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sábado, 20 de julho de 2013

O GIGANTE NÃO ENTENDE A HISTÓRIA


Por Jean Paulo Pereira de Menezes
Vivemos em um presente histórico onde parte da população sai às ruas encantada com as possibilidades de transformações na sociedade brasileira. Um momento singular na história do Brasil quando os manifestantes se apresentam com particularidades que devem ser objetos de investigações mais apuradas. O que apresento aqui é apenas um importante apontamento diante desta problemática que nos cabe entender e intervir. Para isso os clássicos e os contemporâneos podem nos ajudar. Inicialmente, aponto um clássico: Karl Marx.
Poderia Marx contribuir para o entendimento do tempo presente?
Presente
Responderei esta pergunta, inicialmente, com duas outras necessárias: Qual é a concepção de História e tempo presente na sociedade? Como é viver o tempo presente na sociedade de classes sem cogitar a longa duração diante do presente mais imediato dos fenômenos?
Inicialmente trabalharei com a hipótese de que na sociedade atual, de caráter mercantil, encontra-se com amplo respaldo na ideologia de que o que mais importa é o presente pelo próprio presente. Que, “há que se viver cada dia como se fosse o último”. Que as atitudes devem ser pautadas no “aqui e agora”, pois o amanhã pode não existir a partir de algumas horas ou minutos, “pode ser a última vez na vida que escrevo um texto”.

"Encontramos aqui a falta de perspectiva futura, típica de sociedades decadentes (só para lembrar a sociedade romana no ápice de sua crise na antessala da sociedade feudal)"

Encontramos aqui a falta de perspectiva futura, típica de sociedades decadentes (só para lembrar a sociedade romana no ápice de sua crise na antessala da sociedade feudal). Esta perspectiva encerra o devir no próprio tempo presente, e em casos mais radicais, em última instância: anula a perspectiva histórica.
Fim da história
Levado a esse patamar decreta-se o fim da História, mesmo que em padrões relativos ao momento em que existe, ignorando a totalidade histórica que se assenta o presente. Nega-se desta forma o presente como a apresentação fenomênica sintética de múltiplas determinações. O que propicia plena desenvoltura de comportamentos imediatistas e incapazes de ideação prévia para além do fenômeno mais nu.
Os apologistas do “hoje como o único momento possível” não acreditam na história como algo para além do consumo do tempo mais urgente do relógio mecânico ou do organismo vivo em sua candência imediatista. Muitos intelectuais se posicionam diante deste presentismo com se fosse uma coisa única possível de se fazer nestas últimas quadras da existência. Aproveitar o que se tem e rapidamente descartar aquilo que já se fez uso.
Temos assim uma ideologia em plena sintonia com o momento histórico tão negado por esses mesmos intelectuais que corroboram diretamente com a lógica consumista da economia política do presente imediato.
Futuro
A questão é que ao se negar a construção histórica para além do presente, se está ao mesmo tempo escrevendo a história desse mesmo tempo presente. Assim ao afirmarem que o futuro não existe e que a História deve se restringir aos imediatismos dos desejos mais individualizados corrobora-se para a descrença de que somos e fazemos a História.
Ao conquistar esse falseamento na sociedade de forma predominante, os intelectuais conquistam também a incapacidade de operar a transformação da própria vida, e, em última instância, de operar a própria existência na sociedade de classes. Conquistando a ideia de que o ser não possui História (na longa duração); ao fazer com que esse mesmo ser não possua a compreensão de que o devir é construído por ele, se ganha um ser alienado de si mesmo e incapaz, em primeira instância, de caminhar para além da linha que lhe fazem no chão em que vive.
Karl Marx
Volto à questão inicial: poderia Marx contribuir para o entendimento do tempo presente?

"Mantendo-se a ideologia do fim da História, faz-se ao mesmo passo a manutenção daquilo que a classe dominante não deseja: a transformação com o devir"

A partir do concreto pensado, abstraído como processo de construção teórica sobre o real, imagine um ser que não consegue (por eclipsarem suas potencialidades) possuir a compreensão de que a sociedade é constituída por algo que está para além dele e que assim mesmo ele é parte fundamental do todo. Ao observar, utilizando seus sentidos, os complexos sociais este não conseguirá conjeturar as possíveis relações que se estabelecem para a manifestação de um determinado fenômeno: seja a luta ente dois macacos ou a luta entre milhares de seres semelhantes a ele contra a Tróika na Europa atual, até mesmo o papel da esquerda revolucionária na construção do processo histórico que se nega.
A concepção de organização (a sua) se limitará ao campo fenomênico mais imediato notado pelos seus sentidos mais animais, distanciando-se de qualquer entendimento histórico daquilo que se vê e sente como animal que é. Não encontrará sentido em ações que pleiteiam uma perspectiva histórica e de transformação organizada, sobretudo a revolucionária.
Organização
Mantendo-se a ideologia do fim da História, faz-se ao mesmo passo a manutenção daquilo que a classe dominante não deseja: a transformação com o devir. A organização partidária torna-se algo enigmático, sobretudo quando se sente de forma ainda animal, que existem outros como eles que “sonham” com uma transformação radical da economia capitalista e todas as formas de viver. Não consegue entender, embora consiga enxergar, o motivo concreto por qual enigmaticamente partidos revolucionários se reúnem para reivindicar algo que mais parece um delírio do que uma proposta de organização. A negação do devir histórico faz potencializar o fenômeno do consumo, em sua manifestação de fetiche e mais ideologizada: o consumismo.
O consumo (concreto e principalmente abstrato) imediato como manifestação dos desejos do ser social bestializado, embrutecido e reduzido a sua animalidade, faz da busca à satisfação a façanha mais perspicaz deste homo. Este tomará o presente como o único espaço de consumo e, portanto, de realização de si. Visualiza-se o empenhar de todas suas energias à busca da felicidade encontrada momentaneamente no consumo imediato no presente vivo. Mas uma felicidade passageira que muito rapidamente deve ser substituída para que a sensação de realização de mantenha. As relações sociais acabam por ganharem a mesma denotação, usando-as para a realização: seja no amor, no sexo, na amizade, em passeatas e movimentos de massas.

