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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

‘‘A nossa troika está aqui. A nossa Alemanha está aqui dentro. Não está fora" Entrevista com Luiz Gonzaga Belluzzo

‘‘A nossa troika está aqui. A nossa Alemanha está aqui dentro. Não está fora" Entrevista com Luiz Gonzaga Belluzzo

A crise brasileira tem similaridade com a da Grécia, pela ideia de que o ajuste vai fazer com que seja restaurada a confiança dos investidores e a irrealidade da meta. Mas a nossa Alemanha está aqui dentro, representada pelo mercado financeiro, diz Luiz Gonzaga Belluzzo em entrevista à Marcia Pinheiro da revista Brasileiros, 27-08-2015.
Professor da Unicamp, sócio da FACAMP, da consultoria Una e da revista Carta Capital, Belluzzo diz que a presidenta Dilma Rousseff deveria ter negociado o ajuste fiscal – de resto, necessário – com os sindicatos e os movimentos sociais, que a reelegeram.
Infelizmente, não é o único problema. Para Belluzzo, a economia nacional tem vários “cadáveres”, que apareceram com mais contundência neste ano. A valorização do câmbio nos últimos 20 anos é um deles, o que provocou um processo de desindustrialização. Um segundo é o injusto sistema tributário. Nada menos do que 58% da receita dos impostos é paga pelas camadas de renda de até dois salários mínimos.
O economista defende uma total reestruturação nas empresas envolvidas na operação Lava Jato. A exemplo do que fizeram os Estados Unidos na crise das hipotecas, o governo deveria assumir as companhias, saneá-las e, posteriormente, vendê-las em leilões ou em operações de abertura de capital.
Eis a entrevista.
Por que a recessão no Brasil chegou com uma velocidade tão acentuada?
Temos algumas vulnerabilidades que se manifestaram agora. É preciso traçar a trajetória real do que aconteceu. Vamos voltar à reação da economia brasileira à crise de 2008. Foi muito rápida. O Brasil vinha em um ritmo de expansão, impulsionado pelo ciclo de commodities e pelo crescimento da economia mundial. Nossa economia cresceu com base no consumo. Naquele momento, entre 2004 e 2008, fomos muito bem, também amparados pelas políticas sociais e pelos reajustes reais do salário mínimo. Isso elevou o poder de compra de grande parte da população. E houve uma queda muito pronunciada dos preços dos bens duráveis, por conta da agressividade chinesa nas exportações, principalmente os eletroeletrônicos. Isso fez com que a renda real, sobretudo das pessoas que ascenderam economicamente, tivesse o auxílio dos preços relativos. Eu sempre dou o exemplo da televisão de tela plana.
Na Copa do Mundo de 2006, comprei uma de 42 polegadas por R$ 12 mil; hoje, custa R$ 2 mil. Além disso, veio a expansão do crédito consignado e a ampliação do crédito imobiliário, com o programa Minha Casa, Minha Vida. O cenário todo colaborou para o aumento do bem-estar das famílias. Conseguimos recuperar rapidamente o crédito em 2009. A crise era de contágio, uma vez que no Brasil não havia calote de hipoteca, como nos Estados Unidos. Mas, em 2011, o ciclo de consumo foi perdendo força.
Mas do ponto de vista fiscal a situação não foi se deteriorando?
A relação entre o crescimento do PIB e da renda é de 2,5 por um. Quando a economia desacelera, isso se reverte. Se olharmos os primeiros anos do governo Dilma, é muito claro que a receita e o superávit primário continuaram a crescer, mas em menor ritmo. Em 2015, o superávit já é negativo na ponta. Portanto, a desaceleração da economia abriu espaço para o desequilíbrio fiscal. Outro dia, li uma análise de uns economistas mais ortodoxos, que dizia que as políticas sociais não cabem no PIB. Até brinquei: vai ver que eles querem jogar os velhos do penhasco.
Quais são as maiores deficiências do Brasil?
Há vários cadáveres enterrados. O primeiro deles, que os conservadores não gostam de discutir, é a valorização do câmbio nos últimos 20 anos. Agora, por exemplo, o câmbio está desvalorizando. E muitos dizem que isso prejudica a inflação. O efeito é maior, dado o percentual de componentes importados dos produtos feitos no País, que é de 27%. O problema não começa quando se deixa o câmbio desvalorizar, mas quando permite que ele se valorize, porque há uma mudança total nas cadeias produtivas. O Brasil passou 30 anos se afastando das cadeias produtivas globais. Os conservadores dizem – e isso é binário: precisa abrir a economia. Foi o que fizeram no governo Fernando Henrique.
Quando Lula foi eleito, a taxa de câmbio se desvalorizou e o dólar foi a R$ 4, por medo do PT. Na média, ficou em R$ 3,58. Essa desvalorização foi acompanhada do ciclo de commodities. No fim de 2003 e início de 2004, a economia começou a crescer. Nós fomos muito bem em exportações de manufaturados. A Argentina cresceu 8% depois da crise da dívida de 2001/2002, o que elevou a demanda por produtos industrializados brasileiros. Havia superávit comercial de manufaturados e commodities. Em 2006/2007, a economia ainda estava bombando, mas esse efeito sobre a indústria foi se tornando menor, dada a política adotada pelo Antonio Palocci e seus agregados.
No ano passado, o déficit comercial da indústria foi de US$ 117 bilhões. O agronegócio segurou a balança. Mas agora, o superávit desse setor está menor. Aumentamos as quantidades exportadas, mas os preços caíram. O que estava programado? O Brasil iniciar investimentos em infraestrutura. O Brasil é um importador líquido. Tínhamos uma participação importante no comércio internacional, durante o governo dos militares, com programas como o BEFIEX (Concessão de Benefícios Fiscais e Programas Especiais de Exportação). Isso era coisa do Delfim Netto e do Roberto Campos. O Delfim era desenvolvimentista e o Campos era sem saber. Ele se dizia liberal, mas não era. A partir dos anos 1990, a curva da competitividade da indústria brasileira começa a declinar de uma maneira impressionante. No campeonato da indústria nacional, o Brasil caiu para a terceira divisão.
