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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Montadoras deveriam bancar a taxa de inspeção veicular

Por Leonardo Sakamoto
O governo Haddad deve acabar com a taxa cobrada pela inspeção veicular obrigatória em São Paulo já no ano que vem, cumprindo uma promessa de campanha. Muito já foi escrito sobre esse ato populista a ser feito com dinheiro da coletividade. Pois, quem não tem carro terá que pagar por algo que deveria ser da responsabilidade de quem tem sob a justificativa de que o ar que respiramos é de todos.
Se o governo quer desonerar os proprietários de veículos com motor a combustão, sugiro que mande a primeira fatura para a indústria automobilística. Empresas de cigarro e lanchonetes são responsabilizadas pelos danos causados por seus produtos, por que não a de carros? Comercial de nicotina na TV é censurado e de monóxido de carbono, não?
Que tal as montadoras bancarem a revisão periódica dos carros, motos e caminhões que nos entregam, uma vez que fomentam o nosso consumismo maluco através de anúncios questionáveis.
Pagar pela inspeção veicular seria uma boa forma das empresas multinacionais devolverem um pouco da ajuda de mãe que têm recebido do poder público. Enviariam um pouquinho menos de royalties para ajudar suas matrizes em apuros lá fora? Sim, mas contribuiriam em fazer com que o céu azul que aparece em seus comerciais seja de verdade e não Photoshop. Porque o que vejo em minha cidade é uma faixa de meleca cinza que me faz chorar de emoção.
Também mandaria uma segunda fatura para a indústria de combustíveis. Temos que conviver no Brasil com índices altíssimos de coisas saudáveis, como enxofre, sendo lançados ao ar enquanto que, em países europeus, as taxas são bem menores. Até porque, como sabemos, a vida de um francês vale mais do que a dos bugres daqui.
Não temos a aplicação decente de uma política de compensação ambiental que considere o número de carros vendidos e reverta parte dos lucros dos impérios automobilísticos em recursos para o transporte público ou para mitigação dos impactos causados no ar, na água e na terra. Afinal de contas, fala-se da geração de empregos com a produção industrial, mas não dos impactos silenciosos que vão ceifando vidas ao longo de anos.
Não estou dizendo que o sujeito que não cuida do seu vulcãozinho pessoal de fumaça é inimputável, mas se tivermos que procurar responsáveis e mandar a conta, a indústria está bem acima do cidadão comum sobre rodas – isso sem falar daquele que anda a pé ou de transporte coletivo. Ah, mas a indústria só atende a uma demanda. Rá. Faz-me rir.
E, por fim, a inspeção veicular não vai ser a panacéia. Vamos expulsar Fuscas, Brasílias, Variants, 147s, caminhões velhos de circulação (ou seja, eliminar o meio de locomoção da ralé), mas as propagandas que anunciam carros grandes e potentes, beberrões de gasolina e diesel na televisão continuarão povoando o imaginário, sendo adquiridos pelas classes abonadas e financiando ambientalismos. Individualmente poluem menos. Coletivamente, são um problema. Mas pensar coletivamente não está em nosso DNA como sociedade, né? Viva meu carro, dane-se o ônibus e o resto.
O ritmo de destruição do meio foi acelerado para atender a consumidores, mas não a cidadãos. E vem cobrando um preço alto, cuja fatura será paga por aqueles que ainda são pequenos. A cidade está envolta em um bizarro chumaço escuro. É um modelo diferente de urbanidade que eu quero. Um em que não tenha que ficar angustiado por causa do pôr-do-sol estranhamente avermelhado. Trocar uma sociedade estritamente consumista, em que o “eu sou” se confunde com o que “eu tenho”, leva tempo. Talvez o meio ambiente não tenha esse tempo.
Estamos morrendo aos poucos. E, agora, pagaremos todos para atestar isso. 
Fonte:  http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

OS SIGNOS DO POEMA EU, ETIQUETA


OS SIGNOS DO POEMA EU, ETIQUETA

 Alex Sandro de Araújo Carmo

RESUMO: Por meio de extração e análise entre o poema Eu, Etiqueta de Carlos Drummond de Andrade, e os estudos de Mikhail Bakhtin, este trabalho tem como objetivo buscar perceber a concepção de enunciado, signo e ideologia. Para traçar uma linha de entendimento acerca do universo da linguagem e os aspectos ideológicos, utilizar-se-á um viés materialista e dialético. Ressalta-se ainda que, embora seja utilizado neste estudo um poema, não se terá necessariamente uma abordagem literária, pois o principal intuito aqui, é contribuir para uma leitura mais reflexiva de Bakhtin.
PALAVRAS-CHAVE: poema, signo, ideologia.
ABSTRACT:Through extraction and analysis of the poem I label of Carlos Drummond de Andrade, and studies of Mikhail Bakhtin, this work aims to seek to understand the design set out, sign and ideology. To draw a line of understanding about the universe of language and the ideological aspects, use will be a bias materialist and dialectical. It is emphasized that, although it is used in this study a poem, does not necessarily have a literary approach, since the main objective here is to contribute to a more reflective reading of Bakhtin.
KEYWORDS: poem, sign, ideology.

Introdução


            Este artigo procurará extrair do poema Eu, Etiqueta de Carlos Drummond de Andrade, por meio de uma análise contextual, elementos que identifiquem certa proximidade com os estudos de Bakhtin, acerca do enunciado, do signo e da ideologia. Antes de salientar sobre os conceitos que serão abordados, ressalta-se que este trabalho não pretende fazer uma análise literária, o que se busca aqui, é propiciar entendimento a termos encontrados na obra de Bakhtin, que mostram a concepção do pensador sobre a linguagem e as relações humanas, visto que ele entendia a linguagem como um instrumento de interação social, onde se visualiza os processos ideológicos. Dê início, apresenta-se os extratos do poema que serão analisados:



Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
[...]
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
[...]
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
[...]
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
[...]
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
[...]
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.
(ANDRADE, 1984: 85-87).



            Nestes versos, vê-se certa gama de propósitos, que o poeta com muita habilidade marcou ao manusear as palavras. O nome grudado na calça, e que não se conhece, é a etiqueta do produto ou um signo? As estampas contidas no blusão, na camiseta, nas meias, não seriam publicidades gratuitas (que o poeta menciona que se paga ao usar)? Todos os produtos que rodeiam as pessoas são mensagens? E essas mensagens, e o uso de imperativos, denunciados nesses versos, retratam costumes ou ordens? O homem é um veículo de propaganda que tem liberdade de escolha? O ser humano que vive na realidade pronunciada pelo poema, sabe se reconhecer? Sabe se é ser humano ou coisa? Quantas perguntas podem ser formuladas por intermédio deste poema? Este estudo buscará mediar e transparecer alguns fatos relativos a essas questões.