"O presente desvairado, deslocado de qualquer perspectiva de construção histórica, contraditoriamente fundamenta a centralidade do consumo deste ser embrutecido em detrimento da produção"

Assim, o presente desvairado, deslocado de qualquer perspectiva de construção histórica, contraditoriamente fundamenta a centralidade do consumo deste ser embrutecido em detrimento da produção. Realiza-se no consumo, ou seja, todas as relações imediatistas são mediadas pelo consumo. O consumo não só é o centro das relações, é mais, as relações são desenvolvidas a partir da sua existência, orbitando a partir dele e para ele.
Decorrência disso é o repúdio pela esfera da produção da vida. Negase a história e a construção, a produção e a conquista da objetivação da prévia ideação. Não se identifica com aquilo que produz; ao contrário, se nega; não se identifica e se sente estrangeiro ao produto que por ventura faça. Marx descreve essa situação como sendo típica do trabalho alienado. Nela o ser não se identifica com e na produção, mas no consumo e com o consumo, pois está alienado da esfera da produção e altamente inserido, mesmo que idealmente, na esfera do consumo.
Alienação
Eliminar-se da esfera da construção histórica é colocar-se sem sentido em relação à própria História. Ser estrangeiro é não fazer parte, é não se sentir pertencente, portanto, possivelmente não acreditar na capacidade de construção de uma parede, cadeira, machado, de movimentos organizados, menos ainda de outra forma de produzir e reproduzir a vida socialmente. Excluir o conceito de História e construção de uma totalidade historicamente determina viabiliza também a construção de um presente imediato como um fetiche, alienado e que busca a realização apenas no consumo marcando a existência isolada do todo o qual é parte.
Um dos resultados de tudo isso pode ser observado diante das manifestações apartidárias e anti-partidos, em nosso presente mais imediato, principalmente ao findar das caminhadas nas longas avenidas quando muitos perguntam: “E aí, pra onde que vai agora? Será que amanhã vai ter mais? Meu essa foto vai fica louca no face! Depois da passeata, onde vai ser a vibe?”.
Como sempre, chamo a atenção para o papel do artigo indefinido, esta é uma possibilidade para entender e intervir diante do tempo presente, não é a única. Mas diante do todo caótico, me parece vital a continuidade do debate focalizando a crise de direção tão repudiada por muitos. Mesmo sendo muitos aqueles que são diuturnamente dirigidos por intelectuais provocadores de embusteiros do devir histórico.
Esquerda
Recebe-se assim, as esquerdas vermelhas revolucionárias, a classificação de ultrapassadas, velhas e anacrônicas. Que Marx viveu no século XIX e que qualquer contribuição deste clássico não ajuda a entender o hoje.
Para finalizar, me pergunto: e o liberalismo, também não é velho? Os clássicos da economia política também não seriam ultrapassados e anacrônicos? Se o são, por que ainda se recorrem a eles para justificarem o presente ou mesmo falsearem o cotidiano?
O gigante terá que entender isso, pois ao contrário retomará o sono calmo e esplendido e continuará a ser pisoteado como capacho da classe dominante que violentamente entoa a insustentável cantiga de explorar!


 ♦ Jean Paulo Pereira de Menezes é pesquisador e rofessor da Uiversidade Estadual Paulista (Unesp)

Fonte: http://www.carosamigos.com.br

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Conjuntura no Brasil pode desembocar em crise revolucionária



Yasuyoshi Chiba/AFP: PM atira em manifestantes em Fortaleza

Por José Arbex Jr.