Quais são os outros cadáveres?
O segundo cadáver é o sistema fiscal e tributário brasileiro, que é dos mais regressivos do mundo. As alíquotas, que eram elevadíssimas após a Segunda Guerra, começaram a retroceder. Nos Estados Unidos, começaram a taxar menos os riscos, porque supostamente são eles que investem, o que foi um desastre. E as pessoas no Brasil continuam a repetir essa besteira. No nosso sistema, 58% da receita fiscal é extraída das camadas de renda de até dois salários mínimos. O curioso é que dividendo não paga imposto; nem na fonte, nem na declaração. É a mesma lógica americana. O dividendo pertence ao acionista e supõe-se que, se ele receber mais, vai investir. É uma tolice, porque precisamos proteger a empresa, e não os acionistas.
Portanto, nosso sistema fiscal é iníquo, além de ser muito sensível às flutuações da renda. Quando se fala em ajuste fiscal, eu penso: por que não temos um sistema tributário que taxe os mais ricos? Por que não taxar a renda, os ganhos de capital? Bill Clinton quando fez superávit, foi possível por cobrar imposto dos lucros em bolsa.
No caso brasileiro, o sistema é todo marcado pela desigualdade. Qual é a participação dos juros da dívida pública no PIB? É 8% e vai crescer. De 2007 a 2011, o País pagou um PIB de juros. É uma transferência de renda perversa. Isso tem muito a ver com o conservadorismo de uma fração da sociedade.
E a Operação Lava Jato?
Foi, como dizia o general Ernesto Geisel, a pá de cal. A operação produziu uma paralisia na economia. O programa de concessões de investimento público ficou danificado gravemente e a fuzilaria moralista acabou apavorando o governo, que ficou imobilizado. Ninguém quer ver livres as ações inidôneas das empresas. Mas é preciso separar as coisas. Parece que agora o juiz Sérgio Moro acertou, pois disse ser preciso fazer acordos de leniência. É necessário fazer uma reestruturação das empresas envolvidas, e fazer com que paguem multas pesadas, entregando as ações que têm para o governo, que eventualmente poderá revendê-las em leilões ou aberturas de capital. Nos Estados Unidos, isso foi feito com os bancos, como o Citibank, a General Motors e a Ford.
A presidenta Dilma Rousseff agiu acertadamente ao baixar a meta fiscal?
Eu tenho dois cachorrinhos: o Karl Marx e o John Maynard Keynes. Eles me falavam: esse ajuste fiscal não vai dar certo. É óbvio. A economia em 2014 já começou a desacelerar fortemente. Em cima disso, a equipe econômica fez uma série de cortes na boca do caixa. Simultaneamente, para colocar a inflação na meta, o Banco Central subiu os juros de maneira agressiva. A dívida pública cresceu 3,5% somente em junho. Eles dizem que a dívida em 2018 vai chegar a 66% do PIB; é uma conta bastante frágil. Porque o mercado já aponta que ela vai além de 70% ainda neste ano.
De alguma forma, a crise brasileira tem similaridade com o que acontece na Grécia?
Tem sim, pela ideia de que o ajuste vai fazer com que seja restaurada a confiança dos investidores e a irrealidade da meta. É uma falsificação da ideia de Keynes de confiança. O economista dizia que, para progredir, os empresários precisariam melhorar as condições de seus balanços. Mas o que vai acontecer é a piora dos balanços. Para os consumidores, a mensagem é: vocês correm o risco de ficar desempregados. A população, então, corta gastos. Como os empresários estão vendo isso, os setores de bens de consumo não investem. Os indivíduos olham uns aos outros e chegam à conclusão de que não vai dar certo.
Qual seria a alternativa a esse modelo para o Brasil?
A situação fiscal não era, de fato, das melhores. As pessoas não gostam de falar de capitalismo; elas fogem do conceito. Dilma foi eleita com o compromisso de manter as conquistas sociais. A crise fiscal hoje tem um fundamento político. A independência do econômico do político é ingênua e de má-fé. Mas o atual ajuste atinge setores e pessoas diferentemente. Se provoca o desemprego, quem paga é o sujeito que chega em casa e diz: perdi meu trabalho. Qual foi o erro fundamental? Não foi a necessidade de se fazer um rearranjo das contas públicas. Foi feito de cima para baixo, na base tecnocrática. O governo deveria ter consultado as bases sociais que votaram na presidenta. Ela foi eleita com 54% dos votos. E quem a escolheu? Foram os eleitores do Lula, das regiões mais pobres do Brasil, cuja vida melhorou muito; cidadãos que subiram na escala social com a valorização do salário mínimo e o Bolsa Família. Os sindicatos e os movimentos sociais deveriam ter sido consultados. A Dilma vai me perdoar, e eu gosto muito dela, mas tem uma visão tecnocrática da situação. Isso não deu certo em nenhum lugar do mundo. Nisso somos muito parecidos com a Grécia. Só que a nossa Alemanha está aqui dentro. Não está fora. A nossa Troika está aqui: é representada pelo mercado financeiro e pela visão truncada e míope de seus economistas.
Além de um ajuste mais criterioso, quais seriam medidas que conduziriam o País ao crescimento?
Tenho grande resistência em aceitar a dicotomia pessimismo/otimismo. Nós devemos ter esperança. Ou seja, todos vamos trabalhar para que as coisas deem certo. Temos de deixar o câmbio desvalorizar mesmo, para proteger a indústria brasileira e recuperar a capacidade de coordenação do Estado brasileiro dos investimentos de infraestrutura.
O senhor tem conversado com a presidenta Dilma?
Não. A última vez que conversei com ela foi em um almoço, junto com João Manuel Cardoso de Mello, em Campinas. Somos amigos dela. Mas isso não quer dizer que vamos concordar com o que ela está fazendo.
E com o Lula?
Com o Lula converso sempre. Ele sempre tem uma atitude muito positiva e criadora. Não se deixa abater, a despeito do que têm feito com ele. Isso de querer processá-lo por ter jantado com empresários, francamente! Eu gostei muito de uma entrevista com Ciro Gomes. Ele não tem medo e afirmou: “Ninguém vai dar golpe aqui, não! Nós vamos nos mobilizar”.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