2 Uma base teórica para o estudo dos enunciados e dos signos


            Este poema, como já mencionado, foi escolhido para este estudo, por causa de sua proximidade aos estudos de Bakhtin, visto que o pensador russo para realizar um estudo concreto sobre a linguagem apontava a necessidade de se observar “o papel produtivo e a natureza social da enunciação” (BAKHTIN, 1999, p. 27), portanto o ponto de partida será a questão da enunciação.
            Assim,

A enunciação enquanto tal é um puro produto da interação social, quer se trate de um ato de fala determinado pela situação imediata ou pelo contexto mais amplo que constitui o conjunto das condições de vida de uma determinada comunidade lingüística. (BAKHTIN, 1999, p. 121).

            Veja, a palavra é descrita por Bakhtin em Marxismo e Filosofia da Linguagem como neutra, não comportando nenhuma significação ou valor semiótico, pois quando a palavra absorve valor ou significado já não é mais uma palavra e sim um enunciado. Em Estética da Criação Verbal, o autor, vai mostrar que existem enunciados concretos e únicos, primários e secundários, e que “cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso.” (BAKHTIN, 2000, p. 279). O fato que diferencia um enunciado (gênero de discurso) primário de um secundário, além, de um ser simples e o outro complexo, é que os enunciados secundários aparecem em decorrência da comunicação cultural, na forma de romance, de discurso científico e/ou ideológico e etc., enquanto os primários podem ser vistos como o diálogo cotidiano, a conversa simples sobre os fatos corriqueiros do dia-a-dia. Para fixar melhor:

Em cada época de seu desenvolvimento, a língua escrita é marcada pelos gêneros do discurso e não só pelos gêneros secundários (literários, científicos, ideológicos), mas também pelos gêneros primários (os tipos do diálogo oral: linguagem das reuniões sociais, dos círculos, linguagem familiar, cotidiana, linguagem sociopolítica, filosófica, etc.). (BAKHTIN, 2000, p. 285)

            Os gêneros primários (enunciados) quando entram no quadro dos secundários, perdem sua característica particular, pois não pertencem mais a realidade da qual foram originados, agora eles pertencem à realidade dos “enunciados alheios”, ou seja, no ato de comunicação social, um enunciado se transforma em outros enunciados (primários ou secundários).
            Nessa interação, há duas particularidades do enunciado, uma, o seu acabamento específico, e a outra, a alternância dos sujeitos falantes. Essas particularidades, vistas como critérios de acabamento do enunciado, propiciam a possibilidade de resposta. Veja, “o primeiro e mais importante dos critérios de acabamento do enunciado é a possibilidade de responder” (BAKHTIN, 2000, p. 299). A possibilidade de resposta está ligada ao enunciado em três fatores essenciais, que são eles: a- “o tratamento exaustivo do objeto do sentido”; b- “o intuito, o querer-dizer do locutor”; c- “as formas típicas de estruturação do gênero do acabamento.”. Esses fatores, todos interligados no todo do enunciado, vão determinar as especificidades de cada esfera da comunicação verbal.
            A especificidade do poema Eu, Etiqueta mostra que ele é um enunciado, e que é complexo e secundário. E como enunciado, está voltado e dirigido para alguém – o leitor. Todo ato de comunicação social está voltado para um propósito. Assim, pode-se admitir:

O enunciado está voltado não só para o seu objeto, mas também para o discurso do outro acerca desse objeto. A mais leve alusão ao enunciado do outro confere à fala um aspecto dialógico que nenhum tema constituído puramente pelo objeto poderia conferir-lhe. (BAKHTIN, 2000, p. 320).

            Toda relação dialógica transporta certas ideologias, pois todo enunciado ao conter signos é um agente ideológico. Portanto, “tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia.” (BAKHTIN, 1999, p. 31).
            Esse poema além de relatar questões ideológicas de dominação, também reflete as questões ideológicas de dominados. Não há somente ideologia a favor de quem domina, mas também há ideologia de quem é dominado. Mais a frete, discutir-se-á melhor essa colocação, estudando os termos ideologia oficial e ideologia do cotidiano.
            Todo produto de consumo pode ser transformado em signo, e todo signo é criado para atender uma função ideológica. Como função ideológica se entenderá: a política, a científica, a religiosa, e outras do mesmo suporte. Mas, há a comunicação na vida cotidiana, que Bakhtin atribuía um grande valor, segundo ele “ela está diretamente vinculada aos processos de produção e, por outro lado, diz respeito às esferas das diversas ideologias especializadas e formalizadas.” (1999, p. 37). Assim, nota-se que as funções ideológicas transitam entre as classes sociais.
            Outro aspecto importante de ser mencionado é a questão de onde surgem as ideologias? Na concepção bakhtiniana elas surgem da interação social, mas já para outras linhas do pensamento, como é o caso do idealismo e do psicologismo, ela se deriva da consciência, fato que Bakhtin (1999) considera um grande erro, pois ao situarem a ideologia na consciência, essas linhas, acabam transferindo o estudo da ideologia para o estudo da consciência. Esse erro produz uma confusão entre áreas do conhecimento, o produto ideológico – material e social, é introduzido à força no quadro da consciência individual, e assim, para o idealismo a ideologia torna-se o “tudo”, e para o psicologismo o “nada”.
            A ideologia é o material social particular dos signos, e os signos por sua vez, só podem aparecer num terreno interindividual, eles devem estar socialmente ligados, e pertencentes a um mesmo grupo. Dessa maneira, Bakhtin (1999) aponta que a consciência individual deve ser explicada a partir de um meio ideológico e não o contrário. A consciência é um fato sócio-ideológico, que foi transformada em depósito de problemas não resolvidos. Portanto, o idealismo e o psicologismo, ao colocarem o estudo da ideologia na consciência, afirmam que esta é um fato de consciência, e que o fato da exteriorização do signo é somente um revestimento do efeito anterior – a compreensão. Bakhtin (1999) afirma que tanto o idealismo, quanto o psicologismo, esquecem que a compreensão se manifesta a partir de um material semiótico, e que todo material semiótico é social. A ideologia não pode derivar da consciência, e esta última, só adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado, ou seja, numa relação social.
            Sob esse viés, os signos como objetos naturais, podem adquirir vários sentidos, principalmente, pelo fato de que todo signo reflete e refrata uma outra realidade, que não a sua, por isso o campo do domínio do ideológico coincide com domínio dos signos. Ser ideológico é ter valor semiótico. Ainda, toda esfera ideológica possui um campo de criatividade, onde reflete ou refrata a realidade a sua maneira, independente da sua função no conjunto social, pois é justamente o seu caráter semiótico que liga todos os fenômenos ideológicos sob um mesmo plano (social), sendo todo signo um pedaço material de uma realidade. Por isso, por ser todo signo – e seus efeitos –, uma representação da realidade ou de um mundo exterior, ele se torna passível de estudo. 
            O que deve ficar claro, é que tudo que é ideológico possui um signo e remete a algo fora de si, ele reflete e refrata uma outra realidade. Sem signos não pode existir ideologia. Os signos têm um universo particular, que está ao lado dos fenômenos naturais, do material tecnológico e dos artigos de consumo, e cada signo ideológico, além de reflexo é também um fragmento material de uma realidade, seja esse fragmento, som, massa física, cor, movimento, etc. Todo signo ideológico, segundo Bakhtin (1999) na encarnação material, tem a sua realidade totalmente objetiva, portanto metodologicamente é unitário e objetivo. Todo signo é um fenômeno do mundo exterior.
            A realidade ideológica é uma superestrutura situada imediatamente acima da base econômica. A consciência individual não está e nem constrói a superestrutura ideológica, ela está no social e nos signos ideológicos.
            Portanto, compreender um signo, significa fazer relações com outros signos já conhecidos. E que na cadeia de criatividade ideológica, os signos deslocam-se para outros signos, criando novos signos. E essa cadeia ideológica estende-se de consciência individual para consciência individual num processo de interação social.
           