É a conjuntura, estúpido
por José Arbex Jr., especial para o Viomundo
“Seria mais fácil explicar os protestos quando eles ocorrem em países não democráticos, como no Egito e na Tunísia, em 2011, ou em países onde a crise econômica elevou a índices assustadores o número de jovens desempregados, como na Espanha e na Grécia, do que quando eles ocorrem em países com governos populares e democráticos – como no Brasil, que atualmente exibe os menores índices dedesemprego de sua história e uma expansão sem paralelo dos direitos econômicos e sociais. Muitos analistas atribuem os recentes protestos à rejeição da política. Creio ser precisamente o contrário: eles refletem o desejo de ampliar o alcance da democracia, de encorajar as pessoas a participarem de uma maneira mais plena.”
O diagnóstico é feito pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, em artigo de sua autoria, publicado no jornal estadunidense The New York Times (clique aqui para ler), em 16 de julho. Lula está certo. Os jovens que tomaram as ruas querem mais do que aquilo que já têm.
O desejo se reflete na palavra de ordem “queremos escolas (e hospitais, postos de saúde, serviços públicos) com padrão Fifa”. A alusão à Fifa não é um aspecto secundário das manifestações.
Ao contrário: mostra que, no Brasil contemporâneo, o próprio circo pegou fogo. Estamos a um milhão de anos luz do inglório 1970, quando a conquista do tricampeonato mundial deu fôlego à ditadura em sua fase mais sangrenta, sob as botas do general Emílio Garrastazu Médici.
Embalados pelos inestimáveis serviços prestados ao regime pela Rede Globo, os brasileiros cantavam o hino oficioso “90 milhões em ação / pra frente Brasil / do meu coração”, enquanto agentes da ditadura torturavam e assassinavam nos presídios oficiais e nas masmorras clandestinas.
Já não é assim. “Fifa”, hoje, virou sinônimo de imperialismo, e “Copa do Mundo” de corrupção, mamata e desperdício do dinheiro público.
Não por acaso, as sedes da Globo em São Paulo e no Rio foram objeto de repúdio dos manifestantes.
Mesmo Pelé teve que vir a público explicar que sua majestade nada tinha contra as “jornadas de junho”, após o seu apelo patético, gravado em vídeo, para que todos esquecessem as manifestações e apoiassem a seleção, durante a Copa das Confederações.
“Pelé calado é um poeta”, respondeu o ex-jogador e atual deputado federal Romário, que denuncia a imensa farra com o erário possibilitada pela Copa de 2014 e pelos Jogos Olímpicos de 2016.
Os tempos, pois, são outros. Um claro sinal disso é dado pela seguinte comparação: em 1995, a heroica greve dos trabalhadores brasileiros do petróleo, iniciada em 3 de maio,  morreu melancolicamente, 32 dias depois, sem ter logrado atrair a solidariedade ativa do movimento sindical e da sociedade, abrindo o caminho para Fernando Henrique “Thatcher” Cardoso impor todas as reformas que pretendia ao mundo do trabalho; quase exatos 18 anos depois, no início de junho, um pequeno grupo intitulado Movimento pelo Passe Livre, convoca atos para protestar contra o aumento de 20 centavos no preço do transporte urbano, em algumas das principais cidades do país, para detonar um movimento que acabaria levando pelo menos 2 milhões às ruas. É isso que deve ser explicado: porque, em 1995, o movimento iniciado por  uma das mais poderosas e organizadas categorias do país foi incapaz de atrair as simpatias da população, ao passo que, em 2013, o MPL incendiou o Brasil.
A resposta está na conjuntura. Não está na vontade dos dirigentes partidários, sindicais, dos movimentos sociais e nem mesmo do MPL – que foram tão pegos de surpresa quanto qualquer outro cidadão. Não está em manobras e articulações palacianas, nem da “direita” nem da “esquerda”.
Está no conjunto complexo, contraditório, profundo e extremamente poderoso que constitui o tecido das relações econômicas, sociais, políticas, ideológicas, sociais e morais de uma determinada época.
Não é só no Brasil que isso acontece, é óbvio. Dificilmente o vendedor ambulante tunisiano Ahmed Buazizi teria consciência de que ao atear fogo ao próprio corpo, em 17 de dezembro de 2010, estaria com isso incendiando o Oriente Médio.
Quantos Bouazizis fizeram gestos extremados, antes dele, sem com isso causar o menor distúrbio social? Porque justamente aquele gestou produziu a assim chamada “primavera árabe”? A resposta está na conjuntura.
A revolucionária Rosa Luxemburgo notou isso, ao comparar uma greve espontânea, organizada pelos trabalhadores de Batumi, na Geórgia (situada no Cáucaso), em 1902, com movimentos liderados, na mesma época, pelas poderosas centrais sindicais social-democratas na Alemanha: a greve dos trabalhadores de Batumi acabou desembocando, três anos depois, no Soviete de São Petersburgo, um dos grandes impulsionadores da Revolução Bolchevique de 1917; os movimentos na Alemanha mal foram notados.
Novamente: o que faz com que uma greve espontânea, numa região tão secundaria, do ponto de vista econômico, acabe sendo o motor de uma das mais importantes revoluções da história, enquanto movimentos operários organizados num país central para a economia capitalista não surta grandes efeitos? A própria Rosa explica: a resposta está na conjuntura.
Lula está certo, ao dizer que a juventude quer mais. O Programa Bolsa Família, o aumento real do salário mínimo, os programas de inclusão social (como o Luz para Todos), na esfera da educação (como o Prouni) e o da casa própria (Minha Casa Minha Vida) colocaram milhões de brasileiros na esfera do consumo, a qual foi artificialmente ampliada ao máximo com a concessão de créditos fáceis aos consumidores.
Milhões e milhões de brasileiros, antes relegados às margens do sistema econômico, agora aprenderam, com os mais variados graus de consciência ou intuição, que não têm que se conformar com a precariedade do sistema público de educação e saúde; que a corrupção pode e deve ser punida; que o sistema de transporte público é entregue a empresas privadas, embora fartamente subsidiado pelos impostos que todos pagam; que não há dinheiro para a segurança, para as escolas e para a saúde, mas há para imensos estádios de futebol.
O que Lula não diz em seu artigo é que boa parte dos problemas que hoje afligem a população brasileira também é resultado das políticas adotadas pelo seu governo e mantidas por aquela que preenche os contornos de seu espectro refratado no Planalto, a senhora Dilma Rousseff.
