quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Qual a diferença entre Lei, Teoria e Hipótese

Ao ler artigos científicos (inclusive os deste site), você eventualmente se depara com temos como "hipótese", "teoria" e "lei", usados  para descrever algo. Na comunidade científica, estas palavras têm definições muito específicas. Para leigos, por vezes estas definições se confundem porque muitas vezes estas palavras são usadas diferentemente num contexto coloquial.
Fonte: http://www.misteriosdouniverso.net/

Segredos enterrados - Cratera de Colônia - SP

Perfuração em cratera na periferia de São Paulo, entre aldeias indígenas e favelas, vai revelar como o clima mudou nos últimos 800 mil anos.
Passa um pouco do meio-dia, e a despeito do ar gelado deste início de tarde de inverno, o sol bate forte sobre a planície atrás de uma plantação de hortaliças – alface, cenoura, repolho – no fundo de uma cratera de 3,6 km de diâmetro aberta, há milhões de anos, no que hoje é a região de Colônia, em Parelheiros, zona sul da cidade de São Paulo. Fala-se muito que a depressão foi causada pela queda de um meteorito mas, a rigor, nem isso pode ser afirmado com certeza.
“Não se sabe a idade desta cratera, e ninguém provou, de fato, que um meteorito caiu aqui”, havia dito, dias antes, o engenheiro francês Laurent Augustin, do Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS) da França. “Mas, se não foi um meteorito, então ninguém sabe o que fez isto”. Alvaro Crósta, docente e pesquisador do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, confirma: “A origem por impacto meteorítico da estrutura de Colônia é ainda uma hipótese de trabalho, que estamos testando”, explica. “Ou seja, ainda não temos todas as evidências comprobatórias dessa origem, muito embora não exista outra explicação plausível para sua formação”.
Agora, sujo de lama, usando um capacete branco, protetores auriculares e óculos especiais, Augustin e seu colega Alain de Moya orientam os trabalhadores da empresa Sondosolo, de Campinas (SP), no delicado trabalho de perfurar o fundo da cratera, em busca dos sedimentos que vão contar história de como o clima e a vida transformaram-se, neste local, ao longo do último milhão de anos.
A extração procede lentamente. Com paciência, cientistas da França e do Brasil – além de Crósta, a Unicamp está representada pela paleontóloga Fresia Ricardi Branco, também do IG – aguardam sob o sol, fascinados demais para fugir do brilho intenso, ou nas pequenas sombras oferecidas por uma cobertura de plástico amarelo e pelas poucas árvores ao redor, até que alguém anuncia: “Mais um testemunho!” A imobilidade é logo substituída por agitação: todos se aproximam para observar.
Fotos: Antoninho Perri