Roubini, economista que previu a crise dos EUA, vê sinais de bolha no Brasil

Segundo o professor da New York University, cenário de elevados preços dos imóveis é visto também em outros emergentes e em economias avançadas como França, Alemanha e Reino Unido
Economista Nouriel Roubini, professor da New York University
Economista Nouriel Roubini, professor da New York University(Simon Dawson/Bloomberg/Getty Images/VEJA)
O economista e professor da New York University, Nouriel Roubini - conhecido por ser um dos especialistas a prever a crise financeira dos Estados Unidos de 2008 - escreveu num artigo no site Project Syndicate que as grandes cidades brasileiras mostram evidências de bolha imobiliária.
Roubini diz que, cinco anos depois de a crise financeira ter estourado nos EUA, sinais de "espuma, senão bolhas" estão reaparecendo nos mercados imobiliários de países como Suíça, Suécia, Noruega, Finlândia, França, Alemanha, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Grã-Bretanha. Entre os emergentes, além do Brasil, o especialista cita Hong Kong, Cingapura, China, Israel e grandes centros urbanos na Turquia, na Índia e na Indonésia.
O professor aponta como evidências de bolha o rápido aumento dos preços das moradias, principalmente ao compará-los com a evolução da renda e a forte participação da dívida hipotecária no endividamento das famílias nessas regiões.
Contudo, ao explicar o que está provocando o cenário de preços elevados nos mercados imobiliários, ele faz uma distinção entre os países emergentes e as economias mais avançadas. Para Roubini, o primeiro grupo tem esse cenário provocado pelas políticas de "afrouxamento quantitativo": taxas baixíssimas de juros, grande disponibilidade de dinheiro no mercado, em um momento em que a inflação e o crescimento são baixos também.
Já para os emergentes, o especialista faz uma distinção nos países que têm renda per capita mais elevada, como Hong Kong e Cingapura, a possível bolha se deve às taxas baixas de juros para evitar valorização das moedas locais. Já em países como Brasil, Turquia, Índia e Indonésia, ele cita os elevados patamares inflacionários.
Contudo, Roubini não acredita que essas bolhas vão estourar rapidamente. Segundo ele, trata-se de uma lenta repetição do que aconteceu com o mercado imobiliário recentemente. "E, como da última vez, quanto maiores as bolhas se tornarem, mais desagradável será a colisão com a realidade."
Roubini não é o primeiro a ver sinais de bolha no mercado imobiliário brasileiro. Recentemente, o economista e professor de Yale - também vencedor do prêmio Nobel de Economia 2013 -, Robert Shiller, disse ao site de VEJA que o país pode estar vivendo uma situação de bolha. Isso devido ao súbito aumento dos preços das moradias, principalmente em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Assim como Roubini, Shiller também foi um dos primeiros economistas a sinalizar a crise dos Estados Unidos.
Fonte: http://veja.abril.com.br/

 

2016 é o ano do “crash” nas bolsas, avisa o “Dr. Doom” Nouriel Roubini

Nouriel Roubini, o mediático economista que previu a crise financeira global, diz que os mercados estão a formar uma "bolha" que irá rebentar não em 2015 mas no ano seguinte, em 2016. É o "Dr. Doom".
O mediático Nouriel Roubini é conhecido por "Dr. Doom", pelas suas habituais previsões cataclísmicas. Em 2006, acertou.
As bolsas europeias estão perto dos níveis mais elevados dos últimos sete anos e, nos EUA, Wall Street passou quase todo o ano de 2014 a renovar máximos históricos consecutivos. Um dos economistas norte-americanos mais mediáticos, Nouriel Roubini, diz que está a formar-se a “mãe de todas das bolhas” nos mercados e que o colapso – que deverá acontecer, acredita, em 2016 – será tremendo.
Nouriel Roubini é conhecido por “Dr. Doom” pelas suas previsões habitualmente cataclísmicas para os mercados. A sua reputação cresceu, contudo, quando o economista alertou numa conferência do Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2006, que o mercado imobiliário nos EUA iria colapsar e que o país iria cair numa grave recessão que causaria ondas de choque em todo o mundo. Foi, na altura, ridicularizado por quase todos, mas a crise financeira de 2008 desenrolou-se de forma muito semelhante ao que tinha previsto.
Agora, o economista e professor da New York University (NYU) diz numa entrevista à Yahoo Finance que a “mãe de todas as bolhas nos preços dos ativos já começou” e que poderá ser mais grave do que aquela que antecedeu a crise financeira de 2008. E atira uma data para o colapso das bolsas: 2016.
Em que fase da “bolha” estamos? “Estamos mais ou menos no meio”, diz Roubini. “No próximo ano (2015) teremos crescimento económico e dinheiro barato, pelo que esta ‘espuma’ que vemos nos mercados ainda deverá continuar”. O economista refere-se à “espuma” como uma indicação de que os mercados estão a formar bolhas, alimentadas pela inflação baixa que existe nas economias desenvolvidas e pela política monetária agressiva dos bancos centrais, no sentido de comprimir as taxas de juro para mínimos históricos e injetar liquidez no mercado monetário.
O economista está particularmente preocupado com o mercado norte-americano, onde a bolsa sobe quase 40% no último ano, mas prevê um colapso que iria necessariamente alastrar-se aos outros ativos e regiões. As bolsas europeias também estão em máximos de vários anos, muito devido à expectativa de mais medidas de estímulo monetário por parte do Banco Central Europeu.
Os preços de vários ativos, desde as obrigações às ações, estão “demasiado esticados“, diz Nouriel Roubini. Em especial, as ações ligadas às redes sociais e Internet preocupam o economista. A certa altura, que o “Dr. Doom” diz que não será para já mas em 2016, os mercados vão ajustar-se muito rapidamente. “Eventualmente, todas as bolhas rebentam”, avisa Roubini.
O mercado imobiliário nos EUA não está em “bolha”, desta vez, mas há muitos países onde isso está a acontecer. Entre os países que, na opinião de Roubini, têm bolhas no imobiliário estão o Canadá, o Reino Unido, a Suécia, a Suíça e também em Hong Kong e Singapura.
Fonte: http://observador.pt/

