejam obrigados a obedecer. Para que exista justiça é necessária a participação de todos nas decisões. Esse direito sempre existiu pelas razões expostas, porém apenas foi explicitado pela Declaração no século XVII/ XVIII e pelas constituições que posteriormente surgiram influenciadas pela declaração e pelo pensamento da burguesia. Nessa época ainda, foi implementado o sistema de dar a um representante o direito de falar e decidir em nome de muitos representados.

De acordo com o texto, não há lei alguma que possa se obrigatória para a comunidade, nem mesmo o contrato social, ao contrário, sua obrigatoriedade nasce do consenso e de sua sujeição à soberania da vontade geral. Com as idéias que valorizavam a pessoa humana, as constituições foram sendo modificadas, afirmando a igualdade de direitos e consagrando o sistema chamado de "sufrágio universal" (soberania da vontade popular).

Portanto, a participação política não pode reduzir-se ao exercício do voto, mas, sobretudo participar de todas as decisões inclusive a de como participar. Podemos dizer que as formas de participação são resultantes da própria participação política.



6) Dever de Participação Política

A participação política é um dever de todos, é importante que exista, porque através dela todos podem exercer a sua vontade e tomar consciência do que está sendo feito. Em outras palavras, deve agir como um poder fiscalizador das políticas públicas, que não podem ficar restritas a um pequeno número de indivíduos que ditam as normas, sem conhecerem o que os outros pensam a respeito.


7) Formas de Participação Política

Existem indivíduos que não procuram exercer plenamente seu direito de participação política, limitam-se a cuidar de dois assuntos de seu interesse particular imediato, dizendo que não gostam ou que não entendem de política. O processo de conscientização que conduz a uma participação ativa passa pela construção e recriação de uma cultura política que permita uma avaliação não apenas a partir do bom senso. E preciso entender que participação política não é apenas participação eleitoral, e muitas vezes é mais eficiente por outros meios.

Tipos de participação política: Individual e Coletiva | Eventual e Organizada | Conscientização e Organização | Participação eleitoral.

Individual – Neste caso o indivíduo em certas situações toma suas próprias conclusões e escolhe seu caminho.

Coletiva – Ocorre por meio da integração em qualquer grupo social e a força do grupo compensa a fraqueza do indivíduo.

Eventual – Está ligada a circunstâncias momentâneas, assegurando que dos dois modos há equivalente eficácia, desde que exercidos com consciência e responsabilidade.

Organizada – assegura a continuidade dos trabalhos e assim maior eficiência.


Conscientização – Consiste em dar uma contribuição para que as pessoas percebam que nenhum ser Humano vale mais ou menos que os demais e que todos podem e devem lutar constantemente pela conquista ou preservação da liberdade de pensar e de agir e pela igualdade de oportunidades e responsabilidades.

Organização – Consiste em colaborar concretamente, fornecendo idéias ou meios materiais, para que grupos humanos conjuguem seus esforços visando objetivos comuns.

Participação eleitoral Cada indivíduo pode participar de modo diferente no processo militante partidário. A participação através do voto é o mínimo que se deve exigir para cada cidadão numa democracia representativa.


Conclusão:

Para buscar uma nova sociedade onde haja justiça, como principal fonte para realizar a igualdade e liberdade, o ato de participar politicamente é uma necessidade. Entretanto aqueles que não desejam mudanças desejam difundir sempre o que é contrário da participação: o comodismo, a difusão de que existe ideologia presente nos próprios atos participativos.

Não basta dizer que todos são livres e iguais como fazem a maioria das constituições existentes, se os livres e os iguais não dispuserem a assegurar condições políticas e possibilidades econômicas para que as pessoas possam efetivamente gozar de liberdade. Não se trata de mera concessão de direitos. É necessário sempre lutar por eles, seja para efetivá-los de fato, mantê-los, ou aperfeiçoá-los.