1 - Trabalhadores da Sondosolo operam o equipamento de perfuração
2 - Marie-Pierre Ledru e Alvaro Crósta seguram testemunho, com Patrícia Roeser e Fresia Ricardi Branco ao fundo
3 - Patricia Roeser e outro pesquisador, dentro do laboratório de campo
4 - Vista da janela da casinha que abriga o laboratório de campo
O “testemunho” é um tubo plástico rígido, transparente, com um metro e meio de comprimento e dez centímetros de diâmetro, cheio de lama. Um pequeno disco dessa lama é cortado, transferido para um saco plástico e levado para a casinha rural em ruínas situada ao lado do local de perfuração, na borda da plantação de alface, onde será analisado. Depois de retirada essa amostra, o cilindro é tampado e lacrado com fita adesiva. Ninguém quer que micro-organismos da atmosfera atual contaminem a lama de milhares de anos atrás.
Com um pincel atômico vermelho, a principal investigadora do projeto, Marie-Pierre Ledru, do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) da França, escreve na superfície do tubo: “3750”. O testemunho veio de uma profundidade de 37,5 metros. A meta da jornada atual, financiada pela Fundação BNP Paribas, do banco francês de mesmo nome, é chegar aos 50 metros, obtendo um registro dos sedimentos acumulados no fundo de Colônia ao longo de um período que pode ir de 800 mil a 1 milhão de anos atrás.
“Toda essa região da Serra do Mar vem sofrendo erosão há vários milhões de anos, sendo os sedimentos carregados ou para o Oceano Atlântico, ou para as grandes bacias adjacentes, como Tietê/Paraná ou Paraíba do Sul, não sendo possível recuperá-los”, disse Crósta. “Dentro da estrutura de Colônia, que na verdade se comporta como uma pequena bacia sedimentar totalmente fechada, o processo é justamente o inverso: desde que ela se formou, há vários milhões de anos, os sedimentos erodidos nas suas imediações vêm se acumulando em seu interior, e de forma contínua. Portanto, eles contêm os registros da evolução do clima nesse período de vários milhões de anos, registros que não podem ser encontrados em nenhuma outra região do sudeste brasileiro”.
Ciclo do sol
“Queremos saber a que fatores os biomas respondem, em termos de ciclos, nas regiões tropicais”, disse Ledru, explicando o objetivo da perfuração. “Nossa hipótese é que são os ciclos de insolação, também chamados de ciclos de Milankovitch”. Ela lembra que a intensidade da energia solar que chega à Terra é regulada por três ciclos: o das precessões, no qual varia a orientação do eixo da Terra, e que se completa a cada 23 mil anos; o da obliquidade, no qual o que varia é a inclinação do eixo, com duração de 40 mil anos; e o da excentricidade da órbita, com 100 mil anos.
“Há 800 mil anos, a sucessão de eras glaciais e interglaciais deixou de seguir o ciclo de 40 mil anos e passou para o de 100 mil, que é onde estamos agora”, prosseguiu a pesquisadora.  “Foi uma mudança que teve grande impacto, e queremos ver se ela afetou a biodiversidade – se os ciclos de energia solar podem explicar a biodiversidade, os ritmos de surgimento e extinção das espécies. É por isso que queremos chegar à profundidade de 50 metros: porque ela deve corresponder a essa mudança do ciclo”.
“Há uma concentração de estudos paleoclimáticos no hemisfério norte. O registro paleoclimático do hemisfério sul, com destaque para o Atlântico Sul e áreas continentais tropicais, ainda é pouco estudado”, acrescentou, via e-mail, o pesquisador André Oliveira Sawakuchi, da USP, que também participa da investigação em Colônia. “Esta assimetria está relacionada ao investimento em pesquisa científica, que é maior em países do hemisfério norte. Muitas pesquisas em andamento no hemisfério sul são ainda realizadas por instituições de pesquisa do hemisfério norte, em parcerias. O nosso projeto em Colônia é um exemplo disto”.
Fotos: Antoninho Perri
1 - Alain de Moya retira testemunho do equipamento de perfuração, observado por funcionário da Sondosolo
2 - Cientista prepara-se para coletar pequena amostra da lama recolhida no testemunho para análise
3 - Alvaro Crósta e Alain de Moya assistem enquanto Marie-Pierre Ledru marca "testemunho"; Fresia Ricardi Branco observa com telefone na mão
4 - Marie-Pierre Ledru carrega testemunho e Patrícia Roeser leva amostra de lama, com a tenda dos cientistas ao fundo.