Krugman: políticas atuais agravarão a crise

Krugman: políticas atuais agravarão a crise

"Na superfície, parece uma sucessão incomum de azares. Primeiro, o estouro da bolha imobiliária e a crise bancária desencadeada em consequência. Então, quando o pior parecia haver passado, a Europa mergulhou numa crise de dívidas e numa recessão em dois mergulhos. A Europa ao fim alcançou uma estabilidade precária e começou a crescer de novo – mas agora, assistimos a grandes problemas na China e em outros mercados emergentes, que haviam sido pilares de força. Contudo, não se trata de acidentes sem relação entre si. Estamos, na verdade, vivendo o que sempre ocorre quando muito dinheiro está em busca de poucas oportunidades de investimento". escreve Paul Krugman, em artigo publicado por Outras Palavras, 24-08-2015.
Eis o artigo.
Não culpe a China por novos terremotos financeiros. Fragilidade da economia global tem causas profundas. Resposta convencional – cortar gastos públicos e elevar juros – é a pior possível.
Que está causando as quedas abruptas das bolsas de valores? O que elas significam para o futuro? Ninguém tem muitas respostas.
Tentativas de explicar as oscilações diárias nos mercados são normalmente insanas: uma pesquisa em tempo real sobre o crash de 1987 da bolsa de Nova York não encontrou evidência alguma para nenhuma das explicações que os economistas e jornalistas ofereceram para o fato. Descobriram, ao invés disso, que as pessoas estavam vendendo ações porque – você adivinhou! – os preços caíam. E o mercado de ações é um péssimo guia sobre o futuro da economia. Paul Samuelson brincou, certa vez, que os mercados haviam previsto nove das cinco recessões anteriores, e nada havia mudado a este respeito…
De qualquer forma, os investidores estão claramente nervosos – e têm boas razões para isso. Nos EUA, as notícias econômicas mais recentes são boas (ainda que não ótimas), mas o mundo como um todo parece muito propenso a acidentes. Há sete anos, vivemos numa economia global que tropeça de crise em crise. Cada vez que uma parte do mundo finalmente parece colocar-se em pé, outra despenca. 
Mas por que a economia mundial continua capengando?
Na superfície, parece uma sucessão incomum de azares. Primeiro, o estouro da bolha imobiliária e a crise bancária desencadeada em consequência. Então, quando o pior parecia haver passado, a Europa mergulhou numa crise de dívidas e numa recessão em dois mergulhos. A Europa ao fim alcançou uma estabilidade precária e começou a crescer de novo – mas agora, assistimos a grandes problemas na China e em outros mercados emergentes, que haviam sido pilares de força.
Contudo, não se trata de acidentes sem relação entre si. Estamos, na verdade, vivendo o que sempre ocorre quando muito dinheiro está em busca de poucas oportunidades de investimento.
Mais de uma década atrás, Ben Bernanke, então o presidente do banco central dos EUA (FED), argumento que a disparada do déficit comercial norte-americano não era o resultado de fatores domésticos, mas de uma “abundância global de poupança”. Um volume de poupança muito maior que o de investimentos – na China e em outras nações em desenvolvimento, provocado em parte pelas políticas adotadas em reação à crise asiática dos anos 1990 – estava deslocando-se para os EUA, em busca de lucros. Ele alertou levemente para o fato de que o capital que entrava não estava sendo canalizado para investimentos produtivos, mas para imóveis. É calro que o alerta deveria ter sido muito mais forte (alguns de nós o fizemos). Mas a sugestão de que o boom imobiliário dos EUA era em parte causado por fraqueza em economias de outros países permanece válido.
É claro que o boom converteu-se numa bolha, que provocou enorme estrago ao estourar. E não foi o fim da história. Houve também uma inundação de capitais, da Alemanha e outros países do norte da Europa, para a Espanha, Portugal e Grécia. Isso também provocou a formação de uma bolha, cujo estouro, em 2009-2010 precipitou a crise do euro.
E ainda não acabou. Quando os EUA e a Europa deixaram de ser destinos atraentes para o capital [devido à redução das taxas de juro a quase zero], a abundância global saiu em busca de novas bolhas a inflar, levando moedas como o real brasileiro a altas insustentáveis. Não poderia durar e agora estamos em meio a uma crise de mercados emergentes que faz alguns observadores lembrarem-se da Ásia nos anos 1990 – lembre-se, onde tudo começou.
Portanto, para onde o fluxo cambiante da abundância aponta agora? Talvez, de novo para os EUA, onde um novo fluxo de capitais externos provoca a alta do dólar e pode tornar a indústria novamente não-competitiva.
O que provoca a abundância global? Provavelmente, uma soma de fatores. O crescimento populacional está arrefecendo em todo o mundo e, apesar de toda a fanfarra com as últimas tecnologias, elas não parecem criar nem um grande aumento de produtividade, nem demanda para investimentos. A ideologia da austeridade, que conduziu a um enfraquecimento sem precedentes dos gastos públicos, ampliou o problema. E a inflação baixa, em todo mundo, que significa taxas de juros baixas, mesmo quando as economias estão crescendo aceleradamente, reduziu o espaço para cortar estas taxas, quando as economias se contraem. Qualquer que seja o mix preciso das causas, o importante agora é que os governos assumam seriamente a possibilidade – eu diria probabilidade – de que excesso de poupança e fraqueza econômica global tenha se tornado a nova normalidade.
Minha percepção é de que há, hoje, uma profunda falta de vontade política, mesmo entre governantes sofisticados, para aceitar esta realidade. Em parte, é devido a interesses especiais: Wall Street e os mercados não gostam de ouvir que um mundo instável requer regulação financeira, e os políticos que desejam matar o estado de bem-estar social não querem ouvir que os gastos governamentais não são um problema, no cenário atual. 
Mas há também, estou convencido, uma espécie de preconceito emocional contra a própria noção de abundância global. Políticos e tecnocratas gostam de se enxergar como pessoas sérias, que tomam decisões difíceis – como cortar programas populares e elevar taxas de juros. Eles não querem ser informados de que estamos num mundo em que políticas aparentemente rigorosas irão tornar as coisas piores. Mas nós estamos, e elas vão.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/