As questões sociais e políticas não podem ser tratadas como se fossem problemas técnicos e resolvidas por burocratas. Isto é coisa de regimes ditatoriais. Todas as questões sociais e políticas pertencem à sociedade e a ela compete decidir e resolver, e resolvê-las a partir de uma consciência crítica, e conseqüentemente participativa.

Conclui-se, portanto, que ainda existe a falta de participação política dos cidadãos devido à falta de uma cultura política.

É necessário que “surja” uma nova sociedade, mais participativa, mais consciente, politicamente falando, e que o ser humano construa uma sociedade onde as decisões políticas sejam de todos e para todos.

O MITO DA CAVERNA DE PLATÃO E A EDUCAÇÃO DO BRASIL


Dedico o presente texto a Platão, filósofo grego, que fundou a primeira academia de ensino. Era um educador! Criador da alegoria da caverna há cerca de 2.400 anos atrás.. Vamos ao texto:

Por Valdecy Alves
Tratava-se de uma escola que sempre funcionara no interior de uma caverna, cuja entrada tinha mais de 50 metros de altura rodeadas de muros e de grades. Alunos, professores, direção da escola e demais habitantes eram separados do mundo exterior por uma muralha natural com 10 metros de altura. A iluminação no interior era pouca. Quase penumbra desde o nascer do sol. Porém durante os dias a parede da caverna parecia um cinema de sombras. A forte iluminação vinda do exterior projetava sombra de tudo aquilo que passava diante da caverna. Com base em tais imagens eram dadas as aulas pelos professores. Tudo que não tinha explicação ou causava temor era chamado de Deus.
As aulas eram dadas conforme as sombras projetadas na parede. Tais sombras eram a maior realidade que professores e alunos tinham para conhecer-se e conhecer o mundo. Certa feita, um professor curioso, na busca de comprovar tudo aquilo que aprendera e ensinava, com muito esforço conseguiu transpor a muralha e cair no mundo exterior. Como não mais voltou foi dado como morto pelos seus.
Inicialmente, acostumado à escuridão, esse professor ficou mais cego ainda. Levou alguns minutos para se acostumar ao novo mundo, tão claro e enxergar tudo como realmente era. Extasiou-se com a lua, com os sons, com o azul do céu, com os pássaros, com o verde da floresta... O sol o encantou. Olhando lá embaixo, pois a caverna ficava no meio de uma montanha, viu um prédio e foi em sua direção.
Tratava-se de um prédio público, na verdade uma escola. Chegou na hora que os professores estavam numa reunião com os alunos. Tão logo foi visto identificou-se como um professor da caverna. Foi chamado para compor a mesa. Os professores comunicavam aos alunos que entrariam em greve, as razões da greve: Os professores queriam novos notebooks, pois os que tinham consideravam velhos, com mais de um ano; dobrar a quantidade de aparelhos de ar condicionados para que a temperatura no interior da escola permanecesse com 16 graus; reivindicavam apenas 20 alunos por sala-de-aula para melhor aproveitamento, pois havia classes com até 60 alunos; que os médicos e o dentista que cuidavam dos alunos passassem a visitar a escola e consultar os estudantes e professores a cada 03 dias, já que vinham somente de sete em sete dias; que o piso salarial de cada um fosse tal, que 30% fosse destinado a uma poupança, cujo saldo anual permitisse um professor, se quisesse, fazer um tour em 10 países; queriam ainda aposentar-se com 20 anos de serviço, pois eram obrigados aposentar-se compulsoriamente após 15 anos de atividade.
Pretendiam trabalhar mais um pouco; Os trabalhos executados fora da sala-de-aula como estudo, avaliação e planejamento de aula era tidos como tão importantes quanto à aulas dadas, além de remunerados e outras reivindicações.
Deram a palavra ao professor vindo da caverna, para que narrasse como era a realidade do local onde vivia e ensinava. Meio constrangido disse que: As carteiras eram todas quebradas; que o piso que recebiam e a correção não observavam o disposto em lei; que havia professor que não tinha computador, nem e-mail, nem sabia como usar um computador caso tivesse um nas mãos; que o diretor era cargo de confiança escolhido pela autoridade superior; que tudo que aprendiam na caverna era através de sombras por isso pouco do ensinado servia para realidade; que o projeto pedagógico era imposição dos diretores; que a comunidade escolar não tinha direito de participar do processo educacional; que nada recebiam pelo exercício e atividades extraclasse como planejamento das aulas, estudo para se aperfeiçoarem na arte de ensinar e corrigir as avaliações dos alunos, que os professores não morriam de fome devido ao salário miserável, porque desempenhavam várias outras funções paralelas... Disse muita coisa que deixou todos escandalizados.
Acompanhou todo processo de luta dos seus colegas do mundo exterior e os viu vencer o patrão desalmado. Tiveram todos os seus pleitos concedidos. Gostaram tanto dele, que no dia que resolveu voltar para caverna disseram-lhe:

- Não. Não vá. Eles não o compreenderão! Os que têm poder utilizarão a incompreensão para jogar todos contra você. Fique conosco. Você agora é um dos nossos! Grato e emocionado respondeu:

-Não! Sou um deles. Devo voltar para falar-lhe do mundo além da caverna, além das trevas. Contar sobre as cores, os sons, a maciez das folhas, o odor da madeira molhada, sobre as estrelas do céu, sobre o sabor do morango... dizer-lhes que até os morcegos que conosco compartilham a caverna vêm ao mundo verdadeiro. Preciso dizer-lhes que o trovão não é um deus, que as águas dos rios subterrâneos não são lágrimas dos nossos antepassados e que a brancura dos animais da caverna é albinismo, não a pureza. Que todos têm direitos, são cidadãos, têm dignidade. Que a educação é fundamental, que o aluno não terá educação de qualidade se os professores não forem devidamente valorizados. O mundo de lá não existe, sequer se trata de ficção, é um pesadelo. Preciso acordá-los! Como acordei!

Assim partiu e voltando à caverna. Ao chegar às trevas desmaiou, pois seus olhos estavam habituados à luz. Ficou tão cego em contato com as trevas quanto ao ter o contato com a luz ao chegar ao mundo exterior. Trevas e luz causam o mesmo efeito a quem nelas chega.
Contou tudo a todos, que ouviram incrédulos. Esteve nas mais variadas localidades no interior da caverna. Era aplaudido de pé. Os jovens ficavam fascinados com a narrativa, os mais velhos riam e achavam o narrador muito criativo, os sacerdotes acreditavam que ele tinha tomado alguma droga ou levado grande pancada na cabeça. Os diretores acharam uma utopia os direitos que os professores tinham do mundo exterior.
Todavia, quando os primeiros jovens começaram a formar grupos para conhecer o mundo exterior, quando os primeiros professores se reuniram para reivindicar direitos, quando começaram a questionar o poder do deus trovão... sacerdotes, diretores de escola e governantes se reuniram.
Um sacerdote lembrou-se que falar mal de deus era um grande sacrilégio e também crime punível com a morte. Rapidamente ele foi enquadrado, julgado e condenado à morte. Destino que teriam todos aqueles que ousassem a seguir os passos daquele que ofendeu os deuses, que provocou tumulto, que corrompeu a juventude e professores com idéias absurdas. Sofreriam a mesma pena do homem que blasfemara contra o deus trovão e a pureza do branco, cor dos animais da caverna. Que falara mal até da escuridão. Taxaram-no de morcego de duas pernas, vez que o morcego representava o mal para eles e a corrupção, pois costumava ir ao o exterior, onde se corrompiam, por isso voltavam sempre à caverna para purificar-se.
Executado o professor que fora ao mundo exterior, que denominava mundo da luz, na caverna tudo continuou como estava, como sempre fora: sombras e trevas. Falar o nome dele levaria à excomunhão Tudo o que foi dito pelo réu passou a ser crime, caso alguém repetisse, acreditasse ou propagasse suas narrativas ou idéias. A pena: a morte!
Mas um grupo de professores, sem que percebessem, reuniam-se secretamente...
Fonte: Blog Valdecy Alves