Trata-se de um projeto envolve um grande número de especialistas, e cada um deles buscará, nessa lama de eras passadas, seus próprios indicadores. Fresia Ricardi Branco, por exemplo, trabalhará com pólens e esporos de plantas. “Vamos ver qual a vegetação que havia aqui há 1 milhão de anos, e como ela mudou nesse tempo”, disse. “A partir daí, podemos inferir as mudanças do clima, já que a vegetação responde às variações de temperatura”.
Mas a pesquisadora da Unicamp terá de esperar. Os testemunhos serão inicialmente levados para a França, onde passarão por análises não-destrutivas e não-invasivas, incluindo fluorescência de raios-X, exame em que o material é bombardeado com radiação e, em resposta, emite seus próprios raios-X, que são captados e interpretados.
“Isso permite ver a geoquímica em alta resolução”, explica a pesquisadora Patrícia Roeser, que é quem recebe os discos de lama obtidos antes de os testemunhos serem lacrados. Apenas após essas pesquisas iniciais no exterior é que os testemunhos serão fracionados e distribuídos entre os demais cientistas do projeto, no Brasil, na França, na Suíça e na Alemanha. A estimativa é de que o material extraído da cratera seja objeto de estudos internacionais por mais de uma década.
“A medida dos gases na amostra, da atividade microbiana e da ecologia microbiana vai ajudar a ver o ciclo do carbono”, exemplifica Roeser. “Queremos fazer a reconstituição da Mata Atlântica: ver como ela surgiu no passado e, talvez, extrapolar como vai reagir às mudanças climáticas no futuro”.
Entender melhor os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade tropical” é um dos objetivos expressos no material divulgado pela Fundação BNP Paribas sobre o projeto.
Brilho do Sol
Em guarani o nome é Koaray Rexaka, mas a aldeia, estabelecida há três anos às margens da Represa Billings em São Bernardo do Campo – não muito longe da Cratera de Colônia – é mais conhecida pela denominação equivalente em português, Brilho do Sol. A povoação, que se destacou da aldeia Krucutu, no lado paulista da represa, ainda é pequena. Os guaranis de Brilho do Sol, liderados pelo cacique Fábio Veríssimo, usam a represa como fonte de peixe, a despeito da poluição. Mas, para beber, valem-se da água de uma nascente.
Os efeitos da transformação do meio sobre a biodiversidade – neste caso, uma transformação que não se dá por ciclos naturais de milhares de anos, mas pela ação humana, rápida e direta – assombram a vida da jovem comunidade. O pajé, Laurindo Tupã Miri Veríssimo, de 69 anos, pai do cacique Fábio, queixa-se da mata ao redor, que não é mais a Mata Atlântica original. “Antes, a gente cuidava do mato e o mato cuidava da gente”, disse. “Hoje, temos muita dificuldade. Até para os animais está faltando comida: são tão poucos que a gente nem tem coragem de caçar. Não é mais mato puro: aqui, não se encontra o que a gente precisa”.
Fotos: aantoninho Perri
1 - Laurent Augustin anota os trabalhos do dia; plantação de hortaliças ao fundo
2 - Marie-Pierre Ledru segura testemunho enquanto Alain de Moya fecha a tampa, preservando a lama no interior
3 - Marie-Pierre Ledru analisa amostradores que serão usados para coletar a lama do fundo da cratera
4 - Amostra de lama retirada do fundo da Cratera de Colônia

Com o empobrecimento do meio, os índios cada vez mais têm dificuldade em manter seu estilo de vida, e são forçados a procurar recursos na cidade. O pajé Laurindo fala, com especial indignação, das ervas de uso tradicional, que não se encontram mais na natureza ao redor, mas são vendidas em lojas de produtos naturais. “A gente tem que sair daqui e ir comprar o que era nosso”.
“A gente sempre tem que se atualizar”, disse Fábio. “Temos que aprender e passar adiante, para nossos filhos, como se atualizar sobre o que acontece no mundo. Mas não queremos perder nossa cultura. Para achar o equilíbrio entre as culturas é preciso estudar muito”.