domingo, 16 de março de 2014

O capitalismo global está destruindo a raça humana

Por Paul Craig Roberts (*)
Arquivo















A teoria econômica ensina que os movimentos financeiros a preços e lucros livres garantem que o capitalismo produz o maior bem-estar para o maior número de pessoas. Perdas indicam atividade econômica em que os custos excedem o valor da produção, de modo que investimentos nestas áreas devem ser restritos. Lucros indicam atividades em que o valor de produção excede o custo, que fazem o investimento crescer. Os preços indicam a escassez relativa e o valor das entradas e saídas, servindo assim para organizar a produção mais eficientemente.

Essa teoria nao é o que funciona quando o governo dos EUA socializa custos e privatiza lucros, como vem sendo feito com o apoio do Banco Central aos bancos “grandes demais para quebrarem” e quando um punhado de instituições financeiras concentram tamanha atividade econômica. Bancos “privados” subsidiados não são diferentes das outrora publicamente subsidiadas indústrias da Grã Bretanha, França, Itália e dos países então países comunistas. Os bancos impuseram os custos de sua incompetência, ganância e corrupção sobre os contribuintes.
 
Na verdade, as empresas socializadas na Inglaterra e na França eram dirigidas mais eficientemente, e nunca ameaçavam as economias nacionais, menos ainda o mundo inteiro de ruína, como os bancos privados dos EUA, os “grande demais para quebrar” o fazem.  Os ingleses, franceses e os comunistas nunca tiveram 1 bilhão de dólares anuais, para salvar um punhado de empresas financeiras corruptas e incompetentes.

Isso só ocorre no “capitalismo de livre mercado”, em que capitalsitas, com a aprovação da corrupta Suprema Corte dos EUA, pode comprar o governo, que os representa, e não o eleitorado. Assim, a tributação e o poder de criação de dinheiro do governo são usados para bancar poucas instituições financeiras às custas do resto do país. É isso o que significa “mercados autorregulados”.

Há muitos anos, Ralhp Gomery alertou que os danos para os trabalhadores estadunidenses dos empregos no exterior seria superado pela robótica. Gomery me disse que a propriedade de patentes tecnológicas é altamente concentrada e que as inovações tornaram os robôs cada vez mais humanos em suas capacidades. Consequentemente, a perspectiva para o emprego humano é sombria.

As palavras de Gomory reverberam em mim quando leio o informe da RT, de 15 de fevereiro último, com especialistas de Harvard que construíram máquinas móveis programadas com com termos lógicos de auto-organização e capazes de executarem tarefas complexas sem direção central ou controle remoto.


A RT não entende as implicações. Em vez de levantar uma bandeira vermelha, a RT se entusiasma: “as possibilidades são vastas. As máquinas podem ser feitas para construir qualquer estrutura tri-dimensional por si sós, e com mínima instrução. Mas o que é realmente impressionante é a sua capacidade de adaptação ao seu ambiente de trabalho e a cada um deles; para calcular perdas, reorganizar esforços e fazer ajustes. Já está claro que o desenvolvimento fará maravilhas para a humanidade no espaço, e em lugares de difícil acesso e em outras situações difíceis”.

Do modo como o mundo está organizado, sob poucos e imensamente poderosos e gananciosos interesses privados, a tecnologia nada fará pela humanidade. A tecnologia significa que os humanos não serão mais requeridos na força de trabalho e que os exércitos de robôs sem emoção tomarão o lugar dos exércitos humanos e não há qualquer remorso quanto a destruir os humanos que os desenvolveram. O quadro que emerge é mais ameaçador que as previsões de Alex Jones. Diante da pequena demanda por trabalho humano, muito poucos pensadores preveem que os ricos pretendem aniquilar a raça humana e viver num ambiente dentre poucos, servidos por seus robôs. Se essa história ainda não foi escrita como ficção científica, alguém deveria se dedicar a fazê-lo, antes que se torne algo comum da realidade.

Os cientistas de Harvard estão orgulhosos de sua conquista, assim como sem dúvida estavam os participantes do Projeto Manhattan, em relação à conquista por terem produzido uma arma nuclear. Mas o sucesso dos cientistas do Projeto Manhattan não foi muito bom para os residentes de Hiroshima e Nagasaki, e a perspectiva de uma guerra nuclear continua a lançar uma nuvem negra sobre o mundo.

A tecnologia de Harvard provará que é inimiga da raça humana. Esse resultado não é necessário, mas os ideólogos do livre mercado pensam que qualquer planejamento ou antecipação é uma interferência no mercado, que sempre sabe melhor (daí a atual crise financeira e econômica). A ideologia do livre mercado alia-se ao controle social e serve a interesses de curto prazo de gananciosos grupos privados. Em vez de ser usada para a humanidade, a tecnologia será usada para o lucro de um punhado.