3 Alienação e questões ideológicas


            Este poema retrata o poder da ideologia de uma classe sobre a outra, porém essa dominação não é explicita para todos, neste caso, esbarra-se na questão da alienação.
            Para entender o termo alienação, voltar-se-á a filosofia grega, pois esta elaborou a teoria da causalidade, que explicava o movimento e as alterações da realidade social. Segundo Chauí (1994) essa explicação advinha de quatro causas, sendo: a material, a formal, a motriz ou eficiente e a final. Essas quatro causas não possuem o mesmo valor, e são dispostas numa relação de hierarquização, sendo em questão de valor de importância, da causa eficiente à causa final.
            As quatro causas representam as mudanças, tanto qualitativas quanto quantitativas de um corpo, desde a locomoção a geração de novos corpos. O homem sempre procurou explicar suas transformações, e nessa procura, tentam compreender sua própria história, através da sua vida individual e social, estudando as relações existentes com a natureza e o sobrenatural. Chauí aponta que essas relações produzem representações, e que elas,

tenderão a esconder dos homens o modo real como suas relações sociais foram produzidas e a origem das formas sociais de exploração econômica e de dominação política. Esse ocultamento da realidade social chama-se ideologia. Por seu intermédio, os homens legitimam as condições sociais de exploração e de dominação, fazendo com que pareçam verdadeiras e justas. (CHAUÍ, 1994, p. 21).

            Sob essa visão, é fácil aceitar que cada um possui o que é justo para ele possuir. Em outras palavras, o indivíduo não enxerga seu verdadeiro papel enquanto ser social e produtor, e ainda não se reconhece no processo de produção de seu próprio trabalho. Veja, Chauí (1994) aponta que Marx considerava o não reconhecimento da força de trabalho como alienação.
            O indivíduo está alienado quando não reconhece em seu trabalho a causa formal e a causa eficiente, vendo apenas a causa material e a final, como sendo um resultado, não do seu trabalho, mas como um poder separado do seu e que, ameaça-o e domina-o. Para sintetizar esse conceito:

O trabalho alienado é aquele no qual o produtor não pode reconhecer-se no produto de seu trabalho, porque as condições desse trabalho, suas finalidades reais e seu valor não dependem do próprio trabalhador, mas do proprietário das condições do trabalho. (CHAUÍ, 1994, p. 55).

            A partir dessa concepção de alienação, pode-se dizer que o poema Eu, Etiqueta, relata sobre a alienação presente na sociedade brasileira. Pois, o indivíduo que não se reconhece frente aos produtos que usa, está alienado, e essa alienação é causada pelas ideologias da classe dominante, que detém os meios de produção e, portanto faz com que esses indivíduos não se reconheçam frente aos produtos que os rodeiam. Assim, o capital e os modos de produção separam os trabalhadores da realização de sua força de trabalho. Muitos dos que produzem as calças com os nomes que não são os seus, não possuem capacidade de comprá-las, justamente por causa da separação que resulta em dominação.
            A alienação não permite que o real seja visto como ele é, e sim como um aparato de coisas, e essas coisas são oferecidas a nossa percepção como se fosse a própria realidade. Geralmente, as coisas tornam-se propriedades privadas, e essas propriedades privadas transformam a coisa em capital, ou seja, o indivíduo que está alienado, que não se reconhece no produto final, resultante de seu trabalho, e o seu próprio trabalho se torna uma coisa, denominada por Marx de força de trabalho, que é explorada por outros para se obter lucros (capital).
            Essa força de trabalho resulta em outro conceito de Marx, que é o fetichismo, em poucas palavras, é à força de trabalho do homem se transformando em mercadoria. Para entender melhor, “a mercadoria será considerada a forma mais simples e mais abstrata do modo de produção capitalista” (CHAUÍ, 1994, p. 48). Como modo de produção a mercadoria tem por finalidade gerar lucros e/ou capital, mas não é tão simples quanto parece a primeira vista, a mercadoria não é apenas “uma “coisa”, mais um valor”, e esse valor pode ser entendido de duas formas, valor de uso e valor de troca, como valor de uso “parece valer por sua utilidade” e como valor de troca, “parece valer por seu preço de mercado” (CHAUÍ, 1994, p. 49).
            O fetichismo ao criar a alienação, não deixando o indivíduo reconhecer na mercadoria sua força de trabalho, que ainda é mencionada por Chauí (1994) como força de trabalho não paga, também apaga a possível visualização do processo de coisificação.  
            Esse processo, também conhecido como reificação, é muito bem utilizado por Drummond, pois o fechamento do poema se dá:
“Meu nome é a coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.”

            O poeta consegue realizar uma crítica acerca das relações sociais, tão bem fundada, que reproduz conceitos de grandes pensadores em poesia, sem perder a maestria no compasso das palavras que são regidas por uma realidade controlada por processos que pretendem dominar as pessoas. Complementando as citações anteriores:

A alienação, reificação, fetichismo: é esse processo fantástico no qual as atividades humanas começam a se realizar como se fossem autônomas ou independentes dos homens e passam a dirigir e comandar a vida dos homens, sem que estes possam controlá-las. (CHAUÍ, 1994, p. 58)

            Portanto, de forma sutil o poema fala de alienação, de reificação e de fetichismo, pois retrata, o não reconhecimento de um indivíduo como indivíduo que produz com sua força de trabalho o que consome.