Origens
Mais perto da perfuração, ocupando parte do interior da cratera, fica o bairro paulista de Vargem Grande, cuja ocupação começou na segunda metade dos anos 80 – a fundação oficial, segundo ata de reunião da União das Favelas do Grajaú (Unifag), é 22 de março de 1989. O Grajaú é um distrito da Zona Sul de São Paulo.
Fernando José de Souza, o Fernando Bike, vive em Vargem Grande, onde mantém uma loja de bicicletas e organiza passeios ciclísticos pelas áreas verdes, de preservação ambiental e aldeias indígenas da região. Ele prestou serviços de guia para profissionais ligados à perfuração, e visitou o local de bicicleta, com amigos, algumas horas antes de Marie-Pierre Landru marcar o testemunho de 37,5 metros de profundidade.
“A divulgação dos estudos ainda é pequena no bairro”, disse ele. A população de Vargem Grande sabe que está dentro de uma cratera – há até moradores abrem suas casas para visitantes que desejem observar a formação a partir das lajes mais altas – mas não há muita interação com os pesquisadores, ou transferência de conhecimento. “Deveria haver uma divulgação antecipada”, opina Fernando. “Quem sabe desse para usar parte do recurso da pesquisa para levar pessoas a visitar o local”, sugeriu.
Recursos para a pesquisa, no entanto, são escassos. A campanha de perfuração, financiada pela instituição francesa, não permitirá, por exemplo, esclarecer a questão da origem da Cratera de Colônia, comprovando – ou negando – seu nascimento na colisão da Terra com um objeto vindo do espaço. “Para isso, seria preciso perfurar até o fundo, estimado em 270 metros ou mais”, explica Crósta. “E aí encontrar o tipo de deformação característica do impacto, ou fragmentos do meteorito, ou evidência geoquímica”.
Fotos: Antoninho Perri
1 - Cientistas e funcionários da Sondosolo em trabalho de campo
2 - Casinha onde funciona o laboratório improvisado
3 - Em primeiro plano, a favela no interior da cratera, cujos contornos aparecem ao fundo
4 - Casa da aldeia indígena guarani Brilho do Sol

O estudo da formação em Colônia sofre, há décadas, com intermitência ou falta de verbas. A parceria franco-brasileira, que conta ainda com participação da USP, vem trabalhando o local desde o fim dos anos 80. Segundo Crósta, a parte mais significativa do investimento do BNP Paribas, nesta etapa, está sendo consumida na operação da máquina perfuradora. O amostrador, equipamento utilizado para extrair os tubos de lama em profundidade, tem características especiais, pois precisa ainda mantê-los livres de compressão e contaminação.
Esperamos que os resultados a serem obtidos nessa primeira fase alavanquem possíveis financiamentos futuros, para darmos continuidade ao projeto e chegarmos até a interface entre os sedimentos e as rochas do embasamento”, disse Crósta. “Aí sim, poderemos encontrar as feições de deformação por impacto meteorítico que nos permitirão não apenas comprovar a origem, mas obter informações sobre o tipo de corpo que formou a cratera, e também sua idade”.
Fonte: https://www.unicamp.br

domingo, 13 de agosto de 2017

Acesse – gratuitamente – imagens de satélite do Brasil, América do Sul e mundo

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Monitorar o tempo não é apenas trabalho para meteorologistas. Cada vez mais, as pessoas mostram interesse em saber tudo o que ocorre com o nosso planeta, principalmente no tocante às condições climáticas e meteorológicas.
Para isso, o DONTM reuniu links das principais imagens de satélite com divisões do Brasil, América do Sul e do mundo, de modo gratuito, para que você tenha sempre em mãos, instrumentos públicos ao seu alcance. Desfrute e nossa lista de satélites.
Brasil - Classificação de nuvens (Cptec/Inpe)
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
Brasil - GOES-16
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
 Brasil - GOES-13
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
Brasil – GOES-13 (Temperatura do topo das nuvens)
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
Brasil – GOES-13 (Vapor d’água das nuvens)
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
Brasil – GOES-13 (Visível)
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
Brasil - Meteosat
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
Brasil – Acervo de imagens anteriores (Cptec/Inpe)
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(Clique na imagem acima para acessar o canal)
América do Sul – AQUA/NASA (Selecionável)
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
América do Sul e África – Meteosat
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
América do Sul – GOES-10
monitoramento 01 08 17 1
(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
América do Sul – GOES-13 (Monitoramento de ciclones tropicais)
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
Global – AQUA/NASA (Selecionável)
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
Global – GOES-13 (Temperatura do topo das nuvens)
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
Global – Himawari-8 (Selecionável)
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(Clique na imagem acima para acessar o satélite)
NOAA View (Imagens de fenômenos meteorológicos em destaque no mundo)
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(Clique na imagem acima para acessar o canal)
Fonte: http://deolhonotempo.com.br