Essa é a intenção, mas qual é a realidade? Como pode haver uma economia de consumo se não há emprego? Não pode, que é o que estamos aprendendo gradativamente com a exportação de empregos pelas corporações globais, para o exterior. Por um período limitado uma economia pode continuar a funcionar na base de empregos de meio turno, rebaixamento de salários, cartões de benefícios sociais – de segurança alimentar e auxílio-desemprego.

Quando a poupança cai, no entanto, quando os políticos sem coração que demonizam os pobres cortam esses benefícios, a economia deixa de produzir mercado para consumir os bens importados que as corporações trazem para vender.

Aqui vemos o fracasso total da mão invisível de Adam Smith. Cada corporação em busca de vantagens gerenciais maiores, determinadas pelos lucros obtidos em parte pela produção da destruição do mercado consumidor dos EUA e da miséria maior de todos.

A economia smithiana aplica-se a economias nas quais os capitalistas têm algum sentido de vida comum com outros cidadãos do país, como o tinha Henry Ford.
 
Algum tipo de pertencimento a um país ou a uma cidade. A globalização destrói esse sentido. O capitalismo evoluiu ao ponto em que os interesses econômicos mais poderosos, os interesses que controlam o próprio governo, não têm sentido de obrigação com o país nos quais seus negócios estão registrados. Fora as armas nucleares, o capitalismo é a maior ameaça que a humanidade já teve diante de si.

O capitalismo internacional levou a ganância a um patamar de força determinante da história. O capitalismo desregulado e dirigido pela ganância está destruindo as perspectivas de emprego no mundo desenvolvido e no mundo em desenvolvimento, cujas agriculturas se tornaram monoculturas para exportação a serviço dos capitalistas globais, para alimentarem a si mesmos. Quando vier a quebradeira, os capitalistas deixarão “a outra” humanidade à míngua.

Enquanto isso, os capitalistas declaram, em seus encontros de cúpula, “que há muita gente no mundo”.
 
 
(**) Tradução: Louise Antônia León


Fonte:http://www.cartamaior.com.br/

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A crise capitalista de 2007-2009. As interpretações marxistas. Entrevista especial com Alex Wilhans

“Enquanto o capitalismo houver, Marx será uma referência importante para a análise da economia”, assegura o pesquisador. 

Confira a entrevista. 
Ao revistar as teorias marxistas para compreender a causa e as consequências da crise financeira atual, Alex Wilhans Antonio Palludeto constata que é “difícil acreditar que o sistema capitalista está para acabar”. Autor da dissertação de mestrado intitulada Crise e capitalismo contemporâneo: uma revisão das interpretações marxistas da grande recessão (2007-2009), o pesquisador enfatiza que a crise financeira iniciada em 2007, como as demais crises do capital, “será resolvida nos marcos do capitalismo”. Em outras palavras, esclarece, “tudo caminha para que a valorização da riqueza privada continue subordinando as atividades econômicas”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line,Palludeto discorre sobre duas correntes teóricas do marxismo contemporâneo e explica como elas interpretam as turbulências do mercado financeiro. “De um lado, encontram-se aqueles que atribuem a crise à dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, ao que ficou tradicionalmente conhecido na literatura especializada como neoliberalismo. De outro, há aqueles que creditam a crise à dinâmica do sistema capitalista em geral – e não de uma etapa específica de seu desenvolvimento”, assinala. 
Em sua avaliação, as duas correntes teóricas apontam aspectos relevantes para a compreensão do capitalismo contemporâneo e da crise atual. Entretanto, enfatiza, “o declínio da taxa de lucro é a hipótese que mais se adequa aos fatos. Da mesma forma, não me parece que a crise recente seja resultado da dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, isto é, do neoliberalismo”. 
Alex Wilhans Antonio Palludeto é graduado em Ciências Econômicas pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, e mestre em Economia pela mesma instituição. Atualmente é doutorando em Teoria Econômica. 
Confira a entrevista. 
IHU On-Line – Quais são hoje as correntes teóricas mais importantes do marxismo contemporâneo e como elas interpretam a causa e as consequências da crise financeira atual? 