4 Ideologia do cotidiano e ideologia oficial


            É muito importante estabelecer certo entendimento para o termo ideologia, mas o fundamental para este trabalho, é conseguir mostrar o papel que este termo tem no pensamento Bakhtin.
            Para o pensador russo, as quatro causas não é a melhor resposta para a questão de como a infra-estrutura determina a ideologia, para ele, “sempre que se coloca a questão de saber como a infra-estrutura determina a ideologia, encontramos a seguinte resposta que, embora justa, mostra-se por demais genérica e por isso ambígua: “a causalidade”.” (BAKHTIN, 1999, p. 39). A ideologia é um conjunto único e indivisível cujos elementos, sem exceção, reagem às transformações da infra-estrutura, assim de forma dialética, vê-se que ele não entende ideologia como algo pronto e acabado.
            Para ficar mais claro, devido à utilização neste tópico dos termos, infra-estrutura e superestrutura, grosso modo, entender-se-á pelo primeiro, de forma dialética, como modo de produção (a palavra não pode ser vista como infra-estrutura). Já o segundo, deve ser visto como: a economia, o estado, a linguagem, a arte, entre outros.
            Após o amparo dessa explicação, ver-se-á que o material semiótico visualizado nos signos, deve ter sua especificidade estudada não somente como referência ao seu valor denotativo racional, sem mediar às relações entre as estruturas, veja, o problema da relação recíproca entre infra-estrutura e a superestrutura, para Bakhtin (1999) deve ser esclarecida pelo estudo do material verbal. A questão então é saber como a infra-estrutura (realidade) determina o signo, e como o signo reflete e refrata a realidade em transformação.
            Dessa maneira, as relações sociais, como a interação social e verbal, estabelecem os processos dialéticos do signo, que para Bakhtin (1999) correspondem: a- não separar a ideologia da realidade material do signo (não colocar na consciência); b- não dissociar o signo das formas concretas da comunicação social (fora disso ele é objeto físico); c- não dissociar a comunicação e suas formas de sua base material (infra-estrutura).
            Muito se fala de ideologia neste trabalho, porém ainda não foi realizada nenhuma definição do que vem a ser ideologia, falou-se de vários aspectos que envolvem a ideologia, mas nenhum explicativo a esse termo. Portanto, agora se dará uma breve explanação, visto a importância do entendimento desta questão dentro deste estudo.
            Chauí (1994) aponta que Marx e Engels consideravam a alienação como forma inicial da consciência, e que a divisão social do trabalho se tornava completa quando havia a separação entre trabalho material e espiritual, e que somente como essa divisão a consciência podia representar algo sem ser algo real. Assim, para eles nascia a ideologia, isto é,

o sistema ordenado de idéias ou representações e das normas e regras como algo separado e independente das condições materiais, visto que seus produtores – os teóricos, os ideólogos, os intelectuais – não estão diretamente vinculados à produção material das condições de existência. (CHAUÍ, 1994, p. 65).

            Em outras palavras se pode dizer segundo essa citação – dominação de uma classe sobre a outra, que resulta na contradição –, a autora ainda cita que em termos de materialismo histórico dialético era impossível compreender a origem e as funções da ideologia sem compreender as lutas de classes, pois “a ideologia é um dos instrumentos da dominação de classe e uma das formas de luta de classes” (CHAUÍ, 1994, p. 86). A ideologia na luta de classes, para os materialistas, além de ser objetivamente possível por causa da alienação, tem o papel de ocultar a verdade, ou seja, ocultar a dominação real, por esses fatos, eles acreditam que ela deve ser destruída. A grande função da ideologia é impedir que a classe dominada se revolte contra a que domina, assim, a classe que está no poder cria mecanismos para legitimar sua dominação, por exemplo, o Estado, que segundo a autora, mostra que as leis, representam as vontades de todos, legitimando seu poder como justo e bom.
            A partir dessa visão, a ideologia é a transformação das idéias da classe que domina em idéias de todas as classes, ora quem tem o poder de controlar o Estado, a Economia, a Política, tem o poder de dominar as classes sociais. E quando as idéias de uma classe são absorvidas por outras, tem-se a criação de universais abstratos. A ideologia para o materialismo dialético é uma ilusão, porém não pode ser considerada a termos como: ficção, fantasia, erro, falsidade, e etc. Ela deve ser entendida por abstração e inversão. Assim, abstração

é o conhecimento de uma realidade tal como se oferece à nossa experiência imediata, como algo dado, feito e acabado que apenas classificamos, ordenamos e sistematizamos, sem nunca indagar como tal realidade foi concretamente produzida. (CHAUÍ, 1994, p. 104).

            Dessa maneira, pode-se entender que uma realidade existe porque foi construída por um sistema determinado de condições de dominação, que não se deixa visualizar e indagar pela classe que é dominada. A partir disso, tem-se a inversão que “é tomar o resultado de um processo como se fosse seu começo, tomar os efeitos pelas causas, as conseqüências pelas premissas, o determinado pelo determinante” (CHAUÍ, 1994, p. 104).
            A abstração não deixa que se visualize a realidade como ela realmente é, e a inversão faz com se aceite as situações pelas causas erradas. A ideologia deixa a base da realidade invertida, ou seja, de ponta-cabeça, esse fato pode ser visualizado no que os materialistas chamam de aparência social.
            O poema Eu, Etiqueta relata em seus versos, abstração e inversão. Abstração, no caso do locutor (autor) não se reconhecer em si mesmo, e inversão quando se reconhece e aceita como anúncio.
            A leitura desse texto mostra outras relações de abstração e inversão, fato que o condicionou a compor este estudo, visto a riqueza na demonstração das questões abordadas aqui. Mas, para fazer uma análise mais coerente, devem ser buscadas outras definições para ideologia.
            Então, entrar-se-á na obra de Eagleton, que indica 16 formas variadas de significação para esse termo. Porém, não se versará sobre todas. Para iniciar, Eagleton exemplifica que ideologia não é um fato rígido e fixo, preso as idéias de uma dada classe, para tanto cita uma conversa cotidiana, mostrando como se pode entender uma significação ideológica, pois ao explicar, revela que falar ou avaliar ideologicamente uma conversa corriqueira de maneira esquemática é ter uma visão simplista do mundo. A partir disso surge à questão, que se tudo que chamamos de ideológico é racionalista. Uma definição que se pode chegar a respeito da ideologia, é que ela não é um conjunto de idéias e normas fixas, pois nem todo conjunto de idéias e normas fixas é ideológico. Veja, o exemplo utilizado por Eagleton para tal afirmação:

posso ter convicções bastantes inflexíveis com respeito a como escovar meus dentes, submetendo cada um deles, individualmente, a um número exato de escovações  e preferindo sempre escovas cor-de-malva, mas, na maioria dos casos, seria estranho qualificar tais opiniões de ideológicas (1997, p. 17).