Tragam os historiadores de volta


“Tragam os historiadores de volta. Os historiadores podem dizer o que está acontecendo, como já aconteceu e como estamos caminhando para um futuro em que Charlottesville não será notícia. Será comum”. Leia mais na análise de Fernando Horta sobre o confronto durante o protesto neonazista nos Estados Unidos
Por Fernando Horta, no GGN 
O século XX não foi o século dos historiadores. O prestígio que a História gozou durante os últimos três mil anos foi eclipsado, no século XX, por uma série de ramos do saber que se diziam detentores de fórmulas para prever o futuro. Até o XIX, o homem olhava para o passado para entender-se, para se referenciar e os historiadores ocupavam – ora com religiosos, ora com filósofos – os postos de “conselheiros” (formais ou informais) do poder político. No século XX, a História foi entendida como “não boa o suficiente”, sendo substituída pela economia, ciência política, relações internacionais, publicidade e outros tantos ramos do saber que prometiam “resultados concretos”, ou ao menos a concretude através de um cientificismo matemático.
Índices de crescimento econômico, índices de agregação ou dispersão partidária, índices de correlações de forças materiais e projeções de futuro … Números, gráficos, projeções, probabilidades. A certeza da matemática esquadrinhando o homem, seu tempo, suas ações. A Teoria dos Jogos e a incerteza deixa de ser incerta. Algoritmos jogados em computadores a “preverem” os resultados das escolhas de milhões de pessoas ao redor do globo. Não há necessidade de entender as especificidades. Russos, Angolanos e Peruanos agem da mesma forma. Querem seu sustento material, querem manter-se em paz e livres, seja lá o que isto quer dizer. O mundo parecia simples, alguns até se vangloriavam do “fim da história”.
Os eventuais erros eram fruto de uma métrica imperfeita ou do uso imperfeito (humano?) das metodologias disponíveis. Não importa o quanto o trigo cresce ou qual o significado deste crescimento para a crença dos cem moradores da região. Interessa que dada a pressão internacional da redução do consumo chinês isto pode ser traduzido em um índice com a consequente redução do preço da commodity no mercado mundial. Por algum malabarismo nos índices, o país que tem mais de oito mil ogivas nucleares é menos perigoso do que aquele que tem apenas (no máximo) 8.
Eleições não são mais um respaldo para a democracia, é preciso a aderência a códigos de conduta, espaços quantificáveis de participação, oposição, institucionalização e tantos outros. Até a liberdade ganhou números, índices. Deixou de ser algo que “não há ninguém que explique e ninguém que não entenda” para ser um número baseado numa recoleção não bem explicada de outros índices, supostamente todos livres. Felicidade, engajamento, participação, sucesso pessoal, saúde … tudo e qualquer coisa se torna o espaço para a certeza aritmética ou a probabilística
Cultura, mentalidades, narrativas de subjetivação, pertencimento, memória, percepção de futuro, esquecimento, formação de identidade, espaço de subjetivação, discursos nacionais, legitimidade … todos conceitos bonitos, mas não bons o suficiente para os tomadores de decisão do século XX. Cada um deles demanda um sem número de leituras e reflexões, algo impensado na velocidade do mundo atual. Tempo, afinal, é dinheiro. Gráficos e computadores, é disto que o século XX se trata. Objetividade, demanda e lucro. O que traz dúvida está errado, inacabado ou imperfeito.
Pois se querem números: no dia 12/08/2017, em Charlottesville, nos EUA, cerca de 7000 pessoas entraram em batalha campal terminando com 19 feridos, 3 mortos e 4 pessoas presas. A cidade de Charlottesville tem uma população de cerca de 47 mil pessoas e um PIB per capita de 47 mil dólares. 19% desta população é negra. Durante o protesto, a polícia calcula que quase 50% dos que marcharam em direção ao campus da Universidade de Virgínia eram de fora da cidade.
E nenhum destes números ajudam a entender o que está acontecendo lá.
Tragam os historiadores de volta. Os historiadores podem dizer o que está acontecendo, como já aconteceu e como estamos caminhando para um futuro em que Charlottesville não será notícia. Será comum.
Olhem para o Brasil. Charlottesville está acontecendo aqui desde 2013. Embaixo dos nossos narizes, enquanto uns se preocupam com a inflação, com o crescimento econômico ou com a Venezuela e a Coréia do Norte.
Tragam a História de volta.