Alex Wilhans Antonio Palludeto 


Alex Wilhans Antonio Palludeto – Parece-me possível identificar a existência de duas amplas abordagens entre os estudiosos marxistas que se dedicam ao exame da crise recente.
De um lado, encontram-se aqueles que atribuem a crise à dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, ao que ficou tradicionalmente conhecido na literatura especializada como neoliberalismo. De outro, há aqueles que creditam a crise à dinâmica do sistema capitalista em geral – e não de uma etapa específica de seu desenvolvimento.
De acordo com o primeiro grupo, as décadas de 1970-1980 marcam o início de um novo estágio da economia capitalista mundial, o neoliberalismo, e são os elementos constitutivos desta fase que conduziram à Grande Recessão. Entre os autores que adotam essa perspectiva, Gérard Dúmenil, Dominique Lévy, Alfredo Saad-Filho,David Kotz, John Foster, Fred Magdoff e David Harvey podem ser considerados alguns de seus principais representantes. Conforme procurei demonstrar em meu trabalho, os estudos que compõem essa vertente argumentam que as últimas décadas assistiram ao fortalecimento da classe capitalista, particularmente aquela fração que se dedica às atividades financeiras cujo poder foi supostamente restringido durante o imediato pós-guerra. Como resultado dessamudança da relação de poder entre as classes capitalista e trabalhadora, forjou-se um arranjo institucional que provocou um aumento na desigualdade de renda, a elevação da taxa de lucro e a exacerbação da especulação financeira e do endividamento – sobretudo da classe trabalhadora, pressionada pela estagnação dos salários nas últimas décadas. A crise tem origem nesse arranjo, na estrutura institucional neoliberal que, ao combinar uma maior desigualdade de renda a um setor financeiro desregulado, propenso a atividades de maiores riscos, levou a economia a uma trajetória financeiramente insustentável.
O segundo grupo, por sua vez, para o qual a crise é uma manifestação do modo de funcionamento geral do capitalismo, aponta para os movimentos da taxa de lucro e a acumulação de capital como fatores determinantes da Grande Recessão. Entre seus principais expoentes cabe citar Andrew Kliman, Alan Freeman, Guglielmo Carchedi,Nick Potts, Chris Harman, Robert Brenner e Anwar Shaikh. A tese básica, ao contrário da abordagem anterior, é de que a crise atual decorre de uma queda da taxa de lucro – que para muitos, por sua vez, é fruto da substituição de trabalhadores por máquinas. Para esses autores, o declínio da taxa de lucro inibiu o investimento e estimulou as aplicações financeiras, uma vez que a combinação de liquidez e rentabilidade que elas ofereciam tornou-se, então, bastante atraente aos olhos dos detentores da riqueza. A especulação e o subsequente colapso da pirâmide financeira que se erigiu no período foram, assim, apenas os passos seguintes em direção à crise.
Discordância teórica 
A implicação dessa discordância teórica me parece bastante evidente. Os primeiros, ao conceberem a Grande Recessão como resultado da dinâmica de uma etapa específica do capitalismo, sugerem a possibilidade de que uma estrutura institucional diversa poderia evitar ou mitigar a crise. Vale dizer que uma reforma adequada permitiria um capitalismo mais estável e, em certa medida, imune à crise. Os segundos, por sua vez, ao estabelecerem como causa última da Grande Recessão o que consideram ser uma tendência imanente ao sistema capitalista em geral – a tendência à queda da taxa de lucro – são levados a argumentar pela inevitabilidade da crise.
IHU On-Line – Após estudar duas correntes marxistas que atribuem causas diferenciadas para a crise financeira, qual delas explica melhor o momento atual que as principais economias do mundo estão enfrentando?

Alex Wilhans Antonio Palludeto 
Alex Wilhans Antonio Palludeto – Creio que as duas vertentes teóricas que procurei delinear apontam aspectos relevantes para a compreensão do capitalismo contemporâneo e da crise recente. Com efeito, não é possível negar que a estrutura de classes, a distribuição da renda e a configuração atual do setor financeiro são importantes para a dinâmica econômica atual. Da mesma forma, os movimentos da taxa de lucro e da acumulação de capital não podem ser deixados de lado em qualquer análise que se pretenda séria.
Se me for permitido destacar apenas um fator, no entanto, o declínio da taxa de lucro é, a meu ver, a hipótese que mais se adequa aos fatos. Da mesma forma, não me parece que a crise recente seja resultado da dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, isto é, do neoliberalismo – ao menos não nos termos em que os autores que analisei utilizam o conceito.
Na verdade, a Grande Recessão é uma típica crise capitalista, manifestação da própria natureza do modo capitalista de organização da produção. Os argumentos do segundo agrupamento acima mencionado e as ilustrações empíricas que os sustentam me parecem, assim, mais convincentes para o estudo do momento atual. Esta crise, como qualquer crise tipicamente capitalista, é fruto, em última instância, da incapacidade da riqueza privada de se valorizar a um ritmo considerado satisfatório pelos capitalistas, e não resultado de um arranjo institucional de corte neoliberal.
IHU On-Line – As contradições que Marx evidenciava no capitalismo do século XIX se apresentam nos dias de hoje? Como?

Alex Wilhans Antonio Palludeto 
Alex Wilhans Antonio Palludeto – Certamente. Embora tenha escrito em um contexto histórico muito particular, no qual o capitalismo ainda se restringia a determinadas porções do globo – e, mesmo nelas, sua operação se limitava a certas frações da reprodução material da sociedade –, Marx foi capaz de desvendar alguns traços constitutivos desse sistema. A mercantilização crescente da sociedade, o lucro como raison d’être da produção e o conflito entre capital e trabalho são algumas das características do capitalismo identificadas por Marx ainda mais visíveis no mundo atual. O arcabouço político-institucional que dá forma concreta a esses elementos é, naturalmente, diverso daquele da segunda metade do século XIX. Apenas para mencionar algumas dessas mudanças, em contraste com aquele período: o Estado tem uma importante participação na economia como regulador e/ou provedor direto de bens e serviços; a sociedade por ações se tornou uma das principais formas de organização empresarial e, com ela, a bolsa de valores converteu-se no palco privilegiado da concorrência intercapitalista; os sindicatos, ainda que enfraquecidos nos últimos anos, são mais numerosos e atuantes; as firmas se tornaram maiores e o oligopólio comum na maior parte das atividades econômicas. Enfim, de lá para cá, ocorreram inúmeras transformações, mas os aspectos básicos do sistema capitalista, suas contradições fundamentais, não se alteraram – ainda que a forma pela qual elas se manifestam certamente se modificou. Assim, enquanto o capitalismo houver, Marx será uma referência importante para a análise da economia.
IHU On-Line – Você concorda que o capitalismo está chegando ao fim, ou esta é apenas mais uma de suas crises? A partir das teorias de Marx, quais os rumos que podemos imaginar para o mundo capitalista, a partir da crise financeira internacional?