            O autor se refere a essa citação como patológica, explicando que para ser possível uma adequação ideológica, seria necessário dizer que é preciso “escovar os dentes porque se os ingleses não se mantiverem saudáveis os soviéticos dominarão nossa nação débil e desdentada” (1997, p. 17). Dessa maneira, seria ideologicamente motivado por um comportamento, que se refere não apenas para um sistema de crenças, mas também a questões acerca do poder.
            Geralmente, pode-se entender que a ideologia serve como instrumento de legitimação do poder de uma classe sobre a outra, resultando numa “mistificação” que pode ser vista como uma camuflagem ou repressão dos conflitos sociais, dando origem ao conceito de ideologia como uma resolução imaginária (acima das relações de poder) de contradições existentes entre as classes.
            Essa concepção, segundo Eagleton, “apresenta pelo menos dois grandes problemas”, em primeiro lugar, “nem todo corpo de crenças normalmente denominado ideológico está associado a um poder político dominante” (EAGLETON, 1997, p. 19), em segundo, que uma teoria não poderia abranger tudo, pois perderia seu valor, assim,

para que um termo tenha significado, é preciso que se possa especificar o que, em determinadas circunstâncias, seria considerado o outro dele – o que não significa, necessariamente, especificar algo que seja sempre e em qualquer parte o outro dele. (...) então a palavra ideologia deixa de particularizar algo e perde totalmente sua capacidade de informar – da mesma forma que se cada amostra do comportamento humano, seja ela qual for, inclusive a tortura, fosse considerada um exemplo de compaixão, a palavra compaixão se reduziria a um significante vazio. (EAGLETON, 1997, p. 20).

            Então, todo corpo de crenças e idéias não podem ser totalmente fixos e rígidos, e não representam necessariamente os grupos que estão no poder, para ser ideológico segundo esta última concepção, o significado deve especificar o outro dele. Portanto, vê-se que nem tudo pode ser encarado como ideológico. Pode-se dizer aqui, que a idéia central do poema Eu, Etiqueta, não precisa ser vista como um simples relato da ideologia dominante, e sim como uma ideologia do poeta. O fato importante a se retirar dessa concepção de ideologia, é que ela mostra outra visão a respeito do termo, deixando claro, que não há somente um lado da moeda.
            Outra definição pertinente de ideologia, apontada por Eagleton (1997), é a de Althusser na questão de “relações vivenciadas”, onde esse diz que a ideologia é uma organização específica de práticas significantes que vão constituir os seres humanos como sujeitos sociais e que produzem as relações vivenciadas mediante as quais sujeitos vinculam-se às relações de produção dominantes em uma sociedade, portanto, essa explicação de ideologia faz menção à nossa relação afetiva e inconsciente com o mundo.
            Segundo Eagleton (1997), pode-se ainda definir a ideologia de seis maneiras diferentes. Grosso modo, primeiramente, pode-se referir a ela como um processo material geral de produção de idéias, crenças e valores na vida social; um segundo significado, remete-a para crenças que simbolizam as condições e experiências de vida de um grupo ou classe específica; em terceiro, tratar da promoção e legitimação dos interesses de tais grupos sociais em face de interesses opostos; em quarto, uma ênfase na promoção e legitimação de interesses setoriais, restringindo-a, porém, às atividades de um poder social dominante; em quinto, significa que as idéias e crenças que ajudam a legitimar os interesses de um grupo ou classe dominante, mediante, sobretudo a distorção e a dissimulação; e por último, cuja ênfase de significado recai sobre as crenças falsas ou ilusórias, considerando-as, porém oriundas não dos interesses de uma classe dominante, mas da estrutura material do conjunto da sociedade como um todo.
            Agora, após a apresentação dessas definições, levanta-se a questão, qual é a posição de Bakhtin sobre ideologia? Para tentar responder essa pergunta, procurou-se apoio no texto Ideologia de Valdemir Miotello, onde é apontada a existência de duas formas de ideologia para os marxistas, sendo uma a “ideologia oficial” e a outra “ideologia do cotidiano”. Segundo esse autor, Bakhtin e seu círculo puderam estabelecer, bem a seu gosto, uma relação dialética entre essa duas formas:

De um lado, a ideologia oficial, como estrutura ou conteúdo, relativamente estável; de outro, a ideologia do cotidiano, como acontecimento, relativamente instável; e ambas formando o contexto ideológico completo e único, em relação recíproca, sem perder de vista o processo global de produção e reprodução social. (MIOTELLO, 2008, p. 169).

            O ponto que se deve fixar, é que para compreender as relações sociais e ideológicas em Bakhtin, é necessário entendê-las de forma dialética e não causal. Essa concepção de ideologia, dividida em dois pólos (estáveis e instáveis), é a maneira ideal encontrada pelo pensador russo para criar uma conexão de estudo entre ideologia e o estudo da linguagem.
            Para Bakhtin (1999), a ideologia é o material social particular dos signos, e os signos por sua vez, só podem aparecer num terreno interindividual, e devem estar socialmente ligados, pertencentes a um mesmo grupo. E, a partir desse grupo, pode-se ver a comunicação cotidiana, que não pode ser vinculada a nenhuma esfera ideológica particular. A comunicação cotidiana representa a ideologia do cotidiano, que tem como material mais privilegiado de sua comunicação à palavra, e esta por sua vez, está sempre ligada ao ato ideológico. Isso não significa que ela não possa ser substituída, existem signos que não podem ser exprimidos por palavras de modo adequado, alguns exemplos citados por Bakhtin remetem à composição musical e a representação pictórica. 
            A ideologia do cotidiano deve ser vista como encontros causais, acontecimentos dispersos e rotineiros no conjunto de comunicação social, nascendo como forma primaria de ideologia, onde a “mudança se dá de forma lenta, visto que os signos estão diretamente em contato com os acontecimentos socioeconômicos” (MIOTTELLO, 2008, p. 173). Já a ideologia oficial, pode ser observada como um sistema especializado de ideologia, onde circulam conteúdos como a moral, a arte, o direito, a religião, e etc. A ideologia oficial exerce forte influência no jogo social, “por ser o sistema de referência constituído e apossado pela classe dominante” (MIOTTELO, 2008, p. 174).
            Nesse sentido, a ideologia sempre será vista como um sistema de representação da sociedade, sendo do cotidiano ou oficial, constituída das interações existentes entre grupos sociais. Assim, reportando ao início do trabalho, pode-se dizer que na ideologia do cotidiano, há a construção de um enunciado simples e primário, de onde surgem signos que representam uma ideologia. E que esse enunciado junto de seus signos, ao se transformar em outros enunciados, complexos e secundários, perde sua natureza com a realidade existente, refletindo e refratando uma outra realidade, agora composicional de uma ideologia oficial.