Intolerância, racismo às claras e fuzis à mostra: O que vi (e senti) no maior protesto movido pelo ódio em décadas nos EUA

Por Ricardo Senra


Mulher chora em frente a flores no local onde uma mulher morreu e 19 pessoas ficaram feridas, em Charlottesville, EUADireito de imagemEPA
Image captionNo dia seguinte à violência, moradores tentam retomar a vida

Quando propus minha ida neste fim de semana a Charlottesville, uma cidade universitária de 50 mil habitantes ao sul de Washington, nos Estados Unidos, minha ideia era conhecer os diferentes matizes da nova direita americana após a eleição de Donald Trump.
O protesto "Unite the Right", ou "Unir a Direita", até então não tinha muito espaço na imprensa. Alguns blogs chamavam atenção para o ato, alguns com elogios à celebração do orgulho e nacionalismo americano, outros com críticas à segregação que estes valores podem carregar.
Meu vagão no trem era heterogêneo. Famílias voltavam para a cidade com bebês para o almoço de domingo com os avós, estudantes vinham reencontrar pais e namorados, um ou outro jornalista fingia que estava ali por coincidência e achava que estava sendo discreto mexendo em seus computadores, tablets e celulares freneticamente (eu era um deles).
Quatro homens chamavam atenção na fileira ao lado. Carecas, fortes, cheios de tatuagens, vestindo calça bege e camisa branca, eles conversavam sobre algo sério - e me olhavam muito feio quando eu tentava ler seus lábios, que sussurravam e me deixavam pescar apenas palavras soltas. Uma delas foi "hate" - ou ódio.
Pois foi exatamente ódio o que eu encontrei nas horas seguintes.

Manifestantes de extrema-direita em CharlottesvilleDireito de imagemRICARDO SENRA/BBC BRASIL
Image captionTom agressivo, prelúdio para a confrontação que se seguiu

Enquanto desfazia a mala, li no Twitter boatos de uma possível demonstração-surpresa dos manifestantes, que haviam feito um acordo com a prefeitura para desfilar pela cidade só no dia seguinte.
Era sexta-feira à noite e eu corri para a Universidade de Virginia, ao norte do centro da cidadezinha de casarões preservados e praças com monumentos antigos. O campus estava escuro, vultos andavam de um lado para o outro em busca de algum sinal.
Um grupo de aproximadamente 20 homens subiu em passo acelerado em direção ao jardim interno. A 50 metros de distância, um grupo menor os seguia. Corri até eles pela penumbra.
O segundo bloco era formado por estudantes que escreviam para um site local. Anne, uma jovem de uns 20 anos, no máximo, me explicou: "São eles. Estão tentando nos despistar e andando em círculos".
Em 15 minutos eu entenderia o que ela quis dizer com "eles". Depois de circular todos os cantos do campus, um dos homens gritou: "Vamos!"
Eles começaram a correr. Sabiam que nós os seguiamos e não diziam nada. Corremos por quase 10 minutos até chegar ao alto de um vale.

Tensão em protesto em Charlotteville, EUADireito de imagemREUTERS
Image captionManifestação rodeia grupo de anti-fascistas que tenta proteger a estátua do ex-presidente ameticano Thomas Jefferson