Alex Wilhans Antonio Palludeto 
Alex Wilhans Antonio Palludeto – Observando a conjuntura atual, parece difícil acreditar que o sistema capitalista está para acabar. Esta crise, como tantas outras, será “resolvida” nos marcos do capitalismo. Em outras palavras, tudo caminha para que a valorização da riqueza privada continue subordinando as atividades econômicas.
Tentar predizer o que, de fato, ocorrerá é, ao mesmo tempo, tentador e perigoso. Ademais, a experiência demonstra que, pelo menos em relação à economia, tal tarefa geralmente está fadada ao fracasso. No entanto, acho possível que, com cautela, se possam identificar alguns possíveis desdobramentos gerais da crise recente a partir da teoria marxista. Em primeiro lugar, a concentração do mercado deverá aumentar sobremaneira, estimulada pela onda de fusões e aquisições que a crise enseja. De certo modo, esse processo já teve início. Particularmente no setor financeiro norte-americano, as instituições sobreviv entes aproveitaram a oportunidade para adquirir aquelas à beira da bancarrota e, assim, fortalecer suas próprias posições. Em segundo lugar, uma vez que os Estados têm atuado na tentativa de conter os prejuízos do setor privado e evitar que as falências se multipliquem – socializando as perdas –, é bastante provável que as economias dos países centrais passem por um longo período de estagnação. Ao se impedir que empresas quebrem, evita-se que um dos principais mecanismos “autorreguladores” do capitalismo identificado por Marx opere: a desvalorização do capital.
Com a crise, empresas são fechadas, o capital se desvaloriza, a taxa de lucro se recupera para os capitalistas que restaram e, portanto, se cria um novo ambiente propício ao crescimento. Cabe destacar que esse não é um processo harmonioso ou equilibrado, mas, enfim, permite que se inicie um novo ciclo econômico ascendente. Contudo, na crise atual, ao se evitar que o capital se desvalorize em maior volume, o processo de “restauração” ao qual fiz menção é interrompido e a estagnação se torna o caminho mais provável. Por fim, também é possível que a classe trabalhadora seja ainda mais prejudicada. Com a elevação das taxas de desemprego em virtude da crise – e da estagnação que se espera ocorrer –, cria-se um novo contingente de mão de obra disponível, fato que pressiona os salários para baixo.
IHU On-Line – A crise do capitalismo também representa a crise da esquerda?

Alex Wilhans Antonio Palludeto 
Alex Wilhans Antonio Palludeto – Não. A crise atual, na verdade, revela a crise da esquerda, mas não é sua causa. Desde as décadas de 1970-1980, os pensadores e ativistas de esquerda vêm perdendo terreno em todas as frentes: na academia, na cultura, na política, etc. O desmantelamento do bloco soviético e a consolidação do capitalismo em nível mundial na passagem para os anos 1990 reforçaram ainda mais esse movimento generalizado de perda de influência. Com o aparente triunfo do sistema capitalista, restou pouco espaço para aqueles que defendiam sistemas socioeconômicos alternativos. A difusão da ideia de que, com o capitalismo e a democracia liberal, o “fim da história” havia chegado à humanidade (veja-se o livro de 1992 de Fukuyama: The end of history and the last man) é sintomático do enorme enfraquecimento da esquerda nas últimas décadas.
Desestruturação da esquerda
A crise recente põe em evidência esse processo de longa data. A falta de organização dos movimentos de contestação do regime atual, a ausência da definição de objetivos claros e as propostas de transformações socioeconômicas consistentes nos dias de hoje apenas revelam a desestruturação pela qual passou a esquerda. O melhor exemplo disso são, a meu ver, as diversas manifestações recentes inspiradas nos movimentos Occupy Wall Street, dos Estados Unidos, e 15M, da Espanha. A despeito da mobilização inicial de milhares de pessoas, a falta de uma organização que fosse capaz de direcionar o movimento, estabelecer reivindicações claras e, assim, torná-lo efetivo na implementação de mudanças na sociedade – aliado, naturalmente, à forte repressão empreendida por aqueles com compõem o status quo – fez com que em poucos meses as manifestações perdessem fôlego.
Uma crise profunda como a que estamos presenciando sempre abre as portas para que transformações radicais ocorram. Ao demonstrar as fragilidades do sistema atual e possibilitar a união e o consequente fortalecimento daqueles que verdadeiramente sofrem com a crise – e, a classe trabalhadora –, a Grande Recessão se apresentou como uma dessas oportunidades históricas de mudança. No entanto, para aproveitá-la a esquerda precisaria de muito mais vigor do que atualmente apresenta.
IHU On-Line – Por que a economia é uma ciência que, de modo geral, desconsidera as questões sociais?

Alex Wilhans Antonio Palludeto 
Alex Wilhans Antonio Palludeto – Não creio que a economia, como ciência, seja particularmente alheia a considerações de ordem social. A impressão que tenho é de que aquilo que ocorreu com ela aconteceu também à ciência política, à sociologia e todas as demais ciências humanas – e naturais. Nos últimos 150 anos, a produção do conhecimento, nos seus mais variados ramos, atravessou um processo de compartimentalização. O trânsito entre as ciências, e até mesmo entre áreas particulares de uma mesma ciência, tornou-se cada vez menos comum. A economia não foi poupada desse movimento. É verdade que esse modo de “fazer ciência” permitiu avanços importantes na nossa compreensão do mundo; no entanto, a ausência de uma visão de conjunto, a incapacidade de pensar o objeto como um todo, trouxe também, a meu ver, diversos prejuízos – sobretudo para as ciências humanas, nas quais o recorte da realidade que se pretende analisar sempre é, de certo modo, arbitrário. 
Acredito que esse seja o principal fator que explique a crescente falta de comunicação e intercâmbio entre economistas, sociólogos, cientistas políticos, antropólogos... No caso da economia, a especialização certamente trouxe benefícios, mas parece-me cada dia mais necessário um programa de pesquisa interdisciplinar, de forma a impedir a fragmentação do conhecimento e, em última instância, o próprio esvaziamento do significado daquilo que chamamos de Ciência Econômica. É preciso relembrar aos economistas que por trás dos números e modelos há relações humanas, sociais, que transcendem a esfera propriamente econômica.
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  • Fonte: http://www.ihu.unisinos.br