Considerações finais


            O fato ao qual se quer depreender por meio desta pesquisa, é a influência que enunciados, signos e ideologia exercem sobre a interação social. Através dos conceitos apresentados, busca-se criar um campo de entendimento, onde seja possível assimilar o máximo do pensamento de Bakhtin a respeito desses termos.
            Para fechar, é importante dizer que o poema Eu, Etiqueta é um enunciado concreto, com uma enunciação poética que sintetiza um momento histórico, onde o poeta mostra as relações existentes da sociedade em que vive propiciando uma interação com os destinatários do seu discurso, pois a enunciação deste poema como expressão semiótica se destina a duas orientações, uma, “em direção ao sujeito”, e a outra, a partir dele “em direção a ideologia” (BAKHTIN, 1999, p. 60). E que, a palavra por ser o material semiótico privilegiado, comporta duas faces, ela parte de alguém para um outro e esse fato produz o produto da interação verbal.
            O signo por sua vez, é criado por uma função ideológica precisa e permanece inseparável dela. A palavra ao contrário, é neutra a qualquer função ideológica específica. Por isso ela pode preencher qualquer função ideológica: estética, científica, religiosa, etc. Bakhtin (1999) apontava que a base de estudo marxista enquanto método sociológico deve partir do estudo da palavra por uma filosofia da linguagem concebida como filosofia do signo ideológico.
            Portanto, pode-se dizer também que o poema Eu, Etiqueta é um enunciado, complexo e secundário, por estar contido em uma obra destinada à leitura. Os signos criados pelo poeta refletem e refratam uma realidade, e no processo de leitura, esses signos tornam-se outros signos, refletindo e refratando outras realidades. E como toda obra, a enunciação deste poema se destina a uma resposta, a uma compreensão responsiva que é esperada pelo autor.
            As mensagens publicitárias, as estampas de produtos, os próprios produtos, a linguagem utilizada, a língua (seja qual for), os imperativos, tudo que o poeta cita como objetos, na verdade, são signos, que se oferecem “como signos dos outros”, ora, todas as mensagens que as pessoas portam em seus objetos pessoais, trazem em si a mesma característica, são signos que as pessoas veiculam sem estar ganhando para anunciar, e como todo signo, possui um significado que remete a algo fora de si mesmo, assim, pode-se perceber que o que está sendo veiculado nessas mensagens, por se tratar de signos, nada mais é do que ideologia.

Referências


ANDRADE, Carlos Drummond. Corpo. Rio de Janeiro: Record, 1984.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
____________. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1999.
CHAUÍ, Marilena S. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1994.
EAGLETON, Terry. Ideologia. São Paulo: Edunesp/Boitempo, 1997.
MIOTELLO, Valdemir. Ideologia. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: Conceitos-Chave. São Paulo: Contexto, 2008.

LIBERDADE: RAZÃO E AUTONOMIA

Material Didático para a Sexta Série
Por Anderson Alves Esteves
LIBERDADE: RAZÃO E AUTONOMIA
“Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado”
Immanuel Kant
1 – O problema da escolha sem autonomia em nossa sociedade.
Sabemos que a liberdade, como apontou Sartre, expressa-se na escolha que fazemos durante todo o tempo. Porém, talvez as escolhas que estamos fazendo estejam corrompidas, talvez estejamos agindo sob influência de interesses que não são verdadeiramente nossos. Vejamos a música abaixo para situarmos melhor o problema que expomos:
Admirável Chip Novo Pitty
Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluido em lugar de articulação
Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado,
Mas lá vem eles novamente e eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste e viva

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga…
Não senhor, Sim senhor, Não senhor, Sim senhor

Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluido em lugar de articulação
Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado,
Mas lá vem eles novamente e eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste e viva

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga…
Não senhor, Sim senhor, Não senhor, Sim senhor

Mas lá vem eles novamente e eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema
PITTY. Admirável chip novo, 2003.
O refrão da música compõe-se de imperativos que nos são ininterruptamente transmitidos pela televisão, pelo rádio, pela internet, pelos jornais, pelas revistas, pelos outdoors, por religiões e até pelos nossos amigos. Embora possamos passar a vida sem perceber, escolhemos entre roubas da marca A ou B, refrigerante A ou B; carro A ou B, eletrodoméstico A ou B, deus A ou B. É verdade que há uma escolha, é verdade que podemos escolher por A e não por B; porém, é verdade também que muitas vezes agimos influenciados sobre os imperativos que nos foram transmitidos.
A música expressa que as escolhas que fazemos podem estar corrompidas pelo consumismo contemporâneo, expressa que fazemos escolhas influenciadas por falsas necessidades, por interesses exteriores a nós mesmos. Isto é, a comparação feita pela música, entre nós e os robôs, retrata justamente o modo como somos “programados” a realizar escolhas que beneficiam interesses que não são necessariamente os nossos, a escolher coisas que não precisamos, a fazer coisas que podem até estar contrárias a nossos interesses. E ainda podemos aceitar estas coisas de bom grado: “Não senhor, Sim senhor, Não senhor, Sim senhor”. Caso não gostemos e fazemos algo contrário aos imperativos que nos foram transmitidos, a música mostra a saída que é usada para tudo continuar do modo como está: “Lá vem eles novamente e eu sei o que vão fazer: reinstalar o sistema”.
Portanto, o problema da liberdade em nossa sociedade é ainda um problema não resolvido, trataremos neste período justamente das escolhas que fazemos e que podem ainda não serem suficientes para sermos livres. Segundo a música, em cada um de nós é como se houvesse um chip, como se não fôssemos livres.
VAMOS FILOSOFAR…
1 – Quais são os imperativos que a música demonstra que nos são impostos ininterruptamente?






2 – Ao escolhermos um produto de uma marca, e não de outra, após sermos convencidos por uma propaganda, somos livres? Explique.






3 – Explique como a música, ao comparar-nos com robôs, mostra que não somos livres.






4 – Você já foi influenciado por propagandas a adquirir algo que não tinha muita necessidade? Exemplifique e explique como sua liberdade foi afetada.