Lula não diz, por exemplo, que o programa Bolsa Família equivale a escassos 10% do total dos juros da dívida pública anualmente pagos ao capital financeiro; que os investimentos feitos pelo governo federal em educação e saúde são um dos menores do mundo, quando comparados ao PIB; que o governo adotou uma política irresponsável de promover o crescimento econômico com base no endividamento das famílias, que hoje enfrentam o fantasma da inadimplência; que, ideologicamente, o lulismo privilegiou uma concepção neoliberal que confunde “progresso social” com “enriquecimento dos indivíduos”, assim criando um abismo intransponível entre o eventual maior bem-estar que cada família passou a experimentar da porta de sua casa para dentro e o desastre absoluto verificado da porta para fora (insegurança, medo, poluição, caos urbano, guerras entre gangues, etc.); e que o”lulismo” transformou o PT e a CUT, símbolos das esperanças que mobilizaram milhões de brasileiros no final dos anos 70, em condutos forçados de negociatas do mercado persa chamado Congresso Nacional.
O Brasil chegou a um ponto de basta. Esse “ponto de basta”  apenas aparentemente se apresenta como que do nada, uma espécie de raio em céu azul.
Ele vem se anunciando há tempos, embora só retrospectivamente os sinais ganhem visibilidade adequada: no elevado índice de abstenção e voto nulo nas eleições de 2010; em revoltas explosivas, como a ocorrida no canteiro de obras na usina de Jirau (Amazônia), em março de 1911; nas inúmeras greves do funcionalismo público, nas revoltas em bairros da periferia, na longa paralisação que envolveu quase 100% das universidades federais em 2012, seguida pela greve dos professores do ensino municipal e estadual durante os primeiros meses de 2013.
Ninguém aguenta mais o inferno em que se transformou a vida nas grandes cidades, o espetáculo perdulário dos gastos públicos com a Copa, o descaso das autoridades com as pessoas que, diariamente, morrem ou padecem nas filas do SUS.
É esse sentimento de basta que explica aquilo que, de outra maneira, permaneceria incompreensível: quanto mais a polícia usa da violência, mais as pessoas vão às ruas. Seria de se esperar o oposto.
De fato, a polícia também foi surpreendida pela decisão da população. Ao contrário do que sempre aconteceu, a violência, por si só, mostrou-se incapaz de conter ou impedir os protestos. Trata-se de uma situação conjuntural em que os “de cima” – a burguesia e os seus representantes – já não conseguem governar como sempre governaram, ao passo que os “de baixo” – os trabalhadores, a juventude, a maioria da nação – já não suportam mais viver como sempre viveram.
Vladimir Ilitch Lênin assim descreve uma conjuntura que pode desembocar numa crise revolucionária.
Não se trata, aqui, de fazer futurologia. Potencialmente, o Brasil vive hoje uma situação conjuntural que pode desembocar numa crise revolucionária.
Isso aconteceu, por exemplo, na Argentina, no começo do século, quando os trabalhadores e a população expulsaram o presidente Fernando de La Rúa e sucedâneos a pontapés da Casa Rosada, aos gritos de “que se vayan todos”; e tudo para acabarem, melancolicamente, elegendo o peronista Néstor Kirchner, que ainda teve tempo de conduzir a sua mulher, a inefável Cristina, à chefia da Casa Rosada, antes de morrer.
O que acontecerá no Brasil? É claro que ninguém sabe. Mas é uma questão que preocupa, pelas dimensões que o país ocupa no cenário mundial.
O Brasil ostenta o 7º maior PIB do planeta (2,5 trilhões de dólares), é um dos pilares dos BRICs e peça importante de um edifício econômico cujas bases estão solapadas pela crise que se arrasta desde 2007.
Do ponto de vista do capital financeiro mundial, a conjuntura ideal seria aquela que lhe permitisse manter taxas de lucro astronômicas no Brasil (como as exibidas pelos bancos), numa situação de “ordem” e estabilidade social.
Se uma pequena ilhota como o Chipre (PIB de 25 bilhões) foi capaz de colocar o mundo em polvorosa – tamanha a fragilidade da Zona do Euro -, imagine o que acontecerá se o “gigante” começar a dar passos de anão.
Mas rimar paraíso financeiro com ordem social não será mais possível no Brasil. O capital não pode abrir mão da taxa de lucros, ainda que isso signifique pressionar o governo para arrancar da população as poucas conquistas sociais já alcançadas (por exemplo, com investimentos ainda menores nos setores de educação e saúde, para assegurar a remuneração do capital, por meio do superávit primário).
Dilma está entre a cruz e a espada. Para atender ao capital, terá que enfrentar a população nas ruas; para atender às demandas da população, terá que romper, ou pelo menos resistir ao capital.
Os prazos são cada vez mais curtos, como mostra a valorização crescente do dólar (mais de 10% em dois meses), e com ela o preço do petróleo importado, dos insumos agrícolas e das máquinas que empregam tecnologia de ponta, com todas as consequências para a vida.
Até quando o governo federal conseguirá manobrar para impedir que a população sinta em cheio os efeitos da crise econômica?
Dilma procura “enquadrar” o movimento das ruas, canalizando as energias para as vias institucionais, configuradas pelas propostas de Constituinte (que teve curtíssima vida) e de plebiscito sobre a reforma política (incapaz, até o momento, de agregar um núcleo capaz de lhe dar forma concreta e eficaz).
Claro que a “oposição de direita” (aqui entendida como os patéticos senhores agregados no PSDB e redondezas) tenta bombardear qualquer proposta oriunda do Planalto.
A “esquerda”, ou o que sobrou dela, agrupada principalmente no PSOL, mostra-se impotente para apontar alternativas.
Todos os partidos estão de olho nas eleições presidenciais de 2014, e jogarão as suas fichas para colher os máximos de dividendos da crise.
A “direita”, que nada tem a propor, tenta alimentar a erosão da base governista, ao passo que faz o elogio da “ordem” nas manifestações (novamente, a Rede Globo, secundada por emissoras de menor importância, é providencial  na tarefa de criar um consenso nacional segundo a qual só é legítima a manifestação que respeita estritamente os limites da propriedade privada e o respeito supersticioso à “autoridade constituída”).
A mediocridade da oposição “de direita” e a impotência da “esquerda” ainda dão fôlego ao governo Dilma, que, claramente, oscila ao sabor dos acontecimentos.
Lula acompanha à distância a evolução da conjuntura. Assiste de camarote à “fritura” de Dilma.
Não por acaso, escolheu o NYT, porta-voz do establishment financeiro liberal dos Estados Unidos, para dar o seu recado: ele ainda faz parte do jogo, ainda é capaz de mover as peças, ainda pode ser o Bonaparte que surge a cavalo, no alto do Planalto, para tentar recompor a confiança da juventude e dos trabalhadores na forma partidária da representação política.
Em seu artigo, ele acena com a necessidade de uma “transformação profunda do PT”.
O que isso significa, talvez nem o próprio Lula saiba. Ainda.
Fonte:http://www.viomundo.com.br