"Eles" estavam lá embaixo. Centenas de homens e mulheres, incluindo algumas crianças, se organizavam em filas, rindo alto e brincando entre si enquanto acendiam tochas. Estava muito escuro e a luz das tochas de madeira tingia de vermelho o gramado, onde estudantes normalmente jogam beisebal e futebol americano.
Um homem com tom agressivo começa a falar no megafone. "Alinhem-se agora! Duas filas! Todos! Agora!"
A linha iluminada pelas tochas já alcançava o horizonte quando eles começaram a marchar. "Vocês não vão nos substituir!", "Judeus não vão nos substituir!", "Vidas brancas importam!", gritavam, bradando também ofensas a gays e estrangeiros.
"Sou nazista, sim", "A negra está assustada", "Suma daqui, viadinho", "Ele não é americano". Os gritos raivosos, partindo do meio das tochas que homenageavam a Ku Klux Klan (grupo racista que promoveu linchamentos, enforcamentos e assassinatos de negros), bastões de baseball e socos ingleses.
A caminhada terminou com uma briga generalizada com estudantes que tentaram impedi-los de se aproximar da estátua de Thomas Jefferson, terceiro presidente americano, em frente ao prédio principal da universidade.
Mas tudo isso era só um prenúncio do que aconteceria no dia seguinte, o sábado da marcha oficial.
Acordei com gritos na praça ao lado do hotel: "Escória racista!"



Supremacistas brancos e grupos antirracismo entram em confronto nos EUA

Ali, grupos antifascistas - opositores aos supremacistas brancos, em muitos casos também agressivos e radicais - se reuniam para contra-atacar. Nascida e criada em Charlottesville, a senhora que servia o café da manhã comentava com a gerente.
"O Manny disse que está assustado. Acredita que mandaram ele vestir a farda e vir trabalhar?"
Depois descobri que Manny é policial aposentado há quase dez anos. Ele havia dito que os colegas temiam pelo pior, porque a quantidade de homens se aglomerando nas praças da cidade só crescia.
"Manny disse que só uma tempestade seria capaz de controlar isso aqui", contou a cozinheira. A previsão do tempo de fato indicava chuvas durante todo o dia.
Mas não se confirmou.
Durante quatro horas, homens com suásticas tatuadas no crânio e bandeiras confederadas (símbolo do grupo que lutou na guerra civil americana por manter a escravidão) trocavam socos, pauladas e cusparadas com jovens vestindo máscaras e carregando bastões de madeira e sprays de pimenta.
Eles se batiam até sangrar, e policiais como o velho Manny assistiam a tudo de longe, visivelmente impotentes diante de grupos numerosos, estimados entre 2 e 6 mil pessoas, segundo a mídia local.

Supremacistas brancos em marcha de extrema-direita em Charlotesville, na VirgíniaDireito de imagemREUTERS
Image captionSupremacistas brancos foram vistos usando uniformes militares e carregando armas

Os nacionalistas, neonazistas, supremacistas brancos e simpatizantes se concentravam na praça, em torno da estátua do general confederado Robert E. Lee, um dos principais defensores da escravidão.
Antifascistas, punks, anarquistas e simpatizantes (incluindo hippies de roupas coloridas e tranças como os que vimos nos vídeos de Woodstock) ficavam do lado de fora.
Para entrar na praça, os nacionalistas precisavam atravessar um paredão formado por antifascistas. Durante o caminho saltavam ofensas pesadas de ambos os lados, e volta e meia os ataques verbais se tornavam físicos.
Fui pego de surpresa em uma dessas escaladas violentas. Eu tentava filmar o encontro entre os grupos, quando uma briga generalizada começou. Nacionalistas fechavam os olhos e batiam com bandeiras em tudo o que viam pela frente e antifascistas faziam o mesmo com sprays de pimenta.
O spray me atingiu pelo corpo todo - e por uns três minutos eu não enxergava nada e corria, tentando sair da pancadaria. Alguém me puxou com força e me carregou. Eu não tinha ideia de quem era e temia o que fariam comigo. "Calma, calma, você vai ficar bem."
A jovem fazia parte de um grupo de estudantes voluntários que levavam materiais de primeiros-socorros, água e comida para atender a feridos. Eles passaram vinagre no meu rosto e um produto que até agora não entendi qual é - mas tirou o ardor dos meus olhos na hora. Eles me salvaram no meio da confusão.
Voltei à cobertura para a BBC Brasil e o que mais impressionava a meu redor, mesmo a mim, brasileiro, era a quantidade de armas. Grupos uniformizados, representando os dois lados dos protestos, carregavam pistolas e fuzis, com cintos repletos de munição.
Na Virginia, quem tem porte de armas e determinados tipos de licença pode circular pelas cidades exibindo o armamento. A combinação entre a primeira e a segunda emendas da Constituição americana - liberdade de expressão e direito ao porte de armas, respectivamente - faziam em Charlottesville uma combinação tensa.
O medo era que, a qualquer momento, alguém disparasse e um tiroteio de proporções imensas deixasse uma multidão de feridos.