5 – Desenhe um exemplo de propaganda que influencia as pessoas e, assim, afeta a liberdade delas.
2 – Ousar pensar: a saída de Voltaire para o problema da escolha sem autonomia em nossa sociedade.
Voltaire, filósofo francês que viveu entre 1694 e 1778, tentou encontrar uma solução para o problema que estamos discutindo, embora, seja evidente, em um contexto diferente. No Dicionário filosófico, ele escreveu um verbete intitulado “Liberdade de Pensamento”, expondo um conflito entre um general inglês (Boldmind) e um funcionário da Inquisição na Espanha (Medroso). Deste conflito, Voltaire indicou o caminho para escolhermos sem seguir interesses que não são verdadeiramente nossos. Vamos acompanhar o diálogo para encontrar esse caminho:
Liberdade de pensamento
“Boldmind: Sois, portanto, sargento dos dominicanos? Exerceis um bem vil ofício.
Medroso: É verdade; mas gostei mais de ser criado deles do que ser vítima e preferi a desgraça de queimar o meu próximo à de ser eu próprio cozido.
Boldmind: Que horrível alternativa! Éreis cem vezes mais felizes sob o jugo dos mouros que vos deixaram estagnar livremente no meio das vossas superstições e que, embora vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a ferros.
Medroso: Que quereis? Não nos é permitido escrever, nem falar, nem mesmo pensar. Se falamos, torna-se fácil interpretar as nossas palavras e mais ainda os nossos escritos. Enfim, como não podem condenar-nos a um auto-de-fé pelos nossos pensamentos secretos, ameaçam-nos de sermos eternamente queimados por ordem do próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. Persuadiram o governo que se possuíssemos o senso comum todo o Estado ficaria em combustão e a nação tornar-se-ia a mais desgraçada da Terra.
Boldmind: Achais que somos assim desgraçados, nós, ingleses, que cobrimos os mares com os nossos barcos e viemos ganhar para vós batalhas nos confins da Europa? Vede os holandeses que vos desapossaram de quase todas as vossas descobertas na Índia e hoje se enfileiram entre os vossos protetores: pensais que sejam malditos de Deus por haverem concedido inteira liberdade à imprensa e por fazerem o comércio dos pensamentos humanos? Foi menos poderoso o império romano por Cícero haver escrito com liberdade?
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem; não se trata aqui de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.
Boldmind: Não cabe a vós acreditá-lo, pois estais seguro que a vossa religião é divina e que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Se assim é, nada poderá destruí-la.
Medroso: Não, mas pode ser reduzida a pouca coisa. E foi por terem pensado que a Suécia, a Dinamarca, toda a vossa ilha e metade da Alemanha gemem na pavorosa desgraça de não mais serem súditos do papa. Diz-se mesmo que se os homens continuassem a guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por ater à simples adoração de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno prevalecerem até esse ponto, em que se tornará o Santo Ofício?
Boldmind: Se os primeiros cristãos não tivessem a liberdade de pensar, não é verdade que não existiria cristianismo?
Medroso: Que quereis dizer? Não vos entendo?
Boldmind: Acredito. Quero dizer que se Tibério e os primeiros imperadores dispusessem de dominicanos que houvessem impedido os primeiros cristãos de usar penas e tinta; se durante tanto tempo não tivesse sido permitido pensar livremente no império romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos estabelecer os seus dogmas. Portanto, se o cristianismo só se formou pela liberdade de pensamento, por que contradição, por que injustiça desejaria aniquilar hoje essa liberdade sobre a qual está fundado?
Quando vos propõem algum negócio interessante, não o examinais demoradamente, antes de o concluirdes? Haverá no mundo maior interesse que o da nossa felicidade ou eterna desgraça? Existem sobre a Terra cem religiões e todas vos condenam à danação por acreditares nos vossos dogmas, que essas religiões consideram absurdos e ímpios; examinai, portanto, esses dogmas.
Medroso: Como posso examiná-lo? Não sou dominicano.
Boldmind: Sois homem e isso basta.
Medroso: Ai de mim! Sois bem mais homem que eu.
Boldmind: A vós apenas cabe aprender a pensar; haveis nascido com espírito; sois uma ave na gaiola da Inquisição; o Santo Ofício aparou-vos as asas mas elas podem voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la; qualquer homem pode instruir-se: é vergonhoso que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais não se confiaria o dinheiro. Ousai pensar por vós mesmo.
Medroso: Há quem diga que, se toda a gente pensasse por si, a confusão seria prodigiosa.
Boldmind: Pelo contrário. Quando assistimos a um espetáculo, cada qual dá livremente a sua opinião e a paz não é perturbada; se, porém, algum insolente, protetor de algum mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de gosto a considerarem bom o que lhes parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se com maçãs, como já aconteceu em Londres. São estes tiranos dos espíritos que causaram parte das desgraças do mundo. Na Inglaterra, só somos felizes desde que cada qual goze livremente o direito de exprimir a sua opinião (…)” [1] .
O problema que temos a resolver é: como fazer escolhas que reflitam o que realmente queremos, o que realmente necessitamos, sem sermos influenciados e manipulados por outrem? Voltaire, pela personagem Boldmind, indicou que estas escolhas precisam passar pelo critério do pensamento: trata-se de ousar pensar por nós mesmos, sem aderir a nenhum projeto sem antes examiná-lo com cuidado, sem entregar nossa alma seja a quem for.
Voltaire. Estátua de 1781, Museu de São Petesburgo.
VAMOS FILOSOFAR…
1 – Qual é o problema relativo à liberdade a ser resolvido em nossa sociedade?






_
2 – Que tipo de trabalho a personagem Medroso realiza, segundo Voltaire no texto Liberdade de pensamento? Como esse trabalho é classificado pela personagem Boldmind?






3 – Existe liberdade de pensamento na Espanha sob a Inquisição? O que a personagem Medroso alega para defender o comportamento da Inquisição? Boldmind concorda com Medroso ?






4 – Para que a personagem Medroso se tornasse livre, Boldmind aconselhou: “A vós apenas cabe aprender a pensar; haveis nascido com espírito; sois uma ave na gaiola da Inquisição; o Santo Ofício aparou-vos as asas mas elas podem voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la; qualquer homem pode instruir-se: é vergonhoso que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais não se confiaria o dinheiro. Ousai pensar por vós mesmo”[2]. Explique qual deve ser o comportamento de Medroso para que ele seja livre.






5 – Como Voltaire resolveu a questão de fazermos escolhas sem sermos livres em nossa sociedade? Você concorda com a solução dele? Explique.