terça-feira, 16 de julho de 2013

Pode ser a gota d'água: enfrentar a direita avançando a luta socialista


por Mauro Iasi [*]
O mundo se move sob nossos pés, as velhas formas se rompem, surgem novas e as contradições que se acumulavam explodem buscando o caminho necessário, encontrando sua forma de expressão.

A explosão social que abalou o país brotou do terreno escondido das contradições. Lá para onde se costuma exilar as contradições incômodas: a miséria, a dissidência, a alteridade, a feiúra, a violência. Germinaram no terreno do invisível, escondido e escamoteado pela neblina ideológica e o marketing cosmético que epidermicamente encobre a carne pobre da ordem capitalista com grossas camadas de justificativa hipócrita, de cinismo laudatório de uma sociabilidade moribunda.

As autoridades, os especialistas, sociólogos, politicólogos e jornalistas estão perdidos dando razão à dissertativa atribuída à Marx segundo a qual "a história só surpreende quem de história nada entende". Declamam seu espanto querendo acreditar na extrema novidade, pois só isto explicaria sua brutal ignorância. No terreno da história nada é absolutamente novo.

Se há algo que é muito conhecido para quem não se limita ao presentismo, ou foucaultianamente à aléa singular do acontecimento, é a insurreição, a explosão de massas. Caso tenham preconceitos contra nossa tradição marxista e se recusem a ler as brilhantes análises de Lênin em Os ensinamentos da insurreição de Moscou , ou de Trotski emA arte da insurreição , pode se remeter aos estudos de Freud em A psicologia de massas e análise do ego, ou a magistral análise de Sartre em A critica da razão dialética. 

As massas explodem em uma dinâmica que altera profundamente o comportamento dos indivíduos isolados que pacificamente se dirigiam diariamente ao matadouro do capital, em ordem, pacificamente, saindo de suas casas humildes, pegando ônibus superlotados e precários, sendo humilhados pela polícia, vivendo de seus pequenos salários, vendo a orgia ostensiva do consumo e tendo que "subviver" com o que não tem.

Os jovens do Movimento Passe Livre (MPL) estão de parabéns por uma luta que não vem de agora (lembremos Goiânia e Florianópolis) e por conseguir dar consistência a esta luta e ao confronto que os levou a dobrar a prepotência dos que afirmavam de início que a tarifa não seria rebaixada. As manifestações contra o aumento da passagem, no entanto, são apenas o desencadeador de algo muito maior. O movimento funcionou como um catalisador de um profundo descontentamento que estava soterrado pela propagando oficial.

Analisemos, então, as determinações mais profundas que se apresentam nesta explosão social.

Em primeiro lugar as manifestações expressam um descontentamento que germinava e que era alimentado pela ação que queria negá-lo, isto é, pela arrogância de um discurso oficial que insistia em afirmar que tudo ia bem: a economia estava bem, não porque garantia a produção e reprodução da vida, mas por que permitia a reprodução do capital com taxas de lucros aceitáveis, o Brasil escapara do pior da crise internacional a golpes de pesados subsídios às empresas monopolistas, a inflação estava "entorno do centro da meta", o Brasil recebia eventos esportivos e se transformava em um canteiro de obras, os trabalhadores apassivados e suas entidades amortecidas pelo transformismo e pela democracia de cooptação se rendiam ao consumo via endividamento, a governo se regozijava com índices de aceitação que pareciam sólidos.

Acontece aqui um velho e conhecido fenômeno. A vida real não combina com o discurso ideológico. A inflação em torno da meta explodia na hora das compras, de pagar o aluguel, de pagar as contas, de pegar um ônibus. As delicias do consumo voltavam na forma de dívidas impagáveis. O acesso ao ensino vira o pesadelo da falta de condições de permanência. O emprego desejado se transforma em doença ocupacional. O orgulho de receber eventos esportivos internacionais se apresenta na farra do boi de gastos enquanto a educação, a saúde, a moradia, os transportes ficam às moscas.

