terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Por Uma Geografia Nova - Resenha

Por Uma Geografia Nova. Milton Santos, Ed. Hucitec, São Paulo, 1996, 4ª edição.


O professor Doutor em geografia Milton Almeida dos Santos analisa, em sua obra Por Uma Geografia Nova – da crítica da Geografia a uma Geografia Crítica, o momento de crise por que passa a ciência geográfica, através do raciocínio epistemológico crítico que redunda, como síntese, numa proposta de nova visão sobre como pensar e como fazer geografia. Esta obra, em sua primeira edição, publicada em 1978 pela Hucitec-Edusp, constitui-se num clássico dentro da ciência, continuando atual em nossos dias.
Milton Santos trabalha com categorias geográficas, e seu processo consiste na análise, reflexão, síntese e crítica sobre os temas ou objetos estudados. É, sobretudo, uma análise do espaço que ele realiza, tendo em mente este espaço – o objeto da geografia - como “espaço total” ou “totalidade social”, através das categorias: estrutura, processo, função, forma. Trata, ainda, de diversos temas dentro da geografia, distinguindo Filosofia, Epistemologia, Teoria, Prática, Método e Técnica como assuntos que têm “vida própria” em seu pensamento.
A geografia nasceu no final do século XIX, comprometida com a ideologia imperialista dominante na época. Era ciência e filosofia que teorizava e justificava o colonialismo, com novas conquistas territoriais (políticas e econômicas).
Esta Geografia Clássica, nascida com os primeiros geógrafos modernos importantes – como Ritter, Humboldt, Brun -, e seguida pelos “fundadores” da ciência geográfica – La Blache, Ratzel, Brunhes -, tinha em comum o fato de todos os seus grandes nomes serem “principistas”, isto é, procuravam princípios gerais que dessem cientificidade à geografia, como ponto de partida de seus trabalhos.
Foram influenciados por grandes pensadores como Kant (Construtivismo), Descartes (Racionalismo), Comte (Positivismo), Darwin (Evolucionismo), Spencer (Organicismo), Newton (Mecanicismo), Hegel (Idealismo), Marx (Materialismo Histórico), entre outros. Por exemplo, Hegel, com sua dialética idealista, influenciou o trabalho de Ritter e Ratzel (“Escola Alemã”), enquanto Marx, com sua Dialética baseada no Materialismo Histórico, influenciou também Ratzel, La Blache e Jean Brunhes (“Escolas Alemã e Francesa”).
Carl O. Sauer, geógrafo norte-americano, adepto da Geografia Cultural (1931), dizia ter a geografia se separado em dois ramos: Geografia Humana e Geografia Cultural. A primeira, interessada nas inter-relações homem x meio; a segunda, interessada especificamente nos elementos da cultura material que caracterizam as diversas (e distintas) áreas. Paul Vidal de La Blache, francês, trabalhava com os conceitos de gêneros de vida e região (1894, 1911), que, para Milton Santos, era uma Geografia Regional dualista e reducionista. Griffith Taylor, Ellen C. Semple, e E. Huntington foram geógrafos que trabalharam com conceitos deturpados de Ratzel, criando o Determinismo geográfico (primórdios do século XX).
P. W. Brian (1933), criou a noção de “área cultural”, aproximando-se dos conceitos possibilistas da Geografia Regional (isto era mais comum na Europa). Nos Estados Unidos, Maximilien Sorre (1921, 1955) e o grupo de Chicago trabalhavam com a Ecologia Urbana, que nada mais era que uma Geografia Regional vestida à americana, segundo Milton Santos. Mas estas linhas de trabalho tinham influência e seguidores nos dois lados do Atlântico Norte. Dickinson e Gourou (1969, 1973) trabalhavam com a noção de civilização, onde o conceito lablacheano de “gênero de vida” se perpetuava, com o acréscimo do componente tecnocultural, mascarando a influência do aspecto econômico (modo de produção) no cotidiano e na técnica local.
A Geografia Regional tratava o espaço como abstrato e absoluto, não relacional; a Geografia Geral Clássica tratava o espaço como relativo, através de princípios, não levando em conta a historicização (teoria x epistemologia). A Ecologia Humana (Urbana) separava o homem da natureza, pois se utilizava da natureza “primária”, e não da natureza “socializada”. A Geografia Cultural (Regional) isolava os locais e definia as construções humanas como resultados diretos da cultura de seus habitantes. Hoje, ambas estão superadas! Com isto, a Geografia Clássica, de seu nascedouro aos meados do século XX, com o Determinismo geográfico, o Possibilismo (Região, Gênero de vida) e as “áreas culturais”, ofereceu-nos noções “positivistas” da realidade, pois eram mecanicistas, causais e análogas às ciências naturais.
Milton Santos critica o regionalismo geográfico, pois entende o mundo como um sistema único, com partes interdependentes (e isto se acentua com o avanço da tecnologia e da ciência). Porém, defende o localismo cultural, pois os cotidianos (modos de vida) locais não deveriam sucumbir àqueles impostos “de fora”, através do poder do capital, que tira a solidariedade das pessoas.