6 – Leia a letra da música abaixo e relacione-a com o texto de Voltaire para explicar se somos livres ao fazermos o que a televisão nos propõe.
Televisão Titãs

A televisão me deixou burro, muito burro demais
Agora todas coisas que eu penso me parecem iguais
O sorvete me deixou gripado pelo resto da vida
E agora toda noite quando deito é boa noite, querida.
Ô cride, fala pra mãe
Que eu nunca li num livro que um espirro fosse um vírus sem cura
Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura!
Ô cride, fala pra mãe !
A mãe diz pra eu fazer alguma coisa mas eu não faço nada
A luz do sol me incomoda, então deixo a cortina fechada
É que a televisão me deixou burro, muito burro demais
E agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais.
Ô cride, fala pra mãe
Que tudo que a antena captar meu coração captura
Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura!
Ô cride, fala pra mãe!


TITÃS. Televisão, 1985.








3 – Esclarecimento: a saída de Kant para o problema da escolha sem autonomia em nossa sociedade.
Kant (1724 – 1804) foi mais um filósofo que pensou nas condições de possibilidades da liberdade e, tal como Voltaire, preocupou-se em impedir que fôssemos manipulados por interesses exteriores aos nossos. Para isso, Kant aposta em um movimento do qual todos precisariam participar: trata-se de um esclarecimento que retiraria a humanidade da posição de menoridade.
Segundo Kant, encontramo-nos na posição de menoridade por não usarmos nosso entendimento da maneira que deveríamos; por covardia e preguiça, apenas orientamo-nos por razões alheias a nossa e, assim, damos origem a tutores que dizem o que devemos fazer sobre as mais variadas questões do dia-a-dia. Nosso erro, portanto, é preferir a orientação de outrem e não usarmos nosso entendimento com autonomia. Um bom exemplo desse erro é a música abaixo:
Pacato Cidadão Skank
Composição: Samuel Rosa E Chico Amaral
Ô pacato cidadão, te chamei a atenção
Não foi à toa, não
C\’est fini la utopia, mas a guerra todo dia
Dia a dia não
E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol

Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização

Ô pacato cidadão, te chamei a atenção
Não foi à toa, não
C\’est fini la utopia, mas a guerra todo dia
Dia a dia não
E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol

Pra que tanta TV, tanto tempo pra perder
Qualquer coisa que se queira saber querer
Tudo bem, dissipação de vez em quando é bão
Misturar o brasileiro com alemão

Pacato cidadão
Ô pacato da civilização

Ô pacato cidadão, te chamei a atenção
Não foi à toa, não
C\’est fini la utopia, mas a guerra todo dia
Dia a dia não
E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol

Pra que tanta sujeira nas ruas e nos rios
Qualquer coisa que se suje tem que limpar
Se você não gosta dele, diga logo a verdade
Sem perder a cabeça, perder a amizade

Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Ô pacato cidadão, te chamei a atenção
Não foi à toa, não
C\’est fini la utopia, mas a guerra todo dia
Dia a dia não
E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol

Consertar o rádio e o casamento é
Corre a felicidade no asfalto cinzento
Se abolir a escravidão do caboclo brasileiro
Numa mão educação, na outra dinheiro

Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização.
Kant Agimos como um “pacato cidadão” e somos nós mesmos os culpados da posição de menoridade em que nos encontramos. Se hoje estamos dominados por tutores, isso só aconteceu por não caminharmos com a autonomia da nossa razão. É assim que funciona o movimento proposto por Kant: deixar a pacatez de lado e pensarmos por nós mesmos sobre todas as questões que nos são pertinentes. Dessa forma, mesmo depois de alguns erros, aprenderíamos a caminhar sozinhos.
Ao invés da identificação cega com um líder político ou religioso, ao invés de seguir irrefletidamente algum órgão de imprensa, precisaríamos, no movimento proposto por Kant,
Immanuel Kant (1704-1804) pensarmos para adquirir um entendimento próprio e a partir daí, expor publicamente nossas idéias: precisaríamos espalhar nossas idéias ao nosso entorno, movimentando o uso autônomo da razão naqueles que estão vivendo conosco. Essa conduta é bem diferente da conduta do “pacato cidadão” da música, e não só é diferente, mas oposta.
Sairíamos da menoridade e findaríamos com os tutores se nós mesmos conduzirmo-nos nossas ações. Nossa liberdade constrói-se pelo uso autônomo da razão e pela sua publicidade (que aqui não deve ser entendida no sentido mercadológico, trata-se do uso público da razão). O movimento de Esclarecimento, proposto por Kant, e a ousadia de pensamento, proposta por Voltaire, encontram-se, então, na semelhança de seus objetivos e nos seus métodos: ambos anseiam a liberdade, ambos apostam na razão pra atingir este fim.
VAMOS FILOSOFAR…
1 – Kant e Voltaire têm um projeto parecido sobre a liberdade. Qual é esse projeto?






2 – Kant propõem um movimento para acabar com a posição de menoridade em que se encontra a humanidade. Explique:
a)      o que é menoridade?






b)      qual é o movimento proposto por Kant e como ele funcionaria?






3 – Relacione a idéia de “menoridade”, de Kant, com a expressão “pacato cidadão” da música do Skank e explique se, na sua cidade, as pessoas são livres.






4 – Segundo Kant, quais seriam as conseqüências para os tutores ao expormos nossas idéias publicamente?






5 – Kant e Voltaire têm um método em comum para alcançar a liberdade? Qual é ele e como funciona?






SUGESTÃO DE ATIVIDADES
A – TEXTO COMPLEMENTAR
Eu, etiqueta
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório
um nome… estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes, gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência, indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que incidência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem,
meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. O Corpo. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1984, pp. 85-87.
A partir do poema acima, relacione o texto de Voltaire estudado no curso: transformados em coisa, somos livres?
B – CINEMA
KantForrest Gump: Filme que acompanha a personagem Forest Gamp que adere a várias situações da história do século XX sem o uso autônomo da razão, como gostaria Kant.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Tradução de Flávio R. Kothe, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
KANT, Immanuel. Os Pensadores. Tradução de Valério Rohden, Tânia Maria Bernkopf, Paulo Quintela, Fubens Rodrigues Torres Filho, São Paulo: Abril Cultural, 1° edição, 1974.
_____.Crítica da razão pura. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 4° edição, 1997.
_____. Textos seletos. Tradução de Floriano de Sousa Fernandes, Petrópolis: Vozes, 2° edição, 1985.
TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Ensaios de Filosofia Ilustrada, São Paulo: Brasiliense, 1987.
VOLTAIRE. Os Pensadores. Tradução de Marilena Chauí, São Paulo: Abril Cultural, 1° edição, 1973.


[1] VOLTAIRE. “Liberdade de pensamento” in Os pensadores. Tradução de Bruno da Ponte e João Lopes Alves, São Paulo: Abril Cultural, 1° edição, 1973, pp. 244-246.
[2] VOLTAIRE. Op cit., p. 246.
Fonte: http://www.consciencia.org/