O estopim foi o aumento das passagens e aqui se apresenta um elemento altamente esclarecedor. Nas primeiras experiências de governos municipais do PT o enfrentamento da questão do transporte se deu através da municipalização deste serviço. Em São Paulo chegou-se a falar em tarifa zero no governo de Erundina. Em uma segunda geração de governos petistas, todas as empresas municipais foram devolvidas aos empresários que exploravam o setor (e explorar é um termo preciso). Coincidentemente os empresários do transporte se tornaram uma das principais fontes de financiamento das campanhas deste partido.

Entendendo que a explosão é perfeitamente compreensível como forma de manifestação de um profundo descontentamento, sabemos que é mais que isso. Representa, também, o esgotamento de uma forma que tem sido muito eficaz de domínio e controle político. Cultivamos um fetiche pela forma democrática como se ela em si mesmo fosse a solução enfim encontrada pela humanidade para superar um dilema histórico da ordem burguesa que a acompanha desde o nascimento e que não tem solução dentro da sociedade capitalista: o abismo entre sociedade e Estado.

A sociedade se representa através de políticos eleitos que formam as esferas decisórias, legislativas ou executivas, por meio do voto que transfere o poder para um conjunto de pessoas que supostamente expressam as diferentes posições e interesses existentes na sociedade. Abstrai-se, desta forma, o quanto os reais interesses políticos e econômicos em jogo deformam esta suposta límpida representação resultando na consagração do poder das classes dominantes, confirmando a dura descrição e Montesquieu segundo a qual "a República é uma presa; e sua força não passa do poder de alguns cidadãos e da licença de todos", ou na ainda mais incisiva afirmação de Marx (e depois Lênin): a democracia é o direito de os explorados escolherem a cada quatro anos quem os representará e esmagará no governo.

Desta maneira é compreensível o espanto daqueles que acreditavam que estava tudo bem em uma sociedade marcada pelas contradições da forma capitalista e de sua expressão política, ignorando as profundas e conhecidas contradições que tal ordem gera inevitavelmente.

Uma contradição, no entanto, encontra sempre uma forma particular para se expressar. A forma como se expressaram as contradições descritas também é perfeitamente compreensível.

O último período político foi marcado por uma profunda despolitização dos movimentos sociais e dos movimentos reivindicativos da classe trabalhadora. Em dez anos de governo os trabalhadores não foram uma vez sequer chamados a participar ativa e independentemente da correlação de forças políticas em defesa de seus interesses e no terreno que lhe é próprio: as ruas, as praças, a cidade. Optou-se por uma governabilidade sustentada por alianças de cúpula nos limites da ordem política existente e do presidencialismo de coalizão, mantendo seus métodos, isto é, oferta de cargos, liberação de verbas e facilidades. Não é de se estranhar que em dez anos não se tenha implementado uma reforma política.

Em nenhum momento no qual uma demanda das massas trabalhadoras (reforma agrária, previdência, direitos trabalhistas, garantia de serviços públicos, etc.) que se chocava com a resistência dos setores conservadores foi resolvida chamando os trabalhadores a se manifestar e inverter a correlação de forças desfavorável às mudanças. Pelo contrário, via de regra, as soluções conservadoras foram propostas pelo governo que se pretendia popular e se pedia às massas que se calassem e dessem, como prova de sua infinita paciência, mais um voto de confiança em suas lideranças que deles se alienavam.

Quando os trabalhadores se chocavam com a orientação governista, como na última greve dos professores e dos funcionários públicos federais, são tratados com arrogância e prepotência.

Por isso, não nos espanta que a explosão social se dê da forma como se deu e traga os elementos contraditórios que expressa: despolitizada e sem direção, ainda que com alvos precisamente definidos: os governos e aquilo que representa a ordem estabelecida.

A despolitização se expressa de varias formas, mas duas delas se apresentam com mais evidentes: a violência e antipartidarismo. Comecemos pela violência.

Quanto à forma violenta que tanto espanta os ardorosos defensores da ordem temos que constatar que ela não é homogênea. Há pelo menos três vertentes da violência. Uma delas, difusa e desorganizada, é aquela que expressa a raiva e o ódio contra uma ordem que oprime, não por acaso esta se dirige contra as expressões desta ordem, seja os prédios públicos que abrigam as instituições da ordem política burguesa (sedes de governo, parlamentos, prédios do judiciário, etc.), mas também os monopólios da imprensa, da televisão, assim como os templos do consumo ostensivo. Esta manifestação é compreensível e até, em certa medida, justificada. Marx e Engels, ao analisar a situação alemã de 1850 (Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas) dizem a respeito:
Os operários não só não devem opor-se aos chamados excessos, aos atos de vingança popular contra indivíduos odiados ou contra edifícios públicos que o povo só possa relembrar com ódio, não somente devem admitir tais atos , mas assumir sua direção.
Deixemos aos patéticos novos defensores da "ordem e da tranqüilidade" a defesa do fetiche do patrimônio público, uma vez que é esta "ordem" é que tem garantido às classes dominantes e seus aliados de plantão a "tranqüilidade" para saquear e depredar o verdadeiro patrimônio público.