Grupos armados em CharlottesvilleDireito de imagemRICARDO SENRA/BBC BRASIL
Image captionGrupos exibiam armas pesadas de assalto abertamente

Felizmente, isso não aconteceu. O governador declarou estado de emergência, e em poucos minutos helicópteros, tanques e centenas de policiais de diferentes grupos, incluindo a Força Nacional, chegaram à cidade e ordenaram a saída dos grupos nacionalistas da praça. Eles seguiram em fila para uma estrada que leva para o subúrbio local.
Pelo megafone, a polícia dizia: "Evacuem a área. Evacuem a área. Quem continuar aqui será preso."
A maior parte das ruas do centro foi bloqueada e eu fiquei preso em um quarteirão, sem poder ir até o hotel - único lugar onde eu poderia plugar meu computador numa tomada, já que todo o comércio estava fechado.
Nesse momento, pela segunda vez, encontrei uma onda inspiradora de solidariedade em meio ao ódio que pontuou o fim de semana em Charlottesville. Grupos de moradores, muitos deles idosos, circulavam pelas poucas ruas liberadas, oferecendo garrafas de água gelada e pacotinhos com batatas chips e amendoins.
"Se hidrate, se alimente", diziam, sorrindo. "Quanto custa?", perguntei automaticamente, achando que eram vendedores ambulantes. "Fazemos por amor", respondeu a senhora de cabelos brancos e avental azul, dando um tapinha em minhas costas.
Dois homens com tatuagens de símbolos nacionalistas estavam sentados em um canto, mexendo no celular. O grupo foi até eles também: "Beba água. Se hidrate. Se alimente".
Passaram-se duas horas até que as ruas do centro fossem abertas novamente. Não demorou até que os grupos que tentavam circular voltassem a se reunir.
Quando tudo parecia mais calmo, tentei seguir um pequeno grupo de nacionalistas que se dirigia até um estacionamento para entrar na van que os trouxe a cidade. Nesse momento, um carro cinza, completamente destruído, passou em alta velocidade.
Alguns antifascistas aplaudiram, achando que o carro do nacionalista havia sido depredado. Estavam errados.



Homem atropela manifestantes antirracismo em cidade dos EUA

A duas quadras de onde estávamos, uma multidão gritava após o carro ter atropelado dezenas de pessoas e fugido em marcha ré, para depois acelerar em fuga em frente ao estacionamento onde eu estava.
Quatro ambulâncias chegaram rápido - pessoas ensanguentadas eram carregadas, parentes e amigos choravam em desespero e a polícia tentava, à força, isolar o local. Mais tarde soubemos: Heather Heyer, uma mulher de 32 anos, morreu atropelada (no domingo três mortes foram confirmadas), enquanto outras 19 pessoas ficaram feridas.
A cidade foi novamente evacuada por algumas horas. Anoiteceu, e a rua de pedestres do centro histórico, que na véspera estava lotada de estudantes comendo e bebendo animados, antes de entrar nas boates locais, estava deserta. Jornalistas e policiais eram os únicos a ir e vir, sempre em busca de "algo novo".
No local do atropelamento, um grupo de jovens acendia velas e trazia flores. Eles se organizaram em roda e começaram a rezar, abraçados.
A chuva prevista para a manhã daquele sábado enfim começou a cair. Inicialmente leve, uma garoa, depois mais pesada - o que lentamente esvaziou o centro por completo.
Charlottesville estava de luto.
Na manhã deste domingo, moradores varriam calçadas e tentavam recomeçar. No café da manhã do hotel, a cozinheira conversava com a gerente.
"Manny ainda não acordou, coitado. Está em choque. Sue (sua esposa) disse que ele não dorme tanto há 30 anos."
Fonte: http://www.bbc.com