A Nova Geografia (“New Geography”), surgida após a Segunda Guerra Mundial, foi fruto das novas tecnologias (como a automação), das novas necessidades (e dos novos usos) criados com a guerra. De certa forma, mesmo o objeto geográfico mudou, pois as tradicionais “Escolas Nacionais” que geravam pensamentos globais e individualizados cederam lugar à difusão de estudos “locacionais” (pelo poder econômico e político anglo-saxão, principalmente), cujo método era objetivo, com o uso da Matemática, Informática, Probabilidade. “... Isso dotou a pesquisa de meios que... deviam permitir uma definição mais exata das realidades, ensejando chegar assim à postulação de leis cuja pertinência pode, todavia, ser discutida”. (Milton Santos).
Milton Santos critica o “coisificismo” (empiricismo) e o ideologismo a que se submeteu a geografia, transformada pelo paradigma quantitativista; paradigma este que, aliás, é contestado como “paradigma” por ele, pois o considera apenas como um novo método de pesquisa, uma “matematização da paisagem”: “o grande equívoco da chamada ‘geografia quantitativa’ foi o de considerar como um domínio teórico o que era apenas um método e, além do mais, um método discutível. Critica a linearidade, ou seja, a lei de causa-efeito (ou a lei newtoniana-mecanicista de ação-reação), com que os temas geográficos são abordados. “... As classificações com as quais se pretende aprisionar toda a realidade.” (Maximilien Sorre).
A análise de sistemas leva à elaboração de modelos da realidade. E os fatores significativos? “Pode ocorrer que a quantificação de uma situação não seja representativa de seus aspectos mais importantes.” (Peter Bauer). “... O método só é apreciável quando o economista é capaz de fornecer, antes de tudo, uma análise correta e completa dos fatores significativos.” (John M. Keynes). Em suma, “é preciso refletir para medir e não medir para refletir.” (Gaston Bachelard).
A geografia foi utilizada para o planejamento, sendo, portanto, utilitarista. Isto excluiu o movimento social do processo de realização dessa ciência. A Nova Geografia acabou “...despersonalizando o homo sapiens, substituindo-o pelo homo economicus, que é nada mais que uma média: e o homem médio não existe. A chamada ‘nova geografia’ também excluiu o movimento social e dessa forma eliminou de suas preocupações o espaço das sociedades em movimento permanente. A geografia tornou-se viúva do espaço. (...) Então, o espaço geográfico é estudado como se ele não fosse o resultado de um processo onde o homem, a produção e o tempo exercem o papel essencial.”
Quanto aos modelos e aos sistemas, Milton Santos ressalta a importância do fator histórico na análise correta dos “fatos”, pois a simples análise de sistemas e a modelização/quantificação de fatos geográficos não levam em conta as condições precisas de tempo e espaço nas quais as variáveis sistêmicas combinam-se entre si. Diz ele, ainda, que a modelização permite a prospecção (previsão) de situações futuras, e foi utilizada largamente pela planificação, engajada à geografia. Porém, ela desconsidera o tempo, sendo uma sucessão de estágios “prontos” e matematizados (resultados), e não mostra ou analisa os processos de formação da paisagem, ou seja, ignora a dinâmica do espaço.
A Geografia da Percepção e do Comportamento também é analisada (e criticada), pois não leva em conta as ideologias individuais das pessoas e dos pesquisadores (sujeito/objeto/pesquisador); e, ainda, não é correto que a simples soma das partes (individualidades) de um sistema social forme a esta totalidade social. A análise psicológica é refutada por Milton Santos como um método único de pesquisa da realidade social.
Por fim, aborda o triunfo do formalismo (lógica formal) e da ideologia, mostrando o comodismo de toda ordem que foi (e é) praticado pelos cientistas em geral e pelas pessoas. Muitos geógrafos mantiveram-se (e mantém-se) no ecletismo teórico e metodológico, fruto mesmo da crise dos paradigmas e dos diferentes caminhos a seguir na ciência geográfica. “O império da ideologia capitalista que leva a esquecer que a organização do espaço em uma determinada formação social tem uma relação direta com a estrutura de classes presente nessa formação social e com as suas conexões externas.” (David Slater).
Através desta análise e síntese da evolução do pensamento geográfico, Milton Santos vem propor uma geografia nova, preocupada sobretudo com o bem-estar do homem; uma ciência que seja atuante em prol da restauração da dignidade humana, através da construção de um espaço mais humanizado. É, por isso, considerado como um dos fundadores da Geografia Crítica, paradigma vigente desde os anos setenta e produtor de profundas reflexões na ciência geográfica, tentado transformar a realidade cotidiana no mundo capitalista.

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