Há uma segunda vertente da violência. Jovens das periferias, dos bairros pobres, das áreas para onde se expulsou os restos incômodos desta ordem de acumulação e concentração de riqueza, que são quotidianamente agredidos e violentados, estigmatizados, explorados e aviltados, que agora, aproveitando-se do mar revolto das manifestações expressam seu legítimo ódio contra esta sociedade hipócrita e de sua ordem de cemitérios. Sua forma violenta em saques e depredações assustam, é verdade, mas a consciência cínica de nossa época passou a assumir como normal as chacinas, a violência policial. Pseudointelectuais chegaram a justificar como normal que a policia entre nas favelas e invada casas sem mandato, prenda, torture e mate em nome da "ordem"; ou seja, a violência só é aceitável contra pobres, contra bandidos, contra marginais, mas é inadmissível contra lixeiras, pontos de ônibus, bancos e vitrines.

Há uma terceira violência e esta não é espontânea e emocional como as duas primeiras: a extrema direita. Ela, lá dos esgotos para onde foi jogada pela história recente, se sentia também ofendida e agredida, evidente que não pela ordem burguesa e capitalista que sempre defendeu, mas pelo irrespirável ar democrático que acertava as contas com nosso passado tenebroso, como a denúncia contra o golpe de 1964 e seus sujeitos, com as comissões da verdade, mas sobretudo o mal estar desta extrema direta com um regime político que permite a organização dos trabalhadores e sua expressão, mesmo nos precários limites de uma democracia representativa de cooptação. Assim como os movimentos sociais e de classe se despolitizam, a direita também. Para a extrema direita não interessa que a atual forma política permita aos monopólios seus gigantescos lucros e à burguesia sua pornográfica concentração de riquezas. A burguesia que já se serviu da truculência para garantir as condições de acumulação de capital, hoje se serve da ordem e tranquilidade democrática para os mesmos fins e neste contexto não há função clara para seus antigos cães de guarda.

Estes não suportam nos ver andando com nossas camisetas que lembram nossos mártires, nossas bandeiras que recolhem o sangue de todos que lutaram, nossas firmes convicções que nos mantêm nas lutas diárias ao lado dos trabalhadores em defesa da vida, mas com o olhar certeiro no futuro necessário e urgente que supere a ordem do capital por uma alternativa socialista. Por isso nos atacam, usam das manifestações para acertar suas contas com a esquerda, de forma organizada, intencional e, certamente, com apoio formal ou informal das aparatos de repressão.

A ação da extrema direita encontra respaldo na despolitização das massas, principalmente na expressão gritante do antipartidarismo. No entanto, neste caso temos que ter cautela ao analisar os fatos. O comportamento contra os partidos é compreensível, ainda que não justificado. Compreensível por dois motivos: as massas, graças à triste experiência petista, estão cansadas de partidos que usam as demandas populares para eleger seus vereadores, deputados e presidentes que depois voltam as costas para estas demandas para fazer seus jogos e alianças para manter em seus cargos; também, acertadamente, não podem aceitar que certos partidos pulem na frente de manifestações e movimentos para tentar dirigi-los sem a legitimidade de ter construído organicamente as lutas.

Tal atitude, portanto, compreensível, é injustificável pelo fato que ao mirar os partidos de esquerda erra pelo fato que foram os militantes dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais que mantiveram no pior momento da correlação de força desfavorável as lutas em torno das demandas populares, por moradia, na luta pela terra, contra a reforma da previdência, contra as privatizações, em defesa da educação e da saúde públicas, contra os gastos com os eventos esportivos, contra as remoções. E o fizeram em um contexto em que as massas estavam submetidas a um profundo apassivamento e no qual o transformismo do PT em partido da ordem isolava a esquerda e a estigmatizava. Neste sentido os partidos de esquerda como o PCB, o PSTU, o PSOL e outras organizações de esquerda, assim como os movimentos sociais e sindicatos, não precisam pedir licença a ninguém para participar de lutas e manifestações sociais, conquistaram legitimamente este direito na luta, com sua coerência e compromisso.

Para onde vão as manifestações? Alguns ingenuamente, ou de forma interesseira, acreditam que a mera existência da ação independente de massas configura em si mesma um fator positivo de transformação. Infelizmente, a história também nos traz elementos para questionar esta tese, alguns exemplos da história muito recente. Quando da derrocada do leste europeu advinda do desmonte da URSS, muitos saudaram como a possibilidade de uma revolução política que retomasse o rumo interrompido das experiências socialistas, mas o que vimos foi a restauração capitalista. Agora saúdam a chamada "primavera árabe", mas o que temos visto, e a Líbia e o Egito são exemplos paradigmáticos, é o aproveitamento dos monopólios na partilha do botim de países estratégicos isolando mais uma vez os setores populares.

O sentido e futuro das manifestações estão em disputa e temo em dizer que a esquerda está perdendo esta disputa para um sentido perigosamente de direita e conservador. Recentemente afirmei que a experiência política do último período, ao contrário do que alguns esperavam, havia produzido um desmonte na consciência de classe e se expressava em uma virada conservadora no senso comum. Este processo ficou evidente nas manifestação, para além da intenção de seus originais promotores. O produto multifacetado das contradições mescla nas manifestações elementos de bom senso e senso comum, criticas difusas às manifestações mais evidentes da sociabilidade burguesa em que estamos inseridos ao lado de reafirmações de valores próprios desta mesma ordem, o que seria natural se entendermos o processo de despolitização descrito.

Quando os adeptos do espontaneismo alardeiam a virtude de uma manifestação sem direção e que hostiliza partidos se esquecem é que se você não tem uma estratégia, não se preocupe, você faz parte da estratégia de alguém. Além da evidente eficiência dos monopólios da comunicação, o "partido da pena" nos termos de Marx, em pautar o movimento selecionando as bandeiras que interessa à ordem (luta contra a corrupção, nacionalismo, diminuição de impostos, etc.), outros elementos muito perigosos se apresentam.

Um cartaz na manifestação no Rio dizia: se o povo precisar as Forças Armadas estão prontas para ajudar. Significativamente os militantes antipartido não destruíram esta faixa, talvez porque não sabem que existe além do partido da pena o "partido da espada". Em nota dos clubes militares da marinha, exército e aeronáutica, os militares depois de afirmar que as manifestações expressam majoritariamente a indignação com o descaso das autoridades com as aspirações da sociedade e que diante dos vícios e omissões que se repetem chegou a hora de se "manifestar clamorosamente" e não aceitar "ser conduzido, resignadamente, como grupo ingênuo" dando "um basta à impostura e à impunidade". A nota dos militares termina com uma clara provocação e cita Vandré: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

A direita só germina e cresce no vazio deixado pela esquerda. A ilusão de um desenvolvimento capitalista capaz de resolver as demandas populares e garantir lucros aos capitalistas, sustentado por um governo de coalizão com a burguesia desarma os trabalhadores e a direita ocupa o terreno. Há um evidente cheiro de golpe no ar. A embaixadora dos EUA que estava na Nicarágua na época dos contras, na Bolívia quando da tentativa de dividir o pais, no Paraguai quando do golpe contra Lugo, chegou ao Brasil.

Ao prefaciar o livro de Leandro Konder sobre o fascismo republicado em 2009, dizia alertando para a atualidade do risco desta alternativa contra aqueles que achavam que este fenômeno estaria condenado ao passado:
Capital monopolista em crise, imperialismo, ofensiva anticomunista, criminalização dos movimentos sociais, decadência cultural, hegemonia da política pequeno-burguesa em detrimento da política revolucionária do proletariado, irracionalismo, neo-positivismo, misticismo, chauvinismos nacionalistas acompanhados ou não de racismo... Não se enganem. Só posso alertar, como certa feita o fez Marx: "esta fábula trata de ti".
A explosão de massas deu o recado: olha só meu coração, ele é um pote até aqui de mágoa, qualquer desatenção, faça não... pode ser a gota d'água.
[*] Professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas. 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 9 de julho de 2013

Revolta da Passagem-junho/julho 2013

rj
Nesta página, marxismo21 documenta – por meio de matérias diversas (artigos, documentos, blogs, vídeos, fotos etc.) – as jornadas de junho que levaram milhões de pessoas às ruas e praças de todo o país.  Os significados, o caráter complexo e contraditório e a riqueza dessas manifestações de protesto são objeto desta página na qual são privilegiadas análises de autores e entidades comprometidos com o pensamento de esquerda.
Tendo em vista seu caráter dinâmico, marxismo21 deverá – no curso das próximas semanas – agregar novos materiais coletados pelos editores na web e nos meios editoriais e de comunicação do país.  A colaboração dos leitores do blog será bem-vinda; divulgaremos as matérias recebidas que se alinham com os objetivos e a orientação acima explicitados. Materiais aqui divulgados também constam dos excelentes blogs logo abaixo mencionados.
Editores
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DOCUMENTOS e NOTAS DE ENTIDADES
Movimento Passe LivrePesquisadores da USP
Coletivos de esquerdaPela Liberdade de Expressão
Nota do PCBNota do PCdoB
Direção PCONota do PSOL
Direção do PSTUNota da AE/PT
Arma da CríticaCC Luiz Carlos Prestes
Consulta PopularLBI-QI
LER-QI 
Nota do IFCS-UFRJ Nota do IH-UFRJ
BLOGS (com matérias diversas sobre as jornadas de junho)

comem 2
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ARTIGOS
(Por razões editoriais, os textos sobre diferentes aspectos das jornadas de junho, são aqui identificados pelos nomes de seus autores. )
Alysson MascaroAndré Singer
Ariel GoldsteinAtílio Boron
Aton FonBreno Altman
Carlos Eduardo MartinsElaine Tavares
Darlan MontenegroIgor Grabois
 Flávio de CastroFrei Betto
Francisco C. TeixeiraGilberto Calil
Gilberto MaringoniGilberto Calil
Giovanni AlvesHenrique Carneiro
Igor FelipeIvo Tonet
James PetrasJohn K. Ferreira
João MachadoJoão Pedro Stedile
João PeschanskiLincoln Secco
Lúcio Flavio de AlmeidaLuiz Pericás
Luiz Werneck ViannaMarcelo Badaró
Marcelo RidentiMarcos Nobre
Marco WeissheimerMaria Orlanda Pinassi
Mário MaestriMarilena Chaui
Mauro IasiMichel Silva
Milton PinheiroOsvaldo Coggiola
Paulo ArantesPedro Oliveira
Plínio A. Sampaio Jr.Raul Estrada
Rafael Villas BoasRicardo Alvarez
Ricardo AntunesRicardo Gebrim
Ricardo SchielRoberto Leher
Silvia VianaTúlio Muniz
 Valéria NaderValério Arcary
Valter PomarVenício Lima
Vladimir SafatleWagner Iglésias
Wladimir PomarWolfgang Maar
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VÍDEOS